Bug Chaser - Coração Purpurinado, com Ricardo Corrêa

Em “Bug Chaser”, homem que busca infectar-se com HIV expõe a desumanização dos tempos atuais

“A peça também fala do nosso mundo contaminado”, explica Ricardo Corrêa, autor e protagonista desse monólogo que fará refletir homos e héteros

por Marcio Caparica

Uma peça teatral sobre gays que intencionalmente fazem sexo sem proteção e se esforçam para infectar-se com o vírus HIV, rotulados bug chasers. Tinha tudo para dar errado. E, no entanto, Bug Chaser – Coração Purpurinado, monólogo criado e estrelado por Ricardo Corrêa, é um dos melhores espetáculos teatrais atualmente em cartaz em São Paulo.

Assuntos relacionados ao HIV ainda são tabu. O comportamento daqueles que, indo contra a lógica social constituída nas últimas décadas, não se importam em contrair esse vírus – ou até desejam tornarem-se portadores – é discutido de forma sensacionalista (como na famosa reportagem sobre o “clube do carimbo” exibida pelo Fantástico). Em tom alarmista, essas raras reportagens retratam esses homens como degenerados, desumanizando-os de várias formas.

Ricardo Corrêa vai no sentido oposto. Em seu texto, situado num futuro próximo, o protagonista Mark tenta livrar-se de uma quarentena explicando a um analista eletrônico as razões de ter buscado contrair o vírus HIV. Ao longo de uma hora, o espectador torna-se testemunha dos conflitos do personagem com sua sexualidade, observa sua busca por amor e sofre com sua busca por pertencimento. A plateia é forçada a ver como costuma desumanizar os bug chasers em particular, os gays, a comunidade LGBT e, no limite, todos aqueles que não se enquadram no que a sociedade considera “correto”. Ao mesmo tempo, percebe como várias vezes esses próprios indivíduos são os primeiros a desumanizar a si mesmos.

Além da jornada dramática da personagem, o excelente texto de Corrêa levanta questões morais e de direitos humanos. Por que héteros quando fazem sexo sem proteção “fazem amor” e gays, quando fazem o mesmo, fazem “sexo bareback”? Por que ainda hoje o impulso de muitos é colocar em quarentena quem é afetado por uma doença incurável quando os doentes são parte de uma minoria? Ao mesmo tempo que apresenta ao público o vocabulário e estratégias dos bug chasers, a peça abre uma janela para que se observe a vida íntima da comunidade LGBT – muitas vezes marcada por homofobia externa e internalizada, vulnerabilidade social e afetiva profundas, e uma profunda solidão. Indivíduos LGBT sem dúvida várias vezes vão se reconhecer no espetáculo. Pessoas cis e heterossexuais, quem sabe, vão criar maior empatia com a comunidade LGBT por meio desse retrato tão sincero.

O LADO BI entrevistou o ator e autor de Bug Chaser, Ricardo Corrêa, por e-mail. Confira a seguir.

LADO BI Nas poucas vezes em que o tema dos bug chasers é abordado pela mídia brasileira, o tom é sensacionalista e alarmista. Por que você decidiu se dedicar a esse assunto?

RICARDO CORRÊA A mídia põe um recorte que só mostra um lado: geralmente aquilo que dá audiência, contribuindo assim para a manutenção de mais preconceito. Vivemos sob vários estigmas sociais. Eu pretendia olhar para esse assunto com questionamentos que vão além do julgamento. Esse tema tem muitas camadas, me parece ser função da arte alargar o discurso. Eu queria falar de uma subcultura sobre o qual não se fala: há um silêncio a seu respeito até mesmo dentro da comunidade LGBT. Foi essa a razão de eu tê-la focado na criação da peça.

Como foi a pesquisa para a escrita desse texto?

Foram muitos meses pesquisando materiais que só encontrei no exterior. Esse termo bug chaser não é muito conhecido aqui. Também colhi muitos depoimentos, conversei com pessoas praticantes de bareback, entrei em grupos na internet e fiz um chamamento público para falar do assunto. Muitos caras toparam de imediato, mas na hora da entrevista desistiram. Outros sequer apareceram. Mas também consegui conversar com pessoas incríveis e esclarecidas. A tridimensionalidade daqueles homens trouxe muitas texturas e cores para o texto. Depois desse contato real muita coisa mudou no meu processo de escrita, que é muito solitário.

Como você decidiu o que entraria ou não no texto final?

Fiz muitas versões da peça. Ela também foi se transformando dia a dia, ao longo do processo de ensaios. Fizemos leituras públicas do texto, ouvimos a opinião de muita gente, atores, dramaturgos, diretores de teatro, professores universitários especialistas em teoria queer, ativistas gays soropositivos, até chegar numa versão final que contemplasse um possível caminho para a encenação. O material colhido nas entrevistas resultou em um curta-documentário chamado No sigilo, que também está disponibilizado no canal da Cia Artera de Teatro no Youtube.

Quais são as reações do público ao espetáculo, e como essas reações diferem entre gays, outros LGBTs e heterossexuais?

As palavras “polêmica” e “forte” acompanham muito. Muitas pessoas ficam mexidas, vejo pessoas emocionadas durante as apresentações. Também recebemos muitos comentários pela internet, o retorno é imediato. E não só de gays. A peça também fala do nosso mundo contaminado. Acho que é difícil não se identificar com um homem em trânsito, buscando pertencimento, o amor. Acho que, independente da sexualidade, as pessoas se identificam com a peça.

Qual a razão de situar a história num futuro próximo?  Isso não poderia causar um distanciamento entre o público e a temática?

O futuro não distancia porque sempre estamos falando das contradições do homem pelo viés do afeto. A peça vislumbra revelar o homossexual através de seus encontros consigo mesmo e com as figuras fundamentais de seus atravessamentos. A cronologia não é uma escolha aleatória, é fruto de um homem cada vez mais fragmentado. A quarentena da peça significa a de todos os dias, em que os discursos biomédicos colocam o sujeito que pratica bareback como alguém anormal, portador de distúrbios psicológicos ou criminalizadores. Isso acaba porm contribuir para a manutenção de estigmas que há séculos acompanham os indivíduos homossexuais. Quis um lugar ficcional, asséptico, uma espécie de laboratório, um animal em análise, pois vivemos esse lugar da vitrine, da exposição. Um bom exemplo são os aplicativos de relacionamentos. O futuro parecia ser um lugar ideal como eixo dramatúrgico, futuro esse tão próximo do nosso presente, onde a personagem está enclausurada conversando com um programa de computador.

Existe algum fator que une Bug Chaser às outras duas peças que você está levando aos palcos atualmente? Algum tema relacionado a essa peça que você pretende explorar futuramente?

São peças bem diferentes. Não são peças que tem temática gay, são de um autor escocês chamado Davey Anderson, ambas falam de diferenças. Dadesordemquenãoandasó fala da Síndrome de Asperger, uma forma leve de autismo; Scavengers fala de um empresário que decide se reinventar, e em sua trajetória se depara com um bando de sem teto. Usando esse mote, acho que Bug Chaser se une a elas na tentativa de responder à pergunta: quem nos define e qual o olhar que nos revela como diferentes? O projeto artístico que, com certeza, será explorado futuramente é a busca pela construção da identidade gay, temas que geralmente estão relacionados em nossos trabalhos.

Serviço

Bug Chaser – Coração Purpurinado Até 30 de novembro, quartas e quintas, às 21h. Teatro do Núcleo Experimental: Rua Barra Funda, 637. Duração: 60 minutos. Classificação etária: 16 anos. Capacidade: 65 lugares. R$ 40 | www.compreingressos.com.br

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