HQ mostra o sofrimento íntimo das vítimas de terapias de “cura gay”

Mario Cesar revela a dor causada por “picaretas que querem faturar em cima do preconceito, prometendo uma cura de uma doença que sequer existe”

por Marcio Caparica

Ignorância causa sofrimento – e poucas coisas podem comprovar isso melhor que os processos de “cura gay”. No esforço para resolver um problema inexistente e forçar pessoas saudáveis a encaixarem-se nos padrões ditados pela maioria, pais sujeitam seus filhos a tratamentos abusivos. Muitas vezes, já adultos, os próprios homossexuais são compelidos a se deixarem torturar na esperança de corresponderem às expectativas dos outros. Frutos da ignorância de pessoas que não sabem que a homossexualidade não é doença, e, por não ser doença, não há o que ser curado. Na esperança de esclarecer o público quanto aos sofrimentos causados por tratamentos de cura gay, o talentoso quadrinista Mario Cesar está publicando na internet a HQ Bendita Cura, em que faz um retrato íntimo e doloroso dos efeitos dessas terapias na vida de uma família.

Mario Cesar já havia abordado a questão LGBT em Ciranda da solidão, em que desenvolveu histórias queer em diferentes pontos da vida. Em Bendita Cura, o autor mostra que continua afiado. A história acompanha Acácio, um garoto meigo que gosta de brincar com meninas. Numa família em que os papéis de cada gênero são distantes e opostos (algo demonstrado com maestria no uso que o autor faz das cores), o menino torna-se vítima dos insultos do pai. Ao fim do primeiro capítulo, os pais de Acácio decidem aplicar um doloroso processo de “terapia” na esperança de “corrigi-lo”. Difícil não sofrer junto com o garoto. E a história mal começou. Por e-mail, Mario Cesar contou mais sobre sua nova obra e o que podemos esperar de Bendita Cura.

LADO BI Há quanto tempo você está planejando essa história? 

MARIO CESAR Eu tive a ideia pra história em 2013 quando o Marco Feliciano assumiu a Comissão dos Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, e o deputado João Campos (PSDB-GO) tentou aprovar um projeto pra liberar tratamentos de ‘cura gay’. Pesquisando sobre o assunto, vi que tinha um grande potencial para uma boa história em que pudesse abordar homofobia e questões de gênero. Estava trabalhando Bendita Cura tem tempo, mas primeiro precisava terminar o Não existem super-heróis na vida real (Editora Devir), parceria com o amigo escritor Nick Farewell, um projeto que me tomou 4 anos de trabalho. Depois apareceu para desenhar o Púrpura (Sesi-SP Editora), do querido amigo e jornalista Pedro Cirne. Só então pude meter a mão na massa neste quadrinho. Decidi publicar on-line agora quando o assunto voltou à tona com a decisão arbitrária do juiz de Brasília, e minha terra natal que anda dando muito desgosto em questões de direitos humanos ultimamente.

Lançá-la num momento em que a cura gay ganhou novamente as manchetes afeta de alguma maneira o rumo que essa HQ vai tomar?

Estamos presenciando uma onda conservadora que quer censurar a arte em nome da moral e dos bons costumes. Não pude ficar quieto. Precisava botar esta história no mundo pra ajudar no debate e a esclarecer a mais e mais pessoas que não há cura alguma para homossexualidade. Estes tratamentos em sua maioria são como ensinar um cachorro a se fingir de morto: o cachorro aprende a se fingir de morto, mas não morre e muito menos deixa de ser cachorro. Por trás dessa polêmica existe é um lobby de picaretas que querem faturar em cima do preconceito prometendo uma cura de uma doença que sequer existe.

Como foi a pesquisa para essa história? Ela se baseia em fatos reais? Existe alguém que serve de base para o personagem Acácio?

Eu li muitos relatos e matérias daqui do Brasil e lá de fora e tanto coisas recentes como antigas das décadas de 1960 e 1970. Os depoimentos são muito tristes e alguns casos levaram os pacientes a cometer suicídio. Um dos próprios criadores e difusores desses métodos já admitiu que esses tratamentos não funcionam. O roteiro é parcialmente baseado em relatos, mas criei muita coisa também, pois minha intenção não é a de fazer um documentário em quadrinhos, mas uma narrativa de ficção abordando essas questões.

Nesse começo de história, o tratamento surge como iniciativa dos pais. Mas um dos grandes argumentos utilizados hoje é que alguém que deseja mudar a própria sexualidade deveria ser capaz buscar essas terapias. Você pretende também se debruçar sobre a homofobia internalizada e como ela faz com que LGBTs submetam-se a esses processos por vontade própria?

A história vai abordar diversos períodos da vida do personagem, desde criança até adulto. Começa na década de 1960 e vem até os dias de hoje. Quando pequeno ele só faz o que os pais mandam, mas quando for adulto ele lidará com a homofobia internalizada nele e ele próprio se submeterá a outros tratamentos.

O que os quadrinhos podem comunicar sobre esse tema que outras mídias não conseguem?

Acho que não é nem questão do que se pode comunicar, mas como se pode comunicar. Os quadrinhos são uma forma de arte muito própria que mistura imagens e texto como nenhuma outra. É uma linguagem fácil de ser compreendida, rápida de ser lida e que tem um atrativo visual. Os quadrinhos podem ter um alcance muito grande por isso. E por ser independente, tenho mais liberdade para abordar o que bem quiser da forma que bem quiser, o que não é possível em uma série pra televisão ou em um filme.

Quantos capítulos você planeja para Bendita Cura? Como os leitores podem apoiar seu trabalho?

Ao todo serão nove capítulos, sendo que alguns deles publicarei em partes na internet por serem mais extensos. Os leitores podem apoiar meu trabalho através do Apoia-se, um site de financiamento recorrente. Estou lançando campanha para isso lá agora:  https://apoia.se/que-mario Ou então podem comprar meus outros quadrinhos através do meu site www.masquemario.net/loja ou em livrarias e lojas especializadas.

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