Dois rapazes são açoitados 83 vezes na Indonésia por serem gays

Dois rapazes são açoitados 83 vezes na Indonésia por serem gays

Julgados na província de Aceh, dominada por extremistas religiosos, o casal teve sua casa invadida por vizinhos e o flagra divulgado em redes sociais

por Marcio Caparica

Estima-se que há 1,6 bilhões de muçulmanos no mundo. Entre uma população tão vasta, há os extremistas, assim como há extremistas cristãos (oi Bolsonaro, oi Malafaia) e até extremistas budistas (que, em Burma, perseguem a minoria muçulmana). A homofobia e transfobia são tragédias presentes em todas as religiões, e todas são utilizadas para justificar os preconceitos muito mundanos de seus fiéis.

A Indonésia era até hoje um exemplo de um país majoritariamente islâmico, mas onde Igreja e Estado estavam separados. Infelizmente esse não é mais o caso. Hoje dois homens, identificados apenas como MT (23 anos) e MH (20 anos) receberam 83 golpes de vara numa mesquita em Banda Aceh, capital da província de Aceh. O ato público foi punição por terem sido pegos em relação sexual homossexual. Ele teve início às 9 da manhã no horário local, e terminou quatro horas mais tarde.

A homossexualidade não é crime na Indonésia como um todo. A província de Aceh é a única no país em que a Shari’a se mistura com a lei secular. Ela obteve essa concessão do governo da Indonésia em 2005, como maneira de colocar fim num conflito separatista que já durava décadas. Há dois anos a província aprovou uma lei em que pessoas podem ser açoitadas até 100 vezes como punição por “ofensas morais”.

A maneira como o casal foi “pego no ato” é uma demonstração de como a maldade e mesquinharia não conhecem fronteiras de país nem de religião. Os vizinhos do casal começaram a suspeitar da relação homossexual entre os dois e passaram a vigiá-los. Quando os dois encontravam-se juntos, invadiram seu apartamento e filmaram os dois nus. Os vídeos, que mostram os invasores chutando, dando tapas e xingando os dois, foram divulgados na mídia local e nas redes sociais.

Mais de 3 mil pessoas aglomeraram-se do lado de fora da mesquita para assistir.

Os dois homens foram julgados na semana passada. “Não há indícios que justifique o que aconteceu ou que os perdoe”, declarou o juiz Khairil Jamal. “Eles deverão, portanto, ser punidos de acordo.” A pena era de 85 golpes com vara, mas foi reduzida para 83 porque os dois já haviam passado dois meses detidos. Uma repórter da BBC conseguiu entrevistar um deles na prisão e descreveu o que presenciou:

Encontrei um dos jovens na cadeia um dia antes das chibatadas, e fui a primeira jornalista a falar com ele. Ele estava aterrorizado, e tremia pelo corpo todo. Ele encontrava-se magro, pálido e apresentava uma mancha vermelha na pele.

Os outros detentos nos cercaram com olhares intimidadores enquanto tentávamos conversar. Eu pensei que conseguiríamos falar numa sala privada, mas ele não obteve permissão para isso.

Antes dos vizinhos derrubarem a porta do quarto que alugava, ele estava cursando os últimos anos da faculdade de medicina – e planejava tornar-se médico. Fomos informados que ele foi expulso da universidade.

Os vídeos da invasão que flagravam ele e seu parceiro fazendo sexo foram amplamente compartilhados online. Nos vídeos gravados por celular os dois estão nus, implorando por ajuda.

Esta é a primeira vez na Indonésia que alguém é punido em praça pública por ser homossexual. Depois de colocados num palanque entre outros oito condenados de crimes contra a nação, os rapazes tiveram que colocar roupas brancas e submeteram-se aos golpes de vara. Mais de 3 mil pessoas reuniram-se do lado de fora da mesquita de Syahuda para presenciar esse ato de violência, gritando “Que isso lhe sirva de lição” e “Bate mais forte!”. Aqueles que aplicaram a pena tiveram sua anonimidade protegida por capuzes. Os dois rapazes não tiveram o mesmo privilégio.

As leis internacionais consideram esse tipo de punição como tortura.

O pai de um dos rapazes declarou que não sabia da homossexualidade do filho antes da prisão. “Isso é uma provação para nossa família”, declarou ao Digital Journal. “Depois que isso for resolvido, vamos enviá-lo para um colégio interno islâmico para que ele seja educado, para que ele não seja mais um transviado.”

As atitudes com relação à população LGBT estão se tornando cada vez mais extremas nos últimos anos, apesar da maior visibilidade da população queer no país. A Associação de Psiquiatras da Indonésia ainda considera que a homossexualidade, a bissexualidade e a transexualidade são transtornos. No ano passado, o governo do país decidiu barrar “propagandas” da cultura homossexual. Em janeiro chegou na Corte Constitucional do país uma petição para que o sexo fora do casamento – tanto hétero como homossexual – deveria ser criminalizado, pois faz da Indonésia uma “nação incivilizada”.

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