O código dos lenços e a semiótica gay dos anos 1970

Livro raro registrou os acessórios que os gays dos EUA usavam para comunicar suas preferências sexuais antes do surgimento do HIV

por Marcio Caparica

 

A década de 1970 foi um período ímpar para a comunidade gay. A liberação sexual estava à toda; nos EUA, depois da revolta de Stonewall, LGBTs começavam a exigir seu lugar na comunidade. Eles continuavam relegados, no entanto, à marginalidade – algo difícil para muitos, mas excitante para outros. A Aids ainda não havia se alastrado pela população gay, o que permitia anos de despreocupada promiscuidade (inclusive no Brasil, como relata o documentário São Paulo em Hi-Fi). Nessa época, os gays norte-americanos usavam vários acessórios colocados em partes de suas roupas que tinham significados bem definidos para quem sabia decifrá-los, sinais que indicavam vários tipos de preferências sexuais e, também, explicitavam as tribos a que pertencia cada gay.

Um dos códigos mais populares na época eram os lenços. Eles são uma evolução do costume que os gays norte-americanos da época tinham de usar chaveiros para indicar os papéis que preferiam na cama: pendurado no lado esquerdo, ele indicava que o sujeito preferia ser ativo, e, no direito, passivo. No início dos anos 1970 o jornal Village Voice sugeriu, de brincadeira, que os gays deveriam trocar as chaves por lenços, de maneira a comunicar não apenas a posição que preferem, mas também a prática que mais gostam, de acordo com a cor. A onda pegou, principalmente em San Francisco. De acordo com o livro The Leatherman Handbook 2 (“O manual do couro 2”, em tradução livre) as cores dos lenços eram escolhidas conforme os significados a seguir:

  • Preto: S&M
  • Azul escuro: sexo anal
  • Azul claro: sexo oral
  • Marrom: cropofilia (brincar com fezes)
  • Verde: prostituição
  • Cinza: bondage (ser amarrado)
  • Laranja: vale tudo a qualquer hora (mas não necessariamente com qualquer um)
  • Roxo: piercing
  • Vermelho: fistar (inserir a mão no ânus)
  • Rosa: dildos/brinquedos anais
  • Branco: masturbação
  • Amarelo: Golden Shower (brincar com urina)

Em 1977 o fotógrafo Hal Fischer publicou um livro entitulado Gay Semiotics (“Semiótica Gay”), em que publicava fotos tiradas em San Francisco (principalmente na região do Castro e Haight Ashbury). As legendas são dignas de um museu, classificando cada “tipo” de homossexual com uma linguagem fria e enciclopédica – tão impessoal que chega a ser engraçado, provavelmente a intenção do autor. Obviamente os gays não eram obrigados a sair sinalizando suas preferências, mas tudo indica que nessa década esses sinais realmente eram utilizados – e funcionavam. Hoje uma cópia usada desse livro não sai por menos de quinhentos dólares, mas nós reproduzimos abaixo algumas de suas páginas, fornecidas pelo site Dangerous Minds, junto das traduções de suas legendas ironicamente clínicas.

Chaveiros

HF_keys_16x20FC_OtherWEB

Chaveiros são um significador bem compreendido da atividade sexual. Um chaveiro usado no lado direito do corpo indica que o usuário deseja assumir um papel passivo durante um encontro sexual. Por outro lado, um chaveiro colocado no lado esquerdo do corpo significa que o usuário espera assumir uma posição dominante. Chaves também são utilizadas por zeladores, operários e outros trabalhadores sem qualquer intenção de significado sexual.

Lenços

fischerhandkerchief23424243

Lenço azul: Lenços denotam tendências de comportamento por meio tanto de suas cores como do lugar em que são colocados. Um lenço azul colocado no bolso direito de trás comunica que o usuário deseja atuar no papel passivo durante a relação sexual. Por outro lado, um lenço azul colocado no bolso traseiro esquerdo indica que o usuário vai assumir o papel ativo ou tradicionalmente masculino durante o contato sexual. O lenço azul é comumente utilizado no tratamento da congestão nasal e, em alguns casos, não carrega qualquer significado com relação às preferências sexuais.

Lenço vermelho: Os lenços vermelhos são utilizados como significadores de comportamentos que costumam ser considerados bizarros ou anormais. Um lenço vermelho colocado no bolso traseiro direito implica que o usuário assume o papel passivo em inserções da mão dentro do ânus. Um lenço vermelho colocado no bolso traseiro esquerdo sugere que o usuário toma o papel ativo durante a inserção da mão no ânus. Lenços vermelhos também são utilizados no tratamento de corrimentos nasais e em alguns casos não têm qualquer significado com relação ao contato sexual.

Brincos

HF_earring_16x20FC_OtherWEB

Um brinco no lóbulo direito pode sugerir que quem o usa prefere assumir o papel passivo durante a atividade sexual. Por outro lado, um brinco no lóbulo esquerdo pode significar um comportamento ativo da parte do usuário. Diferentemente de outros sinais, no entanto, a colocação do brinco no lado direito ou esquerdo nem sempre é indicador de tendências ativas ou passivas na parte do usuário. Além disso, o brinco é muitas vezes adotado por homens não-homossexuais, tornando assim o brinco o mais sutil dos significadores homossexuais.

Nitrito de amila

tumblr_ngs8tx1GMB1qarjnpo4_1280

O nitrito de amila é uma droga em cápsula vendida sob prescrição médica utilizada no tratamento de angina de peito (doença cardíaca). O nitrito de amila, ou “poppers” como é conhecido em gíria, é inalado pelo nariz ou pela boca. Depois da inalação o usuário sente batimentos cardíacos acelerados e a sensação de que o sangue corre para a cabeça. O nitrito de amila é particularmente popular em pistas de dança e imediatamente antes do clímax sexual. Como o nitrito de amila só é vendido sob prescrição médica, fabricantes criaram um número de substitutos comerciais assim como uma variedade de inaladores. Apesar dessa droga ser utilizada por heterossexuais, sua imensa popularidade entre gays lhe rendeuu o título de “Droga Gay”.

Moda de rua - Gay básico

Moda de rua – Gay básico

Moda de rua - esportista

Moda de rua – esportista

Imagem arquetípica de mídia – Faroeste

HF_ArchetypeWestern_16x20FC_OtherWEB

O protótipo do faroeste ou caubói é identificado por essas peças de vestuário: botas de caubói, jeans, camisas de flanela e, em alguns casos, chapéus. Quando a imagem aparece em revistas gays o cenário costuma ser celeiros, currais ou cercas. O caubói representa a fronteira e uma sociedade restrita a machos. As qualidades machistas do arquétipo do faroeste são vigorosamente exploradas pela publicidade. Caubóis modernos são utilizados pela mídia para brincar com a masculinidade e a sexualidade de maneiras que são compreendidas subconscientemente pela população gay.

Imagem arquetípica da mídia – couro

HF_ArchetypeLeather_16x20FC_OtherWEB1

O protótipo do couro é o visual mais facilmente reconhecido. Itens de couro preto incluem tudo desde capuzes a jaquetas, calças, quepes e roupa íntima. Acessórios incluem motocicletas, correntes e itens sexuais variados. Na mídia gay o couro preto torna-se um símbolo do desconhecido ou ainda não experimentado. É inteiramente, veementemente, macho na aparência. Outros arquétipos têm suas raízes em mitos aceitos e celebrados pela cultura em geral, mas o culto ao couro, assim como seu equivalente heterossexual, está enraizado na não-aceitação e na não-conformidade.

Acessório para bondage - guindaste de carne

Acessório para bondage – guindaste de carne

Apoie o Lado Bi!

Este é um site independente, e contribuições como a sua tornam nossa existência possível!

Doação única

Doação mensal:

Participe da discussão! Deixe um comentário:

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

4 comentários

Lucas

Alguém sabe o que significa as faixas pretas que gays colocam no braço?
Na página do Instagram da @eaglenyc é comum postarem fotos de frequentadores com essas faixas.

Responder
Dowglasz Abjhörsky

No Ensino Médio, uma professora de História solicitou um trabalho sobre símbolos, e eu fiquei muito satisfeito em estudar e apresentar símbolos gays (até porque eu já estudava por curiosidade e até então estava muito focado em símbolos magicos).

De fato tinha essa questão da criatividade na comunicação, que não se valoriza muito hoje em dia. Mas o melhor de tudo é notar que o uso de símbolos não morre: a linguagem é viva e vai se adaptando a contextos, paradigmas e principalmente às mensagens que se deseja transmitir.

O negócio é que você precisa ter um olhar mais simples pra entender os sinais hoje em dia (o que paradoxalmente deixa mais difícil).

Responder
Pedro Camargo

“O lenço azul é comumente utilizado no tratamento da congestão nasal”

“Lenços vermelhos também são utilizados no tratamento de corrimentos nasais”

WTF?

Responder