Mulheres se beijando durante evento LGBT no Chile, sob uma bandeira do arco-íris

Grupo de ativistas promeve “beijaço pelo papa” durante visita de Francisco ao Chile

Protestos no país também condenam a conivência da igreja Católica a abusos sexuais cometidos por padres no país

por Marcio Caparica

O papa Francisco está fazendo mais uma viagem à América Latina. O pontífice chegou ontem no Chile, onde permanece até a quinta-feira, quando segue para o Peru, antes de retornar a Roma no dia 21. Sua visita a seu continente natal, no entanto, está marcada pelas ações de grupos LGBT chilenos, que estão organizando ações para tentar sensibilizar o líder da igreja Católica quanto ao descompasso entre suas doutrinas e a vida de seus fiéis.

Segundo informa o jornal El País, um grupo de jovens LGBTs chilenos, liderado pelo comediante gay Francesc Morales, está convocando um “Beijaço pelo Papa” para hoje, às 10:30h da manhã no horário local, na tentativa de combater o conflito entre os ensinamentos da igreja Católica e a vida LGBT. O evento no Facebook já conta com mais de 2,7 mil confirmados. A manifestação vai acontecer no parque O’Higgins, perto de onde Jorge Mario Bergoglio vai celebrar uma missa.

“Apesar do desprezo da Igreja, eu continuo a crer nela”, afirma um jovem transgênero no vídeo que explica o ato. Outros manifestantes expandem a mensagem: “Não é porque sou gay que não posso crer em Deus. O fato de não poder me casar não significa que não terei um parceiro para toda vida. Por que homossexuais são expulsos da igreja quando saem do armário? Por que os temas de diversidade sexual na Bíblia são interpretados de forma literal, mas outros pecados não são? Se a minha família me aceita como sou, por que a igreja não faz o mesmo? Não quero mudar minhas crenças, e não posso mudar o que sou. O papa Francisco pode estar a favor da diversidade, mas necessitamos de uma mudança maior. Há pessoas que utilizam sua interpretação da Bíblia para encorajar o ódio. Não importa se você é religioso o não, isto afeta a todos.”

O casamento homoafetivo ainda não é legalizado no Chile. Em agosto de 2017 a presidenta Michelle Bachelet apresentou um projeto de lei que estenderia os direitos de matrimônio e de adoção para casais homoafetivos. A Fundación Iguales, um grupo de ativistas, aproveitou a visita de Francisco para lembrar que atualmente 66% da população desse país extremamente católico  apoiam o casamento igualitário.

Os ativistas também criticam o presidente da Câmara dos Deputados do Chile, Fidel Espinoza, por ter adiado uma votação sobre uma lei sobre direitos de pessoas transgênero que iria hoje ao plenário. Já aprovado pela comissão de Direitos Humanos, o projeto de lei permitiria que chilenos transexuais com mais de 18 anos alterassem seu nome e seu gênero em seus documentos sem a necessidade de cirurgias nem de ordens judiciais.

O papa chega no Chile ao meio de um escândalo nacional. Em 2010 várias pessoas vieram a público com acusações de abuso sexual perpetradas reverendo Fernando Karadima na paróquia Sagrado Corazón de Jesús, um bairro de classe média alta na capital do Chile. As lideranças católicas já haviam recebido denúncias quanto ao comportamento de Karadima anteriormente, mas ignoraram as acusações. Em 2011 Karadima foi repreendido pelo Vaticano, que o removeu dos deveres pastorais e o condenou a passar o resto da vida em penitência em oração por seus crimes. Os procuradores chilenos chegaram a investigar o padre, mas tiveram que deixar seus esforços de lado porque os crimes já haviam prescrevido – se bem que o juiz responsável pelo caso fez questão de frisar que o que não faltavam eram provas de seus crimes.

Juan Carlos Cruz, gay que hoje mora nos EUA, em 2013, foi uma das vítimas de Karadima. Em 2013, ele acusou o cardeal Ricardo Ezzati, arcebispo de Santiago, e seu antecessor, cardeal Francisco Javier Errázuriz, de haverem acobertado os abusos sexuais cometidos pelo padre. Em 2015 o jornal chileno El Mostrador publicou e-mails trocados entre Ezzati e Errázuriz em que os dois discutiam seus esforços para impedir que Cruz fosse nomeado para uma comissão para investigar abusos sexuais criada pelo papa.

Cruz afirmou ao site Washington Blade que ele e outras vítimas de abusos sexuais cometidos pelo clero chileno tentaram organizar um encontro com o papa Francisco, mas tiveram seus pedidos negados. “Francisco prefere escutar a seus bispos que dar ouvidos aos sobreviventes”, declarou. “Ele fala muito mas faz bem pouco. No Chile há muitos bispos que acobertam abusos, e o papa não faz nada. Estamos cansados disso. Precisamos de atitudes.”

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