Onde o amor é proibido: ensaio registra LGBTs em países em que a homossexualidade é ilegal

O fotógrafo Robin Hammond reuniu os relatos de vítimas de violência homofóbica em sete países onde sair do armário pode lhe custar a liberdade - ou a vida. Confira as histórias chocantes de seus personagens

por Marcio Caparica

Apesar dos grandes avanços recentes dos direitos LGBTs (e no respeito a eles), ainda há muitos países no mundo em que pessoas são alvo de violência por causa de sua sexualidade ou identidade de gênero. Em alguns países, ser LGBT é oficialmente contra a lei. É importante que saibamos como é a vida de pessoas que vivem sob esse tipo de opressão.

O fotógrafo Robin Hammond viajou por sete países em que esse tipo de violência é comum, retratou as vítimas da intolerância e registrou seus relatos no projeto Where Love Is Illegal (“Onde o amor é ilegal”). Em entrevista à revista National Geographic, o fotógrafo contou por que decidiu tomar essa iniciativa: “Eu viajo muito, e frequentemente me deparo com opiniões com que não concordo, e tenho que me esforçar para me colocar na posição das outras pessoas. Mas achei difícil suportar esses depoimentos de pessoas inteligentes, de quem eu gostava. Meus projetos geralmente nascem de uma experiência de injustiça, ou de presenciá-la. Vêm de algo que me deixa revoltado. É vital para mim contar essas histórias – as que ainda não foram contadas.”

Abaixo você pode conferir o resumo de alguns dos depoimentos colhidos por Hammond. Confira a íntegra dessas histórias (em inglês) e outras mais no site desse projeto.

Gad, Síria

Gad, da Syria, foi estuprado e acusado de ser homossexual.

“Uma noite em agosto de 2014 a polícia fez uma batida em nossa casa… Eles me deram socos e pontapés. Colocaram um saco preto sobre minha cabeça. (…) Nós podíamos ouvir uns aos outros sendo torturados. Isso durou três dias. (…) Se eles perguntavam algo e a resposta não era a que queriam ouvir, eles começavam a bater em mim de novo… Eu me recusei a dar nomes.”

Três dias mais tarde, onze sírios, quatro libaneses e um iraquiano foram levados para a prisão de Zahle. Quando Gad estava passando por um corredor, dois homens o puxaram de lado, o levaram para outro andar da prisão, para dentro de uma cela onde ele foi espancado por dois homens. Enquanto um vigiava a porta, o outro o levou para o banheiro. “Ele colocou o pau pra fora e me forçou a chupá-lo. Depois que ele terminou, ele trocou de lugar com o outro guarda. Daí veio um terceiro e tentou me sodomizar. Eu comecei a chorar e implorar para que parassem. ‘Eu beijo sua mão, Deus abençoe seus pais, por favor parem’, eu dizia.”

Depois de 28 dias os prisioneiros foram soltos. Eles foram levados à corte e acusados de “homossexualidade”, sob o artigo 534 do código penal libanês, que proíbe que se tenha relações sexuais que “contradizem as leis da natureza”, e é passível de penas de até um ano de prisão.

J & Q – Uganda

J&Q são um casal de lésbicas de Uganda

“Várias vezes nós temos que fingir que somos irmãs para nos encaixarmos em nossa sociedade, principalmente no bairro em que moramos.

“Nós já fomos atacadas verbalmente por homens que perceberam que somos um casal. Uma vez um grupo de homens se aproximou de nós numa boate, querendo nossa companhia. Quando perceberam que estávamos juntas, eles começaram a nos xingar, dizendo ‘vocês precisam ser estupradas para se livrarem dessa estupidez de gostar de outra garota’. Já derramaram bebidas sobre nossas cabeças e atiraram garrafas em nós. Nossa vida social é muito limitada porque tememos por nossas vidas.

“É raro que nós vivamos mais do que poucos anos na mesma casa, devido às suspeitas constantes dos vizinhos. Nós sempre tentamos convidar alguns amigos homens para nos visitar e fingir que são nossos namorados.”

M, Síria

M teve que fugir de seu país por causa de ameaças do Estado Islâmico

“Tudo começou quando Jabhat Al Nusra raptou alguns gays em nossa área. Primeiro raptaram alguns de seus amigos – eles viram as fotos em seus celulares, e começaram a caçá-los. Eles armaram um plano para me raptar: um cara fingiu que era gay e queria me conhecer. Nós saímos num encontro, e então decidimos ir à casa de seu amigo. Era uma armadilha. Primeiro ameaçaram que iam cortar minha cabeça ou dar um tiro em mim – eles colocavam a faca contra minha garganta e diziam ‘está pronto para morrer?’. Faziam o mesmo com uma arma. Eu sugeri que eles barganhassem com minha família. Eu fui detido por duas semanas. Minha família pagou por volta de 13 mil dólares para me libertar. Às vezes eu ficava com medo mas eu acreditava que eles só estavam fazendo isso pelo dinheiro.

“Depois que fui libertado, minha família me disse para ir para o vilarejo perto da minha tribo, mas eu fui trabalhar e segui com minha vida normal. Quando eu voltei para minha casa, o vigia estava tremendo. Ele disse ‘por que você está aqui? O Estado Islâmico está atrás de você!’. O EI tinha confiscado meus documentos.  Eu liguei para meu tio, que entrou em contato com eles. O EI lhe disse ‘Ele é homossexual e tem que ser morto. Ele é um fugitivo. Ele não tem permissão de ficar nesse estado’. Meu tio tomou providências para que eu escapasse. Eu tinha apenas duas horas para ir embora. Eu parti apenas com as roupas do corpo para uma cidade sob controle do regime sírio, dali para Damasco, e então para Beirute.

“Meus parentes ficaram sabendo que eu sou gay, e agora também querem minha cabeça. (…) Estou esperando há oito meses por asilo. (…) Há membros da minha tribo e da minha família que fazem parte do EI e sabem onde estou. Eles me disseram que vão me caçar em breve – mesmo que o EI seja eliminado da Síria eles vão se vingar de mim porque eu destruí a imagem da minha família e da minha tribo. A punição adequada é cortar minha cabeça. Um deles me disse: ‘Eu vou ficar tão feliz no momento em que eu vir o sangue sobre sua cabeça, quando eu cortar sua garganta e você estiver implorando para que eu termine o serviço logo’. Ele era o melhor amigo do meu primo.

Amanda, África do Sul

Amanda foi estuprada por um homofóbico

“Em 2007 eu fui estuprada por um homem enquanto viajava com uma amiga. Eu queria cigarros e perguntei a um homem na esquina onde poderia comprá-los. Ele me levou até o lugar. No caminho de volta, ele me perguntou se eu saía com mulheres, e eu disse que sim. Ele então perguntou se eu era lésbica,  e eu disse que sim. Ele então disse que ia me mostrar que eu era mulher, sacou uma arma e me falou para tirar a roupa. Ele me penetrou à força. Para minha sorte, uma mulher se aproximou de nós, ele fugiu. Eu chorava muito. (…) Agora eu odeio tanto os homens por causa do que aconteceu comigo. Eu amo muito Deus porque ele me protege e toma conta de mim o tempo todo. Ele sempre me guarda nos tempos bons e nos tempos ruins. As pessoas dizem que é errado sair com alguém do mesmo sexo, mas para Deus, nós todos somos seus filhos, e eu sei que Jesus me ama. Amém!”

Amanda (pseudônimo), uma lésbica da África do Sul, já sobreviveu a três ataques homofóbicos violentos. Em um deles ela teve sua perna quebrada. Nas três ocasiões insultos homofóbicos foram usados como justificativas para os ataques. “Você tem que parar de agir como homem”, disse um dos violentadores. “Você está tomando nossas namoradas, você não tem pau. Isso que você faz é uma merda – vem cá que eu vou te mostrar, você ainda não viu o que é bom”, disse outro. Amanda conta: “Minha melhor amiga foi estuprada e morta porque era lésbica. O estuprador sabia que ela ia denunciá-lo, então a matou. Eu não confio nos homens, para mim são todos iguais. Eles podem parecer amistosos, mas, por dentro, são cheios de maldade.”

Simon, Uganda

Simon, de Uganda, foi apedrejado com o namorado.

“Meu nome é Kwesigabo Simon, e eu tenho 22 anos. No dia 11 de setembro de 2012, eu e meu namorado estávamos fazendo sexo num no apartamento que alugávamos. Um de nossos vizinhos, que sempre havia suspeitado de nós, ouviu nossos gritos enquanto fazíamos sexo e foi imediatamente à delegacia, avisando todos pelo caminho que havia nos ouvido fazendo sexo. Ele então voltou até nossa porta com a polícia e outros moradores da cidade. Eles bateram na porta, mas nós não abrimos, então a polícia arrombou a porta. A polícia nos encontrou nus. Eles nos algemaram e nos levaram para fora. Imediatamente a multidão começou a nos bater com pedras e paus, dizendo que éramos amaldiçoados e tínhamos que morrer. Depois a polícia nos levou por todo vilarejo, sem roupas, nos arrastando por cima de pedras, o que fez com que sangrássemos muito. Não recebemos qualquer cuidado médico. Fomos jogados numa cela. Os policiais disseram para os outros detentos que éramos gays. Os detentos então começaram a nos bater até caírem de sono. No dia seguinte nós fomos levados ao hospital porque estávamos em condição crítica. O doutor que nos atendeu era um ex-namorado, que se compadeceu de mim. Ele me deu analgésicos e nos ajudou a fugir do hospital.”

Tiwonge, Malaui

tiwonge

“Meu nome é Tiwonge Chimbalanga. Eu tenho 25 anos e atualmente moro na Cidade do Cabo, na África do Sul. Em 2009 eu me casei com Steven, o primeiro casamento gay já realizado em meu país. Naquela época não era permitido que gays se casassem no Malaui. No dia 28 de dezembro eu e Steven fomos presos. Foi uma experiência muito dolorosa, era a primeira vez que eu ia parar na prisão. Enquanto eu estava presa, me disseram que eu passaria no mínimo 14 anos atrás das grades por causa do que fiz, mas isso não aconteceu porque algumas organizações e pessoas interviram. Eu fui libertada no dia 27 de maio de 2010 depois que o secretário geral das Nações Unidas, Ban Ki Moon, conversou com o presidente do Malaui, Bingu Wa Muthalika. Depois que voltei à liberdade, as pessoas me xingavam muito, foi muito difícil, então eu decidi fugir para a África do Sul com meu marido.”

Buje, Nigéria

Buge foi ostracizado pela família na Nigéria depois de descobrirem que era gay

“Quando eu tinha 19 anos, minha mãe me pegou fazendo sexo com um amigo. Ela chamou meus irmãos e irmãs e contou tudo para eles. Desde então, tudo mudou. Meus irmãos começaram a me tratar com ódio e discriminação.

“Poucos meses depois desse incidente outro problema aconteceu e eu acabei na prisão. Foi então que passei pela maior humilhação da minha vida. Eu comecei a rezar para que Deus tomasse minha vida para que eu pudesse descansar, por causa de todos os maus tratos e dificuldades por que eu tive que passar na prisão. Os guardas nos faziam carregar fezes, lavar pratos e roupas, e nos tratavam com ódio. Quando passavam pela minha cela, diziam ‘esse é aquele gay que trepa com homens’. Eu chorava todos os dias.

“Depois que saí da prisão minha família me rejeitou. Depois de muito tempo eles deixaram que eu voltasse para casa, mas ainda assim não me tratavam como membro da família. Eles não me davam comida. Quando eu fiquei doente, ninguém cuidou de mim. Eles me diziam ‘Deus devia tirar sua vida para que todos possam ter paz, porque você envergonhou tanto nossa família’.

“Depois que eu me recuperei da doença, eu consegui um emprego lavando carros. Uma semana depois, as pessoas do meu bairro foram até o dono do lava-carros e falaram que ele devia me despedir. Ele não teve opção além de me demitir. Eu me tornei nada, um ninguém.”

D & O, Rússia

D & O foram atacadas na saída de um metrô de Moscou por serem lésbicas

“No dia 19 de outubro nós estávamos retornando muito felizes de um show de jazz. Ele terminava bem tarde, pegamos o último trem do metrô para voltar para casa. Havia poucas pessoas conosco na estação. Havia apenas mais dois caras nas escadas rolantes, que aparentavam ter 25 anos. Nós subimos de mãos dadas e em um momento nos beijamos. Depois disso, um pedaço de papel amassado passou por nós, mas preferimos não dar atenção a isso. Achamos que fosse acidente.

“Saímos do metrô pelo caminho de sempre, de mãos dadas. As ruas estavam desertas, mas nós passamos por elas todos os dias, então não havia razão para preocupação.”

O: “Ouvimos passos rápidos, e imediatamente senti um golpe forte contra minha cabeça. Eles nos atacaram pelas costas sem dizer nada.  Foi tudo tão rápido. Por um instante pensei que queriam roubar minha bolsa.”

D: “Eu tentei puxar minha namorada para perto para protegê-la, mas não deu tempo. Ela mal conseguia ficar de pé. Quando me virei, vi o agressor – um dos jovens da escada rolante. Ele gritava, ‘Ah, sua lésbica de merda!’. Eu tentei afastá-lo, mas daí ele bateu em mim.”

O: “Eu gritei, assustada, ‘Você está maluco? Nós somos irmãs!’. Nesse momento ele bateu na cara da D., gritando ‘Eu vi vocês! Promovendo LGBT!’. Ele batia em cada uma de nós, gritando ‘Fora LGBT!’. Nós tentamos fazer algo, inutilmente. Nos sentimos totalmente impotentes. Esse tempo todo o amigo dele ficou ao lado, filmando o que acontecia com seu celular, provavelmente para mostrar depois para os amigos. Isso durou alguns minutos. Finalmente o agressor gritou que ia nos matar se nos visse de novo. E então partiram.

“Desde então eu tenho a impressão de que a qualquer momento alguém pode chegar e nos atacar sem motivo algum. Agora, quando andamos de mãos dadas, eu não consigo deixar de pensar: ‘como as pessoas a nossa volta vão reagir? Será que vão nos bater gritando Fora LGBT?’. Eu pedi perdão para minha namorada por não ter conseguido protegê-la. Até agora minha impotência me assombra. Sim, agora eu fico atenta às ruas e vejo cada homem que passa como uma fonte de perigo em potencial. Mas cada vez que, agora, eu pego na mão da minha namorada, eu o faço conscientemente, é minha escolha. D., pegue na minha mão, essa é minha recompensa pela sua coragem.

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7 comentários

EDIVALDO

Q horror essas pessoas não teem, amor a si próprio e semeiam o mau por nada pelo simples epequeno fato de q existem pessoas q gostam de coisas diferentes ate porque ninguém nasce igual ao outro. isso e sinistro ninguém nasce com os mesmos valores vontades ou desejos isso e, anormal desleal e desumano. estas pessoas são sem duvida pessoas que desconhecem o amor por si próprio e o que e pior também pelo próximo. E PIFIO e sem fé no que interessa no amor.

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fel

eu vi um video de casais gays sofrendo ofensas e insultos na rússia

gays na rússia não podem andam de mãos dadas nas ruas nem demonstra afetos

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