Conheça os livros didáticos chineses de educação sexual que não ensinam preconceitos

Conheça os livros didáticos chineses de educação sexual que não ensinam preconceitos

Adotados no ensino fundamental, os livros abordam homossexualidade, igualdade de gênero e fecundação de maneira honesta e progressista

por Marcio Caparica

Em 2011 o material Escola Sem Homofobia, que pretendia educar nossas crianças para serem mais tolerantes, foi taxado de “kit gay”. Depois de muita polêmica, o governo federal decidiu vetar sua adoção (mas quem quiser pode encontrá-lo no site da revista Nova Escola). Desde então não se tocou mais no assunto, qualquer tipo de educação sexual promovida nas escolas continua a ser feita mal e porcamente, de preferência ignorando questões de identidade de gênero e orientação sexual para “não fazer propaganda”. E, assim, o Brasil estacionou até ser ultrapassado… pela China.

Um novo método desenvolvido pela Universidade Normal de Beijing foi adotado pelo governo chinês. Entitulado de “Zhen’ai Shengming” (Aprecie a Vida), ele aborda de maneira clara e sem preconceitos questões como homossexualidade, abuso sexual e igualdade de gêneros, e mostra sem rodeios, com ilustrações explicativas, as realidades da puberdade, penetração e fecundação. Os livros começaram a causar controvérsias depois que uma mãe chinesa postou no Sina Weibo (o equivalente chinês do Twitter) imagens do método, dizendo-se bastante constrangida. Rapidamente o material ganhou defensores e detratores em iguais quantidades. Alguns chegaram a pensar que se tratava de um trote.

A repercussão na mídia chinesa, no entanto, confirma a autenticidade dos livros. A editora da Universidade Normal de Beijing declarou ao site China News Service que o material passou por uma análise cuidadosa antes de ser aprovado pelo governo (“经严格审核”). O jornal Diário do Povo, um veículo do governo chinês, publicou no Weibo uma declaração de que o método utiliza ilustrações claras para ajudar as crianças a compreender melhor o sexo, que os pequenos são puros e sem preconceitos, e que esses desenhos não deveriam ser intepretados com uma “perspectiva adulta” (“不能用成人的观点来看”).

O material chinês é de matar os educadores brasileiros de inveja. Já no segundo ano, os alunos aprendem sobre a igualdade de gênero: você pode ser excelente em qualquer coisa que você escolher ser quando crescer. Mulheres podem ser policiais excepcionais, ou astronautas, e homens podem ser ótimos enfermeiros ou professores infantis:

O livro também vai direto ao ponto na hora de explicar como bebês são feitos:

Mais tarde, a partir do quarto ano, os pimpolhos aprendem que tem gente que se apaixona por pessoas do outro sexo, tem gente que se apaixona por pessoas do mesmo sexo, e tudo bem:

Livro do quarto ano.

Livro do quinto ano: “o amor é uma coisa linda”.

Sexto ano: “uma minoria das pessoas sente atração por membros do mesmo sexo.”

Um professor explica para seus alunos: "a maioria das pessoas é heterossexual, mas também há quem sinta atração pelo mesmo sexo. Isso é um fenômeno completamente normal. Não se deve discriminá-los."

Um professor explica para seus alunos: “a maioria das pessoas é heterossexual, mas também há quem sinta atração pelo mesmo sexo. Isso é um fenômeno completamente normal. Não se deve discriminá-los.”

Os alunos também aprendem que a bissexualidade existe:

Uma aluna comenta: “Vocês ouviram sobre aquela celebridade que se declarou bissexual?”. Seu colega responde: “Mas a professora já não nos falou sobre isso? Tem quem goste de comida doce e de comida apimentada também. Não é pra ficar espantada.”

Todas as orientações sexuais devem ser tratadas com respeito:

Uma jovem conta para sua família que foi demitida da empresa onde trabalhava porque é lésbica. Sua família lhe dá apoio e afirma que ela deve lutar para ser tratada com igualdade.

No quinto ano é abordada a questão das doenças sexualmente transmissíveis. Os alunos aprendem sobre HIV, e que o preservativo é a melhor maneira de evitar essas doenças. As ilustrações deixam claro que é importante tanto para heterossexuais como para homossexuais usar camisinha se decidirem ter uma relação sexual:

O método também deixa claro que todas as orientações sexuais são capazes de vidas afetivas felizes, com relacionamentos construtivos, cheios de cumplicidade. O texto aponta que em alguns países já existe o casamento homoafetivo, apesar disso não ser possível na China “nesse momento”:

Um homem comenta como é bom chegar em casa todos os dias e encontrar um jantar delicioso preparado por seu marido.

Os alunos também aprendem que todos os tipos de casais podem ser pais:

O livro mostra casais gays e casais lésbicos em relações estáveis, tomando conta de seus filhos.

Mas o casamento não é a única fonte de realização! No capítulo sobre casamento, os alunos aprendem que tem quem se case e tem quem escolhe ficar solteiro. É um direito de cada um fazer essa escolha, todos podem ser felizes e todos devem ser respeitados:

Esses livros vêm em resposta à educação sexual deficiente que é ensinada nas escolas chinesas. Os casos de HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis está em alta na China. Grande parte dos jovens não sabe que existem métodos anticoncepcionais e recorrem frequentemente ao aborto – uma pesquisa feita em 2016 revelou que 10% das universitárias chinesas admitiam já terem feito pelo menos um aborto.

A iniciativa foi aplaudida por grupos LGBT (“China, finalmente você reconheceu a homossexualidade”, comemora uma organização de lésbicas). A reação de um médico também viralizou nas redes sociais chinesas: “quem diz que esses livros foram longe demais pensa que ignorância é sinônimo de pureza”.

E o Brasil, quando vai deixar de cair no mesmo erro?

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Um comentário

Rodrigo Lenhard Piedade

Que coisa mais linda abordar um amplo espectro das relações humanas, não se limita a dizer isso é isso e pronto, mostra que tudo isso é parte natural da vida. Um grande futuro realmente espera a China.

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