Diga não ao trans fake: atores e atrizes trans exigem inclusão nas telas e nos palcos

Artistas trans se organizam e lançam manifesto para que personagens transgênero não sejam mais entregues a atores cis: “não existe meia representatividade”

por Marcio Caparica

No Brasil e no exterior, a quantidade de personagens transgênero aumenta cada vez mais em filmes, séries e novelas. São papéis considerados “desafiadores” (não sem razão), que, quase sempre, são entregues para atores… cisgênero.

Eddie Redmayne em A garota dinarmaquesa. Jeffrey Tambor em Transparent. Cauã Raymond no videoclipe “Your Armies”. Felicity Huffman em Transamerica. Rodrigo Santoro em Carandiru. Elle Fanning em Ray. Caroline Duarte, na novela A força do querer, prestes a ir ao ar.  E agora, Carolina Ferraz em A glória e a graça.

Acontece que isso não é razoável nem certo, assim como não é razoável nem certo um branco pintar a cara para interpretar um personagem negro. Cansades de serem colocades em segundo plano em detrimento de atores cis, mantides na invisibilidade sem conseguirem os personagens que lhes representam, atores e atrizes trans do Brasil se uniram sob o manifesto Representatividade Trans Já para exigir que papéis de personagens trans sejam dados a pessoas trans. Alguns dos envolvidos nessa iniciativa são talentos como Léo Moreira Sá, Leona Jhovs, Dandara Vital, Mel Campos, Marina Matheus e Maite Schneider.

Renata Carvalho, atriz trans que estrela a peça Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, foi quem deu o pontapé inicial nessa iniciativa. “Eu sempre questionei por que atores cis ganham papeis de personagens trans. Lendo a entrevista que Claudia Wonder fez com Thelma Lipp, quando, por questões de marketing, Thelma perdeu seu papel no filme Carandiru para Rodrigo Santoro, descobri que elas tinham pensado já naquela época em fazer um ato com o Sindicato dos Artistas para que papéis trans fossem preferencialmente dados para atrizes e atores trans. Infelizmente sua iniciativa não foi para frente, e Claudia Wonder morreu sem conseguir algum avanço. Achei que era hora de retomar essa luta”.

“A população trans já é marginalizada e excluída da maioria dos campos do trabalho, tendo que recorrer à prostituição para viver”, continua Carvalho. “Por que negar a nós oportunidades para atuar como essas? O que não falta são talentos trans altamente qualificados para viverem esses personagens.”

Carvalho frisa que a intenção não é antagonizar os artistas cisgênero, pelo contrário: “Não queremos proibir que atores cis interpretem personagens trans. O teatro é um lugar libertário. Queremos incentivar uma reflexão, fazer com que os artistas cisgênero entendam nossa causa, se sensibilizem, e que com isso não aceitem os papéis trans que poderiam muito bem ir para artistas transgênero.” Ela dá o exemplo do que aconteceu na nova versão de Rock Horror Picture Show: Adam Lambert recusou o papel do Dr. Frank N. Furter por considerar que ele deveria ir para uma atriz trans. O papel foi então para a atriz Laverne Cox.

“Desejamos que, assim como hoje atores brancos têm a consciência de que não devem aceitar papéis de negros, entenda-se que artistas trans são especialmente qualificados para interpretar personagens transgênero”, finaliza Carvalho. “Nós precisamos sair da marginalidade, da estigmatização, das esquinas.”

Carvalho também aponta que a displicência quanto à identidade de gênero não acontece para papéis que não são de personagens trans. “Quando se tem um personagem de galã, não pensam numa mulher para interpretá-lo: escolhe-se um homem. Para o personagem da mocinha da trama, não buscam um homem para o papel: escalam uma mulher. Por que, então, quando se tem um personagem trans, não chamam alguém trans, mas sim uma pessoa cis? Todas identidades de gênero são igualmente válidas e deveriam ser tratadas da mesma forma.”

Os atores cis, nesse momento, adoram levantar a máxima de que “ator não tem gênero”. “É um argumento que só é utilizado quando atores transgênero reinvidicam seu espaço”, lamenta Carvalho. “No momento em que vermos naturalmente, seja na TV, nos palcos ou no cinema, atores trans interpretando personagens cis, poderemos então falar de liberdade artística. No momento, nós, artistas trans, não podemos sequer interpretar a nós mesmos! Quando alcançarmos um ponto em que, por exemplo, atrizes trans tenham o mesmo acesso a papéis clássicos como Julieta, Medeia ou Bernarda Alba, ou mesmo papéis como mãe de família, advogada cis, médica cis etc, aí sim poderemos dizer que há liberdade artística e que ator não tem sexo. Por enquanto, essa liberdade artística não existe para atores e atrizes trans.”

Mas colocar um personagem transgênero em tramas já não é uma forma de dar visibilidade à população transgênero, mesmo com atores cis? “Não. No fundo, isso só faz reforçar a ideia de que pessoas trans não passam de alguém cis vestido com a roupa de outro gênero”, explica Carvalho. “Não há representatividade pela metade, ou ela acontece ou ela não acontece.”

O manifesto foi divulgado ontem, no Instituto Tomie Ohtake, após uma apresentação de Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu. A iniciativa conta com o apoio de lideranças trans como Luiza Coppietters, Amara Moira e Leo Moreira Sá, e de estandartes das artes cênicas brasileiras como Zé Celso e o Teatro Oficina. O Representatividade Trans Já pretende agora organizar outros atos, colher assinaturas num abaixo-assinado e amealhar o apoio de profissionais cis para essa causa tão importante. Confira a seguir o texto do manifesto na íntegra.

Manifesto REPRESENTATIVIDADE TRANS JÁ. Diga NÃO ao TRANS FAKE

Nós atrizes e atores trans (travestis, mulheres e homens trans) organizados, vimos através deste manifesto buscar nossa representatividade, visibilidade e reconhecimento na produção artística na TV, no teatro e no cinema.

Somos a população mais estigmatizada e marginalizada da nossa sociedade.

O Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo. Somos assassinadxs todos os dias, com extrema violência, ódio e requintes de crueldade. Nossa segunda causa de morte é o suicídio. A vida média de uma pessoa trans é de apenas 35 anos. Somos, quase todxs, expulsas de casa muito cedo, às vezes com apenas 12 ou 14 anos de idade. Mais de 90% da nossa população está na prostituição, pois o mercado de trabalho não nos aceita.

Precisamos lutar para ter direito ao nosso nome social, usar o banheiro de acordo com a nossa identidade de gênero e para por ela sermos reconhecidxs e tratadxs. As instituições de ensino estão começando agora a nos aceitarem. Ainda assim, há casos de travestis, como a estudante de licenciatura em artes Ágatha Mont, de 26 anos, que sofreu transfobia na FMU e morreu assassinada. Muitxs só ingressaram nas universidades graças a projetos como o Transcidadania em São Paulo e o Prepara Nem no Rio.

Lutamos pela normalização e humanização de nossos corpos e identidades.

Direitos básicos nos são negados diariamente.

Durante décadas fomos publicamente censuradas pelo Estado, por operações como “Tarântula” e “Comando de caça aos gays”, que prendiam, torturavam, espancavam e assassinavam travestis, que não podiam simplesmente circular pelas ruas. Presas, eram obrigadas a se mutilar para serem libertadas.Era proibido mencionar a palavra travesti em qualquer meio de comunicação.

Claudia Celeste, em 1977, foi retirada do elenco da novela Espelho Mágico, na Globo. Voltou à cena só em 1988 como Dinorá, na novela Olho por Olho, da extinta TV Manchete, sendo a única travesti até hoje a fazer uma novela inteira.

Rogéria, em seu livro Rogéria: uma mulher e mais um pouco diz: “A censura na televisão é muito estranha”. Ela nos conta sobre esta censura desde a TV Excelsior, quando seu programa Quem tem medo de Rogéria?, foi retirado do ar sem explicações, ou quando outras participações foram canceladas ou vetadas. E estamos falando de Rogéria, um caso raro de visibilidade na nossa comunidade.

Em 2001 a atriz e travesti Thelma Lipp foi substituída depois de ensaiar e fazer laboratórios por dois meses com a equipe do filme Carandiru, em que foi substituida pelo ator Rodrigo Santoro por “questões de marketing”. Thelma, que foi a resposta paulista a outro fenômeno de beleza, Roberta Close, não agüentou o baque. Acabou voltando às drogas, sofrendo depressão e terminando a vida como Deodoro.

Em uma entrevista feita em 2002, Claudia Wonder, também atriz e travesti, conta que ela e Thelma Lipp planejavam realizar um trabalho junto ao Sindicato dos Artistas, para que papéis de pessoas trans fossem preferencialmente oferecidos a artistas trans.

Na década de 70 nasceu a militância LGBT no Brasil, impulsionada pelas travestis organizadas, que saíram às ruas para reivindicarem e garantirem o simples direito à vida.

Hoje, nós artistas trans resolvemos nos unir.

Desde que nos entendemos como humanidade as minorias vem buscando seus direitos, à igualdade, a representatividade, a ter um espaço digno na sociedade.

Essa luta acontece também nas Artes.

Séculos atrás só os homens cis podiam atuar no teatro, e os papeis femininos eram representados por eles, que utilizavam máscaras e vestimenta feminina. Somente a partir do século XVII as mulheres cis passaram a dividir o palco e poder estar em cena.

Mais tarde atrizes e atores negros começaram a questionar por que personagens negros eram interpretados por artistas brancos, que pintavam suas caras para representá-los, o conhecido Black Face.

Nós nos perguntamos: Por que temos que aceitar que atores e atrizes cis interpretem personagens trans?

Estamos na moda, na crista da onda. Quer ser moderno no teatro, cinema ou televisão? Coloque entre os personagens uma pessoa trans.

É tão moderno um grupo dar visibilidade ao tema, não? Que autora maravilhosa falando sobre nós, você viu? Que filme contemporâneo com essa historia, hein?

Mas quando vão escolher alguém para representar um personagem trans quem é contratado? Um ator ou atriz cis.

Mas por que não chamam uma pessoa trans para fazer este personagem?

Acreditam que apenas mencionar, tocar ou falar do tema garante visibilidade e um olhar diferente sobre a nossa população? Acham que assim pode diminuir a transfobia?

Não existe meia representatividade.

Ou se tem ou não se tem. Precisamos ser vistas, reconhecidas através de referências concretas. Será que sabem o que é crescer sem entender o que você é ou o que está acontecendo com você, por falta de um modelo a seguir?

Também nos perguntamos: Por que não tem atores cis interpretando as heroínas das historias? Ou atrizes cis fazendo papel de galã?

Não faz sentido, né?

Então por que, quando se trata de personagens trans, convidam pessoas cis para os papéis?

E liberdade artística? E sobre o ator não ter sexo?

Nós artistas trans gostariamos de conhecer de perto essa tal liberdade artística.

No dia em que não for mais preciso separar ou diferenciar artistas cis de artistas trans. No dia em que formos ao teatro, ao cinema ou mesmo ligarmos a televisão e virmos artistas trans interpretando personagens cis naturalmente. Nesse dia poderemos conversar sobre liberdade artística e dizer que o ator não tem sexo. No momento, estamos tentando ter o direito de entrar, de estar, de pertencer e de permanecer.

A exclusão não fere a liberdade artística também?

Nós artistas trans entendemos a liberdade artística de maneira ampla, geral e irrestrita,sem gênero, sem barreiras, sem amarras e sem fronteiras. Mas também entendemos a arte como instrumento libertador, questionador e símbolo de luta e resistência. E para que serve o artista, senão para refletir, questionar e falar do seu tempo?

Muitas vezes não nos convidam porque o personagem em questão começa com um gênero e transiciona para o outro gênero no decorrer da historia. Então querem nos convencer de que é possível colocar um peito no Rodrigo Santoro ou uma prótese de mandíbula na Carolina Ferraz, ou que ainda podem envelhecer drasticamente Regina Duarte ou transformar Vera Holtz em uma pessoa obesa, mas que nós não podemos reconstituir o que nós já vivemos e conhecemos antes da nossa transição? E ainda, será que sabem que existem atores e atrizes que estão em transição? Alguns inclusive sem nenhum procedimento cirúrgico?

Mas existem artistas trans? Mas estão preparadxs? Ou ainda: Eu já procurei e não achei.

Pois sim, sempre estivemos nas artes, além das já citadas, tivemos Phedra de Córdoba, Divina Valéria, Margot Minelli, Jane di Castro e tantas, tantas outrxs.

Hoje estamos aqui para dizer que sim, nós existimos. E queremos oportunidades e emprego. E perguntamos: Como podemos existir sem a inclusão? Sem oportunidades? Qual será a próxima desculpa?

O ator Jeffrey Tambor, que interpreta a protagonista trans Maura Pfeffermann na série Transparent, ao receber o prêmio Emmy de melhor ator, disse:

“Seria diferente se as pessoas trans tivessem contado suas historias há centenas de anos, mas não puderam. É um problema de verdade… espero que apareçam mais oportunidades para o talento dos transgêneros… eu gostaria muito de ser o ultimo cisgênero interpretando uma personagem transgênero. Acho que já chegamos a esse ponto”.

Na mesma noite Laverne Cox, atriz e mulher trans (indicada ao Emmy de melhor atriz pela série Orange is the new Black) disse:

”Quero ecoar o que Jeffrey Tambor disse hoje à noite. Deem uma chance ao talento trans. Eu não estaria aqui hoje se alguém não tivesse me dado uma chance”. Esta mesma atriz só protagonizou Rocky Horror Picture Show por que o ator Adam Lambert recusou fazer o papel de protagonista alegando:

“Eu senti que, em 2016, ser cisgênero e fazer um personagem trans é inapropriado. Nos anos 70 era diferente. Mas agora há uma ótima conversa sobre trans e gênero no mundo”.

Não precisamos que Cauãs, Claudias, Carolinas, Luizes, Florianos, Airtons, Rodrigos, Eddies, Jeffreys entre tantos outros nos representem.

Nós estamos aqui e existimos. Cansamos de servir apenas como experimentos cênicos para teatro, cinema, televisão e trabalhos acadêmicos. Queremos e precisamos de oportunidades e emprego.

Este manifesto visa sensibilizar, conscientizar e humanizar: autores, escritores, dramaturgos, diretores, produtores, cineastas, assistentes, equipes técnicas, produtoras, agências de atores, SATED, publicitários, grupos, associações e coletivos artísticos, atores e atrizes cisgêneros.

Tirem-nos das esquinas. Resistiremos e Lutaremos Juntxs somos mais fortes.

Assinado: Movimento Nacional de Artistas Trans

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