Flagrante de casal gay na Indonésia vai contra os preceitos do Islã, diz especialista

A antropóloga Francirosy Campos Barbosa analisa a punição ocorrida ontem e aponta as várias maneiras como ela fere a moralidade muçulmana

por Marcio Caparica

A punição em praça pública de um casal gay que aconteceu ontem na Indonésia causou espanto e horror no mundo todo – inclusive entre a grande maioria dos muçulmanos ao redor do globo. O apartamento onde os dois se encontravam foi invadido por vizinhos, que filmaram os dois nus e os espancaram. Semanas depois ambos foram condenados a serem açoitados 83 vezes cada um, ao longo de quatro horas.

A antropóloga Francirosy Campos Barbosa, pesquisadora de comunidades muçulmanas na Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto, comentou o ocorrido a pedido do LADO BI. A professora condenou de imediato a atitude dos vizinhos dos rapazes, que violou princípios essenciais da fé islâmica: “o que nos surpreende neste caso é a invasão de privacidade. No Islã é proibido entrar em uma casa sem ser convidado, ainda mais para filmar algo ilícito. Está no Qur’an: ‘Ó fiéis, evitai tanto quanto possível a suspeita, porque algumas suspeitas implicam em pecado. Não vos espreiteis, nem vos calunieis mutuamente. Quem de vós seria capaz de comer a carne do seu irmão morto? Tal atitude vos causa repulsa! Temei a Deus, porque Ele é Remissório, Misericordiosíssimo’ (Alcorão 49,12)”. Segundo ela, a invasão de domicílio é haram – algo condenável para os muçulmanos.

A homossexualidade, no Islã, também é considerada haram. Barbosa explica que em grande parte do mundo muçulmano (mais de 1,6 bilhões de pessoas), lida-se com a questão de maneira semelhante à dos cristãos que afirmam “odiar o pecado, mas não o pecador”: “no Islã o ato homossexual em si é ilícito – haram -, não as pessoas.” Distante da maior liberdade sexual em que LGBTs vivem em países cristãos, mas também longe de apoiar a violência contra seja quem for: “Um dos princípios da Shari´a é o direito à vida, e para que uma vida seja tirada é preciso ter um julgamento rigoroso”.

A antropóloga também vê várias características condenáveis no ocorrido. “Para se chegar a um condenação como essa é preciso a formação de um Conselho qualificado, o que não nos parece ter ocorrido nesse caso. Quem estabeleceu o hukum (lei emitida por jurista qualificado pelo governo islâmico)? Muitos consultores e sábios certamente também vão reprovar o fato de se tornar midiática uma penalização. ‘Ó fiéis, quando um ímpio vos trouxer uma notícia, examinai-a prudentemente, para não prejudicardes ninguém, por ignorância, e não vos arrependerdes depois.'(Alcorão 49,6).”

A punição dos dois rapazes ocorreu em Aceh, uma província da Indonésia marcada pelo extremismo religioso. As atitudes de sua população refletem um extremo da cultura islâmica, que, assim como as outras religiões, possui uma gama de fiéis que vai dos mais liberais até os mais retrógrados. Vale sempre reforçar: a homofobia não é dependente de religião – são os homofóbicos que se apoiam em preceitos de suas fés escolhidos segundo sua conveniência para justificar seus preconceitos.

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4 comentários

Leonardo

Parece que alguém é muito desinformado ou muito OPORTUNISTA, o islão não é só o alcorão, na verdade é uma “trilogia”, alcorão + hádice (histórias e tradições muçulmanas) + sira (biografia de Maomé), claramente dizem para matar homossexuais. O islamismo é uma religião preconceituosa, muito pior que o cristianismo.

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Reinaldo

q vergonha, a “teóloga” ao q parece só criticou a –forma– como os gays foram condenados, isto é, ela acredita q há um jeito “certo” de chicotear homossexuais, caramba, e vc ainda dá espaço pra uma coisa dessa aqui

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Roberto

Tem gente levando 83 chibatadas e a Fran, que passeia no central parque nas ferias vem tentar amenizar o ocorrido dizendo que “Distorceram o Alcorão”?

Cara, isso é falta de respeito com as vitimas, eles apanharam, foram humilhados, um deles perdeu foi expulso do curso de medicina que fazia, corre risco de vida e ela vem dizer que a Sharia foi interpretado errado é falta de respeito com as vitimas!

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Diego Nunes

Religiões abraamicas são contra a prática sexual. Qualquer tentativa de amenizar isso é demagogia.

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