Drag não é preconceito contra mulheres, explica RuPaul

Mary Cheney, ativista LGBT, comparou a arte das drag queens a condutas racistas do século passado. Obviamente ela não entende o que é drag

por Marcio Caparica

Quanto maior o sucesso, mais alguém se torna para-raios de descontentamentos, muitas vezes infundados. Depois de toda a polêmica sobre como seu programa seria transfóbico por causa do uso do termo “she-male” em suas vinhetas e em um dos jogos de seu programa, RuPaul foi novamente alvo de críticas por seu programa RuPaul’s Drag Race. Depois de assistir ao trailer da sétima temporada (que estreia dia 2 de março, mas tenho certeza que vocês já sabiam), a ativista lésbica Mary Cheney, filha do ex-vice-presidente dos EUA, Dick Cheney, escreveu em sua página no Facebook reclamando sobre o sucesso que as drag queens estão fazendo na cultura pop atualmente.

“Por que é socialmente aceitável – como forma de entretenimento – que homens coloquem vestidos, maquiagem e saltos altos, e imitem todos os estereótipos mais ofensivos das mulheres (resmungona, briguenta, burra, vadia etc.) – mas não é socialmente aceitável – como forma de entretenimento – que uma pessoa branca pinte o rosto de preto e imite os estereótipos ofensivos dos afro-americanos?”, ela questiona. “As duas coisas não deveriam ser OK, ou nenhuma delas? Por que a sociedade trata essas atividades de maneira diferente?”

Orlando Guy e Nicete Bruno na primeira montagem de Anjo Negro, em 1948.

Orlando Guy e Nicete Bruno na primeira montagem de Anjo Negro, em 1948.

Mary Cheney se refere à prática do blackface, comum nos EUA até a metade do século XX, em que um ator branco pintava o rosto (e outras partes expostas do corpo) de preto para interpretar um personagem negro nos palcos, geralmente caricaturas racistas que mostravam os negros como inferiores, preguiçosos, burros etc. Essa prática também ocorria no Brasil: em 1948, a peça Anjo Negro, de Nelson Rodriguesestreou com um protagonista branco pintado “de negro” (o ator Orlando Guy), apesar de o dramaturgo ter escrito o papel para um ator afro-brasileiro, Abdias do Nascimento:

Depois de uma luta imensa do autor para passar o texto pela censura brasileira, a “comissão cultural” do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, onde a peça iria estrear, proibiu que o personagem fosse representado por um ator negro. Ao exigir uma explicação, Nelson Rodrigues ouviu o seguinte: “Se fosse um espetáculo folclórico… E há cenas entre o crioulo e a loura. Olhe – que tal um negro pintado?”

RuPaul não perdeu a oportunidade de responder à ativista e, de quebra, promover seu programa. Ele publicou na última sexta-feira um trecho do final da sexta temporada de seu reality show como resposta à ativista, lembrando-a que a arte das drag queens, ao contrário da prática do blackface, é um exercício de tolerância e inclusão:

O vídeo diz: “O que é drag? Drag é ser underground, e exagerada. Drag é ser política, e politicamente incorreta. Drag é ser cafona e ser coutoure. Drag é ser punk e ser padrão. Drag é se mijar de rir, e é capaz de começar uma revolução. Drag é nunca ter que pedir desculpas, porque drag é uma questão de ser o que quer que você quer ser.”

O professor de teatro Domenick Scudera se aprofundou na questão em seu artigo para o Huffington Post: “quando uma drag queen dubla uma diva, ela aprende com essa diva, a respeita, a idolatra, a honra, se identifica com ela, a canoniza, quer se tornar ela – tudo ao mesmo tempo. Um ator de blackface não tinha qualquer respeito pelas pessoas que caricaturizava. Na história dos EUA, a maior parte dos atores blackface eram homens brancos que reduziam negros a palhaços e figuras simplórias. […] Drag queens não odeiam as mulheres. Drag queens veem as mulheres como irmãs e amigas, como fonte de inspiração. Atores blackface promoviam o ódio contra uma classe inteira de pessoas. […] Caracterizar drag queens como ‘resmungonas, briguentas, burras, vadias’ é uma simplificação e um insulto. A persona feminina criada por drag queens é robusta, poderosa e duradoura. Ela tem coragem, inteligência, humor e beleza.”

Mais uma vez, ativistas dentro da própria comunidade LGBT tentam promover divisões internas ao invés de reconhecer que estamos todos na mesma luta pela igualdade. De nossa parte, estamos esperando ansiosamente a estreia da sétima temporada de Drag Race.

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5 comentários

Maia

Geralmente quem mais prega liberdade é quem mais fica de mimimi com a montagem alheia porque a pessoa só quer liberdade para o lado dela. É engraçado porque sou mulher, cristã, morro de rir com Ru Paul’s Drag Race e não tô nem aí para as escolhas pessoais alheias ( porque se é pecado ou não é uma questão da pessoa com Deus e eu não tenho nada a ver com isso ). Ai aparece uma ativista lésbica para reclamar!!!! Não tô entendendo…

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Maxxie

Gente. vocês já assistiram a Banana e Cucumber? São seriados novos do e4, segundo canal do Channel 4 da Inglaterra. São ótimose e eu super recomendo.

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