Diretor de “Boi Neon”, que mostra Juliano Cazarré nu, conta porque filme explora nudez masculina sem censura

Diretor de “Boi Neon”, que mostra Juliano Cazarré nu, conta porque filme explora nudez masculina sem censura

Filme, que tem Maeve Jinkings e Vinicius de Oliveira no elenco, mostra "deslocamentos de gênero sem sensacionalismo", diz diretor; filme excitou plateia americana com cena de sexo com mulher grávida

por James Cimino

Único filme brasileiro a ser exibido no AFI Fest (festival promovido pelo American Film Institute em Los Angeles), em outubro deste ano, “Boi Neon”, dirigido pelo pernambucano Gabriel Mascaro conquistou a audiência americana com a simplicidade complexa de seus personagens sertanejos e na forma nada convencional como retrata a nudez, questões de gênero e o sexo.

Ambientado no universo das vaquejadas no Nordeste brasileiro, o longa tem como protagonista Iremar (Juliano Cazarré), um vaqueiro que nas horas vagas costura roupas femininas, faz sexo com uma mulher grávida e cuja nudez (inclusive a genitália) é retratada sem censura, como uma representação do belo, assim como se faz com a nudez feminina em diversos outras produções da TV e do cinema.

Casado com a produtora Rachel Daisy Ellis, pai de um menino e autor do elogiado “Doméstica”, documentário de 2012 em que filhos de patroas filmam a vida de suas serviçais, Mascaro conversou com a reportagem do Lado Bi por Facebook sobre “Boi Neon”, que estreia no Brasil em janeiro e nos EUA em março de 2016.

Lado Bi — Ao ver “Boi Neon”, a gente percebe que você fez questão de mostrar o corpo do homem sem censura e sem tabus, o que é um movimento inverso do cinema, que em geral objetifica apenas o corpo da mulher. Por que você decidiu fazer assim?

Gabriel Mascaro — O filme se passa numa região onde as atividades pecuárias e agrícolas agora dividem espaço com um grande pólo industrial de confecção de roupas. Durante a pesquisa de escritura do roteiro entrei em contato com o mundo dos vaqueiros que trabalham nos bastidores da vaquejada e conheci em especial um que trabalhava com o gado e a moda. Muito me marcou a forma como o vaqueiro ritualizava a limpeza dos rabos do boi e em seguida sentava na máquina de costura. E assim foi o ponto de partida para criar um personagem ficcional masculino que acumula esta dupla jornada que mistura no ofício a força e a delicadeza, a bravura e a sensibilidade, a violência e o afeto. 

Assistindo ao filme aqui nos EUA, percebi que os americanos riam exatamente das mesmas piadas que os brasileiros riam, embora elas fossem muito brasileiras. O que há de tão universal assim no seu filme?

Infelizmente eu não pude presenciar esta sessão no AFI FEST, em Los Angeles. É um festival muito especial para o cinema independente mundial, paradoxalmente encravado no coração do Hollywood.  Fico muito feliz em saber da recepção do filme a partir de você.  Apesar de ser um filme muito específico, sobre um uma cultura muito específica, o que talvez mobiliza o filme enquanto uma experiência universal seja a ideia de narrar um cotidiano em meio a um lugar em acelerada transformação, e cada qual à sua maneira sonha novos sonhos possíveis.

O sexo em si também é retratado no filme de forma crua e, portanto, natural e excitante para quem assiste. A cena em que o Iremar é seduzido pela segurança grávida é especialmente arrebatadora. Você acha que o sexo é mostrado no cinema e na TV de forma muito artificial?

Essa é uma pergunta difícil. Não sei responder. Acho que as cenas de sexo dizem muito sobre como lidamos com o corpo, não necessariamente no sentido da moralidade, do que encobrir e do que mostrar, mas fundamentalmente na construção do corpo como potência, como devir.  E esta cena contou com a plena confiança e generosidade dos atores para fazer algo que realmente transborda da tela do cinema, gerando essa experiência de estranhamento e prazer compartilhado com a audiência.

Foi uma das cenas mais originais que eu já vi em um filme. Em geral a mulher grávida é santificada e, portanto, assexualizada. O que você esperava comunicar com essa cena?

A imagem da mulher grávida fazendo sexo com o Iremar em cima de uma mesa industrial é de fato forte, mas a duração das cenas neste filme se encarrega de desafiar nossos julgamentos, nossas expectativas. O filme como todo traz a discussão do corpo presente no embate cotidiano dos personagens. E aqui nesta cena vemos uma mulher grávida, que historicamente está associada à santificação, à puridade do resguardo, mas que no filme seduz o vaqueiro e o leva para uma mesa industrial de corte de tecidos. No filme todas as identidades e pertencimentos estão suspensos. Então o filme mostra de forma honesta e sincera uma cena sobre a autonomia do desejo e do prazer, conduzida por uma mulher grávida. E o tempo da cena não se interrompe numa montagem efeitista e sensacionalista.

Outro personagem interessante é o Junior [interpretado pelo Vinicius de Oliveira, o Josué de “Central do Brasil”], o vaqueiro que se ocupa horrores com o cabelo. A questão de gêneros é muito importante para você neste filme, não? Por quê?

No filme proponho não necessariamente a inversão de gênero, mas a dilatação destas representações. A partir da ritualização do ordinário, tento não fazer destes deslocamentos de gênero algo sensacionalista, mas sim normalizar essas curvas. E para muito além da psicologia dos personagens, eu engajo o filme através da presença corpórea dos personagens e em todo o entorno que esta coreografia é capaz de mobilizar enquanto experiência. O filme não segue necessariamente a jornada de um personagem protagonista, mas aposta na experiência performática enquanto potência. É um filme de personagens estranhos, de experiências intensas, mas pouco sabemos quem são essas pessoas e porque nos envolvemos com elas. O filme registra esse cotidiano e as contradições mínimas de uma rotina de trabalhadores. A ideia foi lançar uma nova luz sobre as transformações recentes do Brasil a partir de um recorte narrativo que se segue da vida de um grupo de vaqueiros que vivem na estrada transportando boi para as festas da vaquejada, um dos maiores eventos de agrobusiness do Brasil.  Tendo a vaquejada como palco alegórico destas transformações em meio à paisagem monocromática do Nordeste, eu pesquiso as cores que reluzem as contradições do consumo e dilato noções de identidade e gênero em personagens que convivem com novas escalas de sonhos possíveis.

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Um comentário

Tom

É pau duro? Fiquei com essa impressão num outra entrevista que ele deu.

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