Por que só se dá atenção ao que houve em “Último Tango em Paris” quando Bertolucci admite?

Por que só se dá atenção ao que houve em “Último Tango em Paris” quando Bertolucci admite?

Mais uma prova da existência da cultura do estupro: quando, em 2007, Maria Schneider contou que foi violentada durante a filmagem, poucos deram ouvidos

por Marcio Caparica

Traduzido do artigo de Mariana Fonseca para o jornal The Independent

Quando Maria Schneider morreu, em 2011, ela tinha 58 anos. A atriz fez mais de 50 filmes e programas de televisão em sua carreira, mas o papel pelo qual ela ainda é mais lembrada é o da garota em Último tango em Paris. O filme de 1972, dirigido por Bernardo Bertolucci, é lembrado como um dos mais controversos da história, principalmente por causa de uma cena escandalosa em que o personagem de Marlon Brando usa uma barra de manteiga como lubrificante para estuprar analmente uma jovem interpretada por Schneider.

Brando, na época, tinha 48 anos e era um astro de Hollywood, enquanto Schneider tinha apenas 19 anos e ainda não passava de uma atriz francesa desconhecida. O filme rendeu indicações ao Oscar para Bertolucci e Brando, e atenção mundial para Schneider.

Recentemente surgiu um vídeo, gravado em 2013, em que Bertolucci discute essa cena, causando escândalo. Durante a entrevista o diretor admite que Maria Schneider nunca havia consentido em fazer essa cena tão infame com a manteiga. Ele revela que essa foi uma ideia que teve com Brando na manhã antes da filmagem – ideia que não havia sido comunicada para Schneider, já que não estava presente no script. Ele justificou sua decisão dizendo que “queria a reação dela como uma garota, não como atriz”. Ele não se arrepende de sua decisão.

A ojeriza e o espanto geral do público de agora é completamente justificável. Mas a informação não deveria surpreender a ninguém, já que em 2007 a própria Schneider já havia revelado que a cena não estava no script original e que ela havia se sentido violada pelo que aconteceu. Em uma entrevista concedida ao jornal britânico The Daily Mail, ela afirmou: “Ele apenas me contaram sobre essa cena quando já estávamos prestes a filmá-la, e eu fiquei com tanta raiva. Eu deveria ter ligado para meu agente ou ter pedido para que meu advogado viesse ao set de filmagem, porque é errado forçar alguém a fazer algo que não está no roteiro, mas, na época, eu não sabia disso. Marlon me disse: ‘Maria, não se preocupe, é só um filme’, mas durante a cena, o que Marlon estava fazendo não era de verdade, mas eu estava chorando de verdade. Eu me senti humilhada e, para falar a verdade, me senti um pouco estuprada, por Marlon e por Bertolucci. Depois da cena, Marlon não veio me consolar nem pediu desculpas. Felizmente a cena só foi gravada uma vez.”

Brando e Bertolucci receberam indicações para prêmios e elogios, enquanto a carreira de Schneider foi seriamente prejudicada pelo filme. Aos 20 anos ela era vista e tratada como um sex symbol, não como uma profissional séria. Depois do filme ela sofreu de depressão, vício em drogas e tentativas de suicídio. Ela nunca mais gravou cenas nua.

Muitos apressam-se em apontar que Schneider confirmou que a cena de estupro não passou de uma simulação e que não houve penetração de verdade entre ela e Brando – o que é verdade. No entanto, é importante destacar que o conceito de violência sexual não está limitado à penetração pelo pênis. Pelo contrário, a Organização Mundial de Saúde define violência sexual como “qualquer ato sexual, tentativa de obter um ato sexual, comentários ou avanços sexuais indesejados, ou ações para se realizar o tráfico, ou de qualquer maneira induzir, a sexualidade de uma pessoa contra sua vontade utilizando coerção.”

Schneider fez essa denúncia anos atrás e foi, em grande parte, ignorada. Foi apenas depois da confissão de Bertolucci – apesar de que ainda parece considerar sua decisão totalmente justificável porque estava ligada a um ato criativo – que esse fato sobre a cena repercutiu na mídia em geral e gerou revolta.

Quantos abusadores admitem o que fizeram? O simples fato de que Bertolucci sentiu-se seguro o suficiente para falar a respeito disso na televisão é prova da cultura do estupro em que vivemos. Uma cultura que autoriza ataques sexuais ao desvalorizar as declarações das mulheres e garantindo que homens vão se safar de praticamente qualquer coisa. Bertolucci estava à vontade para comentar a cena porque sabe que nada vai acontecer consigo.

E a pressa das pessoas em enfatizar que não houve penetração, como se isso significasse que, portanto, não há nada de errado com a cena e portanto está tudo bem, só comprova ainda mais que essa cultura existe. Uma mulher fala sobre todas maneiras em que um homem traiu sua confiança e fez com que se sentisse humilhada, violada – e estuprada. O mal que esse evento causou em sua vida pessoal e profissional é evidente. Mas, é claro, a principal preocupação tende a ser se houve ou não um “estupro de verdade”, segundo a definição dos comentaristas, em sua maioria homens, na internet.

Bertolucci vai continuar a fazer filmes e receber prêmios, assim como aconteceu com Roman Polanski e Woody Allen. E se você já se perguntou por que a maioria das vítimas de violência sexual decidem permanecer em silêncio, aqui está sua resposta.

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Um comentário

José de Souza

Eu nunca assisti o filme, e sempre que ouço as pessoas comentarem sobre a cena, da a impressão que é um trecho romântico, como se no calor do momento, o personagem usa a manteiga para a lubrificação… Lendo esse texto, fico ainda mais chocado, pois, as pessoas falam da cena como algo romântico…

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