Colby Keller: “Não há nada intrinsecamente errado no sexo sem proteção”

Colby Keller: “Não há nada intrinsecamente errado no sexo sem proteção”

De passagem pelo Brasil, o principal astro pornô do momento conversa sobre Truvada, seus namoros, bastidores da pornografia, projetos artísticos e dá dicas para a hora do sexo

por Marcio Caparica

O que não falta no mundo de hoje é vídeo pornô. Doze, quinze anos atrás, a gente guardava aquelas fitas VHS que assistia repetidas vezes na hora de fazer justiça com as próprias mãos. Hoje, quem não quiser não vê nunca a mesma cena duas vezes. Num cenário em que tanta gente produz tanto para um consumo tão efêmero, é particularmente impressionante quando alguém do ramo se torna um astro, com nome e imagem reconhecidos. Sem dúvida, um dos principais nomes da pornografia atual é Colby Keller.

Com ou sem barba, ativo ou passivo, com um, dois ou mais parceiros, Keller está numa seleta lista de astros pornôs cuja presença num vídeo garante a satisfação de quem está assistindo. O astro demonstra que também não é apenas um, digamos, tudo bonito. Ele não deixa para trás seu lado de artista performático. Em abril desse ano ele se desfez de tudo que possuía e transformou a doação de seus bens em uma performance artística. Em julho ele criou um projeto em que pretende percorrer todos os estados dos EUA e todas as províncias do Canadá, encontrando artistas locais e gravando performances pornográficas criadas em conjunto. O projeto arrecadou 45 mil dólares numa campanha de financiamento coletivo (a meta era 30 mil).

De passagem pelo Brasil para exibir seu filme no festival Mix Brasil, Keller concedeu a entrevista a seguir para o LADO BI. Bem-humorado e muito seguro, o ator não fugiu de nenhuma pergunta. Falou sobre seus relacionamentos, sexo, fama, arte e saúde com tranquilidade, como se estivesse conversando com um conhecido num boteco, com a segurança de quem não tem nada a temer – nem a esconder.

LADO BI O que as pessoas costumam ter de mais privado são seus corpos, mas você hoje em dia está pelado o tempo todo na frente de milhões de pessoas – a qualquer momento tem alguém assistindo um vídeo seu na web. O que você tenta manter privado? Suas amizades e relacionamentos?

Colby Keller Alguns deles, sim. Eu já namorei dois caras ao mesmo tempo, um deles também era ator pornô, e deu muito errado, foi um desastre. Foi um relacionamento horrível, emocionalmente destruidor. Eu não falava muito sobre ele de propósito, em parte porque eu não queria que virasse fofoca. Mas ele fez tanta coisa para me magoar! Acho que isso se deve em parte porque a gente estava no mesmo ramo.

Dá pra gente saber o nome dele?

Eu não vou dizer, mas não é muito difícil descobrir. [Nota do editor: tudo indica que se trata de Dale Cooper] Sendo sincero, a essa altura eu nem sei mais que tipo de relação a gente tinha. Eu achava que nós éramos namorados, mas parece que ele tinha uma opinião bem diferente! Eu tentei deixar quieto. Eu tenho outro namorado que tem sido bastante pró-ativo em me ajudar a estruturar a identidade pública do Colby. Eu o considero metade de Colby Keller. Acho que as pessoas sabem dele, mas eu não falo muito disso.

Um astro pornô só consegue namorar com outro astro pornô, porque eles compreendem o que você faz? Você já namorou com pessoas que não são atores pornôs?

A maior parte dos meus relacionamentos foi com pessoas que não são atores pornôs. Essa pessoa de quem eu estou falando é o único ator pornô com quem eu já namorei. Na verdade, eu cometi o erro de envolvê-lo na pornografia… Ele já tinha feito um filme pornô quando estava na faculdade, e daí começou a fazer programas. Eu respeito muito quem é garoto de programa, essa é uma profissão muito difícil! Mas, sinceramente, eu não achava que ele estava preparado emocionalmente para fazer isso. Eu tinha medo de como fazer programa poderia afetar sua personalidade. Hoje eu vejo que, na verdade, ele é o tipo ideal de pessoa para esse tipo de trabalho! Sendo sincero, eu também tinha um pouco de ciúmes, eu queria ele todo para mim. Não é o tipo de sentimento que se devia ter, eu sei… Enfim, ele estava passando por um aperto e eu disse “olha, eu consigo te ajudar a arranjar trabalho fazendo filmes pornôs, se você estiver afim, eu posso te indicar.” Fui em frente com isso e logo eu percebi que ele me via como competição. E não tem o que fazer, eu sou uma figura muito mais conhecida que ele, estou nessa “posição de poder”, acima dele de certa forma… Eu não enxergava as coisas assim, mas foi o que acabou estruturando nossa relação.

Engraçado, é o tipo de conflito que acontece com qualquer casal que atua na mesma profissão, não é algo exclusivo de atores pornôs…

É algo super comum mesmo. E eu nem percebia isso. Eu estava numas de “aê, vamos trabalhar juntos, vamos colaborar”. Eu ajudava ele a conseguir trabalho. Mas ele achava que a gente competia, foi muito, muito triste. Eu dei a maior força, a autoestima dele melhorou muito, a ponto dele se tornar meio egomaníaco. E depois que você soltou a fera, como é que faz pra segurar ela de novo?

Quem se expõe mais, um ator pornô ou quem depende de fofoca para “ser alguém”?

A indústria da celebridade de Hollywood depende muito da fofoca, né? Isso também acontece no mundo pornô. Eu tento não entrar nessa. Mas, até aí, olha eu aqui fazendo fofoca sobre meus relacionamentos com você! (Risos.)

Como fazer filmes pornôs mudou seu conceito sobre o que é privado ou não?

Uia… [pausa e reflete] Meu conceito de privacidade mudou radicalmente. Acho que eu não acredito mais no conceito de privacidade da maneira que eu acreditava há dez anos. Assim, todo mundo usa Twitter, Instagram e Facebook… Depois reclamam que não têm privacidade! Se você utiliza  essas plataformas que são concebidas para se expor só para se relacionar com outras pessoas, você está se abrindo para isso.

Você faz sexo sem camisinha?

Eu faço na minha vida pessoal. Eu tomo Truvada, e eu faço exame de sangue quase todo mês. É algo que eu gosto de fazer com meus parceiros e com quem namora comigo. Não vou negar que eu acho bom, é super gostoso. E eu adoro porra. Eu faço o possível pra transar sem camisinha de forma segura: essa é a principal razão porque eu tomo Truvada.

Quando você começou a tomar Truvada?

Assim que foi aprovado nos Estados Unidos, já faz quase dois anos. No começo eu não botava muita fé, eu achava que seria algo que só quem fosse muito rico ia conseguir comprar. Mas daí eu descobri que meu plano de saúde cobria, eu consigo de graça. Resolvi experimentar e ver como meu corpo ia responder. Nunca tive qualquer complicação.

Você consegue tomar todo dia?

Eu só esqueci de tomar dois dias até hoje.

De dois anos? Você é superdisciplinado, então.

E, você sabe, já estão desenvolvendo outros métodos, tentando inventar uma injeção que se toma de três em três meses, pesquisando um protocolo em que se toma o remédio antes de transar e alguns dias depois

As pessoas não se ligam que os atores pornôs na verdade estão muito mais protegidos do HIV que a população em geral, porque vocês fazem exame de sangue com tanta frequência.

Pois é, as pessoas pensam “certeza que você é cheio de DSTs”, mas não percebem que eu devo ser uma das pessoas mais seguras do mundo, porque eu faço tantos exames. Nem todos  os atores fazem esse monte de exames, mas as companhias em que eu trabalho exigem, e eu também faço por razões pessoais. Eu não tenho nada contra transar sem preservativo, os héteros fazem isso o tempo todo para fazer filhinho. Não há nada intrinsecamente errado no sexo sem proteção. Não acho que se deva condenar quem queira fazê-lo nem mesmo quem pega HIV por causa disso. Zachary Quinto entrou nessa, acho horrível.

Você toma remédios contra disfunção erétil para ajudar nas filmagens?

Ô se tomo.

Jura??? Cara, eu tinha certeza que você jamais admitiria.

Opa, em quase todas as cenas. É quase impossível fazer filme pornô sem elas, mesmo quando você está com tesão. A gente fica seis horas filmando, tem que parar e começar o tempo todo. Mesmo com remédio é difícil.

É verdade que a camisinha chega a dar bolha no pau porque você tem que trepar tantas horas com preservativo?

Olha, eu fiz uma bolha faz pouco tempo por causa de uma cena que eu fiz. Acho que foi por causa da cena, mas eu também estava pegando superpesado. Então não posso garantir pra você que foi por causa da camisinha em si, mal aí…

Conta pra gente como é que vai ser esse seu projeto artístico. Que tipo de performances você tem em mente?

Vai depender muito de quem eu conseguir para colaborar comigo. Haverá muitos tipos de pessoas. Acho que o tipo de material criado vai depender da natureza das relações com essas pessoas.

Você pretende então chegar em cada estado e convocar pessoas que estiverem dispostas a ajudar você?

Isso. Eu já tenho algumas pessoas que embarcaram em algumas fases desse projeto, pessoas que vão de poetas e cineastas a pessoas normais, de amigos a artistas e pintores.

A ideia é chegar e improvisar na hora?

Eu já discuti algumas ideias com algumas pessoas. É assim, imagina que eu e você decidíssemos trabalhar juntos. A gente ia conversar, e eu perguntaria qual é sua opinião sobre a pornografia, o que você gostaria de ver no vídeo e o que a gente poderia fazer juntos. Eu não quero chegar e dizer “minha ideia é essa, vai lá e executa”, o projeto está mais para “o que a gente pode fazer junto?”.

Mas tem que fazer algo necessariamente envolvendo pornografia?

É o que eu gostaria. Sem dúvida eu quero que haja um componente sexual em cada vídeo. O resultado final pode não ser pornográfico, mas com certeza eu quero que haja um componente de pornografia na maneira em que é filmado. Porque é isso que eu faço, né?

Você acha que ser um astro pornô faz com que seja mais fácil ou mais difícil se tornar artista?

Com certeza é um desafio muito grande. Eu levei muito tempo para descobrir como conciliar o Colby com meus projetos artísticos. Cheguei à conclusão que era meio desonesto deixá-lo de fora. Acho que eu estava ignorando o que eu faço para viver, que é um tipo de performance, que é algo que envolve sexo, e não apenas sexo, mas também um tipo de negócio em particular que vende desejo para as pessoas. Isso tudo é terreno fértil a ser explorado por um artista, e eu estava negando isso tudo. Então eu decidi voltar atrás e refletir sobre isso tudo.

Você deve se sentir um artista mais sincero consigo mesmo, já que você gosta de atuar na pornografia.

Isso mesmo. Para mim a arte não se trata de criar um objeto que pode ser vendido, arte deve ser sobre o processo de criação do artista e o público que você quer atingir. Eu quero retomar esse tipo de foco no meu trabalho.

Nos vídeos você atua tanto como ativo como passivo. O que você acha de quem se restringe a apenas um desses papéis?

Eu acho que se a sua sexualidade tem essa estrutura, seja honesto com ela. Eu me dou melhor com ativos. Mas meus relacionamentos mais longos, em que eu investi mais, foram com passivos. Uma vez eu namorei um passivo – uma passivona mesmo! – que, por razões políticas, achava que tinha que ser ativo de vez em quando. Ele não tinha o menor tesão por cu, não tinha o menor tesão pelo meu cu, mas de três em três meses ele chegava e dizia: “acho que está na hora de eu fazer aquilo por você…”. Eu respondia: “Cara, você não tem que fazer nada!”.

“Eu vou fazer esse esforço de comer sua bunda…”

Isso, e eu me sentia mal, porque eu sabia que ele não sentia o menor tesão.

Mas você acha que todo mundo devia experimentar a outra posição de vez em quando?

Acho legal experimentar, descobrir se você gosta ou não, até porque o tesão muda com o tempo. O meu, pelo menos, mudou. Tem semanas que eu quero comer alguém, tem semanas que eu só quero dar. Quem é só ativo ou só passivo pode ter dificuldades em entender isso, ou sexualizar esse tipo de mudança. Tem um monte de passivo por aí que alimenta essa imagem idealizada de alguém que vai meter neles, alguém macho pra caralho, dominador e comedor…

… e que broxam na hora se você sugerir trocar de papéis…

Não é?

Que conselho você daria para um ativo que estivesse disposto a tentar ser passivo com o parceiro?

Respire… Deixe tudo limpinho. Essa é uma preocupação grande pra quem está sendo passivo pela primeira vez, não é difícil descobrir como fazer a limpeza. Use muito, muito lubrificante. E experimente com brinquedos primeiro, antes de partir para o parceiro. E você precisa confiar muito na pessoa, porque isso envolve dor.

Você recomendaria alguma posição para os iniciantes?

Acho que frango-assado sempre é mais fácil. Ou montar em cima, porque daí você está controlando a penetração. A dificuldade em montar é que muitas vezes o ativo tem dificuldade em manter a ereção. Mas assim, se você não conseguir, tudo bem. Ser só ativo não é problema. Pode acreditar, o que não falta no mundo é passivo!

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12 comentários

Dionath

Colby Keller fará algum vídeo em Belo Horizonte?Tenho interesse em participar!Se alguem souber por favor me informe como me candidatar!Gosto muito da performance dele.Otima entrevista.

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Macabéia

Porra adorei essa entrevista cara, deveria ser em video o Colby me pareceu realmente muito bacana e acessível, q filme foi esse q ele veio exibir aqui no BR? Vc pode disponibilizar p gnt?

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suanne oliver

Keller amooooo… Ele é tesao puro!!! Todos os filmes dele, parece q ele ta t comendo ali de verdade… Alem de muito gato!!! Amoo ele, pena q é gay!!

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silas

Uma dúvida: Vc se sentiu atraído de alguma forma? Revele para as amigas!

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silas

James eu ri muito lendo essa entrevista, ameiii!
Destaques:
“Não vou negar que eu acho bom, é super gostoso. E eu adoro porra.”
Eu imaginei ele falando isso, e só pensei naquele meme da Neide.
“Uma vez eu namorei um passivo – uma passivona mesmo! – que, por razões políticas, achava que tinha que ser ativo de vez em quando. Ele não tinha o menor tesão por cu, não tinha o menor tesão pelo meu cu, mas de três em três meses ele chegava e dizia: “acho que está na hora de eu fazer aquilo por você…”. Eu respondia: “Cara, você não tem que fazer nada!”.”
Quase me joguei no chão de tanto rir.

“Tem um monte de passivo por aí que alimenta essa imagem idealizada de alguém que vai meter neles, alguém macho pra caralho, dominador e comedor…”
“Pode acreditar, o que não falta no mundo é passivo!”
Só pensei em minhas bests pocs.

Enfim, amei a entrevista! Obrigado!

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Welton Trindade

Que desserviço! Gosta de fazer sexo bare, ok! Cada um é cada um, mas passar informação incorreta ou colocar essa prática como segura é absurdo. 1) não há só HIV como DST! 2) Fazer exame não é forma de prevenção. É forma de detecção! Socorro!!!!

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James Cimino

O que ele disse é que faz de tudo para transar sem camisinha de forma segura. E a forma de fazer isso é usando Truvada. As aspas são dele e não são uma mentira. Se você acompanha o blog já deve ter lido e ouvido muita coisa sobre isso em nosso podcast. A forma de prevenção não é fazer exame, é tomar Truvada. Você deixou a histeria falar mais alto. De fato não existe só HIV, existem outras DSTs, nem por isso os heteros deixam de transar sem camisinha. Aqui achamos que, se for consciente, cada um é livre para fazer o que quiser de seu corpo.

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Tom

Cada um é livre pra fazer o que quiser com o corpo mesmo se for inconsciente.

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Tito

E é assim que você dá um tapa com luva de pelica em um desinformado histérico.

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Lucas

Meu ator pornô preferido. Depois dele apenas o Jean Franko e Adam Killian. Nunca escondi de ninguém que sou fã de vídeos pornôs. Acho a profissão deles difícil, embora envolva muito prazer. Tudo tem seu lado negativo e acho que ele deixou isso bem evidente da entrevista. Gostei muito de como conduziu a entrevista, Márcio! Parabéns!!

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