Assexualidade: como a internet criou o movimento assexual

Assexualidade: como a internet criou o movimento assexual

Graças ao poder agregador da internet, em pouco tempo uma sexualidade até então ignorada ganhou nome, identidade e construiu uma comunidade

por Marcio Caparica

Traduzido do artigo de Kristen V. Brown para o site Fusion

Há uma década, quando Bauder estava no segundo ano do Ensino Médio, ela se sentia excluída de todos os círculos conforme seus amigos eram tomados pelos ardores da luxúria adolescente. Uma maníaca obcecada por sexo, com certeza, ela não era. Ela ficava apaixonada por outras pessoas, mas nunca sentiu atração sexual. Uma amiga descrevia querer dormir com um ex que não amava mais, e Bauer não conseguia entender. Desejar alguém apenas pelo sexo não fazia sentido. Ela não compreendia.

Uma amiga sugeriu que ela talvez fosse assexual.

“Minha reação foi, ‘eu não sou uma planta!'”, lembra Bauer, agora com 27 anos, que pediu para que se usasse apenas seu primeiro nome nesse artigo. “Eu só havia escutado a palavra ‘assexual’ nas aulas de biologia.”

Por anos, lhe falaram que ela apenas não havia encontrado a pessoa certa, e ela pensava que essa explicação fazia sentido. Mas então ela digitou o termo “assexual” no Google. O primeiro resultado relevante levava para um site chamado AVEN – “The Asexuality Visibility and Education Network”, ou Rede de Visibilidade e Educação sobre Assexualidade. A página inicial lhe dava as boas vindas com uma definição que parecia descrever quem ela era.

“Diferentemente do celibato, que é uma escolha, a assexualidade é uma orientação sexual”, dizia. “Pessoas assexuais têm as mesmas necessidades emocionais que todas as outras pessoas, e são igualmente capazes de formarem relacionamentos íntimos.”

O site havia estreado em 2001, e tinha aproximadamente 10 mil membros registrados. Por meio dele, Bauer se inscreveu num site de relacionamentos assexuais, mas encontrou apenas uma outra pessoa que morava em seu estado. “Eu realmente tinha a preocupação de que seria solitária para sempre”, conta. Ela decidiu fazer faculdade na Universidade de Nova York, pensando que a comunidade assexual seria maior por lá. Não era.

“A internet realmente foi o único lugar onde se poderia ter uma comunidade”, afirma.

A comunidade parecia pequena para Bauer, mas existia. Ela não estava sozinha. Ela tinha algo em comum com pelo menos outras 10 mil pessoas na rede.

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Se uma coisa pode ser considerada o grande triunfo da internet, é seu poder de conectar pessoas isoladas em lugares distantes com outras almas de pensamentos semelhantes. Hoje a ideia de que há uma comunidade online para cada subcultura, não importa quão estranha, já se tornou um clichê cansado. Mas, enquanto a internet fortaleceu e aumentou o número de membros das comunidades homossexuais, comunidades transexuais e comunidades de pessoas com fetiches como BDSM, a comunidade assexual é única pelo fato de não existir de verdade antes do surgimento da internet.

Em 2001, quando o fundador da AVEN, David Jay, havia acabado de entrar na Universidade Wesleyan em Connecticut, não havia uma comunidade online de verdade. Ele pesquisava o termo assexual – uma palavra que havia descoberto quando adolescente para descrever a si mesmo – e os resultados das buscas retornavam páginas e mais páginas sobre biologia vegetal.

“Eu nunca havia conversado com outra pessoa assexual, e queria muito, muito mesmo. Eu procurava em todas as partes por indícios de que havia outra pessoa como eu, e não conseguia encontrar”, lembra-se Jay. “Eu não achava que estava sozinho, mas não tinha certeza.”

Durante as férias de fim de ano, Jay visitou um amigo na Universidade de Stanford que sugeriu que ele expandisse suas buscas com um troço novo chamado Google. O site retornou um resultado, um post de um blog escrito por alguém que falava como era ser assexual.

“Foi incrivelmente emocionante”, recorda-se. “Eu tinha tanta incerteza dentro de mim sobre se eu tinha permissão para ser aquilo que eu sentia ser.”

Jay havia aprendido um pouco de HTML e, em março de 2001, colocou no ar um website em sua página na universidade para tentar encontrar outras pessoas como ele. Ele a batizou de Human Asexual Visibility and Education Network, ou HAVEN (Rede de Visibilidade e Educação Humana Assexual). Mais tarde ele descartou o “H”.  Sua primeira versão consistia de pouco mais que a definição da assexualidade e um pedido para que aqueles que se identificassem como assexuais lhe enviassem um e-mail. As mensagens começaram a chegar aos poucos.

“Eu comecei a entrar em contato com mais pessoas”, conta, “e surgiu a senação de que estávamos encontrando nossa comunidade pela primeira vez.”

Assexual - Netflix e ficar abraçadinho

“Netflix e ficar abraçadinho”

Há alguns outros poucos lugares em que pequenos números de pessoas assexuais começaram a se reunir online, mas nenhum parece ter o mesmo alcance que o AVEN. Segundo Andrew Hinderliter, sociolinguista da Universidade de Illinois, a primeira comunidade assexual da internet foi a seção de comentários de um artigo entitulado “My life as an amoeba” (“Minha vida de ameba”), publicado pela Starnet Dispatches em 1997. Então, no começo de 2001, um pequeno grupo de e-mails do Yahoo chamado the Haven for the Human Amoeba (O refúgio da ameba humana) iniciou uma troca de mensagens. Jay, depois de algum tempo, entrou nesse Yahoogroup, e com ele inspirou-se para tornar AVEN ainda maior.

Em março de 2002 Jay comprou o domínio Asexuality.org, e abriu um fórum em que as pessoas poderiam se encontrar e compartilhar suas histórias sobre descobrir que se é assexual. Assim como Jay, a maioria delas nunca havia conhecido antes outra pessoa assexual.

“Assim como eu havia inventado essa palavra, havia milhares e milhares de outras pessoas que haviam feito a mesma coisa”, espanta-se Jay. “Eles haviam, independentemente, capturado a palavra ‘assexual’ do ar para descreverem a si mesmos, feito uma busca no Google e então descobriram nossa comunidade. Nossos primeiros 2 mil membros chegaram a nós dessa maneira.”

Não é como se a história jamais houvesse reconhecido a existência da assexualidade anteriormente. Nos meados do século 20, quando Alfred Kinsey desenvolveu a escala Kinsey para medir as pessoas de 0 a 6 de acordo com sua orientação sexual, de heterossexual a homossexual, ele incluiu uma outra categoria, “X”, para indivíduos que não tinham “nenhum contato ou reação socio-sexual”.

Mas, a despeito disso, a assexualiade permaneceu em sua maior parte sem ser estudada e ausente das conversas sobre sexualidade, na cultura popular ou em qualquer outro lugar. Quando o AVEN foi ao ar, ele preencheu uma enorme lacuna.

“Ele ofereceu às pessoas um recurso amigável, e deu uma cara real (apesar de virtual) para as pessoas assexuais”, explica Anthony Bogaert, um pesquisador sexual da Universidade Brock no Canadá, e autor de Understanding Sexuality (“Compreendendo a sexualidade”). “O AVEN foi muito importante para forjar as identidades assexuais.”

Em 2004 Bogaert publicou no Journal of Sex Research um artigo amplamente divulgado que avaliava que 1% da população do Reino Unido era assexual. A revista The New Scientist repercutiu o artigo com uma matéria de capa, declarando que “a assexualidade é sim uma forma de orientação sexual”. Matérias no jornal The New York Times e na revista New York vieram em seguida. Jay, que havia acabado de terminar a faculdade, passou a circular pela mídia em programas como The View, em aparições na MTV, e no France 24. Até o crítico de moda Tim Gunn declarou-se assexual.

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Com toda essa nova atenção, a definição de assexualidade refinou-se e se expandiu, para também abarcar um espectro de preferências sexuais e românticas. Aqueles que são arromânticos não sentem atração romântica, além de não sentirem atração sexual. Pessoas panromânticas sentem atração por todos os gêneros, mas nenhum desejo sexual. Aqueles que se identificam como demirromânticos ou demissexuais estão num ponto intermediário. Muitas pessoas assexuais simplesmente referem-se a si mesmas como “ace”, um apelido fonético encurtado do termo “assexual” em inglês, “asexual”.

“Há muitas pessoas tentando definir quem é ou não é assexual”, pondera Jay. “Mas eu gosto de pensar que a assexualidade é uma ferramenta, não um rótulo. Se ela é útil para você, utilize-a. Se não for mais útil, pode deixá-la de lado.”

Desde que Jay tomou a iniciativa de colocar na internet uma página perguntando se havia mais alguém como ele por aí, a comunidade assexual explodiu, tanto online como offline. Há websites para relacionamentos assexuais, grupos de encontro, uma semana da Consciência Assexual e uma bandeira do movimento assexual. Esse é um campo de pesquisa em crescimento. É até uma caixa que pode ser marcada para se descrever a própria sexualidade no OK Cupid.

A bandeira do movimento assexual

A bandeira do movimento assexual

A principal função da comunidade online, no entanto, ainda é ouvir o chamado daqueles que lançam suas perguntas na amplidão da internet. Há agora, no Tumblr e no Twitter, redes vastas que existem, essencialmente, para responder perguntas sobre a assexualidade e garantir para aqueles em busca de identidade que não, isso não é esquisito. Locais como a página no Tumblr e o canal de Youtube Aces Wild oferecem conselhos e apoio, com vídeos que tratam de noções básicas como “quais são as diferenças entre excitação, desejo e atração” e responde a perguntas como “se eu não me excito quando vejo pessoas nuas ou não penso muito a respeito disso, quer dizer que sou ace?”. No Twitter, os usuários congregam-se com a hashtag #asexual.

É claro que a internet não criou a assexualidade, mas, de certa forma, ela lhe deu um rosto e um nome.

Vários estudiosos consideram diversas teorias para o porquê de ter levado tanto tempo para que a identidade assexual se condensasse: talvez não houvesse antes um termo unificador o suficiente, ou faltasse uma força opressora que obrigasse que as pessoas assexuais buscassem ter força em números.

Seja qual for o enfoque, a história da comunidade assexual é a história do poder da internet de redefinir de maneira radical não apenas o mundo, mas nós mesmos. O mainstream não existe nos rincões da internet. Há apenas infinitas rachaduras e reentrâncias esperando para serem preenchidas por um novo nicho.

Quinze anos atrás, um jovem universitário digitou uma palavra na caixa de busca do Google. Hoje essa palavra é uma identidade acolhida por milhares de pessoas.

Bauer e Jaysen, duas integrantes da comunidade assexual de Nova York

Bauer e Jaysen, duas integrantes da comunidade assexual de Nova York

Ano passado, quando Jaysen, 18 anos, entrou na Universidade de Nova York, havia não apenas um clube Ace na cidade, mas também um dentro do campus. Jaysen trombou com o termo assexual quando tinha 16 anos, depois de seguir uma pessoa no Tumblr que se identificava como assexual. Uma busca no Google revelou uma gama de recursos, e uma resposta que descrevia uma identidade que Jaysen não havia sido capaz de descrever adequadamente antes.

“Há essa ideia de que alunos universitários têm que ser sexualmente ativos e explorar as possibilidades do sexo, então é importante descobrir outras pessoas como eu”, comemora Jaysen. “Não fosse a internet, eu não haveria descoberto uma palavra para essa sensação. Algumas pessoas não gostam de rótulos, mas no meu caso ele faz com que eu me sinta como eu mesma.”

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