Vamos usar “E” para o gênero neutro?

Vamos usar “E” para o gênero neutro?

Os idiomas sempre evoluem para atender as necessidades de seus falantes; está no momento de pensarmos em soluções para comunicarmos em português ideias que vão além do masculino ou feminino

por Marcio Caparica

No último dia 28 a Avon lançou o vídeo promocional para um de seus produtos para a pele. Com a mensagem de que “a pele não tem gênero nem preconceitos”, a empresa colocou para dançar um elenco de figuras maravilhosas: Liniker, Raquel Virgínia, Assucena Assucena, Gustavo Bonfiglioli, Ariel Nobre, Jéssica Tauane, Tássia Reis, Gabriel Rocha e Nicolas Henriques. Quase no final, exibe na tela: PARA TODES. Nesse momento, quando vi o vídeo pela primeira vez, uma lágrima de emoção rolou pelo meu rosto.

A questão de como expressar O gênero neutro na língua portuguesa é algo que vem ocupando meus neurônios há vários meses. Por escrever um blog LGBT, eu me deparo constantemente com situações em que o arraigado sexismo de nosso idioma faz com que eu me sinta injustamente dando preferência para homens quando tratando de assuntos que deveriam ser completamente igualitários quanto ao gênero. Num post recente sobre sexo anal, por exemplo, logo no início há a afirmação de que “é melhor que o parceiro seja alguém em que se pode confiar”. Sim, a princípio fomos todos educados para considerar esse parceiro como potencialmente homem ou mulher. Mas, principalmente em assuntos com a carga cultural do sexo anal, o imaginário se reduz rapidamente para a situação de dois homens transando com uma facilidade impressionante – como se duas mulheres não fossem capazes de fazer sexo anal, ou uma mulher penetrar o parceiro, ou não houvesse mulheres que adoram serem penetradas por trás por seus boys. Precisamos desenvolver maneiras de denotar, na língua portuguesa, a pluralidade de gêneros.

Além disso, a evolução das concepções de gênero trazem demandas que fariam Camões furar seu outro olho de desespero. Há pouco tempo, tive que pular miudinho para traduzir o relato de Sam Escobar, designer que não se considera homem nem mulher. Como respeitar a identidade de alguém que não quer que se use pronomes nem masculinos nem femininos com relação a sua pessoa?

Em inglês as coisas são mais fáceis, pois adjetivos raríssimas vezes variam com o gênero – algo que permite que escritores como Ann Leckie escreva livros em que nenhum personagem é definido como masculino ou feminino, por centenas e centenas de páginas. Mesmo assim, a busca por pronomes neutros quanto ao gênero e respeitosos (“it” é usado para coisas e bichos) continua, seja por militância, seja por elegância – é terrível ter que escrever “he or she” o tempo todo. No momento, está se tornando popular o uso de “they” para se referir à terceira pessoa do singular em gênero neutro. Em português esbarramos em entraves semelhantes: o(a) leitor(a) tende a ficar irritado(a) quando se depara com parênteses constantes abrindo o leque do gênero. Sem considerar que é outro fóssil da dominância masculina escrever-se o(a) leitor(a) e não a(o) leitora(leitor).

Algumas soluções para gênero neutro já vêm sendo experimentadas. A mais antiga é usar o sinal de @ para exprimir o masculino e o feminino ao mesmo tempo, numa tentativa de se fundir o “o” com o “a”. Escreveria-se então “menin@s animad@s vão para a balada”. Outra opção, mais recente, é substituir a partícula de gênero por um “x”: “seja bem-vindx”. O problema mais gritante dessas duas estratégias é que ninguém sabe como ler isso em voz alta. Usa-se o som de “ks” para o “x” – e o festival Preparadx seria, então, “Preparadks”? (A maioria das pessoas falava “Preparada” mesmo.) O “@” acaba virando “o”? Algo que deveria ser uma solução acaba tornando-se nada mais que um modismo, como o uso indiscriminado de hashtags (#) para qualquer coisa que se queira tornar mais moderninho à leitura (é só conferir 60% dos anúncios hoje em dia), sem a obrigação de ser dito em voz alta. Por essas mesmas razões descritas acima, os softwares de tecnologia assistiva (que leem os textos para cegos e pessoas com deficiência visual, por exemplo) entram em parafuso e simplesmente não sabem como lidar com essas combinações de letras que não têm significado fonético estabelecido. Ou seja, essas opções acabar por não serem realmente inclusivas.

E é por isso que usar um e no lugar de “o” ou “a” para expressar o gênero neutro me agrada tanto. É uma solução possível de ler, e que naturalmente transmite a neutralidade de gênero. Não é à toa que o mundo LGBT já vem a algum tempo usando essa partícula em expressões mais correntes, como “amigues” e “menines”. Não é à toa que a Avon gastou seu rico dinheirinho escrevendo “todes”. Com uma simples letrinha, fica claro que, nessa frase, não importa se você é do gênero masculino, do feminino, de nenhum deles ou dos dois: você está incluíde nessa mensagem. E é capaz até de lê-la em voz alta!

É uma novidade, e portanto ainda algo a se estabelecer com o uso. Vários problemas de idioma e comunicação têm que ser arredondados para que esse “e” torne-se natural. Como tratar os artigos definidos? Usar “e” para substituir “o” ou “a” acaba por causar confusão com o “e” conjunção; talvez tentar o “i”. Como fazer para usar “ele” e “ela” no gênero neutro? Outro dia (sim, fico pensando nisso ao longo do dia) me ocorreu de misturar o “e” aberto do início de “ela” com o “e” fechado do final de “ele”: “éle”. No limite, poderíamos chegar numa pérola de neutralidade de gênero como “éle deu uma flor para i namorade”.

Não sou linguista, nem quero impor minhas elocubrações como as “soluções corretas”. Estou aberto a outras sugestões. Estou fazendo um convite para que a mente coletiva dos falantes da língua portuguesa tentem encontrar soluções sonoras, belas e eficazes para uma língua que coloca tudo em apenas duas caixinhas, De minha parte, vou fazer esse experimento nesse blog e nas minhas redes sociais, e aplicar um “e” bem colocado no fim de palavras quando eu quiser incluir todos os gêneros.

“Ah, mas isso não bate com a gramática, isso é errado, isso é feio.” Primeiro, nenhum idioma pertence aos gramáticos: todos pertencem aos falantes. As línguas todas estão em mudança constante para atender às novas necessidades de quem as usa para comunicar-se. Inclusão de gênero e gênero neutro não eram preocupações no século 20, mas são no século 21. E quanto ao estranhamento… muitas coisas são realmente questão de hábito. A professora Maria Otilia Bocchini, autora do livro Para escrever bem, compartilhou comigo a seguinte história:

O Fiori Gigliotti propôs muitas palavras em português para substituir o inglês do vocabulário do futebol. Os jornalistas levaram muitas e rejeitaram outras, preferindo o aportuguesamento. E mesmo assim, ainda tem pares de opções em disputa: o pênalti e a penalidade máxima, o escanteio e o córner, e por aí vai. Nos anos 40, meu pai falava centeralfe (por center half) mas o que ficou foi centroavante…

Quem ler matérias esportivas do século passado facilmente vai encontrar jogadores que desviam de backs e marcam goals. Por muito tempo cidades sofriam com blecautes, até que a crise energética desembarcou no Brasil e as cidades começaram a ter apagões. É uma questão de ver o que cola para o gênero neutro. Eu quero tentar escrever para todes.

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7 comentários

Artur

Há algum grupo trabalhando já nessas inclusões? Achei a ideia muito maneira e creio que a melhor forma de disseminar a ideia é utilizando. Seja em nossos sites ou posts de twitter e facebook

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João Marinho

É uma questão curiosa, porque talvez deva ser começada desde o início e até mesmo de nossos pressupostos filosóficos. Pensamos que a língua tem uma preponderância masculina e sentimos isso porque estamos no extrato LGBT, mas essa preponderância realmente ocorre na cabeça das pessoas?

Se todAs na plateia são incluídAs, sabemos que a plateia era feminina ou ligada ao feminino. Mas se todOs são incluídOs, você consegue dizer se na plateia havia apenas homens? Se eram homens e mulheres? 200 mulheres e 1 homem? Mulheres, homens, trans, drag queens? Não.

E o casal – eles são tão bonitOs juntos -, dá para saber se falamos de um casal gay ou um casal hétero? Não.

A recorrência de perguntas posteriores como “eles quem?” de certa forma demonstra que talvez, por vias tortas, o masculino plural já dê a opção de neutralidade de gênero: nós é que não temos usado essa potencialidade…

O singular permanece em aberto.

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Rose Moraes

Marcio, boa noite.
Nunca senti na pele a necessidade de ter tratamento diferenciado por questões de gênero.
Nossa gramática é machista, demais até, se tivermos em um evento 200 mulheres e um homem, por causa desse um o mestre de cerimônias deve perguntar “estão todOS bem acomodadOS? Mas essa é uma questão gramatical, norma culta. Sobre a adoção do gênero neutro, considero que é mais um desrespeito aos Ts. Se a menina se sente menino e passa a ser um vamos respeitar e perguntar se ele está acomodado, se o menino se torna princesa, vamos respeitar e perguntar se ela está acomodada e pronto. Chega de auto segregação, o mundo só precisa de respeito e não de mais formas de “aqui pode” ou “aqui não pode”. Tive um aluno transformista que às vezes ia montado pra aula, eu já sabia que ele é gay, mas na dúvida perguntei como deveria tratá-lo, ele se admirou e disse que nunca tinham perguntado isso a ele, ainda mais na escola … ele simplesmente me respondeu que quando estivesse “normal” era o Vinicius e quando estivesse montado seria a “Lorraine” e que os adjetivos acompanhariam os nomes. A regra gramatical é essa: adjetivos correspondem aos nomes, acho que por respeito, também deveria ser. Tive alunos, amigos, me recuso a ter alunes, amigues, me recuso a segregar mais.

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Marcio Caparica

Não vejo como alunes segrega ninguém. Acho pior as mulheres acharem normal serem incluídas em regras arcaicas gramaticais. A norma culta também muda com o tempo (o vossa mercê virou você que hoje já é apenas cê, quando a gramática normativa pedante ainda insiste em ensinar o “tu és”). Alunes e amigues não seriam apenas o seu aluno gay que gosta de se montar, mas todes alunes, homens, mulheres, agêneros… Não é uma proposta segregacionista, é uma proposta INCLUSIVA. Se os alunos homens se incomodarem de estarem inclusos em pé de igualdade com mulheres, agêneros, bigêneros ou o que mais existir, daí o problema não é da linguagem, é do pensamento (e insegurança) deles.

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Luiz Merino Xavier

Marcio, gostei muito do seu artigo. Essa preocupação do uso do neutro em português me ocupa as horas livres. Sou formado em letras, então queria compartilhar contigo uma das “leis” da linguística mais contemporânea, que vê a evolução da língua baseada no uso e não em regras pré-fixadas. Porém isso não resolve totalmente o nosso problema, pois não adianta criar ou impor regras para o neutro em português,. O processo deve ser o oposto: as pessoas precisam começar a falar assim, para que a língua absorva a mudança de forma verdadeira e natural. O neutro em latim era terminado em geral em “um”. Totum para “todos”, por exemplo. Pode ser um caminho pensarmos em algo com todum, belum, lindum. Quem sabe?

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Marcio Caparica

Que bom saber que eu não sou o único que passa as horas vagas pensando sobre isso… E concordo sobre a questão do uso natural. Mas acho que o que é diferente, agora, é que tanto da nossa comunicação é escrita (por causa das redes sociais), num modo de escrita pouco vigiado (afinal, cada um escreve como quer e a penalidade por se escrever “errado” ou “diferente” em redes sociais é bem baixa). Então a gente pode experimentar injetar medidas como o “e” neutro, e ver se a coisa pega. 🙂

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Léo Amaral

Eu sou heterossexual e há pouco tempo descobri esse universo da ideologia de gênero graças a um amigo querido que tem paciência para as minhas indagações e erros primários de entendimento do assunto. Acredito muito no poder do conhecimento, visto que eu, um cara até alguns anos atrás era um super preconceituoso, hoje entendo, respeito, brigo e defendo os direitos da comunidade. A questão do gênero neutro é extremamente complexa. Não digo apenas pela questões gramáticas, sintáticas etc. A sociedade mal entende (se é que entende) a legitimidade e a luta da ideologia igualitária de gêneros e já estamos falando de alterar o português. Eu acredito muito que isso vai ser necessário, mas ainda não é preponderante. Me assusta mais todas as questões preconceituosas por trás da falácia, do que simplesmente o emprego do “e” nas sentenças. Quantos são os casos de perceber muito mais preconceito no termo “homossexualidade” dito de uma forma jocosa, do que um “viado” por quem tem respeito à causa e usa com alguém que tem intimidade o bastante e em um momento propício?
Dito isso, acho realmente a ideia do “e” excelente, mas precisamos focar no que é mais proeminente agora: lutar pelos direitos básicos, na desmistificação dos termos e na conscientização da sociedade para que, no fim, o simples uso de um artigo novo seja puramente orgânico e natural.

Ps.: Obrigado pelo trabalho de vocês que enriquecem pessoas que entendem muito pouco como eu.
Grande abraço!

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