“Quem é o homem?”: o que a divisão de tarefas domésticas revela sobre questões de gênero

“Quem é o homem?”: o que a divisão de tarefas domésticas revela sobre questões de gênero

Decidir dentro de um casal homossexual quem é responsável pelas tarefas “masculinas” e as tarefas “femininas” em casa só ressalta a artificialidade desse tipo de divisão

por Marcio Caparica

Traduzido do artigo de Arwa Mahdawi para o jornal The Guardian

O que é que lésbicas fazem no quarto? Esse é um enigma, descobri com o tempo, de grande relevância para muitas mentes heterossexuais. Quem arruma a cama, por exemplo? Quem guarda a roupa lavada? Quem pega a furadeira na hora de pregar um quadro na parede?

Um novo estudo apresentado no Encontro Anual da Associação Americana de Sociologia, descobriu que, quando o assunto é casais homoafetivos, a maioria das pessoas acreditam que i parceire “mais masculine” e i parceire “mais feminine” deveriam serem responsáveis pelas tarefas mais “masculinas” e “femininas”, respectivamente. O estudo também descobriu que as pessoas tendem mais a pensar que há um “homem” e uma “mulher” na relação em relações lésbicas que em relacionamentos gays. Provavelmente, sabe, porque a ideia de um relacionamento sem qualquer presença masculina é absolutamente inconcebível.

Eu passei a maior parte da minha vida adulta em relacionamentos homoafetivos. Nesses anos todos, muitos idiotas já vieram me perguntar “quem é o homem?”. Em geral eu ignoro essas pessoas. Esse estudo, no entanto, fez com que eu reconsiderasse meus pontos de vista. Se há uma maneira de se livrar da faxina e da cozinha, sou toda ouvidos. E se, para isso, eu tiver que me declarar “o homem” do relacionamento, que seja.

Mas como é que alguém sequer descobre quem é a pessoa mais feminina ou masculina num relacionamento? A aparência física, obviamente, é um fator importante de como se enquadrar alguém. O mais interessante, porém, é que esse estudo sequer tocou na aparência física. Os entrevistados tinham que ler cenas que descreviam casais fictícios. O estudo apresentava características que costumam ser estereotipicamente relacionadas aos gêneros por meio de interesses (por exemplo, preferir filmes de ação ou comédias românticas) e então pediam para que os participantes decidissem quem no casal deveria realizar qual tarefa. (Deve-se registrar que as respostas à pesquisa seguiam a representatividade norte-americana. Noventa e dois porcento dos participantes eram heterossexuais, então as respostas não refletem necessariamente o pensamento das pessoas LGB.)

Por exemplo, uma das cenas descrevia um casal formado por Amy e Jennifer. Informava-se aos entrevistados que Amy (uma repórter) e Jennifer (uma fisioterapeuta) trabalhavam a mesma quantidade de horas, mas Jennifer ganha mais que o dobro do salário de Amy. Nos finais de semana, “Amy geralmente gosta de jogar beisebol quando elas saem de casa, ou assistir a um filme de ação se elas ficam em casa. Jenifer prefere ir às compras ou assistir a comédias românticas.” Como ela prefere comédias românticas e compras, a maioria das pessoas decidiu que Jennifer era a mulher no relacionamento, o que significava que ela cuidava das tarefas estereotipicamente femininas.

Será que eu sou como a Amy ou como a Jennifer. Depois de uma análise cuidadosa, eu decidi que meu entusiasmo pela franquia Velozes e Furiosos me tornava mais parecida com a Amy. Mas e a minha namorada? Será que ela pode ser uma Amy também? Como é que a sociologia vai lidar com isso? Imediatamente eu mandei uma mensagem para minha namorada com a questão sobre atividades para que ela escolhesse entre Amy e Jennifer. “Acho que eu não posso ser definida por esse formato de múltipla escolha”, ela respondeu. Isso é típico das mulheres, nunca responder de maneira direta, e algo bem Jennifer. Portanto, de acordo com o júri da opinião heterossexual, ela deveria fazer as compras no supermercado. Ufa!

A Associação Americana de Sociologia não é a primeira organização a conduzir estudos como esse. Pesquisas sugerem que casais homoafetivos têm relacionamentos mais igualitários que os casais heterossexuais, e compartilham melhor as responsabilidades nos cuidados dos filhos. No entanto, uma das pessoas ainda acaba responsável por uma fatia maior das tarefas domésticas. De fato, um estudo feito em 2015 pelo Families and Work Institute (FWI) descobriu que havia apenas duas tarefas domésticas que os casais homoafetivos dividiam de forma mais igualitária que os casais heterossexuais: lavar roupa (44% versus 31%) e reparos na casa (33% versus 15%). Não havia, no entanto, qualquer indício de que a divisão das tarefas tradicionalmente ligadas a um sexo ou outro estava ligada a uma pessoa preferir encarnar “o homem” e outra “a mulher” do casal.

Decidi consultar váries amigues homossexuais sobre a maneira como repartiam as tarefas domésticas numa pesquisa extremamente científica realizada num grupo de WhatsApp. Algumas apontaram que já se pegaram recaindo em situações estereotipadas à la Amy/Jenifer. “Quando me relacionei com mulheres super mocinhas eu acabo me sentindo mais masculina, e tendo a abrir a porta, pagar a conta mais vezes etc.”, admitiu H. “Acho que que os papéis de gênero são similares à sexualidade”, ponderou M. “É algo fluido e pode mudar dependendo da pessoa com quem você está envolvida no momento”.

Às vezes seu papel de gênero também pode se transformar dependendo na tarefa do momento. Minha amiga V. aponta que muitas vezes ela acaba se fazendo de mocinha em seu relacionamento para não ter que levar o lixo para fora.

No fim das contas, acho que Judith Butler tem a opinião mais sensata sobre isso tudo. “Os homossexuais estão para os heterossexuais não como a cópia está para o original, mas sim como a cópia está para a cópia”, escreveu. Em outras palavras, não importa onde você está no espectro da sexualidade – todo gênero é performatividade. Algumas feministas consideram que a dinâmica bofinho/mocinha é algo retrógrado – uma reprodução errônea das normas heterossexuais – mas Butler enxerga essa performatividade como algo que efetivamente revela como as normas heterossexuais são construções para começar. Afinal, depois que se começa a destrinchar o processo mental que decide quem está mais apta para levar o lixo para fora tendo por base quem prefere assistir Velozes e Furiosos 7 e quem prefere assistir Simplesmente Amor, difícil é não perceber que a ideia de tarefas “femininas” e tarefas “masculinas” é na verdade uma grande bobagem.

Ainda há um grande desnível com relação às tarefas domésticas na cultura heterossexual; um desnível que pouco se alterou nos últimos dez anos. Para que o trabalho doméstico finalmente se divida de maneira mais equânime dentro dos casais heterossexuais, talvez fosse uma boa que todos se sentassem e conversassem com seus parceiros para descobrir quem é a “Amy” e quem é a “Jennifer”. No final, até o essencialista mais emperdenido pode se convencer que o gênero não é apenas performatividade – às vezes, é uma farsa.

Participe da discussão! Deixe um comentário:

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Um comentário

João Paulo

E incremento com sexo, quem faz só ativo e passivo de certo modo está levando para a cama conceitos completamente artificiais. No imaginário coletivo ainda se encontra muito presente a ideia de que ser passivo significa ser uma espécie de mulher, o macho é o ativo. Sinceramente, se o homem é gay ele gosta de penetrar e ser penetrado. Pode gostar mais de uma prática do que da outra, mas isso de ser só ativo e passivo não me convence, mas estou aberto a discussão porque não estou dando um veredito científico ou algo do tipo. Não mesmo. Conheço ativos que de maneira alguma querem ser penetrados, e falam isso com uma força que remete ao ódio, e esse tipo de comportamento só mostra como os papéis artificiais da heterossexualidade ainda se encontram muito presentes nas relações homossexuais.

Reply