8 lições que aprendi depois que descobri que sou intersexo

8 lições que aprendi depois que descobri que sou intersexo

Uma em cada 200 pessoas no mundo nascem intersexo - o que antigamente se chamava de hermafrodita. Por que é que ninguém fala sobre isso? Como é crescer intersexo?

por Marcio Caparica

Traduzido do artigo de Susannah Temko para o site The Debrief

Uma em cada 200 pessoas, 0,5% da população mundial.

O que isso traz à mente? Esse número é maior que a população mundial de judeus. É quase tão comum quanto ser ruivo ou ser gêmeo.

Esses números se referem a uma população que hoje é conhecida pelo termo genérico intersexo. Eu sou parte dessa população.

Susannah Temko

A autora, Susannah Temko

Vamos começar pelas definições. Então: o que é intersexo?

“Intersexo” é um termo genérico usado para descrever um número de variações nas características corporais de uma pessoa que não se encaixam nas definições médicas estritas do que é masculino ou feminino. Intersexo NÃO É um problema médico, apenas faz parte do espectro de variações de características sexuais que naturalmente ocorrem dentro da espécie humana. Essas características podem ser cromossômicas, hormonais e/ou anatômicas, e podem estar presentes em graus variados. Muitas dessas características são detectadas imediatamente ao nascer, e algumas vezes essas variações tornam-se evidentes apenas em estágios posteriores da vida, muitas vezes durante a puberdade. A maior parte das pessoas intersexo são saudáveis, e apenas uma porcentagem muito pequena delas pode apresentar problemas médicos, que podem acarretar em risco à vida se não forem tratados.

Até agora, tranquilo – apesar de complicado. Como é que isso é diferente de ser transgênero? Isso tem a ver com seu gênero ou sexualidade?

Gênero é a expressão e identidade de ser homem, mulher, ou as muitas outras expressões de gênero das quais temos nos tornado mais conscientes. Sexualidade é por quem você sente atração. Sexo se refere a sua biologia, o corpo com que você nasceu, e é nesse eixo que se encaixa ser intersexo. Portanto ser intersexo é algo separado da identidade de gênero ou da sexualidade de uma pessoa, já que está relacionada à anatomia ou biologia de alguém.

O que significa, no entanto, ser intersexo? Ou melhor, como é ser intersexo? Eu sou intersexo, então eu posso contar como isso funciona para mim, mas, como qualquer outra coisa no mundo, apesar de haver padrões nas vivências das pessoas intersexo, seria errado que eu fizesse generalizações tomando por base apenas a minha vida. As vivências e vidas das pessoas intersexo são tão diversas quanto as de todas as outras pessoas do globo. Mas aqui vão algumas lições que aprendi…

1. Ser intersexo é uma variação natural. Sexo não é algo binário, é um espectro

Assim como o gênero e a sexualidade, o próprio sexo é um espectro. Não está entendendo nada? Ser intersexo é uma variação natural. Não é “anormal”. Não é um “defeito”. Assim como qualquer outra coisa, a variação é algo belo e é uma grande parte de se estar vivo. Não há nada errado em ser intersexo. Há muita coisa boa em ser assim.

Nós, por sermos pessoas intersexo, temos uma consciência altíssima de como a compreensão de sexo, gênero e sexualidade é restrita. Essas definições estreitas afetam a todos, e é benéfico para todos que elas se expandam para refletir a realidade. Como militantes intersexo, nós trabalhamos com afinco para que nos ouçam e nos enxerguem de maneira positiva para que todos sejam educados em prol da igualidade por todas as pessoas intersexo. Isso começa com o reconhecimento de que ser intersexo não é um problema; o problema é a maneira como a sociedade lida com isso.

2. As pessoas intersexo são diversas

As histórias de cada um são diferentes. Eu nasci em 1991, e todos supunham que eu era uma garota “normal”. Quando eu completei 16 anos, me revelaram que essa suposição estava errada. Eu nasci com Síndrome de Frasier, o que significa que eu tenho disgenesia gonadal XY ou, em termos mais simples, tenho cromossomos “tipicamente” masculinos,  e gônadas “tipicamente” masculinas no lugar onde meus ovários costumam estar. Eu me identifico como uma mulher intersexo. Eu também sou saudável e feliz (tirando minha obsessão ainda não-diagnosticada por manteiga de amendoim).

3. Ignorância não é um estado permanente

Quando fui informada sobre meu corpo intersexo, eu entrei em pânico. Não porque eu sentia vergonha, mas porque eu não sabia nada sobre o que significava ser intersexo, e não contava com ninguém para me oferecer respostas. Com o tempo eu desenvolvi a vergonha e vim a conhecer o estigma de ser intersexo, proveniente de várias origens, a maioria delas médica. Foi desafiador sentir-se sozinha e sentir que meu corpo era “inaceitável”, mas isso tudo mudou quando eu entrei em contato com o ativismo e com as informações oferecidas pelos ativistas intersexo. Eu só precisei de um vídeo no Youtube feito por uma mulher incrível, e um artigo no jornal britânico The Independent, para perceber que não estava sozinha, e que não havia nada de errado comigo. Comecei a considerar que talvez eu poderia trabalhar junto dessas pessoas para mudar a opinião da sociedade também.

Hoje, apesar de ainda receber algumas reações iniciais chocadas ou desgostosas vindas de amigos e colegas de trabalho quando escutam a palavra “intersexo”, com um pouco de paciência e informação as pessoas, no pior dos casos, percebem que foram ofensivos, e, no melhor dos casos, tornam-se aliadas.

4. Os direitos humanos das pessoas intersexo são ameaçados e ignorados todos os dias

Há muitos desafios para as pessoas que nascem com características intersexo. Os governos, em geral, apenas aceitam e sabem que exitem dois sexos, e ignoram a existência de pessoas intersexo. Nós enfrentamos discriminação, trauma, e não usufruímos da igualdade ou da proteção dos direitos humanos de que necessitamos. O direito a nosso próprio corpo nos é sabotado. Crianças e recém-nascidos intersexo são regularmente sujeitados a intervenções médicas e cirúrgicas mutiladoras para que nossos corpos “entrem nos padrões”. Elas são realizadas sem a autorização da criança, são medicamente desnecessárias, e têm consequências traumáticas em fases posteriores da vida. Essas cirurgias acontecem no mundo todo.

5. Há apoio, militância e informação por aí

Ativistas e educadores intersexo dão duro ao redor do mundo para mudar a situação atual. Eles estão alterando leis e desenvolvendo políticas, estão participando de discussões – seja nas Nações Unidas, nos parlamentos nacionais, ou em centros comunitários locais. Ativistas intersexo encaram um grande desafio.

Uma dessas organizações é a IntersexUK. Eles trabalham com ativistas do mundo inteiro em todos os níveis para educar, comunicar políticas, e aumentar a conscientização sobre as pessoas intersexo e suas questões de direitos humanos. Nos últimos seis anos eles vêm trabalhando com comissões dos direitos humanos, contribuíram para legislações de defesa, e fizeram palestras nas principais universidades.

6. Não é possível ser o que não se vê

As pessoas intersexo raramente são tópico de discussão nos grandes veículos de mídia, e quando somos, o resultado muitas vezes são retratos sensacionalistas e estigmatizantes. Quando alguém conta para você que você é intersexo, tem-se a impressão de que não há lugar na sociedade para você ou que você tem que se esconder. As pessoas não percebem como é comum que variações intersexo sejam motivo para se ridicularizar uma pessoa ou o gancho de uma piada.

Eu levei quase uma década para falar abertamente sobre ter nascido intersexo. Nesse meio-tempo eu tive que enfrentar depressão profunda, anorexia, e ansiedade derivadas das ideias de que eu não tinha valor por ser uma pessoa intersexo. Apesar de me dizerem o contrário, eu acreditava que jamais seria digna de meus amigos ou parceiros.

Não era ser intersexo que fazia com que eu me sentisse tão terrível, mas sim a noção errônea de que o sexo é binário, e que qualquer coisa que fuja da (hetero)norma é “errada”. Eu percebi, ao falar com outras pessoas intersexo, que ser intersexo é lindo e que nós não deveríamos ter que nos esconder.

7. Sem nossa presença, nada mudará

Mudanças legislativas têm que acontecer para que as pessoas intersexo estejam protegidas e usufruam da igualdade plena. Isso não vai acontecer a não ser que as pessoas intersexo ganhem um palanque. Não podemos esperar mudanças legislativas se as questões intersexo não forem discutidas publicamente, mas isso depende não apenas de que as pessoas intersexo ganhem um lugar na mesa, mas que também tomem as rédeas da discussão.

Por sorte há inúmeros estudiosos intersexo, experts em políticas públicas, ativistas e agitadores que são qualificados para fazer isso, e que batalham nessa causa com afinco. Essas pessoas conseguiram muitas conquistas nos últimos anos, provocando mudanças nas vidas de pessoas intersexo e tomando a liderança dessas questões.

8. Descobrir que se é intersexo é difícil, e pode colocar em questão quem você é e muitas coisas que você pensava que sabia, mas…

… Há tantas maneiras diferentes de se estar nesse mundo. Isso é maravilhoso.

Minha variação intersexo me deu uma das maiores dádivas de minha vida – uma apreciação da diversidade e das batalhas além das que eu vivencio por mim  mesma.

Por ser intersexo, eu aprendi a escutar, a ter empatia, a manter minha mente aberta, a ter compaixão, e a perceber os preconceitos que tenho, e então tentar desfazê-los.

Eu não trocaria meu corpo por o de nenhuma outra pessoa. Eu tenho orgulho de ser intersexo, e espero que você tenha orgulho de saber que nós existimos.

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4 comentários

Lucas

Falta inventar mais alguma coisa? Depois das trans, ideologia de gênero, agora mais essa? Ainda vai existir homem e mulher ou está muito desatualizado isso?

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Carlos Eduardo

Me desculpe mas isto é falta de informação, não é questão de “existir ainda homem e mulher”, a desatualização está em não se reconhecer a diversidade que existe na natureza e, consequentemente, no ser humano, bem como o respeito pelas diferenças.

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Paulinho

Carlos, concordo com vc. Homem e mulher são apenas gêneros mais “comuns”, outras variações devem ser compreeendidas e aceitas! Só a questão da bissexualidade é algo deturpado, já que não existe homem bissexual, esses homens que dizem que são “bi” são apenas gays com medo de se assumir.

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Emilson Lopes

Só uma observação: há um equívoco no uso do coceito de sexualidade. No texto ao ivêsn de sexualidade o termo mais adequado seria orientação sexual.

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