“Não sou homem. Não sou mulher. Faça o favor de não perguntar sobre minha genitália.”

“Não sou homem. Não sou mulher. Faça o favor de não perguntar sobre minha genitália.”

Sam Escobar se identifica como uma pessoa não-binária, ou seja: não se considera nem homem, nem mulher. Conheça mais sobre pessoas que desafiam o binarismo de gênero e mostram que há mais possibilidades além do masculino e feminino

por Marcio Caparica

Traduzido do artigo de Sam Escobar para a revista Esquire

Nota do tradutor: num esforço para manter e respeitar a neutralidade de gênero de Sam Escobar nesse artigo, nós optamos por usar um “e” neutro em termos que em português costumam ser masculinos ou femininos – como, por exemplo, “animadíssime” ao invés de “animadíssimo” ou “animadíssima”.

É surpreendente quantas pessoas me perguntam sobre o que eu tenho entre as pernas. Muitas. Já teve quem me perguntou que “partes” eu tenho, como elas são, e o que eu pretendo fazer com elas. Eu não saio por aí carregando uma placa que diz “me pergunte sobre minha genitália”, mas assim que eu falo da minha identidade de gênero para algumas pessoas, de repente parece que não há mais problema nenhum em se colocar esse assunto na roda. É, até em Nova York. É, mesmo entre pessoas aparentemente “progressistas”. E isso acontece porque a maioria das pessoas simplesmente não sabe muito bem o que são identidades de gênero não-binárias. Costuma ser assim:

“Quer dizer que você não se sente nem como se fosse um garoto nem como se fosse uma garota?”

“Exato.”

“Mas você usa maquiagem.”

“Isso.”genero-sam

“Mas você não é mulher.”

“Não.”

“… ahn.”

Eu já tive exatamente essa conversa, pelo menos uma vez por semana, desde que eu saí do armário em novembro. Não é uma conversa que me incomoda; só que fica repetitivo, e de vez em quando passa a ser meio ofensivo se a conversa leva a perguntas como “Quer dizer que você só quer ser diferente?”. Com a visibilidade trans aumentando com velocidade cada vez maior, a identidade de gênero não-binária também está ganhando proeminência.

E muitas vezes ela é incompreendida.

No dia 29 de março a The New York Times Magazine publicou uma breve etimologia das palavras “they” e “them” como pronomes para pessoas que se identificam como genderqueer, de gênero fluido, fora da conformidade de gênero, e outros gêneros. O artigo é mais um passo em direção ao reconhecimento das pessoas que não sentem que se encaixam no binarismo homem/mulher de agora – e mais um tijolinho na conversa crescente sobre gênero em nossa sociedade.

Como alguém que utiliza pronomes de gênero neutros, eu fiquei animadíssime ao ver que o Times levou o assunto para leitores que não sabem sequer que há pessoas por aí que não se identificam nem como homem nem como mulher. Eu me declarei há quatro meses, mas eu já sabia que não era cisgênero a pelo menos cinco anos, mais ou menos (provavelmente mais tempo, dependendo de como se interpreta alguns hábitos de infância incomuns).

Aqui vão algumas das perguntas que costumam me fazer desde que saí do armário:

Mas não se nasce com um gênero?

Apesar de muitas vezes se usar sexo e gênero sem distinção, esses dois termos não querem dizer a mesma coisa. O sexo tem a ver com sua biologia, tanto fisiológica como anatômica, o que muitas vezes influencia como se é tratado pela sociedade (por exemplo: ao se fazer cumprir papéis de gênero), mas não é a mesma coisa que gênero.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, gênero são “as características socialmente construídas das mulheres e dos homens”. Em seguida ela enfatiza a importância de se manter sensível a “identidades diferentes que não se encaixam necessariamente nas categorias binárias de homem e mulher”.

Qual é a diferença entre uma identidade não-binária e uma identidade binária?

O binarismo de gênero distingue entre aqueles que se identificam como homem e mulher, simples assim. Gêneros não-binários, no entanto, não se encaixam com precisão dentro dessas duas categorias – elas podem ser uma combinação de homem e mulher, passar de um para outro fluidamente, ou existir totalmente fora do binarismo. Pessoas cisgênero, por outro lado, são pessoas que têm identidades que se alinham com o gênero que lhes foi indicado quando nasceram.

Nota: “não-binário” é um termo genérico e imperfeito para qualquer gênero que fica fora dos padrões feminino e masculino, mas é o que eu utilizo nesse artigo, para simplificar.

Isso quer dizer que sua aparência não é feminina nem masculina?

Uma ideia errada muito comum é que todas as pessoas não-binárias são andróginas, mas não é assim. A maneira como você se apresenta (a expressão de gênero) e a maneira como você se identifica podem estarem conectadas, mas não dependem necessariamente uma da outra.

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Eu não me identifico como mulher, mas nas fotos que eu estou mostrando acima eu me apresento de maneira bastante feminina, o que significa que as pessoas presumem que eu sou uma mulher cisgênero até que eu lhes diga o contrário. Eu mantenho meu cabelo comprido porque eu gosto de franja. Eu não depilo as pernas. De vez em quando eu uso vestidos, e lido com maquiagem todos os dias porque esse é, literalmente, meu emprego (eu sou a editora de beleza do site GoodHousekeeping.com).

Ao mesmo tempo, eu conheço pessoas que se identificam como genderqueer, agênero, de gênero fluido, e não-binárias, que deixam a barba crescer e depilam suas pernas. Eu conheço outras que esculpem seus rostos com maquiagem e preferem vestir ternos. Eu conheço algumas que não usam maquiagem nenhuma e preferem ter cabelo curto – todo tipo de expressão, que depende completamente de cada indivíduo.

Pessoas não-binárias são consideradas transgênero?

Não há uma resposta padrão para isso. Muitas vezes as pessoas não-binárias são colocadas na categoria transgênero, mas algumas pessoas não-binárias não se identificam como transgênero, e outras se identificam assim.

Quer dizer que você é homossexual?

Não. Sua orientação sexual e sua identidade de gênero são coisas separadas. Uma mulher trans que saía com mulheres em momentos anteriores de sua vida não vai necessariamente começar a sentir atração por homens só porque se declarou mulher. Eu sou queer e sinto atração por pessoas de vários gêneros – e, na verdade, já me envolvi com várias pessoas que se identificam como heterossexuais.

Como eu descubro qual pronome eu devo utilizar com alguém?

É só perguntar! É a maneira mais rápida e segura de determinar os pronomes que se utiliza com alguém. Eu gosto de manter os meus na descrição do meu Twitter para aumentar a visibilidade. Algumas pessoas utilizam os pronomes “they” e “them”, como eu, e outras utilizam termos como “ze” e “zir”, “xe” e “xem”, ou “ze” e “hir” (Nota do tradutor: essas são todas palavras de gênero neutro que a comunidade queer está criando em inglês para substituir os pronomes “he” e “him”, masculinos, e “she” e “her”, femininos). Há tantas alternativas. Algumas pessoas não-binárias simplesmente utilizam “he” e “him” ou “she” e “her”, também, então, mais uma vez, é sempre melhor perguntar.

Ai que difícil. Não dá pra simplesmente usar os pronomes de sempre?

Hmmm, não. Não é tão difícil assim, e é bem irritante quando as pessoas dizem que é.

Imagina que seu nome é Jack, mas cada vez que seu chefe quer falar com você, ele chama você de Jim, ou Jennifer, ou James. Ou se você é um homem e alguém fica te chamando de “dona” o tempo todo. Você vai se sentir desconfortável, ou pelo menos vai sentir que não está certo. É tão frustrante quanto, se não mais, ser constantemente rotulade como alguém diferente no que se trata do gênero, então ajuda muito quando as pessoas realmente prestam atenção e agem respeitosamente. Se você consegue aprender o nome de alguém, você consegue aprender seus pronomes.

E se eu me atrapalhar e chamar alguém pelo pronome errado?

Se esforce! De início, pode ser (e será) constrangedor tratar alguém pelo gênero errado, mas se esforçar para aprender e se acostumar a utilizar os pronomes preferidos de uma pessoa é a melhor maneira de demonstrar seu respeito por sua identidade.

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Então… que banheiro você usa?

Bem, eu preferiria poder usar com segurança qualquer banheiro que estivesse disponível, assim como a maioria das pessoas, apesar dos legisladores e cuzões em geral que adorariam que isso fosse proibido. Quando sou forçade a escolher entre um banheiro masculino e um banheiro feminino, eu costumo utilizar o banheiro feminino porque é aquele que vai chamar menos atenção para mim, negativa ou não.

Cada pessoa é diferente, claro, mas o consenso geral é que pessoas trans e não-binárias gostariam de simplesmente utilizar um banheiro, ponto final, sem constrangimento, ameaças de violência, ou leis que restringem nossa capacidade de fazê-lo.

Tem problema em perguntar para pessoas não-binárias como são “suas partes”?

Eu vou mandar um “não” bem ríspido aqui, mas é chocante como tem gente que acha que não tem problema em perguntar o que uma pessoa tem dentro das calças. Não seria esquisito se alguém numa festa do nada perguntasse para você como é a sua genitália? Então talvez seja uma boa não perguntar para ses amigues trans ou não-bináries como é a deles. Desde já, obrigado.

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29 comentários

Renan

Achei a matéria incrível e bastante esclarecedora. Parabéns

Obs.: Acho que vc deixou passar na revisão, a última palavra do texto. O certo seria Obrigade e não Obrigado né.

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R

adorei a materia! mais representação \o/

só queria avisar vc usou “editora” e não “editore”.Acho que passou na revisão, né, já q vc disse q ia usar o “e” para marcar que sam não é binárie.

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Isaac Carneiro Victal

Lamentável entrar num site como esse e ver gente tratando como loucura o caso de Sam,repetindo aquela velha idéia de que não se conformar com os padrões da sociedade sobre ser homem ou mulher é uma loucura.Acrescento que eu me enquadro no caso acima,sou andrógino assexuado,aparento ser um homem bem efeminado mas não gosto de ter relações sexuais nem com homens,pois me sinto como um objeto nas mãos deles e os mesmos nunca souberam como me agradar e proporcionar grande prazer,nem com mulheres,embora aprecie mais a beleza feminina que a masculina.Também destaco que Sam falou sobre suas relações íntimas mais comuns se dão com pessoas que poderiam se dizer heterossexuais;minha experiências sexuais,quando as tive,também foram em sua maioria com homens heterossexuais,embora tenha bastante feminilidade,não tanto como Sam,o que me leva a questionar o por quê de raríssimos gays possuírem interesse sexual pessoas de aparência não convencional,indefinida,ao contrário,desejam o mais convencional possível,sem falar nos preconceitos existentes entre os gays contra efeminados e pessoas que não se enquadram nos padrões de gênero. JÁ SOFRI HORRORES DENTRO DO MEIO POR SER COMO SOU.De fato ser assexual ajuda-me bastante,pois ninguém,hetero ou gay,no nosso país quer publicamente assumir um relacionamento afetivo,não apenas sexual,com uma pessoa sem definição MUITO CLARA de papel social masculino ou feminino.

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Andre

Sendo ADULTO, corte-se , tome hormônio, faça o que quiser. Mas ANTES, e PRINCIPALMENTE na adolescência e antes, acho um absurdo.

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Jorge Alves

Respeitem, as escolhas, das pessoas.

Leiam, o site da revista Veja, e entendam mais, sobre o Gênero Neutro:

Amigues para sempre

Nunca ouviu falar em gênero neutro? Aquele que faz com que certas palavras terminem em “e” para suprimir os artigos masculino e feminino? E “sexualidade fluida”, sabe o que é? Tem ideia da porcentagem de jovens brasileiros que dizem já ter se relacionado com homens e mulheres? Bem-vindo ao admirável mundo novo da geração Z, onde diversidade e tolerância são as palavras de ordem

http://veja.abril.com.br/noticia/ciencia/amigues-para-sempre

Sexo… E você não tem nada com isso

Na revolução de costumes da geração Z, elas e eles se dizem “neutros”e a “sexualidade é fluida”. Confira os destaques da edição de VEJA no Última Edição.

Revista Veja – Editora ABRIL – Edição 2465 – Ano 49 – Número 7 – 17 de Fevereiro de 2016.

http://veja.abril.com.br/multimidia/video/sexo-e-voce-nao-tem-nada-com-isso

O Gênero Neutro, também, é conhecido, como sendo, o Terceiro Gênero:

Terceiro gênero

https://pt.wikipedia.org/wiki/Terceiro_g%C3%AAnero

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Haru

Eu acabei gostando da matéria, mas infelizmente fui ler os comentários 🙁

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Pita

Fisicamente, uma criança nasce masculino, feminino ou eventualmente hermafrodita. Porém psicologicamente nasce neutro, é a sociedade, a cultura, o condicionamento dos hormónios que vai estruturar o género….

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S.Levy

Interessante como existe pessoas mentalmente ociosas e podres… Em que incomoda se a pessoa é transgenero, homem ou mulher ou ambos ou ainda hermafrodita… Fará diferença na vida de quem critica ou agride? Não gosta…? OK é direto de não gostar mas mantenham isso privativamente. Até hoje nunca ouvi de alguém ser prejudicado, lesado ou roubado por um (a) homossexual, muito ao contrário, a maioria dos canalhas são “heteros” ….

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Mila

Acredito que essa tal neutralidade de gênero não é algo exclusivo de Sam… arrisco mais ainda em dizer que está presente em todos os seres humanos pois vejo caracteristicas e comportamentos “femininos” e “masculinos” ao mesmo tempo em homens e mulheres. Acontece que a sociedade no geral tem a mente muito fechada e está muito presa a padrões comportamentais, físicos, classificações e rotulagens para enxergar isto. Acho que devemos lutar pela individualidade e respeito e ponto final. Nasci identificada como mulher e assim me identifico porque é o que parece porém nunca me pergunto se meu comportamento está sendo de homem ou mulher, ou se estou aparentando um homem ou uma mulher pois sou um indivíduo e isto basta. Não nasci para seguir padrões estabelecidos por ninguém. Gostaria que o respeito bastasse à sociedade.. Gostaria que as pessoas enxergassem suas característica tanto “femininas” quanto “masculinas” e as admirassem. Mas infelizmente isto é uma utopia 🙁

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Clayton Mendes

Não sabia que existia meio termo meio ser humano meio tudo. Ou é uma coisa ou outra agora fala que essa pessoa é normal. Desculpa Marcio mais creio a primeira coisa que todo ser humano tem que sabe ser acha. Ser é gay hetero homem mulher trans tem que ser alguma coisa e para isso tem que escolhe. Agora so falta chega para o Estado e fala eu não sigo suas leis pois ja tenho a minha. Francamente que coisa louca esse pessoa.

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Vinicius

É mais fácil entender uma pessoa sem gênero do que o que você quis escrever aí…

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LEONARDO ATILIO BRUMATO REGINA

mande, ele ( ou ela, ou sei la o que) para marte constituir uma sociedade à parte, porque nesta sociedade, ou se é homem, ou se é mulher.

cada um tem a liberdade de se considerar o que quiser, mas perante o convívio social, ainda será um ou outro. e antes de me criticar, tente ir no INSS pedir algum beneficio exclusivo de gênero ( como se aposentar mais cedo), ou ônus de gênero ( serviço militar obrigatório) e tentar obter/se eximir deles.

o gênero não é ligado apenas ao psicológico ( como no caso da opção sexual), mas possui todo um reflexo no direito e no convívio, portanto, o que tem no meio das suas pernas faz diferença sim.

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Marcio Caparica

Isso que você diz é falacioso porque: você nunca, nunca, nunca confere o que a pessoa tem entre as pernas antes de avaliar se a pessoa é “homem” ou “mulher”. A humanidade toda está sempre SUPONDO que as características mais aparentes de feminilidade ou masculinidade correspondem ao sexo biológico, à orientação (não opção) sexual, e à identidade de gênero. Não é porque essas características se alinham em 90% dos casos (mas essa porcentagem tende a diminuir) que isso que você afirmou se torna uma verdade universal. Como no caso de Sam.

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tayna

exato!!! você se considera agênero? estou fazendo meu tcc sobre o assunto e quero entrevistar alguem que entenda sobre o assunto e melhor seria se fosse agênero <3

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Adilson villapando

Bem interessante essa posição. O difícil vai ser para os binários se adaptarem a essa nova realidade. Sou psicanalista convicto e gostaria muito de ler algo bem freudiano a respeito. Devem, com certeza aparecer inúmeros artigos sobre esse tema. Estamos apenas começando a nova era não paternal. Isso ja era previsto por Reich nos idos de 1950. Tinha razão ao questionar sobre isso. Vamos em frente académicos. Ousem se pronunciarem a respeito.

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André

Não é homem nem mulher, mas se veste de mulher, tem aparência de mulher, cabelo de mulher, na verdade ela precisa tratar a cabeça e depois quem sabe se identificar com algo! Deve ser difícil aderir a toda essa loucura de gênero e depois se achar a vítima da situação!

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Wesley

Se eu acreditar que sou um dragão então, posso simplesmente ser tratado como um? Isso não seria um transtorno?

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Marcio Caparica

Você está comparando duas coisas diferentes: alguém acreditar ser uma criatura mitológica (dragão) com não se identificar nas caixinhas de gênero. Falacioso seu argumento.

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Ivo Solano

Amigo, você pode ser o que quiser.
Inclusive um dragão.

blogs.oglobo.globo.com/tattoo/post/mulher-transgenero-remove-orelhas-e-nariz-para-se-transformar-em-dragao.html

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Aristoteles

Nao interessa o que a peraonalidade dela acha a ciencia ta ai para te lembrar que é xx ou xy vlw flw

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Gilberto

Não vejo problema com a pessoa se assumir assim, ok. Porém acredito que toda individualidade deve ser respeitada. digo isso a respeito do exemplo do uso do banheiro supra citado.