Jaloo: “Gosto muito de ser comparado com a figura feminina”

“Nós sempre estivemos por aqui, a mídia que só agora faz disso uma pauta”, diz Jaloo sobre artistas que, como ele, passam por cima das barreiras de gênero. ENTREVISTA EXCLUSIVA

por Marcio Caparica

“Você vai precisar ter um pouco de paciência porque vou digitar suas respostas conforme você fala, o gravador não está funcionando”, admiti quando comecei a entrevistar, por telefone, Jaime Melo, artista mais conhecido como Jaloo. Com a maior elegância, ele disse que não havia problema. Minha falha tecnológica não causou grandes problemas – Jaloo fala de maneira pausada, tranquila, com a segurança de quem sabe o que está falando e de quem sabe quem é.

Esse paraense de 27 anos começou a fazer música por conta própria, no computador de casa, fuçando com softwares de música. Sua sonoridade mistura as batidas do tecnobrega de sua terra natal com o que há de mais corrente na música pop internacional. Mas Jaloo não é um expoente apenas nos sons: ele se destaca também pelos visuais que cria para sua arte. Seu figurino usa peças femininas com convicção, seus clipes são dignos dos filmes mais surreais de Björk. Não é à toa que começa a despontar também como diretor de vídeos para outros músicos.

Quem estiver em São Paulo nesse final de semana poderá assistir, gratuitamente, a uma apresentação ao vivo de Jaloo durante a Mostra Todos os Gêneros, no Itaú Cultural, nos dias 2 e 3 de julho. O artista conversou um pouco por telefone com o LADO BI, compartilhando seus gostos, seus posicionamentos políticos, e deixando claro que, antes de tudo, quer ser reconhecido pelo que faz de melhor: sua arte.

 

Comparando Belém e São Paulo, qual é a principal diferença na maneira como sua sexualidade é tratada?

São Paulo é um lugar que, mesmo com todos os problemas, acolhe LGBTs muito bem. Isso para mim é muito novo, faz apenas 4 anos que moro em São Paulo. Eu, que vivia no interior do Pará, sempre tive que encarar muitas questões por ser gay. Lá o patriarcado é muito forte, a gente é condicionado a ser de uma maneira. Mas eu não sofri lá. Olha que coisa, foi só aqui em São Paulo que eu tive medo de violência por ser como sou. Aquela história de você caminhar na Paulista e começarem a te seguir, sabe? No Pará isso nunca aconteceu comigo.

Você acha que serve de exemplo para outros gays mais jovens e que descobriram sua música?

Sem dúvida. Eu fico muito feliz de poder ser quem eu sou do jeito que eu sou e ter reconhecimento por isso. Acho que isso é muito importante para os mais jovens. Já recebi muitas mensagens bonitas, e ouvi histórias pessoalmente, de pessoas que tomaram coragem para tomar certas decisões e seguirem certas carreiras por terem me conhecido e visto minha figura.

O que você acha do fato de que muitas vezes os próprios gays são os primeiros a discriminar os gays afeminados?

Isso é muito complicado. Eu estava pensando faz uns minutinhos sobre isso, sobre a maneira como os gays se chamam… parece que tem um shade embutido em certas maneiras como o gay fala com o outro que não são muito legais. Eu gosto a ser comparado com a figura feminina e ter trejeitos quando eu quero –  e de não ter quando não quero também. De poder frescar com meus amigos e dar a louca – mas tudo tem hora. É muito errado o gay que diz que, para ser respeitado, o gay tem que “se dar respeito”.

Você acha curioso que trabalhos que desafiam os padrões de gênero como o seu surjam em períodos em que o conservadorismo está tentando se impor?

Pra ser bem sincero, eu acho que isso tudo é uma pauta… Algo que a mídia resolveu colocar agora como novidade. A gente sempre existiu, a gente é o que é, e tem muitos outros artistas que caminham por essa linha. Eu faço minha música e faço esse tipo de trabalho faz tempo. A nossa música está acima de qualquer outra coisa. Eu não crio nada para “participar desse segmento”. Existem, sim, as forças contrárias: a onda de conservadorismo é gigantesca, as pessoas não tem mais vergonha de falar coisas horríveis! Mas a gente fica mais forte, porque a gente entrou nessa briga.

Você é inspirado por outros artistas gays?

Eu me inspiro muito na figura feminina, nas mulheres. Eu não me ocorre agora algum gay que me inspire. Mas as mulheres que os gays amam me inspiram muito.

Seus clipes lembram muito os de Björk. Como o trabalho dela influencia o seu? Quais são outras influências?

Lembram sim, sem dúvida. Eu sou um apaixonado por música pop. Eu nem acompanho mais a Björk porque ela enveredou num caminho nebuloso, não consegui absorver tanto seus últimos trabalhos quanto antes. O disco dela que eu mais gosto é o Debut. Gosto de pop alternativo – se é que dá pra definir um “pop alternativo” hoje, a internet dissolve tudo! Estou ouvindo muito Robin, uma menina nova maravilhosa chamada MØ. Também Charle XX, Marina and the Diamonds…

Durante alguns shows, você alardeou o “Fora Temer” de cima do palco. É importante hoje um artista deixar claro seu posicionamento político?

Eu acho importante, mas acho que a gente tem que ter cuidado. para não virar uma pauta. A gente é artista acima de qualquer outra coisa. É importante se posicionar, mas ficar batendo na mesma tecla é perigoso, a história política pode acabar roubando atenção do trabalho artístico.

Você fez apresentações recentemente com As Bahias e a Cozinha Mineira. Podemos esperar parcerias entre vocês?

A parceria já tá acontecendo! Eu estou dirigindo o primeiro clipe delas, que vai ser filmado em breve. Vai ser para a faixa “Apologia Às Virgens Mães”, mas num estilo diferente do estilo cru que usei para dirigir “Hello?”, do Adriano Cintra. É algo mais produzido.

Serviço

Jaloo Dia 2 de julho (sábado), às 20h, e 3 de julho (domingo), às 19h

Instituto Itaú Cultural Avenida Paulista, 149 Bela Vista – Centro São Paulo (11) 2168-1700

Duração: 80 minutos

Os ingressos são distribuídos duas horas antes do evento para o público preferencial e uma hora antes para o não preferencial.

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