Lea T: “Ainda recebo ‘nãos’ por ser trans e negra”

Durante sua passagem por São Paulo para o evento Absolut Art Resistance, a top model falou com o LADO BI sobre sua carreira e sua relevância para a comunidade LGBT

por Marcio Caparica

fotos: Luiz Fernando Sontachi – I Hate Flash

LGBTs sempre usaram as artes para mandar seu recado e resistir aos preconceitos contra a diversidade. Se isso já era verdade nos tempos de Michelângelo, hoje essa mensagem é mais verdadeira do que nunca. E, em momentos como o atual, quando o conservadorismo tenta abafar nossas conquistas, é lindo ver artistas LGBT erguerem suas vozes em resistência – e ganharem plataformas cada vez maiores para fazê-lo. Um exemplo disso aconteceu ontem na festa da Absolut Art Resistance, um evento criado pela famosa marca de bebidas para demonstrar seu apoio às manifestações artísticas que promovem mudanças progressistas em nossa cultura. A festa contou com convidados de talento como Linn da Quebrada, As Bahias e a Cozinha Mineira, e Lea T.

Desde que despontou no mundo da moda em 2010, Lea T abre caminhos para as pessoas transgênero no exterior e no Brasil. Em 2015, foi apontada pela revista Forbes como uma das 12 mulheres que mudou a moda italiana. No ano seguinte, tornou-se a primeira pessoa transgênero a levar a bandeira de seu país na abertura dos Jogos Olímpicos, quando avançou à frente dos atletas brasileiros no Rio. Durante sua passagem em SP para o Art Resistance, a modelo e estilista respondeu às perguntas do LADO BI sobre sua trajetória e sua importância para o movimento LGBT. Confira.

Lea T, durante o Absolute Art Resistance, ao lado de Linn da Quebrada, Raquel Virgínia, Assucena Assucena e Jup do Bairro.

Lea T, durante o Absolute Art Resistance, ao lado de Linn da Quebrada, Raquel Virgínia, Assucena Assucena e Jup do Bairro.

LADO BI Como sua identidade de gênero influencia seu trabalho artístico como estilista?

Lea T Eu acredito que a criatividade nao tem gênero, ela não é ligada a esses aspectos. Eu acredito que ela esteja fora de todos os padrões.

Qual é a principal mudança que você sentiu na maneira como é tratada desde que iniciou sua carreira de modelo em 2010? 

As pessoas hoje estão mais informadas, têm um conhecimento maior, são mais sensíveis e sabem se relacionar melhor comigo. Muitas pessoas eram indelicadas, sem querer, por falta de conhecimento mesmo.

Você acha que ser uma mulher trans deixou de ser um empecilho para se tornar um diferencial na sua carreira?

Não. Mesmo com o currículo que tenho ainda recebo “nãos” pelo fato de ser trans, pelo fato de ser negra. Ainda me são negados diversos trabalhos que uma outra modelo com o meu book faria.

Você acha que, assim como acontece com tantos artistas brasileiros, foi necessário que você fizesse sucesso no exterior para conseguir reconhecimento aqui no Brasil?

Absolutamente sim.

Por que homens trans ainda não conseguem visibilidade da maneira como as mulheres trans estão, aos poucos, conquistando?

Boa pergunta. Não sei respondê-la.

Como seu exemplo ajuda outras pessoas trans que vivem longe do mundo da moda, no interior e nas periferias do Brasil?

Mais do que o meu trabalho, acho que o exemplo dos meus pais pode ter ajudado a levar mais informação sobre o assunto à familias brasileiras.

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3 comentários

João Fala a Verdade

Nãos ela vai ouvir a vida toda, ela não é diferente de ninguém. O que ela quer é que todos digam sim e abram as portas apenas em razão da orientação sexual dela, o que me aparenta ser algo bastante simplório para conferir sucesso a carreira de qualquer um.

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Humberto

Recber não é coisa normal na vida de cada um. Todos nós temos direitos e devemos sim lutar por eles. Mas não podemos esquecer que a vida é feita de diferenças e por isto temos que aprender a respeita-las. Não adianta nada eu cobrar entendimento, respeito, compreensão, se na hora de eu fazer o mesmo, eu faço como aqueles que eu reclamo.

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