30 fatos que a reportagem do Fantástico sobre o "Clube do Carimbo" omitiu

Conheça 30 fatos sobre HIV e Aids que o Fantástico não mostrou

O ativista Diego Callisto, um dos entrevistados pelo programa, coloca em tópicos tudo que as reportagens não exibiram sobre o clube do carimbo

por Diego Callisto

Recentemente, mais precisamente nos últimos dois domingos, foram ao ar no Fantástico duas reportagens sobre o “clube do carimbo”, que de acordo com a chamada iria mostrar as investigações que a equipe do programa realizou ao longo de dois meses, tendo acesso inclusive ao clube e entrevistando aqueles que se dizem “carimbadores”.

Entre a chamada e o que foi exibido existiu um abismo enorme de desserviço, despreparo e sensacionalismo. A matéria acerca dos supostos carimbadores, que são pessoas que disseminam o vírus HIV propositalmente utilizando-se de métodos de fraude e abuso de confiança (supostamente pessoas que furariam camisinhas ou as retirariam durante o ato sexual), pouco revelou sobre alguém que realmente praticam esses atos indefensáveis. No entanto, a absurda, criminosa, estigmatizadora e discriminatória reportagem que o Fantástico levou ao ar gerou um grande pânico moral sobre a transmissão do HIV/Aids.

Antes de discutir os pontos abaixo, quero registrar que eu, como ativista, humanista e por ser  um jovem vivendo com HIV, sou contra a transmissão do vírus de forma intencional, pois luto pela vida e não concordo que pessoas adotem práticas que caracterizam uma agressão à saúde.

Justamente por isso fiz parte da reportagem que foi ao ar: por ser uma pessoa que já denunciou esse tipo de prática, por viver com o vírus HIV e por querer mostrar que existem os dois lados da moeda. De um lado, os soropositivos que buscam viver com qualidade de vida, fazendo uso regular de medicamentos antirretrovirais e enfatizando a prática do sexo seguro, protegendo-se e protegendo o outro; no outro extremo, pessoas soropositivas, que não fazem uso de medicamentos antirretrovirais, relacionam-se e se agrupam, sexualmente falando, com a intenção de transmitir o HIV para outras pessoas, fraudando os métodos de prevenção.

Gostaria ainda de ressaltar que minha entrevista para a reportagem final foi de 57 minutos e 27 segundos e, como todos sabem, existe a edição que escolhe estrategicamente o que e como vai ao ar. Então, por mais que eu tenha tido a melhor das intenções e tenha falado sobre mecanismos importantes e relevantes para entendermos como enfrentamos a epidemia de Aids hoje, e também sobre quais as tecnologias e profilaxias disponíveis, infelizmente a grande mídia censurou, editou e reproduziu aquilo que ela achava viável e que dialogava com o eixo principal da reportagem, que no caso do Fantástico não era informar e alertar, mas sim chocar as pessoas por meio de uma matéria totalmente incoerente e desorientada.

Não acredito que seja esse o caminho, ainda mais nos dias atuais em que as pessoas pensam erroneamente que a Aids é a doença mais avassaladora do mundo. Não é. A doença mais avassaladora é o preconceito. Ele exclui, discrimina, mata e ninguém está livre dele.

Por isso, enumerei aqui 30 fatos que você precisa saber sobre Aids e HIV que e a mídia de massa (especialmente o Fantástico) não informou:

  1. Vivo com HIV há 8 anos. Minha sorologia é pública, praticamente desde o momento em que tive acesso ao meu diagnóstico, e de lá pra cá me tornei um ativista e humanista. Diante disso, umas das minhas maiores preocupações em relação ao que foi noticiado sobre o “clube do carimbo” é ressaltar para a sociedade que tal prática não é algo inerente a TODOS os soropositivos, mas a um pequeno recorte de soropositivos que se reúnem para transmitir o HIV intencionalmente. Portanto, sempre existiu da minha parte, em tempo integral durante as gravações para o Fantástico, uma preocupação enorme com esse tom generalista que as matérias em mídia impressa e online já haviam adotado no sentido de incluir o “clube do carimbo” como uma prática referente a todos os soropositivos, principalmente gays. Eu particularmente considero isso muito preocupante e estarrecedor, porque se trata de uma manipulação da informação para gerar mais estigma e preconceito a pessoas que já sofrem tendo seus direitos violados na sociedade.
  2. Acolho por dia, em média, cerca de dez pessoas que se infectam com o HIV e que me procuram com as mais variadas motivações: pedir ajuda, denunciar alguém, obter informações, parabenizar, flertar etc. Sempre me deparo com realidades diferenciadas como, por exemplo, em 2013, quando descobri e pela primeira vez denunciei a existência de um “clube de carimbo”. De lá pra cá, muita coisa mudou, a forma e a dinâmica que esses encontros acontecem se tornou menos acessível para os curiosos, e as informações atualizadas que eu tenho são de dois tipos de participantes: os que foram aos encontros e foram “carimbadas” intencionalmente, e aqueles que o usam de bode expiatório, sem nunca terem participado de qualquer ritual intencional de contaminação, mas frequentam os grupos e quando transam colocam como condição o uso da camisinha e eles mesmos levam a própria camisinha e ficam sempre alertas durante o ato sexual.
  3. Conheci um rapaz de 19 anos, com o qual eu converso até hoje. Ele já frequentava as festas de bareback (sexo sem preservativo) havia quase um ano e na época ainda era negativo. Eu perguntei pra ele se ele não tinha o medo de contrair o HIV nesses encontros e ele disse que não, que ele via pessoas positivas para o HIV vivendo numa boa e que ter HIV hoje era diferente e não adoecia mais. Foram estas exatas palavras. Tentei dissuadi-lo de tudo que é jeito a não ir mais aos encontros, que passaram a acontecer não só em São Paulo, mas em várias outras capitais e cidades turísticas. Ele de alguma forma se sentia seguro comigo na mesma medida em que se sentia seguro com o outro rapaz que organizava um desses clubes, talvez porque somos extremos opostos e existia nele a dúvida sobre continuar indo ou desistir. Eu sempre defendia o uso da camisinha e pontuava negativamente a prática desses encontros, e alertava que as pessoas com HIV que não são tratadas podem sim vim a se tornarem doente de Aids (doente de Aids é diferente de soropositivo; o primeiro desenvolveu a doença porque não se tratou, o segundo se trata regularmente e não desenvolveu a doença). Apesar das posições divergentes, esse jovem sempre me confidenciava muito do que acontecia e da dinâmica dos encontros. Foi aí que comecei a compreender e enxergar melhor como tudo funcionava, ou seja, há pessoas que buscam esses grupos voluntariamente, mesmo sabendo dos riscos. Algumas, inclusive, fetichizam o vírus, conforme já se debateu aqui no Lado Bi. O tempo passou, e esse jovem hoje tem 21 anos, é soropositivo, casado com um outro rapaz que também frequentou esses grupos e, atualmente, moram fora do país. Entendi a partir daí que existem processos muito maiores que nosso poder de intervenção e capacidade de argumentação e que, apesar de todo esforço, algumas questões, como essa por exemplo, estão muito além de bons argumentos ou intervenções propositivas. Perpassam uma conjuntura, um pensamento e um processo muito maior que eu. Existe o “clube do carimbo” ? Sim! Todos com esse nome? Dificilmente. Mas acredito que ainda existem grupos organizados de pessoas que se reúnem mensalmente para realizar tal prática voluntariamente. Certa vez um jovem que acolhi disse: sempre chegam novos integrantes na mesma medida que tem pessoas deixando de frequentar os grupos. E muitas vão somente uma vez de curiosidade, enquanto que outras não faltam a nenhum encontro mensal. A partir daí é possível inferir duas coisas: não existe uma via de regra e nem há um padrão de comportamento nesses grupos.
  4. Grande parte dos soropositivos, arrisco dizer que sua quase totalidade, não corrobora com a prática de transmitir HIV propositalmente e deliberadamente como o  “clube do carimbo” incentiva e a imprensa tem colocado. Todavia, é exatamente nessa minoria, nessa pequena parcela de pessoas, que todas as atenções e olhares sensacionalistas dos veículos de comunicação voltaram-se para carregar com mais estigma e preconceito a forma que a sociedade enxerga os gays soropositivos, que historicamente é um grupo de pessoas que sofre para combater atos discriminatórios e quebrar paradigmas impostos desde as primeiras ondas de epidemia de Aids nas décadas de 1980 e 1990. A mídia não está preocupada em informar as pessoas, mas sim em manipular a informação para criar um mal-estar geral e um conceito totalmente equivocado na sociedade em relação aos soropositivos, sobretudo gays.
  5. É óbvio que, para alguns editores, pouco importa a veracidade ou a pertinência da reportagem frente aos fatos, mas sim a repercussão e o alcance que ela terá e o posterior impacto dela na sociedade. Todo esse assunto envolvendo a transmissão intencional do HIV perpassa isso, vai exatamente de encontro às linhas editoriais que não se preocupam em informar, mas sim em chocar. O repórter que me entrevistou, por exemplo, parecia mais preocupado em provar a existência desse clube e se mostrou totalmente desconhecedor dos modernos tipos de  profilaxias e tratamento existentes, tanto para pessoas soropositivas, quanto para pessoas soronegativas. A visão dele sobre Aids, me pareceu, estar estacionada no terror dos anos 1980.
  6. Foto da câmera da Globo mostra a duração da entrevista com Diego Callisto e dá uma ideia do tanto de informação suprimida em nome do sensacionalismo

    Foto da câmera da Globo mostra a duração da entrevista com Diego Callisto e dá uma ideia do tanto de informação suprimida em nome do sensacionalismo

  7. É importante destacar que o tratamento antirretroviral (TARV) é oferecido e recomendado para todo soropositivo manter-se saudável e com qualidade de vida. O tratamento disponível hoje é muito diferente daquele oferecido no começo da epidemia, já que atualmente esse tratamento é menos tóxico, menos agressivo e mais prático de ser realizado desde a posologia até sua ingestão. Cabe ressaltar que quando realizado da maneira correta e com adesão, tal tratamento é capaz de reduzir a quantidade de vírus no sangue, a chamada carga viral a níveis indetectáveis. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma pessoa com carga viral suprimida ou indetectável apresenta menos de 1.000 cópias por mililitro cúbico de sangue, enquanto que o Ministério da Saúde tem como referência menos de 50 cópias por mililitro cúbico de sangue.
  8. De acordo com o último boletim epidemiológico divulgado pelo Departamento de AIDS e Hepatites Virais, estima-se que existam cerca de 734 mil pessoas vivendo com HIV/AIDS no Brasil, desse total 355 mil (48%) estão em TARV, sendo que 293 mil (40%) estão com a carga viral indetectável nos parâmetros da OMS e 255 mil (35%) nos parâmetros do Ministério da Saúde.
  9. Na reportagem do Fantástico, um dos alegados “carimbadores” aparece dizendo que faz uso de antirretrovirais há dez anos, ou seja, dificilmente essa rapaz está transmitindo o vírus HIV para outras pessoas e exercendo a “carimbada”. Até porque, epidemiologicamente falando, não existe nenhum dado de infecção pelo o HIV em uma pessoa com a carga viral suprimida. Nessa condição, o risco de transmissão do HIV é reduzido em pelo menos 96%, mesmo em caso de falha no uso da camisinha.
  10. Em 2012, a Comissão Federal Suíça de Aids publicou um artigo no qual afirma que as pessoas com HIV em tratamento regular por pelo menos seis meses não transmitem o HIV. Além disso, vale destacar dois estudos importantes nesse sentido: um denominado HPTN-o52 realizado em casais sorodiscordantes (ou seja, no qual um dos parceiros tem HIV e o outro não) mostrou essa redução de até 96% na taxa de transmissão do HIV dentro dos casais cujo parceiro com HIV estava tomando antirretrovirais e outro estudo, ainda em curso, denominado Partner, que já acompanhou durante dois anos casais sorodiscordantes heterossexuais e de homens que fazem sexo com homens (HSH) em que o parceiro com HIV usa antirretroviral. Até o presente momento, diante dos dados preliminares, não observou-se qualquer infecção pelo HIV durante este período. Portanto o tratamento também é prevenção, e serve como medida de proteção para que o parceiro soropositivo reduza a transmissibilidade do HIV nas relações. Justamente por isso é de suma importância que informações como essas sejam incorporadas a reportagens relacionadas ao HIV sejam elas ligadas ao “clube do carimbo” ou não.
  11. O próprio Ministério da Saúde reforça o tratamento como prevenção (de treatment as prevention, ou TasP, no original em inglês) na prevenção do HIV: o início precoce do tratamento da pessoa recém-infectada diminui a possibilidade de que ela transmita o vírus. Na maioria dos casos, com a correta adesão ao tratamento com medicamentos antirretrovirais disponibilizados pelo SUS, a carga viral da pessoa com HIV pode se aproximar de zero, alcançando níveis indetectáveis.
  12. Existem inúmeras pesquisas sobre novas profilaxias já divulgadas e em andamento, relacionadas às novas tecnologias de prevenção, inclusive algumas já são incorporadas no Brasil. Uma delas é a PEP (Profilaxia Pós-Exposição), que consiste no uso de medicamentos antirretrovirais até 72 horas após o “acidente” por 28 dias ininterruptos. Isto evita a multiplicação do vírus e posterior soroconversão e está disponível no SUS desde 2012.
  13. Há também a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição), que consiste no uso de medicamentos antirretrovirais antes do risco. No Brasil, estão sendo realizados dois estudos coordenados (IPEC/RJ e CRT/SP) para avaliar sua aceitação e implementação no país. Mesmo que ainda não disponível à população em geral do Brasil, este é um mecanismo importante no cardápio de prevenção que temos em relação ao HIV. Nos Estados Unidos, Canadá, Europa e Austrália, o uso desse tipo de medicamento como auxiliar à camisinha ou para pessoas que tenham problemas em usar preservativo já é amplamente praticado. A reportagem do Fantástico, apesar de mencionar a PEP na fala da diretora do Unaids, ignorou não só essas tecnologias disponíveis e indispensáveis para uma política séria de prevenção, como deixou de informar outras estratégias importantes como a prevenção combinada e a redução de risco.
  14. É preciso compreender a diferença entre bareback e o “clube do carimbo” uma vez que nem todo praticamente de bareback é um “carimbador”. O termo bareback surgiu no início dos anos 1990, e consiste na prática do sexo anal sem o uso de camisinha entre pessoas. Não tem relação alguma com a transmissão intencional do HIV. O pontapé inicial para toda essa confusão e pânico moral da sociedade que acontece hoje em relação ao “clube do carimbo” vem justamente pelo fato de denúncias feitas contra um blog chamado “Novinho Bareback”. Neste blog, o autor falava sobre o “clube do carimbo” e fornecia um passo-a-passo de como transmitir o vírus HIV propositalmente para outras pessoas. Com essa atenção o clube ganhou notoriedade e imediatamente a mídia se incumbiu de polemizar ainda mais o assunto. Automaticamente as pessoas começaram a associar o bareback com o “clube do carimbo”. Por mais que os “carimbadores” sejam adeptos ao bareback, nem todo barebacker transmite HIV propositalmente. Durante a minha entrevista para o Fantástico, mencionei por diversas vezes que adeptos do bareback adotam estratégias de maneira a realizar a gestão do risco, como a segurança negociada (prática de bareback entre um casal, mas caso um terceiro elemento ou outros sejam incorporados à relação, ela deverá ser com camisinha), serosorting (a escolha da relação sexual, bareback ou não, com base no status sorológico do parceiro) e vacinas preventivas que vêm sendo desenvolvidas em países como EUA e França.
  15. O repórter, no início da reportagem, diz: “Mas aí você não fala que é HIV?” Fiquei questionando várias vezes essa fala: na cabeça do repórter, então, a pessoa perde a humanidade e passa ser um vírus. Ou seja, a partir do momento que uma pessoa tem o HIV ela automaticamente passa a se chamar HIV então? Achei lamentável essa descaracterização em que a pessoa dá lugar ao vírus apenas pelo fato de ser reagente ao HIV, levando a crer que o status sorológico é mais importante que a condição humana. Isso só corrobora com o que disse no começo deste texto: o repórter tem pouquíssimo conhecimento sobre o tema HIV/AIDS.
  16. É bom ressaltar, no entanto, que nos EUA, Canadá e Europa quase como um todo, é comum que as pessoas revelem seu status sorológico antes de transar com alguém. Em muitos casos é porque elas querem saber se podem transar sem preservativo, mas em geral é porque a lei obriga que se faça essa revelação antes do sexo para que a pessoa não seja responsabilizada juridicamente por ter transmitido o HIV. Em alguns estados norte-americanos, no entanto, a pessoa pode ser responsabilizada mesmo sem ter transmitido o vírus, pelo mero ato sexual, caso não tenha informado seu status sorológico ao parceiro.
  17. Os adeptos do “clube do carimbo” agem de forma intencional com o objetivo de transmitir o HIV sem o consentimento da outra pessoa, no caso a vítima que será “carimbada”. Porém, na própria reportagem do Fantástico, percebe-se, na primeira tomada, uma conversa por aplicativo — ou simulação — onde uma pessoa fala para outra que é soropositiva e pergunta se essa outra pessoa, de sorologia desconhecida, quer ser carimbada. Isso leva a crer que essa conversa não tem absolutamente nada a ver com o “clube do carimbo”, já que a pessoa está consentindo em correr o risco de ser infectada pelo vírus HIV. Isso é um caso de negligência à própria saúde, já que a pessoa quer ser infectada pelo vírus HIV – mesmo sem saber por quê, como admite o entrevistado. A pessoa que quer se tornar uma “carimbadora”, isto é, uma transmissora intencional do vírus HIV, precisa além de negligenciar a saúde e banalizar a prática do sexo seguro, negligenciar o tratamento e a própria qualidade de vida. Só assim ele seria um transmissor do vírus HIV e poderia relacionar isso à intencionalidade de passá-lo adiante via “clube do carimbo”, que não é o que a reportagem mostra.
  18. Acredito que essa negligência da própria saúde está relacionada à minha fala na reportagem: a banalização da AIDS. Muitas pessoas pensam que viver com HIV é perfeitamente normal e preferem contrair o vírus a ter que seguir aquilo que eles têm como a “ditadura da camisinha”. Aliado a isso, vem o fato de que as pessoas que fazem parte do clube são imediatistas e vivem o hoje sem pensar no amanhã. Um dos fatores que podem levar as pessoas a agirem assim pode ser a baixa autoestima, especialmente pela maneira como a sociedade trata os gays, criando inclusive uma sensação de revolta diante desse cenário. Alguns acreditam ainda que nunca serão infectados e sentem prazer em correr o risco de contrair o HIV, os chamados bug chasers. Outros fazem puramente por revolta por terem se descoberto em algum momento da vida HIV positivo e resolvem que, além de não se tratarem, vão também transmitir deliberadamente para outras pessoas. Lembro-me que, em 2013, eu acolhi um rapaz, ex-garoto de programa, que estava em depressão. Ele me confidenciou que perdeu a conta de quantos homens e mulheres infectou durante os três anos em que trabalhou como profissional do sexo. Ele chegava a vender cocaína e outras drogas para seus clientes na intenção de deixá-los suscetíveis, e fazia o programa por um preço mais acessível justamente para atender o maior número de pessoas possível. Ele conseguiu convencer muitas delas a fazer sexo sem a camisinha, mas quando alguma delas queria usar preservativo, ele fazia o possível para rasgar o preservativo ou retirá-lo. Lembro-me de que o questionei do porquê disso e ele respondeu: “Botaram pra fuder comigo, eu retribuí na mesma moeda e botei pra fuder geral”. O caso dele era extremamente delicado na época: além de HIV ele havia contraído outras DSTs e estava bastante debilitado. Hoje ele faz terapia, sofre ainda de depressão, mas está bem melhor que antes e tenta a todo momento apagar da vida dele esse período. Segundo ele, há vítimas carimbadas por ele que até morreram, isso o deixa muito mal. Ao contrário do rapaz que se diz “carimbador” na entrevista do Fantástico, ele tem, sim, não só drama de consciência, mas depressão por todo esse período da vida dele.
  19. Transformar tal conduta em crime hediondo, conforme propõe o PL 198/2015, não aponta na direção da solução do problema. Acredito que a criminalização e punição carcerária não são solução para esses indivíduos. Pelo contrário, só reforçam o discurso do Estado penal, dos reacionários e dos setores punitivistas, que acham que a solução para comportamentos fora da normatividade burguesa judaico-cristã e ocidental é a repressão e o encarceramento. A criminalização não é a solução, como foi mostrado no Fantástico: primeiro porque existem casos de grande especificidade, que inclusive não estão ligados ao clube, como o caso dos dois entrevistados pelo Fantástico que têm relações casuais sem camisinha no próprio apartamento ou em saunas. Em hora nenhuma eles falam que frequentam um clube de sexo grupal que tem por objetivo a transmissão intencional do HIV (curioso como uma reportagem que deveria falar de um clube não conseguiu entrevistar pessoas ligadas a ele). Persistir com a criminalização só vai tornar essas pessoas ainda mais inacessíveis e dificultar qualquer tipo de intervenção comportamental junto a elas. Todo esse incentivo punitivo denota o extremo moralismo com que tratamos a questão da contaminação e da autocontaminação pelo vírus HIV. Sem dúvida, não é com a ameaça de cadeia e punição que avançaremos na consciência das pessoas e acabaremos com esse tipo de prática lamentável. Pelo contrário: aprovar leis como a PL 198/2015 só tende a aumentar o estigma, preconceito e discriminação da sociedade em relação ao HIV e pessoas soropositivas, afastando-os dos serviços de testagem e tratamento, representando um retrocesso nos esforços nacionais de controle da epidemia.
  20. Na entrevista do Fantástico, um dos “carimbadores” revela que os parceiros pedem para ele “tirar o preservativo, achando que ele não tem a doença” e que “possui o HIV controlado”. Uma pessoa adulta sabe o risco que corre ao fazer sexo sem preservativo. Nenhum soropositivo, seja ele carimbador ou não, pode ser obrigado a “cuidar da saúde” do parceiro quando se trata da relação entre pessoas adultas e com plena convicção e controle de suas ações. Neste caso, a responsabilidade é compartilhada, o sexo é consensual e cabe a cada uma das partes praticar e exercer o autocuidado. É desumano querer obrigar um soropositivo a andar com uma plaquinha de soropositivo, obrigá-lo a informar que é soropositivo e jogar no soropositivo toda a responsabilidade do ato sexual. Queremos criar uma cultura em que os parceiros soronegativos não vejam na soropositividade do parceiro um empecilho à prática sexual, ao relacionamento, e não olhem o parceiro soropositivo com repulsa. Isso, infelizmente, está bem distante de acontecer na prática. Além dos sofrimentos físicos que um soropositivo vive, e dos efeitos colaterais e adversos de algumas medicações antirretrovirais, que precisam ser tomadas durante a vida, são imensos os sofrimentos psicológicos advindos do terrorismo de ter uma “doença incurável”, da estigmatização, dos julgamentos sociais precipitados, do preconceito e da discriminação.
  21. Usar um psiquiatra para patologizar e ao mesmo tempo criminalizar os supostos carimbadores é um recurso vergonhoso. É preciso chamar uma discussão ética acerca disso e a partir daí estruturar uma intervenção. Além do equívoco científico, teórico e metodológico que é patologizar um comportamento como esse, baseado na normatividade das relações, repito: é equivocado esperar que o soropositivo seja responsável pela prevenção e prática do sexo seguro de ambos envolvidos. Igualar um distúrbio de saúde mental a um comportamento criminoso é um absurdo, é condenável e contraditório. Uma coisa pode levar a outra e vice-versa, mas igualar as duas práticas, como acontece na fala do psiquiatra da USP, “especialista em sexualidade”, é no mínimo leviano. A Rede Globo e o Fantástico, por meio de seus “especialistas”, comumente usam do recurso de autoridades para provar os seus discursos e construir mentiras e situações duvidosas.
  22. O que a reportagem do Fantástico faz não é provar a prática de transmissão deliberada por uso de fraude e abuso de confiança, mas sim condenar o comportamento barebacker, que é o perfil dos entrevistados que eles conseguiram. Se eu, que sou um soropositivo, afirmo que eu não faço sexo com camisinha com ninguém, me torno criminoso por isso? E se fosse o inverso, se fosse um negativo fazendo essa afirmação, ele seria criminoso também? O comportamento criminoso é fazer sexo sem camisinha? O falso moralismo da imprensa não admite que há pessoas adultas e capazes de fazerem suas próprias escolhas, que optam deliberadamente por fazer sexo sem camisinha sabendo dos riscos que correm, sendo soropositivas ou soronegativas.
  23. Há riscos de se praticar bareback mesmo entre soropositivos. Como existem mais de dez subtipos diferentes de vírus, os soropositivos também podem se reinfectar, sofrer um recruzamento de cepas de vírus HIV, que podem sofrer cruzamento entre si e tornar o HIV mais agressivo e portanto resistente à medicação. O fator risco existe nos dois lados da moeda e cabe a cada um estar consciente disso no ato da prática sexual. Meu corpo, meus direitos, minhas regras, minha audeterminação, minha responsabilidade, minha saúde e minha segurança.
  24. A reportagem traz ainda o relato do “carimbador” que disse ter pego HIV porque quis: mais um depoimento que não tem absolutamente nada a ver com as vítimas do “clube do carimbo”. Os dois entrevistados que se dizem carimbadores nem sequer compreendem a dinâmica do tal clube! Uma coisa é ele se intitular “carimbador”, outra coisa é ele ser um frequentador de locais de sexo grupal, como saunas e apartamentos fechados com cerca de 50 homens, todos praticando relação sem o uso de preservativo e sem qualquer conhecimento a respeito do status sorológico dos envolvidos. É irresponsável que a reportagem faça o alarde que fez, pegue duas pessoas com contextos totalmente distintos e as insira para dizer que são adeptos do “clube do carimbo”. Cada adulto possuidor de suas faculdades mentais deve ter o direito a fazer o que quiser com o seu corpo, inclusive fazer sexo sem camisinha com o objetivo de contrair o HIV. Mas o sensacionalismo não quer permitir isso, jamais! Ainda bem que, a despeito do nosso atual Congresso conservador repleto de fundamentalistas e reacionários, os legisladores de 1988 garantiram que o Estado não pode intervir sobre o corpo e a autodeterminação das pessoas. Não é a toa que a prática do aborto e do consumo de drogas são temas em debate nos órgãos judiciários superiores e há uma tendência a sacramentar esse entendimento, garantindo o texto constitucional e derrubando toda a legislação e normatividade infraconstitucional que verse em contrário.
  25. O ponto alto da falta de discernimento do Fantástico acontece quando são apresentadas as vítimas. Ao contrário do era de se esperar, elas dizem ter feito sexo sem camisinha de maneira consentida. O repórter tem ainda a infelicidade de dizer: “No caso dele, o parceiro não contou que tinha a doença e a relação sexual foi sem camisinha.” Em outro momento, a vítima diz: “Fui à sauna, pensei que iria conhecer um cara legal…” Essas falas só confirmam que elas não são vítimas, mas sim optaram por ter relações sem camisinha. No sexo consentido a responsabilidade é compartilhada, e se não é provada a prática do abuso de confiança ou fraude no sentido de furar/rasgar ou retirar a camisinha durante o ato sexual, não há a prática utilizada pelos adeptos do “clube do carimbo”. Tanto a vítima que foi infectada pelo namorado como a vítima que se infectou na sauna possuem responsabilidade em relação a prática sexual, que foi feita mediante o seu consentimento, com a sua autorização; foi responsabilidade de ambas abolir o uso da camisinha. Um dos jovens que eu acolhi fez uso de drogas e ficou fora de si; no dia seguinte pela manhã soube que havia transado com pelo menos cinco homens diferentes e todos sem camisinha. Após alguns dias ele realizou o teste para HIV e deu reagente. Esse seria um caso de “clube do carimbo”: ele foi numa festinha privada, onde estava rolando um sexo grupal com cerca de uns 30 homens, e as relações antes do uso das drogas e da bebida foram com camisinha. Depois ele fez sem mas só se ligou que isso havia acontecido porque no dia seguinte havia uma grande quantidade de sêmen saindo dele. Do contrário, talvez, ele nem perceberia que isso aconteceu e jamais teria a iniciativa de se testar. São contextos TOTALMENTE diferentes e divergentes entre uma vítima do “clube do carimbo” e essas vítimas que o Fantástico encontrou nas suas investigações. Não ficou comprovada em momento algum a prática criminosa e a intencionalidade da transmissão durante a reportagem exibida pelo Fantástico.
  26. 11088093_1097380830279216_29180193_n
  27. Evidentemente, meu posicionamento é contrário à transmissão intencional e concorda com a lei em vigor que pune tal prática como lesão corporal grave. Contudo, acredito que a prática sexual de uma pessoa com HIV com uma pessoa sem HIV, feita de forma consensual, não determina a intencionalidade e o caráter proposital da transmissão do HIV. Nós soropositivos temos nossas relações sexuais como qualquer outra pessoa que não possua o vírus HIV e não é pelo fato de ter o vírus que os soropositivos devem se privar de praticar o ato sexual e exercer a sua sexualidade.
  28. O sexo desprotegido não é uma prática limitada apenas aos gays, diz respeito à população em geral. Apesar de a reportagem do Fantástico ter colocado uma fala do psiquiatra sinalizando que heterossexuais também praticam sexo sem camisinha, e podem inclusive integrar o “clube do carimbo”, em momento algum um heterossexual foi entrevistado, nem para se dizer “carimbador” nem para se dizer “carimbado”. Novamente centrou-se o foco como algo exclusivamente dos gays e HSHs (homens que fazem sexo com homens), assim como acontecia na década de 1980 e 1990. Recentemente, no programa Lado Bi dos Héteros, nossos entrevistados disseram que homens heterossexuais não são tão adeptos da camisinha porque muitos ainda pensam que Aids é “doença de gay” e que consideram um troféu transar com uma mulher sem preservativo. De acordo com a Pesquisa de Conhecimentos, Atitudes e Práticas na População Brasileira (PCAP) divulgada em janeiro, a maioria dos brasileiros (94%) sabe que o preservativo é a melhor forma de prevenção contra as DST e a AIDS, mas 45% da população sexualmente ativa do país não usou preservativo em suas relações sexuais casuais nos últimos 12 meses. E mais: ainda segundo a PCAP, entre as mulheres, 86,8% dos casos registrados em 2012 resultou de relações heterossexuais com pessoas infectadas pelo HIV.
  29. Outro aspecto que a reportagem do Fantástico não mencionou é que, virtualmente, é mais seguro transar sem camisinha com um soropositivo em tratamento, com carga viral indetectável, do que com uma pessoa que desconhece seu status sorológico, os chamados sorointerrogativos. Um paciente soropositivo em tratamento realiza exames periódicos de carga viral e de outras DSTs, em geral a cada três meses. A periodicidade desses exames é condicionada à entrega dos medicamentos antirretrovirais.
  30. Segundo a nota lançada pelo Unaids, que também foi entrevistado pelo Fantástico, as matérias sobre o “clube do carimbo”, além de serem sensacionalistas e alarmistas, se baseiam em informações contidas em fontes de credibilidade questionável na internet, sem destacar nenhuma informação precisa e de caráter verídico. O Unaids ressaltou ainda que as matérias têm tratado do assunto de forma extremamente equivocada e generalista. Elas não informam corretamente que as práticas sexuais consentidas entre adultos sem o uso de preservativo(bareback) e os possíveis casos de transmissão intencional do HIV são coisas distintas, que devem ser tratadas de forma separada. Novamente: nem todo barebacker é adepto do “clube do carimbo”, nem todo gay, nem todo soropositivo. Apesar do Fantástico ter entrevistado alguém do Unaids, ficou claro que eles não leram a nota e, se leram, a interpretaram de forma totalmente errada, porque a matéria que foi produzida em nada dialoga com os apontamentos feitos por eles.
  31. De janeiro a dezembro de 2014, 74.794 novas pessoas com HIV e AIDS entraram em tratamento com antirretrovirais pelo SUS, o que corresponde a um aumento de 31% na comparação com o mesmo período de 2013. Grande parte desse aumento diz respeito ao novo protocolo clínico: oferecer tratamento a todas as pessoas diagnosticadas pelo HIV. Ainda cabe destacar que 88% das pessoas que iniciam o tratamento antirretroviral ficam com a carga viral indetectável após 6 meses de seu início segundo o padrão da OMS (menos de 1000 cópias do HIV/ml) e 78% segundo o padrão do Ministério da Saúde(50 cópias/ml). Tudo isso poderia ter sido falado na matéria do Fantástico, para que a matéria tivesse um tom mais informativo e menos sensacionalista, informando a população que o tratamento antirretroviral hoje se configura como um método eficaz de prevenção a transmissão do HIV.
  32. Talvez muitos desconheçam a história de Ryan White, jovem que contraiu HIV via transfusão sanguínea e descobriu seu diagnóstico ao adoecer em 1984. Os médicos lhe deram seis meses de vida. Ryan conquistou na Justiça o direito de retornar a escola, aos 15 anos de idade, visto que a escola na época não queria aceitar que o adolescente voltasse a estudar, sofrendo inclusive pressões dos pais de alguns alunos. Quando finalmente Ryan foi readmitido na escola, um grupo de pais retirou seus filhos de lá e iniciou uma escola alternativa. Ameaças de violência e processos continuavam. As pessoas na rua gritavam: “Nós sabemos que você é bicha.” Até os editores do Kokomo Tribune, jornal local que militava pela causa de Ryan, foram chamados de homossexuais e ameaçados de morte. O caso de Ryan White ganhou notoriedade em todos os Estados Unidos, disparando uma onda de discussão sobre a doença. Ele aparecia com frequência nos jornais e na televisão, discutindo seu drama. Participou de vários eventos educativos e beneficientes para vítimas da Aids. Tudo isso foi uma importante mudança de paradigma, pois até então a Aids era uma doença atribuída somente aos gays. Sua história fez todos perceberem que isso não era verdade. No início de 1990, a saúde de Ryan se deteriorou rapidamente, e em 29 de março ele foi internado. Morreu em 8 de abril de 1990 aos 18 anos de idade. Seu funeral atraiu 1.500 pessoas, entre elas o presidente Ronald Reagan, que era criticado por nunca mencionar a palavra Aids em seus discursos e por não investir recursos em seu combate, como mostrado recentemente no filme The Normal Heart. Naquele dia, Reagan prestou um tributo a Ryan, homenageando-o. Que esta história sirva como exemplo do que a ignorância e o preconceito em relação aos portadores do vírus HIV podem fazer com uma pessoa. Quero destacar uma importante frase de Ryan sobre a AIDS, que além de levar comigo pra vida, dialoga muito com nossa realidade:  “Por conta da falta de informação e educação sobre a Aids, a discriminação, o medo, o pânico e as mentiras tomaram conta do mundo.”

Apoie o Lado Bi!

Este é um site independente, e contribuições como a sua tornam nossa existência possível!

Doação única

Doação mensal:

Participe da discussão! Deixe um comentário:

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

62 comentários

Mark

Excelente texto. Não sei se sou soropositivo, mas fui exposto a uma situação de risco e termino hoje minha PEP. Também não sou homossexual ou bi. Olha, vejo que as pessoas, independente da orientação sexual que se classifiquem, apenas abraçam às responsabilidades que querem sendo covardes quanto as demais – talvez por medo, não aceitação, vergonha, ira de não ter o poder de voltar atrás. Há muita confusão no que tange o assunto ”clube do carimbo” e ”deliberadamente se colocar em risco”, e às pessoas tendem a não assumir isso. Essa reportagem do Fantástico deveria ser apagada da história do jornalismo, um amadorismo extremo. Foram responsáveis por distorcer e criar um imagem relativa a um assunto demasiadamente sério na mente de milhares de pessoas – um CRIME. Já ouvi de inúmeras pessoas menções referentes a respectiva reportagem e pude notar o grande impacto gerado (inclusive, a priori, confesso ter feito parte desse grupo de pessoas). Foi criado (e talvez até mesmo reforçado, para alguns) um medo de que seres humanos soropositivos são propensos disseminadores do vírus, que fazem isso por livre e espontânea vontade. Não há mais medo. Não há mais respeito com a própria saúde. O sentido carnal e animal tomou conta da razão na população em geral e as pessoas cada vez mais insistem em praticar sexo sem camisinha – mas, aí que surge o problema: ao assumir tal risco, de forma consensual, ninguém pode ser responsabilizado por suas escolhas. Penso que um soropositivo apenas tem o dever de informar sua condição caso seja questionado (não englobo o soropositivo indetectável) ou caso haja falha do preservativo, mas jamais deve ser considerado um ”carimbador” por ter concordado em manter relações desprotegidas com outrem que assumiu o risco. As pessoas frequentam ambientes voltados para o sexo sem compromisso (tal com saunas, apartamentos, casas de swing, etc) e querem responsabilizar o parceiro por terem sido infectadas, sem ao menos ter certeza que de fato este foi o motivo de sua infecção. Até porque, PESSOALMENTE, posso supor que alguém que se permite algo tão animalesco com a própria segurança poderá, sem sombra de dúvidas, ter hábitos sexuais não tão seguros quanto se espera, colocando em dúvida aonde de fato adquiriu o vírus. Eu, por exemplo, saí com uma garota de programa e em todos os momentos pratiquei sexo com camisinha, até que o mesmo rompeu-se na penetração anal por 3 meros segundos – ora, caso algo tenha ocorrido (e torço para que não) jamais poderia culpar a pessoa por isso, afinal: não fui obrigado a nada, paguei e transei porque quis. Por fim, sinto que a mídia e até mesmo o Governo falham em políticas públicas para conscientização sobre o risco e tratamentos preventivos sobre o HIV. O medo já não mais serve influencia em escolhas, as pessoas ainda acreditam nos chamados ”grupos de risco” e imaginam-se imunes ao vírus por considerarem heterossexuais. Ora, se assim fosse verdade não teríamos tantas mulheres descobrindo o vírus na gravidez ou em internações (se não acredita, procure um centro especializado e pergunte a algum médico). Sem mencionar o particular caso dos indetectáveis que em minha opinião são um caso a parte – se a pessoa se cuida e adquiriu tal condição ela não tem o dever algum de informar quem quer que seja por ser um soropositivo, a não ser que queira (quem me dera a garota de programa do meu caso em particular ser uma indetectável ao invés de uma ”sorointerrogativa”). O que eu vejo é nada mais e nada menos do que o PRECONCEITO. Por muitos anos fui uma pessoa preconceituosa, embora não assumisse. Cobram do soropositivo informações de sua condição como se isso a transformasse em um ”ser-não-humano”. As pessoas têm diabetes, câncer, foram condenadas por homicídio, possuem transtornos psiquiatrícos, etc, e nem por isso são obrigadas a autodeclarar tal condição para alguem. Enfim, desculpe pelo mega texto, acho que me sinto um pouco pensativo nessas 4 semanas da PEP e tive muito tempo para pesquisar e refletir sobre o assunto. Paz

Responder
João Paulo

Desculpa, mas ter AIDS é sim ser doente. Não concordo quando dizem que viver com carga indetectável é natural. Que se vive bem com o HIV. Isso é abominável. É o mesmo que falar pra todo mundo trepar sem camisinha que “pegar” AIDS não é nada, pois vive-se muito bem com essa doença.

Responder
Marcio Caparica

Não é a mesma coisa. Ninguém fala pra todo mundo trepar sem camisinha, assim como não se fala pra encher o bucho de comida com colesterol ou mandar ver no açúcar. No entanto, estigmatiza-se quem tem HIV (“não é natural”), mas não se tem essa mesma reação quando alguém tem que tomar remédios pelo resto da vida para controlar o colesterol ou para controlar a diabetes. Reveja seus preconceitos.

Responder
eric

Olá, ontem conheci um rapaz via esses apps de encontros, logo em seguida recebi uma outra mensagem de um rapaz me alertando sobre esse cara que ele era um carimbador e logo em seguida ele me enviou uma foto da conversa deles em que ele dizia que queria me carimbar e que daria um jeito de fazer isso. Gostaria de saber como posso achar um jeito de denuncia-lo visto que eu ainda não tenho tantas provas além disso, até uma orientação pois como foi disto no texto isso é uma minoria mal intencionada que faz tal ato que colabora pra aumentar o preconceito. Se pudesse me dar um direção seria grato. Obrigado

Responder
Sarah

Sinceramente, acho que deveria ser concientizado a(o) parceiro(a) que sobre sua condição soropositiva. Eu mesma não me sentiria bem, se eu tivesse alguma DST, em transar sem camisinha com ninguém, além de eu expor meu sistema imunológico a mais doenças, a conciência me mataria por eu saber que poderia estar contaminando outras pessoas.
Tanto gays quanto héteros, se se exporem a uma relação sexual não preventiva, ambos estão correndo riscos de contrair e/ou transmitir DST’s.
Existe algo no ser humano uma certa inquietação, um descontentamento infinito, a necessidade de ser aceito por nossas diferenças e, ao mesmo tempo, de rejeitarmos tudo o que nós é diferente.
Embora sejamos de todas as formas, cores e tamanhos, todos nós somos iguais, pelo menos em questão do corpo, que é a matéria.
O que nos torna diferente a mente e o espírito que cada um carrega consigo.
Fico feliz por saber que ainda há pessoas SENDO a diferença no mundo.
Lí toda a matéria e, não resisti e também li todos os comentários, finalmente encontrei mentes que se recusam a ser cópias e espíritos desbravadores.
Me sinto em um paraíso, onde há pessoas que refletem e não se acovardam por ser originais, em um mundo, onde o “normal” é ser comumente ignorante em relação sobre a verdade de cada um.
E realmente vale frisar contra o sensacionalismo que é imposto pelas mídias, mas as pessoas deveriam se responsabilizar individualmente por suas conciências, já passou da hora da maioria das pessoas aprenderem a pensar sozinhas!

Responder
EMERSON

Além da coragem e amor ao próximo. Só o reconhecido intelecto. Daí vem mais um monte de rasgação de seda: admiração profunda, apoio moral, esclarecimento, respeito, confronto, desafio, coragem e bla bla bla. Vc é d++++++

Responder
Carlos

Rede globo é um conglomerado de mentiras que que visa entupir o povo brasileiros com suas falácias e preconceitos políticos e sociais.Dia 20 de agosto todos contra a Globo nas ruas.

Responder
souza

Eu tenho muitos amigos soropositivos que são pessoas de índole indiscutíveis e comprometidas com a causa. Porém já fiz parte de uma estatística que também não aparece! Fui casada durante dez anos c/ um soropositivo e eu não tenho o vírus, erámos um casal sorodiscordante. Para minha surpresa esse indivíduo aliciava mulheres em vários sites de relacionamentos. Agora eu pergunto: Isso é correto? Inclusive a atual mulher desse individuo não foi avisada da sua condição e quantas mulheres ele não expos? Isso é correto? Um sujeito que fazia acompanhamento e sabia dos riscos não deve ser penalizado por seus atos? Isso é ser preconceituoso? Acredito que o mesmo não faz parte de nenhum “clube do carimbo” porém comporta-se de forma leviana e irresponsável. Ele não deve ser penalizado?
Lamentavelmente existem e muitas pessoas que se comportam de forma equivocada e vejo a necessidade de promover mais discussões. Em tempo: estou em medida protetiva pois fui ameaçada por informar que ele estava irresponsavelmente expondo e quem sabe contaminando varias pessoas. Infelizmente quem desses envolvidos em relacionamento com ele vai denunciar? Isso é correto?

Responder
claudio

Tem pessoas flrjando profiles em sites de relacionamento e aplicativos se passando por uma pessoa interessada em sexo sem proteção.
Assim que uma pessoa se interessa ele avisa que o pefil é fake e manda uma foto com todos o rostos de outras pessoas que tmb se interresaram.
E alega que vai espalhar em sites e nos apps essa lista de fotos acusando-os todos de serem parte do grupo do carimbo.
Mas acho que ele forjando o profile pra descubrir supostamente quem transaria ou nao sem preservativos, associando a figura de todos que os portadores de hiv são carimbadores está totalmente equivocado e vai acaber exopondo muitas pessoas .

Responder
Paulo

Este rapaz idealista errou feio ao dar a referida entrevista ao Fantástico. Uma falta de maturidade tremenda achar que não iriam editar sua fala.Fez um desserviço a comunidade glbt e contribui para aumentar o estigma sobre os gays. Penso que este Diego precisa fazer uma boa análise.A lambança começou quando ele num arroubo de moralismo denunciou pelos quatro cantos o suposto clube do carimbo e o site novinhobareback.

Responder
Diego

Prezado Diego, ótima publicação! Seus discursos foram muitos úteis para direcionar-me com os estudos.

Um abraço

Menos preconceito, mais respeito!

Responder
Tom

Não sou anti-Globo ou anti qualquer conglomerado de comunicação, até porque cai naquelas generalizações do tipo, por exemplo, de quem acha que alguém não ser de esquerda é coxinha e reacionário (os donos do blog pensam assim) ou como quem acha que alguém ser de esquerda é comunista e devia morar em Cuba.

Mas acho que por trás do sensacionalismo típico dessas matérias (principalmente na tv) existe uma intenção clara de criar a relação vilão-mocinho, sendo o vilão, no caso, o gay portador de um vírus, e o mocinho a sociedade representada pela emissora, que vai salvar a todos (os heteros) iluminando-os com pílulas de regras de comportamento. Comportamento idealizado, subjetivo , teórico, pois talvez se fizessem matéria falando do sexo desprotegido entre heteros, descobriríamos que os seres humanos, independente da orientação sexual, ainda patinam muito quando se trata de tomar decisões conscientes e maduras na hora de curtir uma trepada.

E essa relação vilão-mocinho atende não só a uma parcela enorme de pessoas, como aos anunciantes.
Talvez fosse o caso de um programa tipo Bem Estar tratar desse assunto, já que é questão de saúde e não necessariamente criminal.
Não sei se programas assim voltados pra “família” falam de assuntos assim mais estigmatizados, mas sabemos que programas feito Fantástico e Domingo Espetacular (alguém vê? ) são para estigmatizar, infelizmente.

Responder
James Cimino

Veja bem, Tom, os donos do blog não acham que quem não é de esquerda é coxinha. A gente acha que coxinha é aquele idiota útil, que cacareja discursos prontos que ele viu, ouviu ou leu em algumas fontes de informação duvidosas, como a família conservadora, o pastor homofóbico, os amigos racistas, os parentes machistas, que defendem causas arbitrárias, que tem ódio das cotas, que acreditam na meritocracia, mas que sempre se valeram do nepotismo para atingir seus objetivos, que criticam a corrupção, mas falsificam a carteirinha de estudante, que acreditam que o liberalismo econômico é um fim em si mesmo, desconsiderando completamente o aspecto humano da sociedade. Essas pessoas recalcadas, revanchistas, amarguradas, que querem controlar as pessoas, que querem manter essas tradições falidas, mofadas em nome de uma moral que nem elas conseguem sustentar, essa gente que não aceita o novo, o diferente, o dissonante. Entendeu? 😉

Responder
Tom

Entendo, sim. Obrigado pela réplica. Sempre generoso da sua parte. Eu posso, devo e espero estar errado, mas acho que vivemos numa cultura em que ler, aprender, saber mais sobre as coisas, sobre os outros, não é algo valorizado. Empatia requer generosidade de ouvir o outro. Algumas vezes tive a impressão de que vcs no blog são um pouco radicais em certas posições, mas não sou dono da verdade de ninguém, é ou foi apenas uma sensação que tenho prazer sempre em ver transformada.

Responder
Junior

Parabéns pela esclarecedora matéria. Infelizmente é necessário pensar dezenas de vezes antes de ceder entrevista a uma emissora. Não se pode acreditar que grandes emissoras ofereçam serviço social informativo. Ainda mais em um país como o nosso, onde grande parte das audiências são de assimilação rápida e imediata, que acreditam no que veem ou ouvem sem questionar. Não tenho do que discordar dos 30 pontos, dos quais muitos eu nem tinha conhecimento. Estão todos muito claros e esclarecidos, principalmente a respeito da responsabilidade compartilhada. A responsabilidade de se precaver é a mesma tanto para um soropositivo quanto para um soronegativo. É complicado caracterizar uma situação de contágio como proposital porque ninguém obriga ninguém a não se prevenir. Caso obrigue, aí sim a situação é complicada prq automaticamente leva a uma violência sexual, já que não há consentimento. As pessoas acham que é responsabilidade de um soropositivo “se carimbar” como soropositivo, como se isso já o autoresposabilizasse sobre qualquer situação de risco que ocorra, quando isso é um verdadeiro absurdo. A prevenção deve ser de consciência coletiva. Pessoas que praticam o bareback estão conscientes do risco de contágio, da mesma forma que um soropositivo está consciente do risco de transmissão ao se relacionar com um praticante de bareback. Uma pessoa que eventualmente faz sexo sem se prevenir vai ter a mesma responsabilidade de contágio ou transmissão daquela que aceitou fazer sexo sem se proteger. Então não adianta, tentar transferir a culpa ou responsabilidade é leviano, preconceituoso e desumano. Sem qualquer dúvida.

Responder
Renan

Realmente acho justo criticar a falta do caráter informativo, e que reportagens como essas do fantástico possam reforçar o estigma de quem é soropositivo. Mas discordo em vários pontos do seu texto, e o principal é o seguinte. A responsabilidade da transmissão não é compartilhada. Se você sabe que é soropositivo, é um dever seu informar o seu parceiro desse fato, mesmo se a sua carga viral for indetectável.
Não é por que uma pessoa corre o risco de contrair o vírus por fazer sexo sem camisinha, que ela está consentindo ,ou disposta a continuar com essa decisão depois de saber que o seu parceiro é soropositivo. Não informar o seu status antes do sexo, mesmo que protegido, é um ato desonesto.

Responder
James Cimino

Renan, a responsabilidade é compartilhada sim. Você sabe que é um risco transar sem camisinha, não sabe? Porque jogar nas costas do outro a SUA responsabilidade sobre o SEU corpo? Você espera mesmo que o outro terá contigo o mesmo cuidado que você deveria ter consigo? É confiar demais na sorte. E outra: existe alguém no mundo de hoje, com a avalanche de informações que se tem hoje que por acaso não saiba que transar sem camisinha te expõe a um monte de DSTs? É claro que não informar pode ser visto como um ato desonesto, mas vivendo em uma sociedade preconceituosa como a nossa, dá pra entender que o cara não queira revelar isso antes de conhecer a pessoa direito. Então, bora dividir essa conta, porque o brasileiro tem que parar com essa mania de sempre querer responsabilizar alguém pelos seus atos.

Responder
Darlan Paiva

Nem assisti a matéria do fantástico e acompanhando o seu raciocínio me parece que não perdi muita coisa. . . Tem algumas pequenas coisas que eu não concordo mas isso é coisa minha, no geral aprendi muita coisa nova e reforcei alguns pontos que eu estava em dúvida. Com certeza esse texto é de utilidade pública.

Responder
Diego Callisto

Olá, não estou defendendo a atitude de transmitir intencional e deliberadamente o HIV, isso fica bem claro na minha premissa antes de destacar os 30 pontos. Talvez você só tenha lido o que lhe foi conveniente, então vou tentar ser mais objetivo e sucinto ainda para que você consiga compreender melhor: sou um jovem vivendo com HIV e minha sorologia é pública, todos os dias recebo várias pessoas que entram em contato comigo para pedir ajuda, apoio, orientação e etc. Diante disso acho completamente desnecessário você fazer comentários sem entender os processos em questão, primeiro porque já existe uma lei vigente que torna a transmissão proposital lesão corporal grave, com prisão de 2 a 8 anos, segundo porque hoje já existem muitas evidências que mostram que, nos países onde há leis deste tipo ( equiparando a transmissão a crime hediondo), ocorre um impacto muito negativo na prevenção e há o aumento do medo e do estigma. Já temos relatos de muitas pessoas que foram condenadas apenas por possuírem HIV, com julgamentos baseados no “disse me disse”, uma vez que a comprovação da transmissão intencional é muito difícil.

Ah que fofinho você dizer que eu pintei em tons de rosa, pra gente sem informação e desorientada eu sempre pinto de rosa, até porque a vida é da cor que a gente pinta né ?! Viva ao ROSA!!!

Sou bacharel em relações internacionais, tenho especialização em saúde pública e também em mídias sociais, além de um extenso trabalho de base com a temática HIV/AIDS, dentro e fora do país.

Um abraço cor de rosa pra você pra amenizar sua falta de informação!

Responder
Janio

Beleza?
Infelizmente sou HIV positivo a partir do ano de 2013, quando fui vítima de um carimbador na sauna Carioca Rio, numa festa de orgia denominada denominada festa do apê. Apesar de ter feito sexo com camisinha, o individuo que estava comigo furou o preservativo me passando o vírus. Dois meses após ao fazer o teste recebi o triste resultado. Triste também, saber que o mesmo agiu em parceria com seu caso que provavelmente tivesse o mesmo problema. No momento em que estavamos juntos ele disse que iria pegar outra camisinha e falou com o parceiro “vou resolver aquela parada”. Ao voltar cometeu o ato covarde ao espelir seu semem contaminado em mim. Covardia! Alerto as pessoas que forem a estas festas, terem o maior cuidado.
abraços!

Responder
Janio

Pois é James,

Até pensei nesta possibilidade, porém esbarro no preconceito Pelo fato de não ser assumido. Não sei na verdade como de fato denunciar. É uma situação revoltante muito embora eu Graças a Deus não tenha sofrido nenhum dos sintomas referente ao caso, isso por ter começado o tratamento no início do contágio. Você pode me orientar como fazer isso de forma que não precise me identificar?

abraços, meu caro!

Responder
Janio

Que nem relatou o Diego em um dos seus textos, é muito difícil comprovar que alguém intencionalmente te contaminou. Assim como o meu caso, primeiro pelo fato de ter sido em um local onde tinha dezenas de pessoas, torna-se ainda mais complexo, Em fim, espero que tudo ocorra bem tanto comigo quanto com as milhares de pessoas que estão passando pela mesma situação.

James Cimino

Janio, claro que isso tudo é horrível, mas a vida com a HIV está cada vez mais normal. Vai dar tudo certo. E eles uma hora vão cair. Boa sorte!

Wendell

Você fala no texto que na Austrália o Prep já é usado em larga escala. Mas não é bem assim. Como no Brasil, aqui ainda está em fase de testes para saber se aprovam para a população. Seria ótimo se terminassem logo esses testes, mas ainda fico me perguntando quanto custaria. Será que seria um preço acessível ou uma coisa absurda para a população? Vamos aguardar.

Responder
Diego Callisto

Olá Wendell. A Austrália já faz uso sim de Prep, estive no país no ano passado, na conferência internacional de AIDS que aconteceu em Melbourne, em julho do ano passado e pude perceber o quanto o país tem avançado tanto nas novas tecnologias de prevenção quanto na terapêutica, com base no aspecto da medicalização, inclusive na distribuição de PREP, PeP e linhas terapêuticas para tratamento antirretroviral, reconhecendo que o tratamento também é prevenção (TASP). No Brasil existem estudos coordenados apenas para avaliar os meios de implementação, porque a PREP já será uma realidade incorporada no cardápio de prevenção do país, no mais tardar até o próximo dia mundial, que será quando novos protocolos serão lançados.
A PREP será gratuita, assim como a PeP é, e será distribuída pelo SUS, também como é PeP tem sido.

Responder
Ca

Me desculpem, gostei muito do seu texto, mas tem muitos aspectos que não posso concordar. Gostaria sim que isso que os carimbadores fazem se tornasse crime hediondo, assim dariam mais valor à vida das pessoas. E tbem acho que deveria ser como nos outros países, antes de ter a relação informar a pessoa que vc tem HIV, pois com isso não se brinca e considero até falta de caráter o contrário.

Responder
James Cimino

Acontece que já existe uma lei que pune com até oito anos de cadeia e, como diz o texto, HIV não é mais uma sentença de morte. Fora isso, haveria, como o texto também diz, uma dificuldade grande em provar como e se isso ocorreu e daí haveria uma risco muito grande de que fossem colocados TODOS os soropositivos que NÃO fazem isso na mesma vala comum. Pense no seguinte caso: você pega Ebola, mas se cura. Só que entre seu contágio e sua cura, você contaminou dez pessoas e todas elas morreram. Você deve ser julgado como criminoso? HIV, como dissemos e cientificamente comprovado, não mata mais se a pessoa se tratar, portanto, como isso pode ser caracterizado como crime hediondo?

Responder
Diego Callisto

Olá, discordar é democrático e importante, mas pra isso deve-se interpretar e compreender a dinâmica desses processos tão específicos como esses relacionados a temática HIV/AIDS. Já existe uma lei que torna a transmissão intencional crime, com pena prevista de 2 a 8 anos. Leis punitivas não garagem uma resposta efetiva ao enfrentamento da epidemia de AIDS, mudar a lei para tornar a transmissão crime hediondo com pena prevista para até 32 anos não é um avanço em nenhum aspecto. Hoje já existem muitas evidências que mostram que, nos países onde há leis deste tipo ( equiparar a crime hediondo), ocorre um impacto muito negativo na prevenção e há o aumento do medo e do estigma. Já temos relatos de muitas pessoas que foram condenadas apenas por possuírem HIV, com julgamentos baseados no “disse me disse”, uma vez que a comprovação da transmissão intencional é muito difícil.

Responder
Junior

Mas em que situação você julgaria atitude criminosa? Prq quando você escolhe seus parceiros sexuais, você automaticamente tem a liberdade de escolher como fazer o sexo. No ato sexual você tem total controle do que você faz com seu corpo ou do que você permite que façam com ele, da mesma forma como também tem seu parceiro. Em qual situação isso fugiria do seu controle para você caracterizar como um crime hediondo? Acho que essa é a primeira pergunta que deve ser feita antes de generalizar a situação.

Responder
julio

Parabéns pelo texto. Só me ficou uma dúvida com relação a esse projeto lei a pec 198/2015. Como fica a situação das pessoas que foram infectadas por pessoas que não sabiam que estavam infectadas e portanto ainda sem tratamento. Me perdoe se a pergunta foi incoerente. Abraços.

Responder
Diego Callisto

Olá Júlio, muito pertinente sua dúvida. As pessoas para serem autuadas com base nessa lei, precisam estar cientes da sua sorologia positiva para o HIV, ou seja, só será indiciado quem souber/conhecer seu status sorológico. Por isso, hoje temos a lei que torna a transmissão do HIV lesão corporal grave com punição de até 8 anos, tornar isso crime hediondo, para ter uma punição de até 32 anos não terá impacto positivo nenhum no enfrentamento da epidemia, pelo contrário, só vai fazer com que as pessoas deixem de se testar para conhecer sua sorologia e que o portador de HIV viva com mais estigma e preconceito. Hoje já existem muitas evidências que mostram que, nos países onde há leis deste tipo ( equiparar a crime hediondo), ocorre um impacto muito negativo na prevenção e há o aumento do medo e do estigma. Já temos relatos de muitas pessoas que foram condenadas apenas por possuírem HIV, com julgamentos baseados no “disse me disse”, uma vez que a comprovação da transmissão intencional é muito difícil.

Responder
Alex Canonico Reis

Olá Diego, parabéns pelos 30 fatos, digo de coração, marcantes e muito instrutivo.Digo que alguns eu realmente desconhecia. Parabéns pela coragem, pela clareza de sua palavras.

Responder
marcelo

Cara… Parabéns… Li tudo e assino embaixo… Não sou soropositivo mas já tive duas relações sofridos cor dantes e sei como é esse ostracismo… Parabéns…

Responder
Anderson Soares

Olá, Diego. É muita ingenuidade sua achar que todo o conteúdo de uma entrevista de 57 minutos iria ao ar em um programa de TV como o Fantástico. A preparação para uma entrevista é importante e um editor só edita material que você entrega para ser editado. Você deveria ter construídos suas mensagens e as transmitido na entrevista. Portanto, faltou foco pra você. Esse é um erro comum de quem não está acostumado a dar entrevistas para a televisão.

Responder
James Cimino

Oi Anderson, aqui é o James Cimino, editor do blog, que editou o material do Diego. Vou te dizer uma coisa: todo mundo sabe que não cabe tudo na TV, que tem tempo limitado etc etc. A questão aqui é COMO foi editado. Eu assisti às duas reportagens e digo a você, como jornalista e como editor-assistente de UOL Entretenimento e como repórter de Cotidiano durante quatro anos, aquela reportagem é um embuste. E ela é um embuste não porque ela ocultou dados importantes sobre os modernos tratamentos de HIV/Aids de hoje em dia. Ela é um ebuste pelos outros motivos que o Diego e eu enumramos aqui. Os tais “carimbadores”, se fazem tratamento a tanto tempo, não estão contaminando ninguém por motivos que também foram expostoso aqui. As tais vítimas, não eram vítimas, pois fizeram sexo consensual. Desde o começo desse estardalhaço sobre o tal clube do carimbo eu e Marcio decidimos não ir na onda porque a origem do alarmismo era duvidoso. E era duvidoso exatamente pelos motivos aqui expostos. O colega jamais teria sido chamado de irresponsável se não tivesse agido dr maneira irresponsável. E a gente que é jornalista sabe como é quando vê uma história que parece incrível, mas quando apura ela não se sustenta. E aí a ética nos impõe a desistência ou a insistência. Dependendo da ética que tenhamos. Então, não se trata APENAS do que foi suprimido, mas se trata especialmente da forçada de barra. Aliás, qualquer editor sério não passaria um material daqueles.

Responder
Diego Callisto

Olá Anderson, acredito que ingenuo é você, por acreditar que um editor e toda equipe da linha editorial vai editar algo conforme a mensagem que se gostaria de passar se tratando de um veículo como o Fantástico, justamente pelo fato de que não sei se você percebeu ou se leu o texto, mas em nenhum momento disse que gostaria que os 57 minutos de entrevistas constassem na matéria, pelo contrário, eu coloca a matéria toda como um fiasco e um completo desserviço, e isso está muito além das minhas duas falas que foram ao ar, porque em relação as minhas falas eu me senti contemplado, tanto na questão da banalizacao quanto na questão de que a prática de transmitir intencionalmente não se estende a todos os soropositivos. Talvez você não tenha interpretado corretamente os pontos e aí confundiu alhos com bugalhos, no sentido de entender que eu queria que todos os 30 pontos que extenuo nesse texto deveriam constar na matéria. O que eu esperaria, pelo menos, era uma matéria séria e comprometida com a verdade e o que de fato caracterizada um clube do carimbo além de um paralelo com as formas de profilaxia e prevenção combinada que temos hoje no país. Não é a primeira vez que eu dou entrevistas, são 8 anos seguidos dando entrevistas para jornais, documentários e demais veículos. O que eu deveria fazer e o que faltou é isso que eu estou fazendo agora aqui nesse texto: trabalhar com a verdade e explicar o que faltou ao Fantástico para que fizesse uma matéria coerente e séria, ao contrário da matéria sensacionalista que eles produziram.

Responder
John

Estou orgulhoso por você, Diego! LI tudo e algumas coisas usarei em sala de aula, pois depois da reportagem, isso rendeu muito nas minhas aulas. Obrigado por fazer a diferença! Além de bonito, é claro, és muito culto! Aplaudo de pé!

Responder
Rafael Carregal

Diego,
olha, apesar de concordar com vc de que sim, é preciso informar mais as pessoas, acho que vc mesmo deveria procurar saber mais do trabalho dos jornalistas. Eu mesmo fiz uma reportagem especial – que teve até uma reedição de 30 minutos na Globo News – com o Dr Drauzio Varella em que falamos quase tudo isso que vc reclama que foi “propositadamente excluído”. Entenda que por trás dessas matérias da “mídia sensacionalista” tb existem ativistas, como eu, que lutam e brigam – e muito!! – para que esse tipo de matéria tenha um espaço na TV aberta. E que por mais que vc ache que todos esses itens deveriam ser ditos na televisão, isso é impossível por uma lista enorme de razões. Algumas, justas. Outras, não. E que nem todo mundo pensa como vc, como eu – muito pelo contrário… Procure assistir ao material que falei. Foi ao ar há menos de 3 meses. Ah, e quanto aos 57 minutos de entrevista que vc deu, posso te garantir que fazemos isso com todos os entrevistados de todas as matérias, de todos os assuntos! 😉 Então pega leve com o colega que editou essa matéria, pq isso faz parte do nosso trabalho de apuração. Abs e bom trabalho.

Responder
James Cimino

Oi Rafael, aqui é o James Cimino, editor do blog, que editou o material do Diego. Vou te dizer uma coisa: todo mundo sabe que não cabe tudo na TV, que tem tempo limitado etc etc. A questão aqui é COMO foi editado. Eu assisti às duas reportagens e digo a você, como jornalista e como editor-assistente de UOL Entretenimento e como repórter de Cotidiano durante quatro anos, aquela reportagem é um embuste. E ela é um embuste não porque ela ocultou dados importantes sobre os modernos tratamentos de HIV/Aids de hoje em dia. Ela é um ebuste pelos outros motivos que o Diego e eu enumramos aqui. Os tais “carimbadores”, se fazem tratamento a tanto tempo, não estão contaminando ninguém por motivos que também foram expostoso aqui. As tais vítimas, não eram vítimas, pois fizeram sexo consensual. Desde o começo desse estardalhaço sobre o tal clube do carimbo eu e Marcio decidimos não ir na onda porque a origem do alarmismo era duvidoso. E era duvidoso exatamente pelos motivos aqui expostos. O colega jamais teria sido chamado de irresponsável se não tivesse agido dr maneira irresponsável. E a gente que é jornalista sabe como é quando vê uma história que parece incrível, mas quando apura ela não se sustenta. E aí a ética nos impõe a desistência ou a insistência. Dependendo da ética que tenhamos. E sobre falar na Globo News e sobre falar no Fantástico ambos sabemos o abismo que existe de repercussão nos dois casos, certo?

Responder
Diego Callisto

Olá Rafael, bom o James já me contemplou nas respostas dele em relação ao que você disse sobre a lista enorme de razões que fazem com que a matéria deixe de informar e passe a fazer uso do sensacionalismo, como aconteceu nessa matéria do Fantástico, que como disse no meu texto, a defino com um grande desserviço frente a tudo o que buscamos reforçar em relação a temática hiv/AIDS. Acrescento apenas que o pensamento é particular e subjetivo, fato, porém a falta de apuração e de compreensão dos processos envolvendo o eixo que foi abordado na matéria, foram cruciais para que a mesma fosse tão retrógrada. Obrigado pelas colocações e um bom trabalho.

Responder
Rafael Carregal

bom, ficou claro que nenhum dos dois se deu ao trabalho de buscar assistir o material que me referi… inclusive, James, fiquei um pouco desapontado ao ver que a sua resposta aqui foi copiada ipsi literis de uma outra resposta, a outro leitor… mas obrigado pela resposta mesmo assim.

Responder
Diego Callisto

Olá Rafael.

Eu já havia assistido o material que você mencionou, não entendi o porque da sua argumentação em dizer que não assisti, na verdade não sei com base em que você disse isso, mas reitero o que disse lá na minha primeira resposta: o conteúdo informativo está sendo cada vez mais banalizado em detrimento da busca incessante por audiência e aí surgem matérias desorientadas e sensacionalistas como essa do Fantástico. Só reforçando que não estou aqui para pegar leve ou pesado, mas para falar a verdade e dar meu ponto de vista sobre o que vem acontecendo.

Um abraço.

Responder
Mirca

Olá,
Que belo texto. Pena que não tenhamos tanta influência a ponto de chamar à atenção da mídia para o retrocesso que eles provocam com matérias tendenciosas. Fui casado 10 anos e não utilizávamos mais camisinha, por estar com carga indetectável, meu parceiro nunca adquiriu o vírus. Eramos versáteis nas posições sexuais. Tenho tanta confiança no tratamento que quase morro quando vejo tanta desinformação por aí… Não tenho dúvidas de que medicação Prep e TARV ainda vai mudar a cara dessa epidemia!

Responder
Diego Callisto

Olá Mirca, obrigado pelo seu comentário. Que bacana esse fato de que você já viveu uma relação sorodiscordante, muito legal cara. Ótimo você trazer essa sua perspectiva em relação ao fato que disse no texto que o tratamento também é prevenção, isso só corrobora com o fato de que ao invés de impactar como o Fantástico fez, eles poderia utilizar essa perspectiva e informar que as pessoas que estão em uso regular de antirretrovirais reduzem o risco de transmissão do HIV em até 96%, e tua história é uma exemplo disso. Sem sombra de dúvidas, a medicalização como profilaxia, seja em TASP, PREP OU PEP é um grande avanco na resposta a epidemia de AIDS.

Responder
Bruno

Diego, gostaria de lhe parabenizar pelo texto, confesso que quando vi a reportagem no fantástico fiquei apavorado e indignado, me questionando sobre onde iríamos parar…Também notei o fato de somente gays terem sido entrevistados,e francamente fiquei odendido,pois dentro de três décadas as informações sobre a Aids(formas de contágio, profilaxias e formas de tratamento para os infectados) estão sendo divulgadas mas a barreira da ignorância permanece, resultando na perpetuação do estigma homossexual.
Enfim, parabéns novamente, sua matéria foi esclarecedora em muitos pontos,tanto para leigos quando pessoas que sabem pouco sobre essa temática.

Responder
Diego Callisto

Olá Rafael, obrigado pelas considerações. Que bom que você assim como nós e grande parte da sociedade percebeu que a matéria centrou fogo nos gays e buscou estigmatizar e reforçar preconceitos contra essa população. A principal barreira de combate ao estigma e discriminação é a informação, e o principal inimigo sem sombra de dúvidas é a ignorância.

Um abraço!

Responder
Suélen

Diego, Parabéns pela atitude de falar abertamente sobre um assunto tão presente em nossa sociedade que por ainda existir preconceito e desrespeito acaba perdendo o espaço que deveria ter, parabéns pela quantidade de informações relevantes e de suma importância para as pessoas, gostaria de saber como você define o “carimbador”, Psicopata, Sociopata, ou apenas um individuo com desvio/transtorno de personalidade.? Desde já Grata pela atenção.

Responder
Diego Callisto

Olá Suelen, obrigado pelas considerações. Infelizmente não existe uma via única de regra pra definir um “carimbador”, acho que ele perpassa, além dos 3 perfis citados por você, alguns outros que envolve desde a revolta pelo diagnóstico até o fetiche sexual, ambos interferindo na prática sexual e na rotina comportamental de suas relações. Caso queira acompanhar mais da minha caminhada, deixo minha página no facebook https://www.facebook.com/pages/Diego-Callisto/822680084469081

Um abraço!

Responder
rodrigo

Na minha opinião, foi super importante esse seu texto. Não acompanhei a reportagem pois me sinto mau em ver uma mídia tao grande tratar esse assunto dessa forma. Pois sou soro positivo alias acabei desenvolvendo a doença, e me sinto mau com esse tipo de generalização que o fantástico fez. Pois ontem mesmo já fui alvo de questionamento de uma amiga por isso. E de verdade doeu muito algumas palavras dela. Enfim gostaria que me enviasse por email esses tópicos acima pra que eu possa mostrar pra ela. E quero agradecer e parabeniza-lo pela iniciativa.

Responder
Diego Callisto

Olá Rodrigo, obrigado pelas palavras! É muito importante esclarecer e informar a verdade por trás da imprensa e do que foi ar, porque não podemos combater preconceito reforçando outros e gerando pânico moral e medo nas pessoas através de matérias sensacionalistas e desorientadas com a do Fantástico. Deixe seu email que envio os 30 pontos que escrevi para você. Caso queira acompanhar mais da minha caminha, deixo minha página no facebook https://www.facebook.com/pages/Diego-Callisto/822680084469081

Um abraço.

Responder
Clara

Antes de mais nada quero parabenizar pelo texto, que além de conter informações importantíssimas a respeito do HIV e da aids, provoca uma reflexão dx leitorx sobre o tema. Agora gostaria de me desculpar por saber tão pouco a respeito de algo tão relevante. E faço a seguinte pergunta: qual é o seu posicionamento a respeito de a pessoa com o HIV informar (ou não) ao seu parceiro ou parceira o fato de estar com o vírus, num momento em que o não infectado sugere uma transa sem camisinha? Peço mais uma vez desculpa, caso a pergunta tenha sido mal formulada e gostaria de que se os termos por mim usados tenham sido mal empregados, que me corrija. E caso essa resposta tenha sido respondida no texto, haja vista que em vários momentos esse assunto foi tocado, perdoe-me por não ter compreendido a resposta com clareza.
Att.

Responder
Diego Callisto

Olá Clara, obrigado pela pergunta e pelos elogios quanto ao texto. Acredito que num relação sorodiscordante, se a parte negativa propor em algum momento relação sem o uso do preservativo, o mais viável pensar em dois contextos situacionais distintos: 1) ou você abre o jogo e revela a sua sorologia explicando a sua condição ou 2) você diz que não vai abolir o uso da camisinha porque além de prevenir contra o HIV e outras DSTs, auxilia também na higiene da relação. Não precisa pedir desculpas, a pergunta está super pertinente ao contexto e é muito recorrente essa dúvida em relacionamentos sorodiscordantes, o que fazer na hora da relação e o que dizer. Caso queira acompanhar mais da minha caminha, deixo minha página no facebook https://www.facebook.com/pages/Diego-Callisto/822680084469081

Um abraço!

Responder