Massacre na boate Pulse: a longa história de violência em bares LGBT nos EUA

O crime horrendo no clube gay em Orlando é apenas o mais recente dentre incêndios e tiroteios causados pela homofobia e transfobia nas últimas décadas

por Marcio Caparica

Traduzido do artigo de Mark Joseph Stern para o site Slate

O tiroteio na boate LGBT Pulse, que fez mais de 50 vítimas, é apenas o capítulo mais recente numa longa história de violência em bares e casas noturnas LGBT nos Estados Unidos. Desde que pessoas LGBT começaram a se reunir em seus próprios espaços, na verdade, esses ambientes tornaram-se alvos para violência homofóbica e transfóbica brutal.

Até o massacre na boate Pulse, o ato de violência mais conhecido contra um bar gay foi o incêncio do UpStairs Lounge, um bar gay, em 1973. Um criminoso incendiou o estabelecimento, matando 32 pessoas em menos de 20 minutos. A maioria dos políticos na época ignorou o incêndio, e o arcebispo católico de Nova Orleans não ofereceu qualquer tipo de apoio às vítimas. (Em 2013, a arquidiocese pediu desculpas formais por seu silêncio.) Muitos veículos de comunicação ignoraram a história; alguns dos que se deram o trabalho de noticiá-la ridicularizavam as vítimas. Por exemplo, muitos jornais publicaram o depoimento de um motorista de táxi que disse “espero que o fogo tenha queimado o vestido delas”, e vários radialistas perguntavam em seus programas “Como se enterra as cinzas das bichas? Dentro de potes de frutinhas”. Ninguém foi indiciado por esse crime. Quando perguntado sobre a identificação das vítimas, o detetive-chefe do Departamento de Polícia de Nova Orleans respondeu: “Sequer sabemos se esses documentos realmente pertenciam às pessoas que os portavam. Tinha muito ladrão lá, e você sabe, esse era um bar de bichas”.

Em 1997, Eric Robert Rudolph explodiu bombas no Otherside Lounge, uma casa noturna lésbica em Atlanta, e explicou posteriormente que ele acreditava que “o esforço conjunto para se legitimar a prática da homossexualidade” era um “ataque contra a integridade da sociedade norte-americana”. Ele descreveu a homossexualidade como um “comportamento sexual aberrante”, e escreveu que “quando se tenta reconhecer esse comportamento como algo tão normal e legítimo quanto a relação natural entre um homem e uma mulher, deve-se fazer todo esforço para barrar esse esforço, até usar força, se necessário”. Em sua confissão, Rudolph disparou contra a “agenda homossexual” que incluía “casamento gay, adoção por homossexuais, leis que criminalizavam a violência contra gays, ou a tentativa de se normalizar a homossexualidade no currículo de nossas escolas”.

Três anos depois, Ronald Gay metralhou o Backstreet Cafe, um bar gay em Roanoke, Virgínia, assassinando Danny Overstreet, 43 anos, e ferindo gravemente seis outras pessoas. Gay estava com ódio porque seu sobrenome também significava “homossexual” e disse que Deus lhe deu ordens para matar gays. Ele se declarou um “soldado cristão trabalhando por meu Senhor” e declarou em seu julgamento que “desejava ter matado mais bichas”. Mais recentemente, em 2013, Musab Mohammed Masmari ateou fogo ao Neighbours, uma casa noturna gay no bairro de Capitol Hill em Seattle, na véspera de ano novo. Masmari explicou que acreditava que gays “deveriam ser exterminados”.

Esses ataques, é claro, são apenas expoentes entre milhares de crimes de ódio contra LGBTs que ocorrem publicamente todos os anos – em escolas, banheiros e parques, nas calçadas, e muitas vezes em plena luz do dia. A lei federal norte-americana não criminalizava explicitamente atos de ódio contra LGBTs até recentemente, já que o presidente George W. Bush ameaçava vetar qualquer legislação que criminalizasse agressões com base na orientação sexual ou identidade de gênero. Com o apoio do presidente Barack Obama, a Lei de Prevenção contra Crimes de Ódio de Matthew  Shepard e James Byrd Jr. finalmente foi aprovada em 2009. Ela obteve apenas cinco votos do partido Republicano no senado, e seu oponente mais ferrenho, o senador republicano Jeff Sessions, criticou seus colegas por “ceder à causa política do momento”.

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7 comentários

Carlos Cândido

O islã não e uma religião, não existe religião que cause dor,sofrimento,morte, se alguma religião assim agir não podemos trata la como crença divina,não passa de uma quadrilha que se organizou ao longo dos seculos , usando do medo e terror de todas as formas de sofrimento , derramando sangue inocente para expandir seu domínio, os americanos e também a europa estão enganado ao pensar que deixando refugiados entrarem em seus países , estendendo a eles os direitos humanos vão esta sendo justos , dignos,
Engano essa gente não respeita e não entendi os direitos humanos , tem como objetivo impor a todos suas crenças, e por mais inocente que seja o pobre cidadão que enganado pensa está servindo a deus ao um bem maior , eles tem como objetivo segui os mandamentos do seu livro , eles tem como plano entrarem e multiplicarem se , depois usarem da politica para mudarem as leis e começarem o movimento de dentro para fora . acredito que não ha mais tempo , e excesso de zelo por direitos humanos foram a própria morte do ocidente , em breve chegaram aqui .

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Marcio Caparica

Ter causado dor e sofrimento a pessoas é algo que pode-se dizer de todas as religiões: basta ver o sofrimento que a fé evangélica causa em muitas pessoas no Brasil (não apenas LGBTs), a que a fé católica causa em inúmeros países (inclusive o Brasil), ou a que os missionários protestantes norte-americanos estão causando em países na África, que estão adotando legislações que proíbem a homossexualidade por influência desses pastores. Todas as fés têm como objetivo aumentar seu número de fiéis, seja por conversão ou reprodução. E a maioria delas tem um livro ou texto sagrado a ser seguido, e que muitos seguem cegamente (quem já não ouviu alguém dizer que tal coisa é proibida porque está na Bíblia?). A convivência é a solução para atitudes xenófobas como a sua. A convivência é a morte de preconceitos – contra raças, contra religiões, contra orientações sexuais, contra identidades de gênero. Direitos humanos não é algo relativo, dependente da “religião certa”. São absolutos, para todos os seres humanos que vivem na Terra.

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André

Vamos ver se eu entendi, os evangélicos quando querem tirar os nossos poucos direitos adiquiridos temos que fazer protestos, Bolsonaro e Malafaia são os maiores inimigos dos gays, mas quando os muçulmanos exterminou os gays nós devemos lutar a favor deles é isso mesmo? Gays a favor dos muçulmanos serei a mesma coisa que judeus a favor dos nazistas?

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Marcio Caparica

O direito à religião é universal. Não podemos dizer que TODOS OS MILHÕES DE MUÇULMANOS querem matar gays, porque isso simplesmente não é verdade. Temos que lutar para conquistar direitos iguais para LGBTs de todas as religiões, e educar todos os membros de todas as religiões para que entendam que ser LGBT não é pecado e muito menos motivo para agressão. Com generalizações como essa, poderia-se dizer que todos os evangélicos e todos os católicos também são inimigos de LGBTs – o que sabemos que também não é verdade. Bolsonaro e Malafaia são o tipo de evangélicos que combatemos, porque não pregam a tolerância e o amor, pregam o ódio e a segregação. Muçulmanos como os fundamentalistas do Estado Islâmico devem ser combatidos, porque causam atos de terrorismo e ódio como esse de sábado. Há muito mais muçulmanos no mundo, no entanto, que sequer concordam com medidas violentas em nome de sua fé, muito menos apoiam atos terroristas. E há muitos muçulmanos que aceitam outros muçulmanos LGBTs. O Islã não é uniforme, assim como não é uniforme o catolicismo, o protestantismo, o budismo e qualquer outra religião.

Para finalizar, trazer nazistas para qualquer discussão é sinal de falta de argumento.

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Anna

Verdade, nem todos os muçulmanos são homofóbicos. Mas são muito provavelmente o grupo religioso mais intolerante nessa questão, o que mais mata homossexuais ao contrário do catolicismo que avançou muito (padre Fábio de Mello postou foto com travesti e o Papa já dialogou com trans e gays) e até dos evangélicos que, pelo menos, não tem uma campanha em massa para matar os gays ou retirar deles direitos fundamentais (vida, liberdade, educação…), mesmo o Bolsonaro ficou mais moderado nos últimos tempos no seu discurso preconceituoso. E num plano internacional, isso também se repete: os países mais intolerantes a gays e que menos avançaram socialmente são os de matriz islâmica, curioso não?
A cultura muçulmana é muito homofóbica e atrasada, e me assusta que a mídia de esquerda sequer citou isso, observe que é o tempo todo a discussão que vivemos em uma cultura do estrupo, que a sociedade ocidental é machista, que todo homem é um potencial estuprador, que a Globo manipula as massas, que a grande mídia é seletiva contra o PT e ser contra o PT é ser alienado, mas questionar a cultura islâmica não é um ponto mencionado, tudo vem da homofobia e esse é só mais um caso desse tipo (infelizmente não é, isso é terrorismo islâmico e se espalha pelo mundo). Eu não vejo como não associar a religião e cultura islâmica com tanto preconceito e atos tão bárbaros, infelizmente. Eles não avançaram, ainda não conseguiram separar o Estado da religião e construir uma cultura tolerante (mas é claro, há pessoas nesse meio tolerante que são exceções). E enquanto não houver mais ação de ONGs de direitos humanos, de organizações internacionais e da política externa de países latino americanos (dilma diz que devemos dialogar com a ISIS, Lula crê que temos que respeitar as ditaduras), os gays desses países vão sofrer e logo, com a migração em massa dos mulçumanos, os ocidentais serão a próxima vítima. Que tal se a esquerda começar a criticar mais os valores muçulmanos e sua cultura? Protestar contra essa religião, assim como se protesta contra as religiões cristãs? E garantir uma segurança extra, porque Charlie Hebdo tá aí para provar o tamanho da intolerância dessa cultura. Noto uma hipocrisia no discurso da esquerda, quase uma relativização cultural e um orientalismo, tipo quando Foucault apoiou a Revolução Islâmica dizendo que aquilo era um modelo a ser seguido pela Europa…

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Alysson

O pior é ver vários LGBTs fazendo passeata contra a Islamofobia, depois disso será que vão continuar com essa palhaçada do politicamente correto?

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