Ignacio Rogers (Matias) e Esteban Masturini (Jeronimo) em Esteros, filme de Papu Curotto

“Esteros” realiza a fantasia de amor pré-adolescente de tantos e tantos gays

O longa argentino de Papu Curotto mostra o reencontro de amigos de infância que se apaixonam depois de adultos

por Marcio Caparica

A maioria dos gays tem um caso desse na infância: um amigo muito amigo, mais próximo que todos os outros, causador de uma química que, surgisse hoje, acabaria em namoro. Mas naquela época, por inocência, ignorância ou medo, o lance não foi para frente. Com o tempo os dois se afastam e fica tudo na memória. O que aconteceria se os dois se vissem de novo, agora que já são adultos? Quem assistir ao filme argentino Esteros, que chega hoje às telas dos cinemas, vai encontrar a resposta de seus sonhos.

Dirigido por Papu Curotto, Esteros acompanha o reencontro de dois inseparáveis amigos de infância, Matias (Ignacio Rogers) e Jeronimo (Esteban Masturini) em Paso de los Libres, cidade na fronteira entre Argentina e Brasil. Mas calha que, enquanto Jeronimo tornou-se um gay muito bem resolvido, Matias é hétero e vive uma relação aparentemente satisfatória com a namorada Rochi (a brasileira Renata Calmon). O afeto que tiveram que represar quando crianças ressurge imediatamente, e ambos têm que descobrir qual será o rumo que darão para seus sentimentos.

A maneira como essa co-produção argentina e brasileira mostra o ressurgimento da relação entre os dois protagonistas vai ressoar com a vida de vários espectadores. O filme mostra com habilidade os eventos que costumam ocorrer nessas situações: todo aquele processo de cuidadosa aproximação física, conversas que tentam avaliar o terreno, memórias que reacendem a antiga intimidade, e drinks que diminuem as novas inibições. Esteros, apesar de reconhecer os obstáculos inerentes nessa trajetória, leva o amor entre Jeronimo e Matias para um final feliz. Para a tristeza de muitos de nós, isso não costuma ocorrer na vida real.

Lançado em 2015, Esteros percorreu com sucesso o circuito mundial de festivais de cinema, e agora desembarca nas telas brasileiras. Por e-mail, Papu Curotto concedeu a entrevista a seguir.

LADO BI A maioria dos gays teve alguma paixão pré-adolescente frustrada. Seu filme apresenta a realização dessas fantasias, com um final feliz. Era essa a intenção?

Sim. Acho que o momento da descoberta da sexualidade é muito importante na vida das pessoas. Todo mundo tem essa experiência, mas quando se trata da relação de pais e filhos neste período, nem sempre ela é tratada com naturalidade. Também importante ressaltar que muitas destas experiências são vividas entre pessoas do mesmo sexo, e isso depois passa a ser um segredo de infância. Eu quis contar uma história de descoberta que acontece nesse momento da vida dos personagens e que sobrevive aos preconceitos. Quis dar também um final feliz porque vejo muitos finais trágicos nos filmes LGBTs. Acho que é preciso que todos saibam que é possível ser LGBT e ser feliz.

O filme mostra pouco conflito quanto à homossexualidade em si – Jeronimo é muito bem resolvido quanto a ser gay, e as dúvidas de Matias são exibidas de maneira bastante sutil. Contar uma história que apresente a descoberta da homossexualidade como um drama já é algo ultrapassado hoje em dia?

Não sei se é ultrapassado, mas existem outras possibilidades de abordar as relações. Acho que falar de uma maneira não trágica é minha maneira de ajudar a construir um paradigma.

Esteros mostra, em vários momentos, como desde cedo homens não têm permissão para demonstrar afeto e acabam tendo que disfarçar seu carinho em “lutas”. Como você acha que isso afeta os relacionamentos masculinos, tanto hétero como homossexuais?

Eu acho que o contato físico é necessário. Quando não há o que se fazer com essa energia, porque o contato não é permitido ou é vedado, ela torna-se violência. É uma válvula de escape. A briga é o modo mais primitivo de relação entre os animais. É isso o que acontece entre as crianças quando não sabem lidar com os seus sentimentos e frustrações, e nós adultos não somos muito diferentes delas.

Muitos reclamam do apagamento da bissexualidade como orientação sexual. Isso foi algo que vocês levaram em conta ao construir o personagem Matias, que a princípio tem uma namorada?

Eu vejo a bissexualidade como uma forma possível e necessária de amor, e que muitas vezes é mais difícil de ser aceita pela sociedade que a homossexualidade. Pra mim é muito difícil de falar de uma forma segmentada. Eu acredito que a sexualidade das pessoas é livre, ou deveria ser. No caso de Matias, o que acontece é que ele descobriu um amor por Jeronimo que não tinha sentido antes. Eu mesmo aprendi a desfrutar do sexo com mulheres depois me reconhecer gay.

O Brasil está bastante presente no filme. Quais são as principais diferenças entre a cultura LGBT argentina e brasileira, na sua opinião?

Pra mim a lei de casamento igualitário e de identidade de gênero fizeram uma diferença na Argentina em relação a outros países, mas o foco não deveria ser “os países”, mas sim uma relação social do tema. Tanto no Brasil como na Argentina, as pessoas que são pobres têm muito menos oportunidades que pessoas que são ricas. A comunidade LGBT pobre é inúmeras vezes mais atingida pela exclusão e violência do que a rica. Agora, com a volta de uma politica conservadora na Argentina, aumentou a violência, principalmente contra homens e mulheres trans. Eu mesmo, que há seis anos não era abordado de forma pejorativa nas ruas, voltei a sê-lo há três semanas atrás.

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