Caitlyn Jenner recebe prêmio ESPY de coragem

Caitlyn Jenner: “pessoas trans merecem algo vital: seu respeito”

Ícone trans recebeu ontem prêmio do canal ESPN por sua coragem. Em seu discurso, a ex-atleta frisou a importância do exemplo que esportistas dão para jovens em todas as áreas de suas vidas

por Marcio Caparica

Ontem aconteceu a cerimônia de entrega do prêmio ESPYS, promovido pelo canal esportivo de TV a cabo ESPN para atletas que se destacaram no último ano. Caitlyn Jenner foi homenageada com o prêmio Athur Ashe de Coragem. Ela foi apresentada pela futebolista Abby Wambach, e, depois de um vídeo de dez minutos que mostrava sua carreira esportiva, Jenner fez um discurso em que agradeceu o prêmio e falou da importância do exemplo dos atletas na vida de seus milhões de fãs.

Conhecida até o ano passado como Bruce Jenner, ela ganhou a medalha de ouro no declato – e bateu o recorde para essa modalidade – durante Jogos Olímpicos de 1976, em Montreal. Isso tornou-a um ídolo nos Estados Unidos. Mas como o que não falta é gente horrível no mundo, depois que Caitlyn anunciou sua transição em uma entrevista com a jornalista Diane Sawyer e com a capa da revista Vanity Fair, houve quem criasse uma petição online para que ela devolvesse a medalha que conseguiu com tanto esforço há quase 40 anos. Os criadores da petição argumentam que, como ela sempre foi mulher, mas vivia no corpo errado, estaria desqualificada para um esporte em que apenas homens competem – as mulheres competem no heptatlo.

Apesar dos detratores, Jenner continua imensamente popular. Sua conta no Twitter bateu o recorde de popularidade (vencendo inclusive o perfil do presidente Barack Obama), alcançando um milhão de seguidores em apenas quatro horas. Se, mesmo assim, você ainda se confundir ao pesquisar sobre a ex-atleta no iPhone, o software Siri agora corrige automaticamente o nome e o gênero dela para você.

Confira abaixo o vídeo e a tradução do discurso comovente que Caitlyn Jenner deu ao receber seu prêmio.

Muito obrigada. É maravilhoso estar aqui essa noite. Os últimos meses foram um turbilhão de tantas vivências e emoções diferentes. Mas para falar a verdade, parece que cada vez que eu tenho uma virada na minha vida, eu me coloco nessas situações de alta pressão. Competir nos Jogos Olímpicos, construir uma família. Mas nunca me senti sob tanta pressão do que nos últimos meses. Escolher esse vestido… OK, garotas, saquei! [risos] Você tem que escolher os sapatos, o cabelo, a maquiagem, o processo todo. Foi exaustivo. E agora, a patrulha da moda – por favor, sejam gentis comigo, eu sou uma novata.

Eu queria mandar um recado rápido para nosso time de futebol… Meninas, vocês mandam muito bem!

Mas a verdade é que, até poucos meses atrás, eu nunca havia encontrado qualquer outra pessoa que fosse trans, que fosse como eu. Eu nunca havia encontrado uma pessoa trans, nunca. Como vocês acabaram de ver, eu lidei com minha situação sozinha, de maneira privada, e isso fez com que essa jornada se transformasse numa educação incrível por si só.

Foi algo que abriu meus olhos, foi inspirador, mas também assustador. Por todo país, nesse momento, por todo o mundo, nesse momento, há pessoas jovens lidando com o fato de que são transgênero. Elas estão aprendendo que são diferentes e estão tentando descobrir como lidar com isso, além de todos os problemas que todos os adolescentes têm.

Elas estão sofrendo bullying, estão apanhando, estão sendo assassinadas e estão cometendo suicídio. Os números que vocês acabaram de ouvir são assustadores, mas são a realidade do que é ser trans hoje.

Mês passado o corpo de Mercedes Williamson, de 17 anos, uma jovem transgênero de cor, foi encontrado num campo no Mississippi, esfaqueado. Eu também quero falar para vocês sobre Sam Taub, um jovem transgênero de 15 anos de Bloomfield, Michigan. No começo de abril Sam tomou a própria vida. A história de Sam em particular me persegue porque sua morte aconteceu poucos dias antes de minha entrevista com Diane Sawyer ir ao ar no canal de TV ABC.  Cada vez que algo assim acontece, as pessoas se perguntam, “Isso poderia ter acabado de maneira diferente se esse assunto tivesse recebido mais atenção antes?”. Nunca saberemos.

Se há algo que eu conheço por causa da vida que tive, é o poder da fama. Às vezes ele é avassalador, mas com a atenção vem responsabilidade. Como um grupo, como atletas, a maneira como conduzimos nossas vidas, o que você diz, o que você faz, tudo é absorvido e observado por milhões de pessoas, principalmente pelos jovens. Eu tenho muito clara para mim a responsabilidade que tenho daqui para frente, de contar minha história da maneira correta, de continuar a aprender, de fazer o que for possível para mudar a maneira como as questões trans são vistas, a maneira como pessoas trans são tratadas. E também promover mais amplamente uma ideia muito simples: aceitar as pessoas como elas são. Aceitar as diferenças das pessoas.

Essa noite meu apelo é que vocês unam-se a mim e façam dessa também uma de suas causas. Como podemos começar? Começamos com a educação. Eu tive o privilégio de encontrar Arthur Ashe algumas vezes, e eu sei como a educação era importante para ele. Aprenda tudo que puder sobre outras pessoas para poder compreendê-las melhor.

Eu sei que as pessoas nesse recinto têm respeito pelo trabalho duro, pelo treinamento, por passar por algo difícil para alcançar o resultado desejado. Eu treinei muito, competi muito, e por causa disso, as pessoas me respeitavam.

Mas essa transição foi mais difícil para mim que qualquer outra coisa que eu pudesse imaginar. E a mesma coisa acontece com tantas outras pessoas além de mim. Simplesmente por isso, pessoas trans merecem algo vital: elas merecem seu respeito. E com esse respeito vem uma comunidade com mais compaixão, com mais empatia, e um mundo melhor para todos nós.

Há muitas pessoas que trilharam esse caminho antes de mim. Nos esportes, Renée Richards; Chaz Bono, Laverne Cox, e muitos outros. Janet Mock está conosco essa noite. Eu gostaria de agradecê-los todos publicamente, e os ESPYs, e o falecido Arthur Ashe, por concederem essa plataforma para que eu possa começar a próxima fase de minha jornada. Eu também quero reconhecer todos os jovens atletas trans que estão por aí – a quem é dada a oportunidade de competir como quem realmente são.

E agora, essa semana, parece que pessoas trans logo poderão servir no exército. Essa ideia é excelente. Nós já avançamos muito. Mas ainda temos muito trabalho a fazer.

Eu gostaria de agradecer pessoalmente a minha amiga Diane Sawyer. Sabe, só é possível contar sua história pela primeira vez uma única vez, e, Diane, você fez isso com tanta graça e autenticidade. Eu e a comunidade trans estamos tão gratos por isso. Muito obrigada, Diane, eu tenho orgulho de ser sua amiga.

Agora vem a parte mais difícil: eu gostaria de agradecer minha família. O maior medo que Caitlyn Jenner sentia quando se declarou era o de que acabaria magoando alguém; mais do que nada, eu não queria magoar minha família e meus filhos. Eu sempre quis que minha família sentisse orgulho de seu pai pelo que ele alcançou em sua vida. Vocês me deram tanto em retorno, me deram tanto apoio, eu sou tão, tão grata por tê-los em minha vida. Obrigada.

E, com certeza, por último, mas não menos importante, minha mãe. Minha mãe que, há pouco mais de uma semana, teve que se submeter a uma cirurgia e não achava que sobreviveria, mas está aqui comigo essa noite para compartilhar esse momento. Eu sei que eu sempre pensei que havia herdado minha coragem e minha determinação de meu pai, que lutou na praia de Omaha e combateu durante toda Segunda Guerra Mundial. Mas sabe o que eu penso agora, mãe?Que eu herdei essas qualidades de você. Eu te amo muito. Eu estou muito feliz que você está aqui para compartilhar esse momento comigo.

É uma honra ter a palavra “coragem” associada a minha vida. Mas essa noite outra palavra me vem à mente, e essa palavra é “abençoada”. Eu devo muito ao esporte. Ele me exibiram para o mundo, e me deu uma identidade. Se alguém queria mexer comigo, sabe de uma coisa? Eu era o melhor jogador do time de futebol americano. Isso não ia me afetar. E a mesma coisa vale para essa noite. Se alguém quiser me xingar, fazer piada, duvidar das minhas intenções, vá em frente, porque o fato é que eu consigo aguentar tudo isso. Mas milhares de garotos e garotas por aí, tentando compreender como serem verdadeiros a si mesmos, não deveriam ser obrigados a aguentar esse tipo de coisa.

Então, para todos vocês que se perguntam sobre o que é que isso tudo se trata – se é uma questão de coragem, ou vontade de gerar controvérsia, ou para me promover – bem, eu vou dizer do que isso se trata. Trata-se do que vai acontecer daqui para frente. Não se trata de uma pessoa só. Trata-se de milhares de pessoas. Não se trata de mim. Trata-se de todos nós aceitarmos uns aos outros. Somos todos diferentes. Isso não é ruim, é bom, e pode não ser fácil superar aquilo que você não compreende, mas eu quero provar que isso é absolutamente possível, se nós todos o fizermos juntos.

Muito obrigada por isso. Muito obrigada por concederem essa honra a mim e a minha família. Obrigada.

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3 comentários

Por que criei o filtro de bandeira trans — e o que aconteceu depois… | PIRATAS

[…] Se você realmente busca a igualdade, é crucial buscar a interseccionalidade. A realidade é que pessoas transgênero são de longe o grupo mais marginalizado da família LGBT e aquele com maior probabilidade de ser discriminado, assediado moralmente, intimidado, atacado, e assassinado. As coisas sem dúvida estão mudando, como fica evidente pela popularidade fenomenal de Caitlyn Jenner. […]

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Por que criei o filtro da bandeira trans, e o que aconteceu depois - Lado Bi

[…] Se você realmente busca a igualdade, é crucial buscar a interseccionalidade. A realidade é que pessoas transgênero são de longe o grupo mais marginalizado da família LGBT e aquele com maior probabilidade de ser discriminado, assediado moralmente, intimidado, atacado, e assassinado. As coisas sem dúvida estão mudando, como fica evidente pela popularidade fenomenal de Caitlyn Jenner. […]

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