Fogo com fogo: milícia LGBT combate o Estado Islâmico na Síria

Divisão de grupo guerrilheiro anarquista da Síria declara guerra contra todo tipo de opressão causado pelo extremismo religioso

por Marcio Caparica

Há anos os fundamentalistas (e extremistas) do Estado Islâmico perseguem a população LGBT que tem o infortúnio de cair sob seu controle. O grupo tornou-se infame por apedrejar gays ou jogá-los pela janela, já que considera a homossexualidade um pecado que deve ser punido com a morte. Agora um grupo de LGBTs pretende responder à altura.

Segundo a revista Newsweek, um grupo armado anarquista formado por voluntários de vários países chamado The International Revolutionary People’s Guerrilla Forces (IRPGF – Forças de guerrilha revolucionária internacional do povo) anunciou na segunda-feira a formação de uma divisão formada apenas por LGBTs. Esse subgrupo se intitula The Queer Insurrection and Liberation Army (“Exército queer de insurreição e liberação”), ou TQILA – lê-se “tequila” mesmo.

O IRPGF divulgou a seguinte declaração:

Nós, as Forças de Guerrilha Revolucionária Internacional do Povo (IRPGF) formalmente anunciamos a formação do Exército Queer de Insurreição e Liberação, um subgrupo da IRPGF formado por companheiros LGBT*QI+ e outros que buscam esmagar o binarismo de gênero e avançar a revolução das mulheres, assim como a revolução de gênero e sexual mais ampla.

Os membros do TQILA assistiram horrorizados forças fascistas e extremistas ao redor do mundo atacarem a comunidade queer e assassinarem inúmeros membros de nossa comunidade, afirmando que somos “doentes”, “enfermos” ou “contra a natureza”. As imagens de gays sendo jogados de prédios ou linchados pelo EI foram algo que não poderíamos ver sem fazer nada. Nem o EI é o único grupo cujo ódio por pessoas queer, trans* e de outra forma não-binárias leva a ataques e ódio motivados pela religião. Conservadores cristãos em todo o noroeste do globo também atacam pessoas LGBT*QI+ numa tentativa de silenciarem e apagarem sua existência. Queremos enfatizar que a queerfobia, homofobia e trans*fobia não são inerentes ao Islã ou quaisquer outras religiões. Pelo contrário, conhecemos vários muçulmanos, judeus, cristão, hindus, budistas etc. que aceitam e acolhem o que nos torna pessoas únicas e fora da conformidade, alguns deles mesmos também queer. Nos erguemos em solidariedade a eles contra o fascismo, a tirania e a opressão. Além disso, criticamos e lutamos contra as atitudes antiqueer, conservadoras e feudais, dentro dos movimentos revolucionários de esquerda aqui e no exterior.

Nosso compromisso de lugar contra a autoridade, o patriarcado, a heteronormatividade opressora, a queer/homofobia e a trans*fobia se fortalece pelos avanços revolucionários e pelas vitórias nas lutas feministas curdas. O fato de que as classes jineologi debatem a construção de gênero e da sexualidade destaca ainda mais os avanços da revolução em Rojava e em todo Kurdistão, com mulheres pressionando pela revolução feminista e avançando com a luta queer que motivou os companheiros queer do IRPGF a formarem o TQILA.

LIBERAÇÃO QUEER! MORTE AO CAPITALISMO ARCO-ÍRIS!

BATA ATIRE DE VOLTA! ESSAS BICHAS MATAM FASCISTAS!

COMUNIDADES & COLETIVOS MILITANTES HORIZONTAIS AUTOORGANIZADOS PELA REVOLUÇÃO E ANARQUIA QUEER!

O EI assumiu responsabilidade pelo massacre na boate Pulse em Orlando realizado em junho de 2016, em que 49 pessoas foram mortas. Desde que ganhou poder no Iraque, em 2014, o EI também já divulgou inúmeros vídeos em que homens gays são jogados, com os olhos vendados, do alto de edifícios perante multidões. Os sobreviventes das quedas eram então linchados pelo público.

Os membros do EI também vasculham os contatos dos celulares das pessoas que capturam em busca de outras pessoas que também sejam homossexuais, segundo vários relatos.

Em sua declaração, o TQLA se refere à “revolução em Rojava”, uma região semiautônoma no norte da Síria que os rebeldes curdos estão tentando estabelecer. Em teoria, ela abrigaria a todos os fugitivos da Síria sob um governo democrático.

Em resposta às dúvidas de que a notícia seria real, o grupo divulgou em sua conta no Twitter mais fotos do grupo de guerrilheiros. O porta-voz da organização, Heval Rojhilat, declarou à Newsweek que não pode revelar quantos membros fazem parte do TQLA. “Muitos de nossos companheiros fazem parte da comunidade LGBT*QI+ e já estão lutando em Raqqa”, concluiu.

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