Presépio sensualizante causa polêmica no Vaticano

Homem nu presente na obra representa uma das obras corporais de misericórdia recomendadas pelo papa Francisco

por Marcio Caparica

Depois de duas semanas de exibição pública, o presépio instalado este ano na praça São Pedro, no Vaticano, está ganhando a atenção dos internautas ao redor do mundo por causa das figuras incomuns que apresenta – principalmente pela figura de um homem nu, considerada por muitos como “homoerótica demais”.

Composta de 20 estátuas de, em média, 2 metros, a obra foi criada pelo artista Antonio Cantone e doada por monges beneditinos da abadia de Monte Vergine, no sul da Itália. Ocupando cerca de 80 metros quadrados, as figuras que acompanham as tradicionais imagens de Maria, José e Jesus representam as sete Obras de Misericórdia corporais recomendadas pelo papa Francisco:

  1. Dar de comer a que tem fome
  2. Dar de beber a quem tem sede
  3. Dar pousada aos peregrinos
  4. Vestir os nus
  5. Visitar os enfermos
  6. Visitar os presos
  7. Enterrar os mortos

A peça que especificamente representa “vestir os nus” é a que tem gerado mais furor: muitos consideram que o homem nu em questão é musculoso e sensual demais, além de encontrar-se numa pose provocante enquanto recebe alguns tecidos de um outro homem com roupas espalhafatosas. Mas outros conjuntos também parecem esquisitos para os tradicionalistas:

a cabeça de um homem condenado emerge de dentro de uma cela minúscula; um cadáver com um braço pendurado deitado sobre uma espécie de lixo colocado perto de uma pequena caverna que se assemelha a um forno de pedra; o Arcanjo Gabriel com uma guirlanda de flores de arco-íris; a cúpula de São Pedro, semidestruída; a estrela do cometa apontando para baixo como se estivesse caindo.

Inaugurado no dia 7 de dezembro, o presépio permanecerá em praça pública até dia 7 de janeiro. “Este é um presépio especial, já que foi meditado e estudado de acordo com os ditames e a doutrina do Papa Francisco”, afirmou Cantone. “É um presépio que nos faz refletir, há provocações, há algumas cenas especiais (…) É um trabalho rico em espiritualidade e significado religioso.”

O que não falta, no entanto, é gente CHOCADA EM CRISTO de que o presépio do Vaticano foi além das ovelhinhas e reis magos pasteurizados que aparecem em qualquer shopping. “Um presépio deveria exibir o nascimento de Jesus e nada mais”, diz um; “Se esse é mesmo o presépio do Vaticano, eu tinha razão e esse papa é o anticristo”, diz outro. Logo mais os vendilhões brasileiros da polêmica internética também vão descobrir esse presépio e vão espalhar todo seu espanto, enquanto continuam a carregar suas compras de final de ano sem auxiliar o próximo.

Michelangelo provavelmente está se revirando no túmulo com toda a polêmica que um corpinho seminu está provocando na blogosfera conservadora – bons os tempos em que algo feito à imagem e semelhança do criador não era o suficiente para que se questionasse a espiritualidade de uma obra. Muitos preferem que o Natal não lembre nem da situação precária em que Cristo nasceu, nem dos sofrimentos que ele combateu durante toda sua vida. Eu prefiro acreditar que, ao exibir esse presépio no Vaticano, o papa Francisco está tentando provocar algumas reflexões mais profundas em seus seguidores – talvez, a primeira entre elas, considerar as prioridades de seus escândalos.

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