Aprenda com Deadpool o que é orientação sexual

Há quem questione, mas Deadpool é pansexual, afirmam Ryan Reynolds (protagonista), Tim Miller (diretor) e Fabian Nicieza (criador). O que o personagem tem a ensinar sobre como definimos a orientação sexual de alguém?

por Marcio Caparica

Deadpool é o fenômeno dos filmes de super-heróis que ninguém esperava que acontecesse. Violento, abusado, sarcástico e nada heroico, o longa é o filme da Marvel que mais foge dos moldes dos outros blockbusters de quadrinhos. O filme liderou as bilheterias dos EUA e do Brasil por duas semanas consecutivas, o que já serviu para lhe garantir uma continuação e ressuscitar a um tanto combalida carreira de Ryan Reynolds, que interpreta o personagem-título.

Mesmo antes da estreia, tanto Reynolds como o diretor Tim Miller faziam questão de espalhar para quem quisesse ouvir que Deadpool seria o primeiro super-herói pansexual do cinema. “Pansexual! Eu quero que isso seja publicado. Deadpool é pansexual!”, frisou Miller em entrevista ao site Collider. E no entanto, o público (principalmente o público gay que foi tão seduzido pela campanha publicitária do filme) ainda está por ver Deadpool exercer alguma sexualidade além da heteronormativa – todo o primeiro longa não passa de uma história (bem bacana) de como um homem pode fazer qualquer coisa pela mulher amada.

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Quando Miley Cyrus anunciou sua pansexualidade no ano passado, nós explicamos que pansexual é alguém que não deixa qualquer tipo de orientação sexual ou identidade de gênero restringir suas possibilidades românticas e sexuais. Uma pessoa bissexual pode sentir-se atraída tanto por alguém do gênero masculino como alguém do gênero feminino, mas não se interessar por pessoas trans, travestis, ou assexuais. Alguém que é pansexual está deixando bem claro que não tem esse tipo de limitação: não importa se o indivíduo é cis ou trans, homo ou hétero ou ace, o que importa para o potencial romântico e sexual é seu poder de sedução. Para um pansexual, realmente a imaginação é o limite. Isso vai ao encontro das intenções de Fabian Nicieza, criador do personagem Deadpool nos quadrinhos. “As células cerebrais de Deadpool estão em fluxo constante. Ele pode ser gay num minuto, hétero no seguinte etc. Tudo é válido.”

E, no entanto, a falta de qualquer tipo de interesse sexual ou romântico além do heterossexual deixou muitos descontentes. Levantou-se acusações de que todo esse barulho não passa de uma estratégia de marketing para atrair a população queer, que já não consegue tirar os olhos do corpo (bastante explorado) de Ryan Reynolds. Sim, é uma delícia ver um herói masculino ser objetificado nas telas, como acontece com as super-heroínas desde os tempos da Mulher-Gato de Michelle Pfeiffer. Mas, tirando algumas piadas em que o protagonista se insinua para outros homens, o fato dele gostar de Rent e Wham, não há nada explícito nesse filme que poderia obrigar os cinemas brasileiros a carimbar os ingressos com “avisado”, como aconteceu em Praia do Futuro.

Quem reclama que Deadpool não pode ser “pansexual de verdade” porque não aparece se pegando com outro cara não entende o que define a orientação sexual ou identidade de gênero de qualquer pessoa. Elas não são definidas por suas ações, sua genética, sua genitália, e muito menos pelo que os outros têm a dizer a seu respeito. Cada um define sua sexualidade para si (mesmo que inconscientemente), isso é o que vale e é o que deve ser respeitado. No caso do anti-herói, seu criador, o ator que o interpreta e o diretor de seus filmes afirmam em conjunto que ele é pansexual. Então ele é, e pronto.

Não deve-se confundir atos sexuais com orientação sexual. Durante o filme, na montagem em que mostram como Wade Wilson e sua namorada transam sem parar por um ano, o casal comemora o Dia da Mulher com Vanessa inserindo um dildo na bunda do namorado. Levar um consolo na bunda faz de Wilson gay? NÃO. Ainda que esteja realizando um ato sexual que foge dos padrões da heteronormatividade (e palmas pra você, Wade Wilson!), ainda se trata de sexo entre um homem e uma mulher, e, portanto, heterossexual. Assim como uma lésbica que amarra o mesmo dildo na cintura e come a namorada está fazendo sexo homossexual – elas não se tornam mais héteras por causa da penetração. E mesmo um homem fazer sexo com homens não necessariamente é um indicador de homossexualidade: considere todos os héteros que fazem troca-troca com os amigos na infância e crescem para tornarem-se homens casados com mulheres e felizes; os atores pornôs que fazem sexo homossexual por dinheiro; ou o fenômeno dos bro-jobs analisado por uma professora norte-americana.

Da mesma maneira, os relacionamentos amorosos não servem como definidor da orientação sexual de alguém. Uma mulher bissexual que está casada há décadas com um homem, monogâmica e fiel, deixou de ser bissexual? NÃO. O fato dela não exercer seus desejos por mulheres, já que se comprometeu a uma vida monogâmica, não faz com que eles não existam. Da mesma maneira, um homem gay que se casa com uma mulher para “resolver seu problema” não deixa de ser gay. Ele pode passar o resto da vida fazendo amorzinho morno com a esposa, e socialmente atuando como um homem heterossexual como pretendia, e pode até passar o resto da vida sem jamais agir sobre seus desejos por outros homens. No fundo, ele sabe qual é sua orientação sexual verdadeira.

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Como os pastores evangélicos fundamentalistas não se cansam de dizer, não há exame que “comprove” a orientação sexual ou de gênero de qualquer ser humano. Quando se chega ao cerne da questão, gay, bi, lésbica, hétero, cis, trans: todas essas identidades só podem ser estabelecidas pela própria pessoa que vai viver com elas. E isso deve ser respeitado. É por isso que uma adolescente pode declarar-se homossexual mesmo sem nunca ter beijado ninguém, muito menos feito sexo. É por isso que uma mulher trans pode declarar-se mulher, mesmo sem fazer qualquer tipo de tratamento médico para a transição, vestindo roupas masculinas ou mesmo usando uma barba. Não se pode questionar a orientação sexual ou identidade de gênero de alguém, apenas concordar – e, se com o tempo, essa identidade mudar, concorde-se com a nova. Essas coisas mudam. Não invalide a identidade de outras pessoas se não quer que a sua própria seja colocada em questão.

Ryan Reynolds já deixou claro que vai achar ótimo se Deadpool descolar um namorado no próximo filme da série. Nós também vamos achar fenomenal. Se esse namorado for um homem trans latino, então, mais estrelinhas para os produtores da franquia (infelizmente, acho que isso seria sonhar alto demais). Mas mesmo que a sequência traga apenas mais relacionamentos entre Deadpool e outra mulher… ele (seus porta-vozes) se define como pansexual. Ele não tem que provar isso. Ninguém tem que provar que é de sua identidade. Vamos todos aceitar-nos uns aos outros e curtir um filme irreverente, mordaz e levemente sujo.

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10 comentários

Beto

Eu não conhecia o personagem nos quadrinhos, então só sei pelo filme. De fato, pensei ele fosse um Hetero liberal ou no máximo bisexual. O próprio personagens faz várias tiradas a respeito disso ao longo do filme. Se os criadores do filme afirmam que ele é pansexual, tudo bem. Tudo bem um pansexual se envolver com uma mulher sem questionar esse tabu. Eu entendi o sentido do seu texto. A maioria de quem leu não entendeu, ou distorceu. Precisamos de representatividade? Claro que sim! Eu sou gay, sinto falta de ver seriados e tenho que procurar horas pela internet por filmes com protagonistas gays, O pessoal tem que levar em consideração que é um produto de venda de massa. O máximo de tudo isso é que por se tratar de um filme holywoodiano de super heroi ele realmente quebrou varios tabus. Foi um risco calculado. Talvez daqui alguns anos mostrar em midia de massa a homoafetividade seja mais frequente, no entanto a maioria que compra ainda é hétero e os produtores precisam arrecadar dinheiro.
O último filme que mostrou o envolvimento entre rapazes com veracidade que eu conheço foi BrokeBackMountain, temos o recente Carol trata de uma história de amor entre mulheres.
Precisamos entender que infelizmente não somos maioria, então não vamos encontrar produtos para o nosso publico em lojas de massa.
Existe um cinema específico para filmes gays, música, produtos, lugares…
A intenção é sairmos de nosso “gueto” e integrarmos à massa, como está acontecendo com a mulher e com os negros mas tudo leva tempo.
No momento, o máximo que podemos fazer é conscientizar as pessoas e exigir nossos direitos de maneira igualitária.

Fui longe demais né?

De qualquer forma Deapool é hilário e eu rolei de rir.

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Claudio

a propaganda da pansexualidade do personagem é só pra faze-lo parecer mais transgressor, mas é propaganda enganosa e seria uma surpresa se isso fosse realmente demonstrado em algum filme.

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Natasha Avital

Bissexualidade é atração por MAIS DE UM gênero. Não existe isso de pessoas bi não se atraírem por pessoas trans, sejam homens/mulheres trans ou pessoas não-binárias. E assexualidade não é gênero, POR QUE DIABOS uma pessoa bi não se atrairia por uma pessoa assexual, já que existem pessoas assexuais de todos os gêneros? Ou seja, mesmo segundo a definição errada de bissexualidade de vcs, uma pessoa bi poderia se atrair por um homem ou mulher cisgêneros assexuais. Pelamor de tudo, vão pesquisar sobre bissexualidade em sites, blogs, grupos bi, em vez de sair pegando definições erradas de bissexualidade que não vem de pessoas bissexuais!

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Filipe

̶U̶m̶a̶ ̶p̶e̶s̶s̶o̶a̶ ̶b̶i̶s̶s̶e̶x̶u̶a̶l̶ ̶p̶o̶d̶e̶ ̶s̶e̶n̶t̶i̶r̶-̶s̶e̶ ̶a̶t̶r̶a̶í̶d̶a̶ ̶t̶a̶n̶t̶o̶ ̶p̶o̶r̶ ̶a̶l̶g̶u̶é̶m̶ ̶d̶o̶ ̶g̶ê̶n̶e̶r̶o̶ ̶m̶a̶s̶c̶u̶l̶i̶n̶o̶ ̶c̶o̶m̶o̶ ̶a̶l̶g̶u̶é̶m̶ ̶d̶o̶ ̶g̶ê̶n̶e̶r̶o̶ ̶f̶e̶m̶i̶n̶i̶n̶o̶,̶ ̶m̶a̶s̶ ̶n̶ã̶o̶ ̶s̶e̶ ̶i̶n̶t̶e̶r̶e̶s̶s̶a̶r̶ ̶p̶o̶r̶ ̶p̶e̶s̶s̶o̶a̶s̶ ̶t̶r̶a̶n̶s̶,̶ ̶t̶r̶a̶v̶e̶s̶t̶i̶s̶,̶ ̶o̶u̶ ̶a̶s̶s̶e̶x̶u̶a̶i̶s̶.̶ Uma pessoa bissexual pode sentir-se atraída por dois gêneros, quaisquer que sejam eles. Se se atrai por mulheres e homens, por exemplo, não importa que sejam cis ou trans, pois, antes de tudo, são “homens e mulheres”. Homens trans e mulheres trans não são um “3º gênero”.

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Marcio Caparica

Não quis dizer que pessoas trans são um terceiro gênero. Apenas que, muitas vezes, pessoas bissexuais não se interessam por pessoas trans (eu particularmente também não acho isso certo). Uma pessoa pansexual está fazendo questão de dizer que para ela não importa identidade de gênero ou orientação sexual. Infelizmente para muita gente importa, sim, se alguém é cis ou trans. O fato de isso acontecer não pressupõe que pessoas trans são um 3o gênero ou que eu pense isso. Obrigado pela observação!

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sthéfani

A questão de pessoas se importarem se é cis ou trans não entra na parte da definição da bissexualidade mesmo… Bis que falam que só se relacionam com cis são só preconceituosos rsrsr

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Laura

Ou eles simplesmente não se relacionam com trans porque não se atraem. Nem tudo é questão de preconceito. (Falo porque sou bi e já percebi que só me atraio por cis, sorry I’m not sorry.)

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Fernando de Oliveira

Desculpem, mas ele tem que provar, sim. Eu, enquanto homem gay, que não vê sua sexualidade representada nas histórias de seus heróis favoritos, me sinto enganado quando representantes da indústria anunciam que um personagem é pansexual, mas se recusam a mostrá-lo se relacionando com alguém que não seja uma mulher. Se a heterossexualidade é mostrafa a torto e a direito, as outras formas de amor não devem ser apenas anunciadas e imediatamente escondidas. Devem ser mostradas explicitamente, sim!

Fora isso, o filme é muito bom.

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