Como o Babadook tornou-se o novo ícone LGBT

Como o Babadook tornou-se o novo ícone LGBT

Um post num tumblr desencadeou a transformação de um personagem de filme de terror em mascote das paradas do orgulho LGBT

por Marcio Caparica

Há um personagem novo invadindo as paradas do orgulho LGBT. As festas da diversidade já começaram a acontecer no último final de semana ao redor do mundo; quem esteve presente nos eventos em Los Angeles, Boston e Washington, D.C. pôde conferir: o Babadook marcou presença. E fez bonito.

Não sabe quem é o Babadook? É só correr no Netflix e procurar pelo filme australiano de terror O Babadook. Ele é bem interessante, até: uma mãe viúva começa a ler para seu filho um livro infantil chamado (claro) Mister Babadook. Logo ela percebe que o monstro da história está assombrando sua casa, e por mais que tente destrui-los, tanto o livro como a assombração sempre retornam. Os críticos sérios enxergam o monstro Babadook como uma metáfora da dor da protagonista pela perda do marido. Os adolescentes internéticos, por sua vez, tinham outros planos.

A brincadeira começou sem maiores pretensões: o usuário Ianstagram postou em seu tumblr: “quem disser que o Babadook não é gay, tipo??? Não assistiu o filme?”. Seus seguidores começaram a repercutir a discussão, falando como se fosse a coisa mais óbvia e estabelecida que o monstro é LGBT. Ao longo das semanas seguintes, essa bola de neve havia acumulado mais de cem mil respostas de tumblr. A essa altura, a piada interna de que o Babadook não passava de um gay tentando viver nos subúrbios australianos já havia se tornado realidade.

Memes que recontextualizavam o sorriso fantasmagórico do monstro como um símbolo de orgulho tornaram-se comuns; um usuário criou um screencap fake da sessão de filmes LGBT do Netflix, com O Babadook entre outros clássicos como Hoje eu quero voltar sozinho e G.B.F. A piada migrou do Tumblr para o Twitter nos meses seguintes, e não demorou muito transbordou para o mundo real: o que não falta agora são drag queens nos EUA que se montam como o monstro. Para quem estava acompanhando as tendências da web, a invasão de Babadooks nas Paradas não chegou a ser grande surpresa.

http://ciinnamom.tumblr.com/post/154402117753/barricorn-taco-bell-rey-so-proud-that-netflix

Há quem diga que essa identificação com o Babadook faz sentido: para muitos LGBTs, ser enxotado e agredido por sua família mas continuar sempre voltando em busca de seus agressores é uma situação bastante conhecida. Jennifer Kent, a diretora do filme, ainda não se pronunciou sobre a apropriação de seu personagem pelo mundo queer. No fundo, não há nada no filme que realmente denote a orientação sexual de seu vilão. O usuário por trás da conta Ianstagram, que deu o pontapé inicial na brincadeira, declarou para a revista New York que isso tudo é “uma leitura profunda demais de um post que eu soltei numa noite qualquer. É fascinante de se ver”.

A homossexualidade do Babadook começou como uma piada, mas deu certo porque mostra uma das tendências mais renitentes da cultura pop: sempre se supõe que um personagem é hétero, a não ser que se prove o contrário. Não há nada que mostre na história original que ele é gay, mas também não há nada que prove que ele não é. O que haveria de errado, portanto, em adicionar esse detalhe em sua biografia fictícia? Nada. Como as celebrações do orgulho LGBT deste ano estão demonstrando.

Participe da discussão! Deixe um comentário:

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

2 comentários

Rapadura Guy

Houve um boate de que o Netflix havia colocado ele na lista de flimes LGBTQ, mas pelo visto foi só um boato.

Reply