“Deixei de sair com um cara porque ele é soropositivo. Agora me arrependo”

“Deixei de sair com um cara porque ele é soropositivo. Agora me arrependo”

O tratamento e a prevenção do HIV avançaram muito desde o início da epidemia, mas o estigma contra soropositivos ainda persiste. Descartar um potencial namorado por causa de seu status sorológico não faz mais sentido - se é que já fez

por Marcio Caparica

Traduzido do relato de H. Alan Scott para o site Fusion

Era a segunda vez que a gente se encontrava, mas eu já estava ansioso pelo terceiro.

Brandom era bonito, magro, com trinta e poucos anos, amava bichos, e tinha estabilidade financeira – todas as qualidades que me atraem muito. Nós estávamos sentados no Palermo’s, um restaurante italiano na zona leste de Los Angeles conhecido pelas porções enormes de massa e decoração familiar. Quanto mais a gente enchia a pança, e conforme a probabilidade de que haveria um terceiro encontro se tornava maior a cada garfada, Brandon se tornava cada vez mais agitado e ansioso.

“Eu sou soropositivo”, ele disse, “mas estou tomando medicamentos e minha carga viral é indetectável”.

Minha reação foi calma, como se essa informação não fizesse a menor diferença para mim. E naquele momento, eu realmente estava mais preocupado em fazer com que ele se sentisse confortável do que com seu status sorológico. Eu compreendia como deve ter sido difícil compartilhar essa informação com um estranho por quem ele sentia atração sexual, e eu tentei aliviar a tensão.

“Bem, eu já tive câncer, então nós não somos um casal sem qualquer esperança”, eu disse. Brandon, cujo nome eu alterei para proteger sua privacidade, riu. Lá se foi a tensão.

Mas não completamente – ela ainda estava lá, dentro de mim. Eu permiti que o HIV me assustasse, como já havia acontecido inúmeras vezes antes daquela noite regada a carboidratos. Não importava o quanto eu conhecia sobre o HIV – parte da atração que eu sentia por Brandon morreu naquele momento.

.o0o.

O que a gente conhece sobre o HIV? A gente sabe que homens que fazem sexo com homens ainda são o grupo que corre maior risco de se infectar. Também sabemos que um diagnóstico de HIV não é uma sentença de morte como era no início da crise da Aids. Mesmo assim, muitos gays ainda permitem que um status positivo os afastem de um relacionamento romântico significativo.

Esse mês mesmo foi divulgado um estudo conduzido pela seguradora Kaiser Permanente em San Francisco que revelava que, depois de acompanharem 600 homens que fazem sexo com homens pelos dois anos desde que começaram a fazer PrEP, nenhum tornou-se soropositivo. Essa é uma taxa de eficácia de 100%. Como escreveu o Washington Post em seu artigo sobre esse estudo, “os pesquisadores do HIV tendem a ser um grupo de pessoas muito reticente, que vê cada nova descoberta com ceticismo. Mas esses resultados… fizeram com que muitos comemorassem.”

Mesmo antes desse estudo impactante, a pesquisa anterior havia descoberto que a PrEP, ou seja, tomar um comprimido por dia do medicamento Truvada, reduz a infecção pelo HIV em 92% quando feita consistentemente, de acordo com o Centers for Disease Control and Prevention dos EUA.

Pois agora nós temos um método para prevenir a transmissão do HIV altamente eficaz – mas como ficam aqueles que já são soropositivos? Brandon me disse que estava “indetectável”. Se você é um cara solteiro que faz sexo com outros homens, você provavelmente já ouviu esse termo por aí. Você pode até tê-lo encontrado nos perfis do Grindr ou do Tindr de algumas almas valentes.

Pessoas com HIV podem tornar-se indetectáveis depois de tomarem remédios antirretrovirais para abaixar sua carga viral, ou seja, o número de  vírus HIV em seu sangue – uma pessoa torna-se indetectável quando sua carga viral é tão baixa que não consegue mais ser detectada num exame de sangue. “Ter uma carga viral indetectável diminui drasticamente a possibilidade de se transmitir o vírus para os parceiros que são soronegativos”, consta no site Aids.gov.

Esse site alerta que, mesmo quando alguém está indetectável, o HIV ainda pode existir em fluidos retais e genitais – mais pesquisas estão sendo feitas quanto à transmissão entre homens que fazem sexo com homens. Mas a pesquisa até o momento sobre a transmissão entre casais do sexo oposto é muito promissora. E, claro, ter uma carga viral indetectável também significa que a pessoa é capaz de viver uma vida longa e de qualidade, com o vírus. (Nota do tradutor: pesquisas confiáveis sobre transmissão do vírus HIV entre casais sorodiscordantes de homens que fazem sexo com homens apontam que a transmissão do HIV é extremamente improvável quando o soropositivo tem a carga viral indetectável.)

Certo. Estamos prevenindo a infecção e realizando o tratamento muito bem. O progresso que se faz contra o estigma dentro da comunidade gay, no entanto? Deixa muito a desejar.

Apesar dos inúmeros avanços no tratamento e das melhorias nas vidas das pessoas com HIV, há muito pouco avanço na maneira em que gays lidam com pessoas soropositivas. O medo gerado nos primeiros anos da epidemia ainda permanece.  Muitos dentro da comunidade LGBT estão felizes em oferecer nosso apoio a nossos irmãos e irmãs soropositivos, mas se outros reagem a possíveis relacionamentos da mesma maneira como eu reagi com Brandon – e eu suspeito que muitos estão -eles estão descartando relacionamentos românticos significativos com um quinto de nossa comunidade.

“Já fizemos grandes avanços quanto à educação, mas ainda é necessário muito mais trabalho”, me contou Ken Almanza, um orientador sobre PrEP de 30 anos da APLA Health & Wellness, uma organização que oferece serviços de saúde para a comunidade LGBT de baixa renda de Los Angeles. Em todos os anos em que vem trabalhando no campo do HIV, Almanza, que também faz PrEP, disse que vem observando uma compreensão melhor sobre o que significa estar tomando medicamentos e estar indetectável, mas que o estigma sobre se namorar caras soropositivos ainda é profundo – e os aplicativos de namoro e pegação como Grindr, Scruff e Tinder podem estar “agindo de forma socialmente responsável e ajudando a eliminar o estigma de ser direto quanto a sua saúde sexual”.

Imagine se houvesse uma opção no Tinder para que as pessoas declarassem-se “Negativas, fazendo PrEP” ou “soropositivas, tomando medicamentos/indetectável”. Esse tipo de franqueza, no mínimo, daria início a conversas importantes sobre preconceitos ocultos.

.o0o.

Como se sente quem é rejeitado por causa de seu status sorológico? Muito mal, afirma Andrew Piddington, um amigo que conheci há muitos anos, no início do Twitter.

“Eu estou muito bem. Eu nunca estive tão saudável, e a ideia de que alguém não queira estar comigo só porque eu sou soropositivo é perturbadora”, disse-me Andrew recentemente, por telefone. Desde que contraiu o HIV em 2012, Andrew, um jornalista musical de 36 anos que mora em Nova York, tem sido aberto quanto a seu status, sua vida, e as batalhas românticas que alguém soropositivo tem que enfrentar.

“Eu não divulgo meu status nos perfis de namoro”, afirma; ao invés disso, ele prefere deixar um link para um texto que escreveu sobre como foi quando se tornou soropositivo, para que os interessados leiam antes de entrar em contato. Ele não quer “ser julgado por três letras ao lado do meu nome”.

Pessoas como Brandon e Andrew – estáveis, bem sucedidos, viris – não deveriam ser rejeitados só por causa de três letras. A notícia boa é que sua franqueza sobre seu status pode estar começando a esclarecer os soronegativos sobre suas opções.

“Eu vejo cada vez mais casais sorodiscordantes virem a público”, comemora Almanza. Ele acredita que esses relacionamentos “devem-se em grande parte à PrEP, maior comunicação, e, mais importante, à educação.”

A pessoa com quem alguém decide ter relacionamentos íntimos é uma decisão privada, que se baseia no passado de cada um, sua história, e suas vivências pessoais. Mas se nós na comunidade LGBT exigimos uma aceitação maior pelo status quo quanto ao casamento igualitário e leis contra discriminação, nós devemos começar por realmente aceitar todos dentro de nossa comunidade, não apenas dizer que aceitamos enquanto excluímos alguns sexualmente.

Claro, ainda deve-se usar o bom senso quando se escolhe parceiros sexuais – as pessoas podem mentir quanto a estarem fazendo PrEP ou tomarem medicamentos antirretrovirais. Mas se as duas pessoas sentem confiança entre si, dado o que sabemos sobre gerenciar o vírus hoje em dia, não há razão para que medos infundados nos afastem.

.o0o.

Eu e Brandon nunca marcamos nosso terceiro encontro. Depois do jantar, eu agradeci por uma noite agradável e inventei uma desculpa não muito convincente sobre precisar voltar para casa e dar comida para o gato. Eu nunca mais falei com ele.

Eu penso muito sobre Brandon – sobre como eu fui idiota ao permitir que seu status sorológico me assustasse como assustou. Eu não faço ideia se a gente daria certo ou não, e agora eu estou constrangido demais para entrar em contato com ele e descobrir.

Desde então comecei a fazer PrEP, uma das melhores decisões que ja tomei pela minha saúde sexual e emocional. Eu sei que não é uma pílula mágica, mas, pelo menos, é mais uma camada de proteção, contra o HIV e contra minhas ansiedades sobre o HIV. Brandon não foi o primeiro cara a me contar que era soropositivo durante um encontro, mas ele será o último que eu joguei no lixo apenas por causa de seu status.

Já é difícil encontrar alguém com quem valha a pena ter um encontro – por que tornar isso ainda mais difícil erguendo barreiras desnecessárias? O HIV não deveria ser sinônimo de deslizar o perfil pra esquerda.

Participe da discussão! Deixe um comentário:

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

7 comentários

Dan

Há uns 3 anos conheci um cara na academia que frequento, em Campinas. Inteligente, bem sucedido, humor afiado, culto. Médico. Saímos uma primeira vez. Sentamos em uma padaria e conversamos, literalmente, por horas. Estávamos a nos despedir até que, então, resolvi ir com ele para casa. Ficamos juntos. Foi muito gostoso. Começamos a trocar milhões de mensagens: o interesse era mútuo.

Em nosso segundo encontro, como havia percebido que o interesse era real e recíproco, senti que deveria contar a ele que sou soropositivo, que me trato com os medicamentos indicados pelo meu médico, que minha carga viral é indetectável há anos e que estou muito bem de saúde. Estávamos na cama, conversando, era uma tarde cinza de domingo. Ficamos na cama por um tempão (não sei se horas ou minutos, mas a mim me pareceram horas). Antes de ir embora ele pediu para ver meus exames. Eu mostrei, como se devesse alguma coisa a ele além de minha palavra.

Do domingo cinza em diante, os dias para nosso “relacionamento em potencial” só ficaram mais e mais escuros. As mensagens foram diminuindo até parar, as ligações se espaçando a cada dia, os plantões dele aumentando exponencialmente. Percebi que ele não havia cortado relações, mas só retornava ligações ou respondia mensagens se eu tivesse a iniciativa. E eu tive: insisti; procurei-o diversas vezes; convidei para sair. Acabamos saindo para comer ou ir ao cinema umas duas outras vezes. Culminou numa outra tarde de domingo em que havíamos combinado de sair e ele simplesmente sumiu. Liguei. Ele disse que não sairia mais porque estava jogando buraco com a mãe e irmã. Não tinha mais como. E tudo acontecendo com um marco tão claro, com dia, hora e minuto específico, que eu carinhosamente apelidei de “minuto HIV”.

Compartilho, agora, minha sensação: um sentimento de menos-valia, de como o que eu hoje sou – e não tenho a escolha de deixar de ser – havia gerado em alguém um sentimento de repulsa que desprezara todo o resto que eu também sou e que, modéstia à parte, é bem legal: um cara da mesma idade dele, 35, bem sucedido, culto, bonito, malhado, educado, respeitoso, inteligente, alto-astral, viajado, financeiramente estável. Fiquei muito, muito triste. Era como se tudo que sou deixasse de ser em função de uma sorologia.

A moral da história: hoje ele namora um outro rapaz, mas acho que se arrepende do acontecido. Não ouso chamar o acontecido de decisão, porque acredito que decisão é resultado da reflexão que ele somente teve a chance de ter depois. No meio de uma viagem ao exterior, nos falamos via Skype e ele me disse, com todas as letras, que se arrependia de não ter tentado. Achei nobre da parte dele. Disse também que estava disposto a tentar de novo (o que significaria largar o outro), caso eu topasse. Achei podre: não somos seguro de automóvel e pessoas não são carros-reserva.

O que gostaria de deixar aos que lêem: apareceram outros. Melhores, piores, diferentes, iguais a mim e muitos sentidos, opostos em diversos outros. Siglas como HIV e palavras como soropositivo deveriam ser seguidas sempre de algo mais, de uma vírgula, um ponto-e-vírgula, de débeis reticências que sejam… nunca de um ponto final. Sinto-me uma pessoa melhor em todos os sentidos possíveis hoje, soropositivo, em tratamento, saudável, feliz, levando minha vida, tropeçando em meus erros, rindo, levantando, mas, acima de tudo, seguindo em frente, ora solteiro, ora não. E tudo isso, apesar do mal que me fez, me fez melhor, mais forte e mais capaz de entender que nem todos estão prontos a lidar com questões delicadas e que isso não é culpa deles. Também me mostrou que muitos aceitam de verdade, entendem com a alma e não, literalmente, com o conhecimento médico do médico em questão (risos).

E por fim, uma curiosidade. O slogan de uma marca de óculos de sol acabou virando o meu: NEVER HIDE.

Reply
Roseli

Depois que descobri que sou soro positivo aumentou bastante minha carencia, tive um casamento fracassado, e depois da separação descobri esse problema, meus sonhos de ser feliz ao lado de alguem acabou, pois infelizmente somos muito descriminados pela sociedade

Reply
Kaio

Prazer! Vim pedir uma ajuda de vocês leitores e editor(es) do site/blog, leia até o fim por favor. Estou cursando TI e um dos módulos exige criação de blog/site, para fugir um pouco de assuntos que não acrescenta muita coisa (tv,futebol e etc .), decidi que o meu assunto seria algo realmente importante, o Hiv e a Aids .Não sou portador do vírus, tenho amigos e conhecidos que convivem com a doença e sei bem como funciona o preconceito e a ignorância de pessoas sobre o assunto, então já que surgiu uma oportunidade de reverter isso eu a farei ,enfim, o vírus tem vários termos técnicos complicados e o assunto é grande então decidi me focar apenas em histórias por enquanto.
Quando uma pessoa passa por um momento de risco o primeiro lugar que ela recorre é a internet, minha intenção é contar histórias de pessoas que já são portadoras do vírus, como descobriu a doença? Estagio? Como vivem ?e tudo mais que a pessoa quiser contar , Para ajudar essas pessoas que descobriram há pouco tempo ou ainda não descobriram ,mas estão na dúvida ,que nem tudo está perdido ,pelo contrário ,a força de pessoas com Hiv ou Aids de Lutar contra a doença e permanecer vivo, a alegria e a bondade de muitos é bem maior do que de pessoas ”saudáveis’ ‘a chance de passar a doença de pessoas tratadas é quase inexistente ,isso porque nada é exato na ciência .Então além de ajudar pessoas que descobriram há pouco tempo ou irão descobrir , trazer informações para os que vivem na ignorância também é meu foco.Tenho algumas ideias que não vi em outros blogs e sites , mas quero primeiro ver se sera possuir colocar em pratica .
Minha intenção não é florar o site então estarei deixando essa mensagem em apenas uma página, e peço que se possível não apague, o e-mail para contar a sua história caso se interesse é:contesuahistoriahiv@hotmail.com , o blog ainda está sem edição ,nem historias ,pois não quero um ctrl c + v e sim pessoas que se interessem em falar ,o endereço vai ser esse : historiasdesuperacaohiv.blogspot.com
Obrigado a você que chegou aqui. Independente da sua Religião ou se não possui, Fique com Deus!

Reply
Marcio Caparica

PrEP no Brasil ainda está em fase de estudos, e não deve estar disponível para a população em geral em menos de um ano ou dois.

Reply
Gustavo

Descobri ser soropositivo esse ano, confesso que não foi fácil no ínicio, mas aceitei bem minha condição.
O que mais me deixa preocupado é se acontecer um relacionamento, se eu me interessar por alguém sorodiscordante, apesar de termos diversos tratamentos no mercado, algumas pessoas no geral não estão preparadas para se relacionar com alguém positivo.
O que mais me assusta é que essas mesmas pessoas criam perfis em aplicativos e querem transar sem camisinha.

Reply
Toni

Sou soropositivo e frequentemente me perguntam o motivo de eu falar abertamente sobre a minha sorologia, alguns já chegaram até a insinuar que faço isso para ser o centro das atenções e ter os meus 15 minutinhos de fama… Mas tenho mesmo motivo para me esconder? Não vejo a menor necessidade de fazer isso, o HIV não é um crime para eu escondê-lo, e não tenho vergonha de ser soropositivo.

É triste, mas vivemos em uma sociedade em que ensina a mulher a não ser estuprada, aos gays a não apanharem na rua, ao negro a se calar perante ao racismo e ao soropositivo a esconder a sua sorologia em vez de ensinar ao ser humano que segregação e certos outros tipos de atitudes não são corretas.

Me identifiquei com a matéria do começo ao fim, obrigado pela tradução!

Reply