Chelsea Manning é o exemplo mais notório do efeito da transfobia nos presídios

Como a prisão de Chelsea Manning tornou-se ainda pior por causa do desprezo a sua identidade de gênero

por Marcio Caparica

Ontem o (ainda) presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, comutou a pena de Chelsea Manning para sete anos de prisão, o que significa que ela ganhará a liberdade em maio desse ano. Para quem não se lembra, em 2010, quando ainda atendia pelo nome de Bradley Manning e trabalhava como analista de inteligência no Iraque, ela vazou mais de 700 mil documentos do governo norte-americano para o site Wikileaks, entre eles um vídeo de um ataque aéreo em Bagdá no qual dois funcionários da agência Reuters foram mortos.

Em 2013 ela foi condenada a 35 anos de prisão por suas ações, uma pena alta – condenações anteriores de vazamentos de documentos para a imprensa até então haviam sido punidos com penas de até 3 anos de prisão. Muitos consideram que as autoridades norte-americanas decidiram fazer dela um exemplo, já que foi a primeira utilizar os meios digitais para vazar uma quantidade tão grande de documentos. No dia seguinte a sua condenação ela anunciou em um comunicado que é uma mulher trans e gostaria de ser chamada de Chelsea, com pronomes no feminino.

A punição e a soltura de Chelsea Manning são razão para debate na imprensa norte-americana, mas uma coisa é inegável: a maneira como a transfobia transformou a condenação da militar num suplício. Apesar de deixar clara sua identidade de gênero, Manning sempre foi enviada para prisões masculinas. Manning teve quaisquer tratamentos de adequação de sexo negados pelo exército até que um de seus advogados entrou com uma ação em setembro de 2014. Desde então, ela recebe hormônios e ganhou a permissão para usar roupas íntimas femininas, mas ainda não pode deixar crescer seu cabelo.

Chelsea Manning foi o alvo de represálias na prisão, recebendo punições severas e desproporcionais por “crimes” como possuir um tubo de pasta de dente vencido ou possuir uma revista com Caitlyn Jenner na capa. Seus aliados contam que os maus tratos e a falta de perspectiva de realizar a transição de gênero enquanto encarcerada foram as razões para que tentasse o suicídio em julho do ano passado. Mais tarde, em setembro, Manning entrou em greve de fome para exigir o mesmo tratamento médico que as prisões norte-americanas dão a outras detentas trans. Depois de cinco dias, ela recebeu a garantia de que receberia permissão para realizar a cirurgia de adequação de sexo. Permissão que nunca veio.

Mais tarde no mesmo mês, Chelsea Manning foi punida por sua tentativa de suicídio e confinada à solitária. Em outubro, quando ainda em solitária, ela tentou novamente se matar, enforcando-se com uma peça de roupa, mas guardas a impediram.

Com a eleição de Donald Trump – que já declarou que respeitar a identidade de gênero de soldados não passa de algo “politicamente correto” – as perspectivas para Manning se tornavam cada vez piores. Ativistas LGBT norte-americanos entraram com uma petição em dezembro de 2016, com mais de 100 mil assinaturas, pedindo que Obama salvasse Manning.

O presidente atendeu aos pedidos, reduzindo a pena de Manning para sete anos. Sua decisão não é um perdão, e nem ela busca ser considerada inocente – Chelsea Manning declarou-se culpada em seu julgamento. Na época, ela afirmou que ter vazado as informações do exército se devia em grande parte à disforia de gênero que sofria na época, e às dificuldades psicológicas que enfrentava para entender que não era um homem gay, mas sim uma mulher trans, enquanto vivia na zona de guerra. Nos meses antes de divulgar os documentos e ser presa em maio de 2010, Chelsea já vinha agindo de maneira imprevisível e havia enviado para um de seus supervisores, por e-mail, sua famosa foto usando uma peruca de cabelos longos.

Sua notoriedade tornou a vida atrás das grades mais difícil, mas também lhe deu uma plataforma com a qual exigir seus direitos. Inúmeras outras mulheres trans encarceradas em todo o mundo não têm essa mesma sorte. Quando voltar à liberdade, Chelsea Manning encontrará um mundo um pouco mais aberto a pessoas trans. Seu papel como ícone do movimento transgênero é certo. E necessário, dada a onda conservadora que cresce a cada dia.

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3 comentários

Anderson

Basicamente por ser trans deixa de ser um criminoso? Não, ele sabia o que fazia e as consequências! Nenhuma pessoa tem que receber tratamento diferenciado por causa de sua opção!

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ernesto freire pichler

o que importa não é sua preferência sexual, mas o fato de ser um herói (ou uma heroína) ao revelar as atrocidades dos “americanos”, criminosos de guerra. Merece, com Assange e Snowden, o Prêmio Nobel da Paz.

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