Edgar Souza: “as lideranças LGBT precisam superar as diferenças partidárias”

Edgar Souza: “as lideranças LGBT precisam superar as diferenças partidárias”

Famoso por ser o único prefeito abertamente homossexual do Brasil, Edgar Souza conta como a resistência à homofobia e sua fé religiosa influenciaram o político que é hoje

por Marcio Caparica

Os primeiros resultados numa busca no Google pelo nome de Edgar Souza têm em quantidades iguais páginas sobre seu mandato como prefeito de Lins e notícias sobre seu casamento com Alexsandro Luciano Trindade, ocorrido em 4 de março. “A gente não esperava tanta repercussão assim”, reconhece Souza em entrevista ao LADO BI. “Depois de 13 anos de relação, a gente sabia que ia repercutir de alguma forma, mas não de maneira tão gigante. Mas não vejo problema: se casar é um ato político.”

O que devia ser apenas mais uma informação sobre um político é o que torna Souza nacionalmente conhecido: ele é o único prefeito abertamente gay do Brasil. Se o Brasil é conhecido por sua homofobia, a política brasileira não só reflete seu eleitorado, como perpetua em políticos com décadas de estrada preconceitos que estão desaparecendo com rapidez maior que a capacidade de adaptação dos medalhões. Atuar em cargos eletivos públicos sem esconder a homossexualidade hoje não é apenas algo digno de nota, ainda é um ato de coragem.

Confira a entrevista que Edgar Souza deu ao Lado Bi

A carreira política de Souza começou em 2004, quando, ainda filiado ao PT, conquistou uma vaga na câmara dos vereadores de Lins, cidade onde nasceu e cresceu. Sua homossexualidade foi uma causa de preocupações nesse começo de carreira política: “era algo conhecido mas não era um fato aberto”, admite. Em 2008, durante a campanha para novo mandato de vereador, Souza decidiu que não seria mais alvo de chantagem e fez campanha sem esconder a relação que já tinha com seu futuro marido. “Foi uma delícia fazer essa campanha, porque não havia mais medo de ‘denúncias'”, comemora. “Consegui 50% mais votos dessa vez. A verdade é libertadora.”

Seus opositores não aprenderam a lição e passaram a utilizar dos ataques homofóbicos mais baixos quando Edgar de Souza lançou sua candidatura a prefeito, agora já no PSDB. “Falavam que a prefeitura ia virar boate gay, que eu ia fazer parada gay todo mês, que ia incentivar a prostituição e a pedofilia”, lembra-se. “Chegaram a produzir panfletos que diziam que eu trabalhava como drag queen em São Paulo, sob o nome de Morgana. Em outros, afirmavam que eu tinha me casado numa relação satânica com um pai de santo – uma falta de respeito profunda com as religiões de matriz africana.” Para sua satisfação, a cidade não comprou o discurso preconceituoso e Souza tornou-se prefeito. Agora, na campanha de reeleição, a história foi diferente: “os ataques foram mais indiretos. O mais grave foi um candidato que afirmou que ano que vem, Lins vai voltar a ter primeira dama”.

A tranquilidade com que Souza lida hoje com sua sexualidade foi conquistada depois de muitos anos de conflito. Católico, sofreu muitos anos com a maneira como a igreja condena a homossexualidade. “Eu sabia que era uma criança diferente, queria ‘me ver livre’ do que sentia. Cheguei a ter namoradas e me relacionava com homens escondido. Ficava com muito nojo de mim mesmo, depois de sair com um garoto me lavava tanto que até saía sangue. Mas aos 19 anos  consegui me conciliar com quem eu sou”. Hoje faz uma distinção entre os preceitos da igreja enquanto instituição milenar e a relação pessoal que tem com Deus, e assim continua frequentando a missa com a consciência tranquila. “A igreja e a Bílbia ensinam que Deus olha por todos que lutam pelos direitos dos homens. É o que fazemos quando lutamos pelos direitos LGBT”, aponta.

Essa vontade de ajudar à população é o que o mantém engajado politicamente. “Acredito no que disse o papa Paulo VI: a política é um grande instrumento de caridade”, afirma. Sua posição como o primeiro prefeito LGBT do país traz responsabilidades: “minhas bandeiras são mais que LGBTs, são humanistas. Defendo muito a igualdade racial, a democracia, a dignidade humana. Acho que quando um representante LGBT trata apenas da questão LGBT, a discussão fica mais pobre. Mas tenho consciência de como o desempenho do meu mandato é importante como representatividade. Se eu fracassar, é um fracasso para todos os políticos LGBTs. Tenho que fazer bem feito.”

Esse comprometimento com a comunidade e causa LGBT é algo que falta entre os políticos que nos representam, acredita Souza. “Muitas vezes a militância partidária cai um ‘fla-flu’ que eu acho uma pobreza: representantes LGBTs que se recusam a conversar com outros porque estão em partidos diferentes. Não pode ser! Não podemos ser apenas figurinhas que são usadas pelos partidos em suas disputas. Temos muitas causas que temos que defender todos juntos. Vamos ter mais compromisso com a causa!”.

Souza tem a vontade de prosseguir na carreira política, mas nada que lhe retire de Lins tão cedo. “Depois que meu mandato de prefeito terminar, em 2020, eu vou tentar concorrer para deputado estadual em 2022”. Tempo de sobra para cultivar suas oportunidades com seu jeito tranquilo. “Muitas pessoas dizem ‘o Edgar é um gay discreto, quase um gay heteronormativo'”, conta. “Elas dizem isso como um elogio, mas eu aponto na hora: ‘isso não é elogio não!’.”

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Um comentário

Fabio Oliveira

Eu só não concordo com o final da matéria. Dizer que ele é gay discreto, e usar a palavra “heteronormativo” pra classificar um gay masculino (poderia dizer “um gay que não dá pinta” mas seria tão preconceituoso quanto). Masculinidade não é direito ou um privilégio de heterossexuais. Não é elogio e nem ofensa. É apenas um jeito de ser. Milhares de mulheres homossexuais tem comportamento masculino e não são chamadas de heteronormativas. Precisamos entender que homens gays de comportamento masculino faz parte dessa diversidade que tanto lutamos e defendemos.

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