Designer propõe conjunto de emojis de gênero neutro

Paul D. Hunt explica como a separação por gênero invadiu os primeiros emojis e por que é importante continuar a ajustá-los

por Marcio Caparica

Traduzido do artigo de Paul D. Hunt para o blog do site Emojipedia.org

Em 1999, como diz a história da criação dos emojis, Shigetaka Kurita inventou emoji – um conjunto simples de 176 pictogramas que tinham como intenção enviar informação pelos telefones celulares japoneses na forma de ícones monocromáticos de 12 x 12 píxels, juntamente com os símbolos do kanji e do kana.

Foi um desenvolvimento monumental, já que constituía a gênese do uso de imagens nos celulares. Dentre as figuras desse conjunto primitivo de emojis, apenas um símbolo poderia ser compreendido como ligado a algum aspecto de gênero: o onipresente 🚻 símbolo de sanitários.

Os primeiros 176 emojis

Sim, esse ícone faz referência direta aos gêneros, mas o faz de maneira inclusiva. Ele combina a representação de um homem 🚹 e a de uma mulher 🚺, para representar que o banheiro que está sendo representado é unissex, ou adequado para qualquer pessoa, não importa seu gênero.

Hoje as imagens criadas por Kurita são consideradas os precursores dos emojis modernos, mas a intenção de seu criador era que esses ícones funcionassem mais como pictogramas similares à escrita japonesa (文字–moji) e menos como figuras (絵–e).

A natureza dos emojis se transformou quando eles foram rapidamente adotados por outros provedores de telefonia celular japoneses.

As artes criadas pelos provedores KDDI e Softbank continham mais detalhes, e seus conjuntos de emoji incluíam figuras com gêneros explícitos, como 👧 menina, 👦 menino, 👩 mulher, 👨 homem, e alguns outros personagens.

Algumas representações de gente nesses conjuntos de emoji tinham aparência similar à dos sorrisinhos de carinha redonda e amarela. O 👮 policial e o 👷 trabalhador de obra tinham, inicialmente, esse tipo de desenho, mais ou menos como ainda acontece com o 🤠 emoji de vaqueiro hoje.

Na verdade, como a resolução das telas de celular dessa época era muito baixa, a arte da maioria dos emojis era bastante abstrata, e a informação de gênero era vaga, aberta à interpretação do usuário.

Por mais detalhado que fosse o beijo animado criado pela SoftBank, não há nada nele que defina quaisquer das duas figuras como homem ou mulher.

Esse emoji de beijo criado pela SoftBank não define nenhuma das duas figuras nem como homem nem como mulher.

Como os emojis ganharam gêneros

Quando a Apple lançou o iPhone em 2007, sua tela oferecia uma resolução bastante alta, e os criadores dos emojis da Apple aproveitaram para incluir mais informações visuais em seus desenhos.

Com a possibilidade de maiores detalhes, definiu-se um gênero explícito a várias figuras dos emojis que, nos conjuntos anteriores, não tinham gênero ou tinham gênero ambíguo. O policial e o trabalhador de obra da Apple tornaram-se homens. As figuras que recebiam 💇 cortes de cabelo and 💆 massagens tornaram-se mulheres.

Propositalmente ou não, dava para perceber um padrão bastante familiar: as pessoas dos emojis que demonstravam papéis ativos ou profissionais eram representadas como homens, e aquelas em papéis passivos ou frívolos eram representadas como mulheres.

O conjunto original de emojis desenvolvido pela Apple.

O Google tentou resolver essa situação ao defender que se adotasse duas opções de gênero, masculino e feminino, para todos os emojis que têm aparência humana. Ao mesmo tempo, concediam que opções de gênero binárias poderiam não ser o suficiente.

A compreensão científica atual da biologia humana dá respaldo à noção de que o sexo físico se manifesta ao longo de um continuum, assim como acontece com outras características genéticas como altura ou cor dos olhos. Culturalmente, várias sociedades na história já reconheceram mais que dois gêneros.

E, apesar do Google definir gênero como “o estado de ser ou homem ou mulher”, essa definição já se tornou anacrônica. Hoje, um número cada vez maior de indivíduos rejeita as noções binárias de gênero em detrimento de modelos mais amplos. Uma definição melhor para gênero pode ser encontrada na Wikipédia, como “a variação de características ligadas a, ou que diferencia, a masculinidade e feminilidade”.

No modelo que enxerga o gênero como algo que acontece em um espectro, o masculino e o feminino tornam-se dois polos que definem os extremos da identidade e expressão de gênero, entre os quais cada indivíduo se posiciona a cada momento. Em um estudo feito com 1000 pessoas nascidas entre 1980 e 2000, metade dos entrevistados entendia o gênero dessa maneira.

Conforme nosso sistema de comunicação por emojis continua a evoluir com nossa cultura, novos emojis estão sendo preparados para a versão 10 do padrão Unicode para ajudar a preencher algumas lacunas das opções de gênero e comunicar de maneira melhor a diversidade de gênero.

Os homens finalmente podem se alegrar porque há uma figura barbada para representar todos aqueles cuja identidade masculina não é completa sem barba. Da mesma forma, uma pessoa de véu foi adicionada para representar as mulheres que sentem que sua identidade feminina fica incompleta sem um véu.

Além de abrir caminho para esses símbolos visuais, esses emojis não contam com conceitos explícitos de gênero, a fim de que mulheres com barba e homens que usam véu possam ficar à vontade para pedir que os designers dos sistemas de celular incluam oções de emojis que os representem no futuro.

Emojis para a geração pós-gênero

A fim de preencher a parte intermediária desse espectro, criamos um conjunto de três novos emojis de gente com gênero inclusivo: figuras que foram concebidas para representar todas as pessoas, não importa seu gênero.

Esses emojis têm como intenção representar uma criança, um adulto, and uma pessoa idosa. Eu propus que esses emojis inclusivos quanto ao gênero fossem incluídos para que se ofereça uma representação melhor para pessoas que desejam expressar-se com emojis exatamente dessa forma: apenas como pessoas.

Criança, adulto e adulto idoso planejados para 2017.

Nem todo mundo se identifica como homem ou mulher. Alguns de nós se identificam como um pouco dos dois, ou nenhum dos dois, ou algo totalmente diferente. Não importa qua seja sua identidade de gênero, espero que possamos todos encontrar maneiras adequadas de nos representarmos em emojis.

Eu espero que adicionar mais opções de gênero nos emojis nos ajude a celebrarmos todos nossa unidade e nossa diversidade. Eu defendo que todos utilizem emojis com homens quando sentem-se masculines, emojis com mulheres quando querem expressar seus aspectos femininos, e emojis inclusivos quanto ao gênero quando querem celebrar nossa humanidade, não importa o gênero.

No que se refere à forma em que os emojis refletem nossa crescente compreensão de gênero, a adição de três emojis de gente inclusivos quanto ao gênero é apenas um primeiro passo. Para que a representação de gênero completa exista nos emojis, deve haver representações andróginas de emojis correspondentes a cada par homem/mulher.

É bacana que o Google e a Apple nos ofereceram roqueiros masculinos e femininos em tributo a David Bowie, mas um emoji de roqueiro andrógino representaria melhor o espírito de Bowie, na minha opinião.

Os tributos femininos e masculinos a David Bowie.

No momento, há algumas sugestões de como a Unicode pode fazer acontecer representações andróginas de emojis. Se elas forem aceitas, será possível escolher uma terceira opção, inclusiva quanto ao gênero, para cada emoji humano.

Com sorte, uma solução pode ser decidida ainda esse ano.

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