Criadora de “Steven Universo” explica a importância de personagens LGBT para crianças

Rebecca Sugar conta por que decidiu oferecer, com o romance entre Rubi e Safira, um exemplo de amor homossexual nas animações: “todas as crianças têm o direito de sonharem com o amor”

por Marcio Caparica

Traduzido do artigo de Eleanor Tremeer para o site Moviepilot

O tópico da representação LGBT nos desenhos animados é repleto de tensão, mas é algo com que Steven Universo vem lidando com facilidade. A criadora da série, Rebecca Sugar, construiu os relacionamentos entre os personagens lentamente, mostrando a emoção e afeição que sentem, deixando claro em vários episódios, no entanto, que essas personagens femininas têm sim sentimentos românticos umas pelas outras.

O caminho até esse tipo de representação não foi sempre fácil para a série Steven Universo, que ainda sofre com a censura em vários países, mas Sugar é uma defensora ardorosa de se oferecer um espelho para as pessoas que muitas vezes sentem que não têm um lugar na grande mídia.

Num dos episódios mais recentes de Steven Universo, Rubi e Safira “flertam” entre si (e, sim, é esse o termo utilizado para descrever o que acontece entre as duas gemas), sem dúvida recompensando Sugar por seus princípios.

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Um conto de fadas sobre o amor

Em última instância, argumentou Sugar durante palestra para a Sociedade de Ilustradores da School of Visual Arts, a representação LGBT não é uma batalha política nem questão de tomar posições – ela é algo vital para o desenvolvimento das crianças.

Não se pode esperar até que as crianças já estejam adultas para deixá-las saber que pessoas LGBT existem. Há essa ideia de que isso é algo que só deveria ser discutido entre adultos – isso é completamente errado. Se você esperar para contar para os jovens LGBT que a maneira como eles se sentem importa, ou mesmo que são pessoas como as outras, daí já vai ser tarde demais!

Ao comentar sobre como a heteronormatividade está presente em tudo, Sugar apontou que não permitir que crianças enxerguem-se nas histórias que amam pode ser muito prejudicial. Jovens LGBT vivem em grande risco de tornarem-se sem-teto e de cometerem suicídio; o argumento de Sugar não poderia ser mais pertinente. Na maioria dos contos de fada a ideia do amor verdadeiro está intrinsecamente ligada ao final feliz, e por consequência, felicidade na vida. É simplesmente uma grande injustiça negar-se essa visão de esperança para algumas crianças, afirma Sugar.

Eu penso muito sobre os contos de fadas e os filmes da Disney, e como o amor é algo que é sempre discutido com as crianças. Falam para as crianças que você tem que sonhar com o amor, com esse amor que você vai ter e satisfazer todas suas necessidades. O príncipe encantado e Branca de Neve não são os pais de alguém, eles são alguém que se almeja ser. A gente sonha com esse futuro em que se encontrará a felicidade. Por que é que nem todos podem ter isso? Eu adorava os filmes da Disney quando era pequena, mas nunca senti que eles eram como eu.

Esse raciocínio é evidente em todo Steven Universo, desde a estrutura da trama, que remete aos contos de fadas, às imagens que Sugar emprega – claramente inspirada pelas histórias mais românticas da Disney.

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Desenvolvendo a própria identidade

Há quem veja a representação LGBT como algo político, mas no fim das contas, apenas um princípio a ser discutido ou uma tentativa de se provocar mudanças sociais. É, sim, uma questão de se oferecer às pessoas, e, nesse caso, às crianças, uma oportunidade de compreenderem a si mesmos. Vários estudos já comprovaram que a ficção nos ajuda a entender quem somos ao oferecer personagens com quem nos identificamos. Quando se nega isso a um certo grupo de pessoas, essa população se sente isolada e inadequada desde o início de seu desenvolvimento como pessoa. Isso é cruel.

É essa a razão por que Steven Universo é tão importante. O seriado tomou decisões muito inteligentes, ao construir as tramas lentamente, enquadrar sutilmente alguns momentos como românticos, e cuidadosamente utilizar palavras como “amor” e “flertar” para descrever o relacionamento entre Rubi e Safira.  Ao invés de chegar com o pé na porta com esses fatos – de que essas duas personagens se amam – Steven Universo sublinha a realidade de que essa relação é saudável e amorosa, e então prossegue para deixar explícito de que é, inegavelmente, romântica.

A primeira fusão entre Rubi e Safira

A primeira fusão entre Rubi e Safira

Isso não se restringe a Rubi e Safira, no entanto: muitos fãs já perceberam o florescer de uma atração entre Peridot e Ametista, e o amor de Pérola por Quartzo Rosa vai muito além do subtexto.

E se tudo o que está acontecendo na telinha não for o suficiente, Sugar escreveu um livro com a adaptação do episódio “A resposta”, que deve oferecer às crianças o conto de fadas queer que Sugar sempre quis. E, no fim das contas, é isso que importa – mostrar às crianças que, não importa quem se ama, todos merecem um final feliz.

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7 comentários

Paulina

Eu amo muito esse desenho, ele tem um conteúdo incrível e é simplesmente linda a forma como representam as mulheres como “herói” da história, nesse caso são heroínas. E o pequeno Steven, nem se fala, ele é um menino maravilhoso, que possui qualidades impecáveis. Na primeira vez que vi esse desenho eu até me assustei com tanta coragem e gentileza em uma garotinho fofo. Bem, porque ultimamente a idéia de “herói” da história é basicamentes: um homem forte que salva a mocinha em perigo. O legal de Steven Universo é que o cenário está sempre mudando em várias situações, sejam elas perigosas sim ou não…Eu não tenho palavras para descrever a magnitude desse desenho. É como ler um livro, na qual agente entra na história, sente e vive o mesmo que os personagens. Mas agora mudando de assunto; desenhos que incluem o LGBT é muito importante, muito mesmo, pelo menos para mim, porque ele está representando algo incrível: A igualdade.
As crianças e adolescentes ainda estão descobrindo o mundo, estão aprendendo coisas novas. Se eles não aprenderem agora, na fase das primeiras descobertas, que, pessoas LGBT são como qualquer um de nós, são iguais e merecem respeito independente da sua opinião sexual; elas vão crescer com a idéia deque: “homem com mulher é o certo, qualquer outros tipo de relacionamento é errado; é nojento; é estranho e etc.” Ou seja, vão praticar bullying, preconceito, vão difamar a imagem de alguém só porque essa pessoa seja LGBT, porque não aprenderam quando eram crianças a ter o devido respeito à essas pessoas. Por isso, na minha opinião, as aparições LGBT é muito importante nos desenhos.

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Gustavo

Essa animação me deslumbrou ao apresentar temáticas tão reais e práticas. Muito além do tema homossexualismo, eu vi o tema “relacionamentos” e como lidar com a dor, a mudança, o futuro e os sentimentos. Na minha opinião até adultos deveriam assistir essa animação mas ela cumpre seu papel que é trazer a mudança a longo prazo começando obviamente pelas crianças. Gostaria que fosse feita um post sobre os temas mais “cabeça” abordados no desenho. Tenho 17 anos e essa animação me fez assumir muitas realidades que o moralismo excessivo e hipócrita muitas vezes me fez criar bloqueios.

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JJ

Esse desenho me deixa muito apreensivo, nunca sei se vou acabar chorando. As vzs a história meio que perde o sentido e é nitidamente por causa da censura. Uma pena.

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Isabella Felipe

Sim, mas infelizmente para a Pérola esse amor não era correspondido: a Rose amava a Pérola como a uma filha ou amiga, não como a uma amada.

Felizmente a série sugeriu um novo possível interesse amoroso para a Pérola no episódio da Garota Misteriosa. Vamos ficar na expectativa de que a Garota Misteriosa reapareça futuramente.

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