Brasil é campeão de consumo de pornografia trans, revela site

Brasil é campeão de consumo de pornografia trans, revela site

A esmagadora maioria das buscas por pornô trans é feita por homens heterossexuais, afirma o site Redtube. O que o fascínio que homens héteros sentem pela mulher trans revela sobre a sexualidade?

por Marcio Caparica

Traduzido do artigo de Carrie Weisman para o site Alternet

Os profissionais do site Red Tube revelaram essa semana em seu blog que as buscas por vídeos pornô estrelados por mulheres trans e travestis cresceram dramaticamente desde 2013 – buscas realizadas, em grande parte, por homens. De acordo com suas estatísticas, homens tendem a procurar pornô tran 455% mais que mulheres. O país campeão nessas buscar é o Brasil, seguido da Itália, Argentina e Rússia.

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Outro portal pornô, o Pornhub, conta com mais de 15 mil vídeos em sua categoria “Shemale”. Isso é mais que a soma das categorias “Para Mulheres”, “BBW” (mulheres plus size) e “Bondage”. Também conta com mais vídeos que gêneros populares como sexo selvagem, orgia e webcam.

Colin Allerton é um cara ligado nos números. Como diretor de desenvolvimento comercial do site de venda pornô Adult Empire, ele vigia de perto as tendências positivas e negativas. Seu radar apita cada vez mais para o que se chama T-porn, ou seja, vídeos pornôs estrelados por mulheres transgênero e travestis que ainda não realizaram a cirurgia de adequação de sexo. Seus consumidores mais ávidos e leais, afirma, são homens heterossexuais.

“Anos atrás nós colocávamos material trans apenas na seção gay de nosso website”, recorda-se Allerton. Depois de fazer um “experimento” e recolocar o conteúdo trans na parte hétero de seu portal, as vendas aumentaram em 50%. “Os gerentes anteriores supunham que o consumidor hétero não queria ver aquilo. Eles estavam redondamente enganados”. O resultado se mantém até hoje: “essa é uma de nossas 10 categorias mais populares”.

O site pornô Evil Angel começou a produzir conteúdo com transexuais em 1998. “Na época esse era o tipo de conteúdo mais transgressor que existia no mercado, mas, rapaz, como deu dinheiro”, lembra-se Adam Grayson, o diretor financeiro do site. “Nas últimas duas décadas esse gênero se tornou bastante normal, mas o nível de rentabilidade se manteve. Esses filmes são, de longe, os campeões de vendas no Evil Angel, seja como DVD, na web, no pay-per-view, em canais de televisão, em tudo.”

“Uma hora de conteúdo trans de qualidade é uma mina de ouro em nosso ramo, muitas vezes gerando duas vezes mais renda do que uma hora dos outros vídeos adultos tradicionais”, completa.

Decifrar a razão desse fascínio é uma tarefa complicada. “Pessoas diferentes podem estar fazendo a mesma coisa por diferentes raz’oes~, pondera o terapeuta sexual nova-iorquino Michael Aaron. Uma teoria gira em torno do conceito do fetiche. “Homens heterossexuais fetichizam partes do corpo”, explica Aaron. “Mesmo sendo heterossexuais, na medida em que se apaixonam apenas por mulheres e só querem ter relacionamentos com mulheres, o pênis os excita.” No que tange a atração pelas atrizes trans, ele considera: “essa é uma pessoa que tem a aparência feminina, mas possui uma parte do corpo que lhes dá tesão”.

Parece que esse tipo de novidade tem muita tração no universo pornô. “O consumidor está sempre em busca desse tipo de tabu”, aponta Allterton. “O espectador pode assistir a algo que jamais seria capaz de fazer, mas esse tabu faz com que isso se torne ainda mais atraente para ele, porque não faz parte de sua vida cotidiana e normal.”

Se as estatísticas revelam algo, é que as fantasias que envolvem as mulheres trans são realizadas em grande parte por meio do consumo da pornografia.

Também há aqueles que preferem levar isso para além do browser, em suas vidas reais. Van Barnes, uma mulher trans, passou três anos trabalhando como profissional do sexo em Nova York durante a década de 1990. Ela relata: “essas pessoas que sentem atração por pessoas trans sentem tesão por estarem fazendo algo que não deviam. A vida inteira eles aprenderam que sentir atração e tomar uma atitude por uma mulher como nós é negativo, uma proibição silenciosa… Há gerações nós somos segredos que ninguém discute”. Ela continua: “Há homens que se identificam como gays por aí que sentem atração por mulheres trans, e alguns têm relacionamentos com elas, mas isso ainda é mínimo quando comparado com homens que se identificam como héteros, e quase nenhum gay paga as mulheres trans para fazer sexo.”

“A atração que a maioria dos homens héteros sentem por mulheres trans tem início com o simples magnetismo do mistério de alguém que é tão feminina e tem um pênis. Fisicamente, por meio do ato de adoração oral ou de ser o passivo no sexo com uma mulher com pênis, o homem ganha novos territórios em seu corpo e novas sensações para explorar… é uma experiência multisensorial”, elucida Barnes.

Os homens não são os únicos que têm fantasias sexuais fora de compasso com sua orientação sexual. A pornografia gay masculina continua a ser extremamente popular entre mulheres heterossexuais. “Acho que nossas definições padrão de orientação sexual estão um tanto antiquadas”, considera Aaron. “Há muita discussão acadêmica sobre se abrir nossa compreensão do que é orientação sexual, para algo além da atração por um gênero.”

Aaron apresenta o conceito de “heterossexualidade queer”, ou uma expressão mais fluida e não-binária da identidade heterossexual. Há quem torça para que, ao se abrir a discussão sobre esse tema, comece-se a “se dar voz e legitimidade à vivência queer que há dentor do mundo heterossexual”, como diz um estudo.

Aceitar as formas de jogo sexual que anteriormente eram consideradas “queer” provavelmente vai se mostrar um passo importante em se abrir a discussão sobre gênero, identidade e atração.

“Daqui a duas gerações a psicologia da atração vai ser diferente, porque as dinâmicas sociais já estão no processo de mudança”, afirma Barnes.

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