Conheça o histórico aterrador de Fidel Castro contra LGBTs em Cuba

Conheça o histórico aterrador de Fidel Castro contra LGBTs em Cuba

O governo revolucionário do ditador cubano jogou gays em campos de trabalho forçado, discriminava homossexuais de todas as maneiras possíveis e expulsou LGBTs de sua ilha em grandes números

por Marcio Caparica

Traduzido do artigo de James Kirchick para o site The Daily Beast 

Fidel Castro foi várias coisas: revolucionário, comunista, orador loquaz. Enquanto passamos por tantas retrospectivas sobre sua trajetória decorrentes de sua morte aos 90 anos, não devemos nos esquecer que ele também foi opressor, torturador e assassino de LGBTs.

“Jamais chegaremos a acreditar que um homossexual é capaz de encarnar as condições e os requisitos de conduta que permitiriam considerá-lo um verdadeiro revolucionário, um verdadeiro militante comunista”, Castro declarou em entrevista em 1965. “Um desvio dessa natureza choca-se com o conceito que temos do que deveria ser um militante comunista.”

Na visão de Castro e seu camarada revolucinário Che Guevara – que frequentemente chamava os gays de maricones – a homossexualidade era algo inerentemente contrarrevolucionária, fruto da decadência burguesa. Os líderes uniram uma fixação ideológica ao machismo latinoamericano tradicional que já via a homossexualidade como algo negativo, tornando-o politicamente indesejável.

A polícia cubana começou a prender homossexuais pouco depois de Castro chegar ao poder. Em 1965 o regime criou campos de trabalhos forçados conhecidos como Unidades Militares de Ayuda a la Producción (UMAP – Unidades Militares de Auxílio à Produção), dentro dos quais eram jogados homossexuais, testemunhas de jeová, e outros elementos “indesejáveis”. Quando tomou conhecimento desse fato, a Mattachine Society – uma das primeiras organizações pelos direitos dos gays nos Estados Unidos – fez passeatas do lado de fora das Nações Unidas e da Casa Branca por dois dias. Quatro anos antes da mundialmente famosa Revolta de Stonewall, esses foram dois dos primeiros protestos pelos direitos LGBT realizados nos Estados Unidos. Nesse mesmo ano, Allen Ginsberg foi expulso de Cuba por espalhar rumores de que Raúl Castro – irmão de Fidel e seu sucessor como presidente de Cuba – era gay, e por dizer que Guevara era “uma graça”.

Colocar gays em campos de concentração não foi a única prática que Castro emprestou dos nazistas. Durante a crise dos mísseis de Cuba, segundo relatórios de inteligência alemães divulgados recentemente, o ditador quis contratar ex-oficiais da SS para instruir seu exército.

O regime cubano fechou as UMAPs no fim dos anos 1960, mas continuou a reprimir os gays por considerá-los elementos ideologicamente subversivos. Pessoas abertamente homossexuais eram impedidas de se filiarem ao Partido Comunista e eram demitidas de seus empregos. Um dos escritores mais célebres do país, Reinaldo Arenas, registrou o que ele e tantos outros gays passaram na prisão em suas memórias Antes que anoiteça. “Era um lugar sufocante sem banheiro”, escreveu. “Os gays não eram tratados como seres humanos, eram tratados como animais. Eram os últimos a saírem para as refeições, então os víamos passar por nós, e qualquer incidente insignificante era motivo para espancá-los sem dó.”

Os homossexuais eram boa parte dos 125 mil cubanos (“vermes”, nas palavras de Castro) que obtiveram permissão para deixar a ilha rumo aos Estados Unidos como parte do Êxodo de Mariel, em 1980. (O documentário Conduta imprópria, de 1980, que narra as histórias dos marielitos héteros e homossexuais, continua a ser uma das condenações mais contundentes ao regime de Castro). Quando o HIV chegou à comunidade gay da ilha no meio dos anos 1980, a resposta do regime foi isolar em quarentena todos os soropositivos em sanatórios, considerados “prisões bonitas” pelo fundador do Programa Global da Aids da Organização Mundial da Saúde.

Sem dúvida alerta para a maneira como os direitos LGBT haviam se tornado parte central da agenda da esquerda global, cada vez mais sensível às exigências das políticas de identidade, o regime cubano tentou nos últimos anos transformar-se numa vanguarda da liberação homossexual. Em 2010 Fidel Castro admitiu tardiamente que a maneira como sua revolução tratou os gays foi uma “grande injustiça”. Considerou que foi, no entanto, um pecado por omissão, não por intenção, algo que só aconteceu porque estava distraído, ocupado demais lutando contra os imperialistas ianques para ser capaz de impedir as atrocidades que eram cometidas em nome da revolução. Hoje a sobrinha de Fidel (filha de Raúl), Mariela Castro, é a principal ativista LGBT de Cuba, à frente de uma organização chamada Centro Nacional de Educación Sexual.

Mariela vem recebendo elogios por muitos no Ocidente por haver se tornado um vetor de mudança e progresso, e sua decisão de lutar pela aceitação de LGBTs pode até ajudar um pouco. Mas não importa o quanto a vida dos gays cubanos tenha melhorado desde a época quando eram enviados para campos de trabalhos forçados, qualquer mudança ainda ocorre dentro do contexto de uma sociedade totalitária em que os cidadãos não têm direito a voto, têm negadas as liberdades mais básicas, como o direito de protestar ou se pronunciar sem censura, e não têm permissão para formar organizações independentes do governo. Pelo contrário, o fato de que a ativista LGBT mais visível do país é a filha heterossexual de Raúl Castro já diz muito sobre a Cuba contemporânea.  Mariela é uma comunista ferrenha que desvia do passado tenebroso de opressão de LGBTs ligado a sua família, e sua cruzada pelos direitos LGBT cheira mais a um projeto de vaidade pessoal e culto à personalidade.

Mesmo assim algumas figuras progressistas do ocidente caem nesse teatro. Um exemplo é o primeiro-ministro canadense Justin Trudeau, defensor dos direitos LGBT em seu próprio país, que divulgou uma declaração elogiosa depois da morte de Fidel Castro. Apesar de admitir que o falecido era uma “figura controversa”, Trudeau derramou elogios: “eu sei que meu pai tinha muito orgulho de chamá-lo de amigo, e eu tive a oportunidade de encontrar Fidel quando meu pai faleceu… Estamos hoje juntos do povo de Cuba no luto pela perda desse líder excepcional.”

A morte de Fidel Castro é algo a ser celebrada. Mas a verdadeira liberdade para os LGBTs de Cuba vai permanecer uma ilusão enquanto a liberdade política for negada para todos os Cubanos.

 

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3 comentários

Bruno

Que bom que essa página tem textos mais divergentes do senso comum.

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Antonio Kleber

Fidel Castro nunca teve nada de controverso. Sempre foi um maniaco debil mental com mania de perseguicao, assim como todos que muito devem. Alem de psycopata foi tambem um grande oportunista, tornado-se dono de um pais inteiro, usando dele em seu proprio proveito e fazendo do seu povo uma manada com medo da propria sombra. Deve estar no inferno, assim como seus mestres.

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Nossa, muito obrigado por falar disso e sem relativizar e pondo pondo panos quentes como paginas LGBTI estão vergonhosamente fazendo no facebook, tava com muito medo de acontecer o mesmo com o Lado Bi mas fico muito feliz de ver que vocês põem os direitos LGBT acima de mera ideologia politica ♥

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