Revista orienta professores a tratarem transexualidade com algo corriqueiro

Depois de veicular reportagem com menino que usa roupas "de menina", "Nova Escola" disponibilizou kit anti-homofobia vetado por bancada evangélica

por Marcio Caparica

A edição de fevereiro da tradicional revista Nova Escola fez com que a publicação saísse da costumeira posição pacata entre educadores para se tornar um hit das redes sociais. A razão: o tema principal do mês é a identidade de gênero entre os alunos. A capa exibe um garoto vestido de princesa, com os dizeres “Vamos falar sobre ele?”. Bastante inusitada para os padrões da revista, a capa estourou nas timelines. Em seu site, a publicação divulgou números sobre a repercussão dessa edição: a reportagem de capa (disponível no site da revista) recebeu mais de 89 mil visitas; a nota em que educadores podem fazer download do Material Escola Sem Homofobia, preparado pelo Ministério da Educação em 2011 e batizado de “kit gay” pelos conservadores, foi vista mais de 13 mil vezes. A capa, divulgada no Facebook, chegou a 3,3 milhões de visualizações, 23 mil curtidas, 11 mil compartilhamentos e quase 2 mil comentários. Essa edição teve alcance 31 vezes maior que a do mês anterior.

Feliz com o sucesso da capa, entre o fechamento da edição seguinte e o planejamento da edição de abril, o editor-chefe de Nova Escola, Rodrigo Ratier, respondeu por e-mail a uma entrevista do LADO BI. Ele revelou como foram os bastidores desse número, analisa as reações dos leitores, e conta como essa capa pode influenciar os rumos futuros da revista.

nova_escolaLADO BI – Por que fazer essa capa nesse momento? A questão da identidade de gênero já aparecia entre as preocupações dos leitores da Nova Escola antes?

Rodrigo Ratier – A escolha da data foi casual, não há nenhuma efeméride ou manifestação e nossos leitores que indicasse a urgência. Já estava no nosso cronograma tratar de gênero em janeiro/fevereiro. O que mudou foi o enfoque que decidimos imprimir. Em geral, optaríamos por uma reportagem mais instrumental para o professor, do tipo “como abordar gênero em sala de aula”. Achamos que era o caso de tentar algo diferente. Daí a sugestão e uma pauta mais reflexiva, que fosse um convite para repensar o que nós mesmos entendemos por gênero e sexualidade, tendo como sustentação uma revisão das pesquisas mais recentes na área.

A educação sexual e de gênero são assuntos que os professores têm dificuldade em abordar em classe? Como Nova Escola ajuda os profissionais a tratarem desses temas? Vocês recebem relatos a esse respeito?

Recebemos, sim. Relatos iguaizinhos ao da capa são relativamente comuns em nosso atendimento ao leitor. O tom é sempre: “e agora, o que fazer, como falar com os pais?”. A resposta que convidamos os professores a avaliar: “não faça nada, trate como algo corriqueiro”. Acho que essa pode ser uma boa forma de ajudar – talvez até mais efetiva do que o tom instrucional que adotamos na maioria das reportagens. Nós também aprendemos muito com essa matéria.

Essa edição torna mais fácil falar sobre questões de sexualidade e identidade de gênero dentro da revista nas edições futuras? Com que frequência esses temas são abordados na revista?

Espero que torne, sobretudo essa abordagem mais comportamental. São temas que aparecem com alguma constância, mas, como te disse, dentro dessa pegada mais instrumental que é um pouco o DNA de Nova Escola. Em nosso site, tivemos durante três anos um blog específico sobre educação sexual, chamado Direto ao Ponto, capitaneado por Maria Helena Vilela, do Instituto Kaplan. Pegada mais de saúde, mas com abertura para tatear as questões comportamentais. Teve uma audiência satisfatória, o que nos levou a manter o arquivo dos posts publicados, uma vez que são atemporais.

Como está sendo a recepção dessa edição? 

Eu diria, com base nos comentários no site e nas redes sociais, que há uma polarização, com um pendor para elogios à reportagem. No início da divulgação, os defensores foram ampla maioria, mas essa margem se estreitou, paradoxalmente, quando o Jean Wyllys divulgou o post no perfil dele no Face (ele nos avisou de que isso ocorreria, pois ele é seguido por muitos haters).

Houve algum medo de que essa capa fosse mal recebida? Como vocês se prepararam para isso? Houve críticas das escolas?

Tínhamos receio, sim, mas as críticas foram menos intensas do que supúnhamos. Há uma parcela do professorado que é bastante conservadora em termos de costumes, mas julgamos que a discussão valeria a pena e bancamos o risco. Houve críticas de professores, não de escolas como instituição. Quanto à preparação, penso que a única medida foi ajustar o tom da reportagem. Não quisemos fazer algo militante, mas, sim, um chamado à reflexão (expresso nas duas interrogações na capa: “Vamos falar sobre ele?” e “Como lidar com um aluno que se veste assim?”). Evidentemente, a reportagem se posiciona, ao longo do texto, contra a rigidez das caixinhas de feminino e masculino, homo e hétero etc. Mas acho que o convite à reflexão serviu como uma salvaguarda.

Em tempos de tanta crítica ao “kit gay” do Ministério da Educação, houve alguma reclamação política de que Nova Escola estivesse fazendo “propaganda de opção sexual”?

Sim, embora com baixa intensidade. Uma das críticas é que a reportagem estaria fazendo “apologia da ideologia de gênero”, que é algo que se aproxima dessa ideia de propaganda de opção sexual. Tivemos um abaixo-assinado nesse sentido, pedindo nossa retratação. Até a última vez que vi, havia só 6 assinaturas, felizmente.

Como foi a escolha do menino que posou para a capa? Ele é trans de verdade? Os pais dele tiveram algum receio de que ele posasse na capa?

Não sabemos se é trans ou não. Julgamos, aliás, que a questão não é a fundamental: o fato de ele gostar de usar vestidos pode ser parte do faz de conta, pode ou não indicar algum tipo de orientação sexual futura, mas não nos cabe julgar e menos ainda tentar interferir, causar qualquer tipo de alarme, etc. Nossa argumentação é de que essa ocorrência deve ser tratada de forma corriqueira, natural, como, aliás, faz a mãe do menino. Ele foi escolhido pela ampla repercussão de seu caso no ano passado na Inglaterra. Como nosso jurídico viu riscos em buscar um personagem brasileiro, optamos por minimizar o risco com um personagem estrangeiro, cujo caso já fosse conhecido e divulgado (ainda sim, havia risco de alguém pedir a retirada da revista das bancas – o que, pelo bem da discussão, não ocorreu). Não sabemos diretamente sobre receio dos pais, uma vez que toda a negociação da foto e história foi feita via agência. Mas, como todas as autorizações estavam assinadas, e a julgar pelas declarações da mãe, penso que não há receio.

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7 comentários

debora

A discriminação hoje esta levando muitos pais a ignorancia assim fica díficil educar um filho( a) pois até mesmo o poder publico esta em decadencia o conselhos tutelares sem estrutura mínima ,

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tom

HAHAHA amei que em momento nenhum vcs citam que a revista é da Editora Abril, a mesma que edita Veja e que os eleitores da Dilma chamam de PIG.
HAHAHA pra que dar esse crédito a eles né?

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Washington

Bem lembrado. Isso mostra que, por mais que tenhamos problemas, há grupos diversos na Editora Abril e na Uol. Contrariamente, não vejo posições de “direita” na Carta Capital e na Caros Amigos.

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A garota da capa ♥ Paz Pelo Amor

[…] A maior publicação do Brasil voltada para a educação, a Revista Nova Escola, traz em sua última edição uma capa polêmica, que tem feito sucesso nas redes sociais. O site Lado Bi fez uma entrevista bem bacana com Rodrigo Ratier, editor-chefe da revista, confira a seguir alguns trechos. Para ler na íntegra, clique aqui. […]

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