Como a drag queen Cassandro se tornou a estrela da luta livre mexicana

Como a drag queen Cassandro se tornou a estrela da luta livre mexicana

Entre machões e violência coreografada, Saúl Armendáriz superou preconceitos e problemas pessoais para ganhar fama e sucesso na lucha libre

por Marcio Caparica

Traduzido do artigo de William Finnegan para a revista New York

Saúl Armendáriz cresceu em uma das cidades gêmeas mais estranhas do mundo: El Paso, Texas, e Ciudad Juárez, México. Nascido em El Paso, ele viveu, sempre, entre os dois lados da fronteira. “Eu frequentava uma escola em El Paso, mas às sextas-feiras eu e minhas irmãs atravessávamos correndo a ponte que leva para Juárez”, ele se recorda. A diversão e da família estavam em grande parte em Juárez. No topo da lista de programas divertidos, para Saúl, estava a lucha libre – a variante mexicana, popular e extravagante da luta livre profissional. Todos os barrios contavam com uma pequena arena em que heróis (técnicos) e vilões (rudos) mascarados agarravam, giravam e jogavam uns aos outros aos domingos. Saúl amava as fantasias baratas. Ele adorava as multidões barulhentas e apaixonadas. Ele idolatrava os luchadores míticos. Ele não era uma criança grande, mas era atlético e veloz, e necessitava desesperadamente de um alter-ego.

“Ser gay é uma dádiva de Deus”, Armendáriz filosofa. Não era o que ele sentia quando era criança. Ele tem recordações de apanhar brutalmente, ainda muito jovem, por brincar de casinha (uma brincadeira de menina) com outro garoto como ele na escola. Seus pais, especialmente seu pai, morriam de vergonha de seu jeito efeminado. “Meu pai era muito machista“, ele se lembra. “Ele não queria ter um filho gay”. Seu pai, motorista de caminhão, bebia muito; ele espancava a mãe de Saúl. Eles se divorciaram quando Saúl tinha treze anos. Os outros garotos também o maltratavam. “Os garotos da vizinhança, meus parentes, inclusive, me usavam como um brinquedo sexual”, diz.

Armendáriz, hoje com quarenta e quatro anos, está de pé na frente de um espelho num camarim em Los Angeles, espalhando sombra com glitter verde nas pálpebras, enquanto se recorda desses horrores. Ele não parece estar particularmente indiferente, nem tampouco perturbado, pelo que relata, mas sim em algum ponto entre esses dois extremos. “Eu não sou uma vítima”, afirma com convicção. Ele então solta um suspiro curto e começa a passar batom – vermelho vivo – nos lábios. “Mas eu ainda tenho que lidar com os estragos.” Ele cola um par de cílios postiços. Ele estava transformando Saúl em seu personagem de lucha, o fabuloso campeão dos pesos-leves, Cassandro.

Cassandro (Saúl Armendáriz) durante a Lucha VaVoom, em Los Angeles. "Sabe quem eu enfrento no ringue? Cassandro. O cara que precisa ser famoso. Seu ego não é seu amigo. Lá em cima, é Saúl contra Cassandro.”

Cassandro (Saúl Armendáriz) durante a Lucha VaVoom, em Los Angeles. “Sabe quem eu enfrento no ringue? Cassandro. O cara que precisa ser famoso. Seu ego não é seu amigo. Lá em cima, é Saúl contra Cassandro.”

Ele abandonou a escola aos quinze anos e procurou por conta própria um treinador de lucha em Juárez. Ele fez sua estreia profissional aos dezessete anos, como Mister Romano. Esse personagem foi criado por um luchador famoso de Tijuana, Rey Misterio, com quem Armendáriz havia começado a treinar quando demonstrou talento. Mister Romano era um rudo estilo gladiador. Ele vestia uma máscara assustadora, preta e branca, e executava voadoras traiçoeiras do alto das cordas. Pra tentativa de escalar a hierarquia das lutas em arenas por toda a fronteira, ele durou menos que um ano.

“Foi Baby Sharon quem sugeriu que eu deixasse Mister Romano para trás”, recorda-se Armendáriz. Baby Sharon era um exótico – um luchador que luta fantasiado de mulher. Exóticos existem desde a década de 1940. Inicialmente eles eram dândis, um subgrupo dos rudos com capas e pagens. Eles faziam poses de galã e jogavam flores para a plateia. Conforme os exóticos ganharam mais e mais trejeitos, se tornaram mais desinibidos, e começaram a se vestir de mulher, o tipo se transformou na velha caricatura do gay de mão mole. O público adorava odiá-Los, berrando “Maricón!” e “Joto!” (“Bicha!”). Os exóticos faziam um contraste delicioso com os brutamontes hipermasculinos que enfrentavam no ringue. Os exóticos mais populares insistiam que aquilo tudo era apenas encenação – na vida real, eles eram heterossexuais. Baby Sharon foi um dos primeiros, de acordo com Armendáriz, a declarar publicamente que não, na verdade ele era gay mesmo.

Em seu début como exótico, Armendáriz não usou máscara. “Na entrada, eu usei uma blusa bufante da minha mãe. Eu vesti a cauda do vestido de quinceañera da minha irmã. E, durante a luta, um maiô de banho.” Ele foi batizado como Rosa Salvaje, mas o confronto era em Juárez, onde todos o conheciam. Foi uma noite aterrorizante. “Eu pensava que eu ser gay era um segredo, então eu achei que estava saindo do armário. Mas todo mundo já sabia. Eu era o único que ainda não sabia disso.” Mesmo assim as pessoas gritavam “Mata a bicha!”.

Rosa Salvaje, assim como Mister Romano, era veloz e durão. Nada de desmunhecar ou dar gritinhos. Talvez uma encoxada breve depois de lançar o oponente para cima dos assentos da primeira fileira da platéia. De repente, um beijinho na boca do oponente bonitão que estava submetendo com uma chave de braço, para chocar. O publico adorou o número. Mas alguns dos lutadores mais antigos não queriam lutar contra Rosa. Principalmente, eles não queriam perder para ele. O ano era 1989, o auge da histeria do HIV e da Aids. Maria, a mãe de Armendáriz, começou a assistir as lutas. (Seu pai até hoje nunca viu uma, a não ser na TV.) Ela não deixava passar barato os brados embriagados que exigiam mais um homicídio homofóbico. “Esse é o meu filho!”, protestava. Nenhum outro grito seria capaz de conter um agressor mexicano.

Rosa Salvaje costumava lutar ao lado de outro talentoso exótico, Pimpinela Escarlata. Eles encheram os lutadores héteros de porrada por todo o estado de Chihuahua. Essas vitórias eram legítimas? Em termos esportivos, não. Há uma razão por que o Comitê de Controle de Jogos de Nevada nunca permitiu que se fizessem apostas em partidas de luta livre: os resultados são predeterminados. Mas a armação envolve uma “trama”, tanto na lucha libre como na luta livre profissional norte-americana, e os vencederes têm que ser, no mínimo, atletas convincentes. Rosa e Pimpi preenchiam esses pré-requisitos.

E o desenrolar da trama não é decidido apenas pelos empresários. Quando Armendáriz decidiu mudar seu nome artístico, ele entrou numa lucha de apuesta contra um exótico chamado Johnny Vannessa: o perdedor abandonaria seu nome. Rosa, como já havia decidido o destino desonesto, perdeu, e Armendáriz disputou sua luta seguinte como Cassandro. O nome veio da dona de um bordel em Tijuana, Cassandra, que ele admirava. Cassandra era conhecida por sua generosidade para com os pobres. Com os lucros de seu bem-sucedido negócio, ela auxiliava crianças de rua. Ela já fazia o mesmo, diziam, em seus dias de juventude, como uma prostituta de alto padrão. Cassandro considerou que aquela mistura de talentos e simpatias era inspiradora. Quem sabe não seria possível ser um artista fanfarrão – escandaloso, sexy, bem-sucedido – e uma pessoa de bem?

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“Ser gay é um presente de Deus”, afirma Cassandro. Mas não era isso que ele sentia quando criança. Anos depois, ele começou a encher os héteros de porrada. Aqui, ele se prepara para uma luta na Arena Kalaka, em Juárez.

Uma vez, em Guadalajara, uma velha senhora o esfaqueou durante uma luta, quando a briga transbordou, como acontece muitas vezes na luta livre, para cima da plateia. Por que ela fez isso? Cassandro dá de ombros. “Eu estava batendo em um de seus heróis. Ela me feriu bem aqui, debaixo das costelas.” Em Juárez, outra senhora uma vez jogou uma porção de pimentas verdes em suas costas. “Eu falei para ela se acalmar”, ele disse. “Ela estava enlouquecendo. Eu disse que ela estava prestes a ter um ataque cardíaco, caralho. Ela continuou mesmo assim. Minhas costas estavam suadas. Aquelas pimentas ardiam muito, muito.”

A plateia mais ensandecida que eu já vi Cassandro enfrentar estava em Juárez. Mas essa parecia ser uma loucura vinda totalmente da adoração. Era março, na Arena Kalaka. Essa era uma noite difícil, eu pensava. Os organizadores do evento o haviam divulgado como lucha extrema. As crianças com menos de doze anos estavam ostensivamente proibidas de entrar. Luchadores com mais bravura que finesse haviam atacado uns aos outros com cadeiras de aço, tábuas envoltas em arame farpado, lâmpadas fluorescentes e, mais chocante ainda, uma furadeira movida a bateria. A furadeira, na verdade, era falsa – sua utilização nos crânios dos lutadores vencidos era pura mímica – mas depois de meia dúzia de disputas, estilhaços de vidro das lâmpadas se espalhava por todos os cantos, e o sangue que escorria dos lutadores era real. É difícil não ver a festa como um exorcismo em grupo, quando se leva em conta o que vem acontecendo em Juárez nos últimos anos – uma guerra de rua aniquiladora entre cartéis de drogas rivais, responsável pela morte de mais de nove mil pessoas em quatro anos. A taxa de homicídios da cidade, que era a maior do mundo, finalmente começou a diminuir em 2011, mas o trauma do conflito permanece forte, e a região miserável ao redor da Arena Kalaka, situada dentro de um galpão velho e decadente, tem a aparência devastada e abandonada de um campo de batalha.

Na bagunça das primeiras lutas daquela noite, eu mal conseguia distinguir os rudos dos técnicos. Os técnicos teoricamente seguem as regras, e os rudos as violam, enquanto os juízes tentam impor a ordem. Mas os técnicos atacavam seus oponentes pelas costas já na rampa de entrada. Os juízes posicionavam o arame farpado de maneira a provocar o maior dano possível quando os corpos eram jogados no chão. A plateia, de aproximadamente 200 pessoas, delirava. Garotas universitárias e vovozinhos berravam em uníssono, “Culero!” (“Cuzão!”) para um lutador em decadência chamado Aereo, que vestia uma máscara roxa e dourada. Quando Aereo fez uma pausa para recuperar seu fôlego durante o espancamento demorado e maldoso de um adversário, alguém gritou “Chama ele pra jantar!”. Isso significava que Aereo estava sendo bonzinho demais, e arrancou risadas da plateia. Parece que toda a violência da extrema não era suficiente para os presentes.

Ainda assim, o alívio foi geral quando, tarde da noite, Cassandro entrou em confronto com Magno, um rudo grande e musculoso, e os dois deram um aperto de mãos – claramente, essa não seria uma lucha extrema – antes de se atracarem. Cassandro, com 1,65m de altura (usando botas), batia nos ombros de Magno. Uma lona limpa havia sido jogada sobre o ringue, eliminando o problema dos cacos de vidro, e os lutadores trocaram mata-leões, torções de braço, chaves de perna, esquivas, voadoras, tesouradas, rasteiras, empurrões, e jogadas contra as cordas em sequências de alta velocidade. Quando eles se separaram por um minuto, Cassandro deu uma cambalhota para trás para comemorar e bateu palmas, sorrindo. O homem que se sentava atrás de mim, um garçom chamado Luís Rubio, sussurrou “isso é um clássico”.

A lucha libre é, como um todo, mais acrobática que a luta livre profissional norte-americana. A ênfase fica nas manobras aéreas espetaculares e técnicas sólidas de ataque e contra-ataque, não no tamanho dos lutadores e sua musculatura. (Os jogadores de futebol americano desempregados que encontram trabalho na luta livre profissional dos EUA não se dariam bem na lucha libre.) Os mais puristas reclamam que a lucha libre mexicana perdeu algo de sua arte, sua originalidade, desde que a antiga proibição da transmissão das partidas pela televisão foi eliminada nos anos 1990, o que fez com que a lucha se tornasse mais homogênea e cheia de bordões, realizada mais para as câmeras que para o público presente. Mas esse foi um problema inexistente durante a batalha entre Cassandro e Magno na Arena Kalaka. Suas manobras voavam alto, como se propelidas por um estilingue, fazendo-os atravessar as cordas e cair entre a plateia, que em seguia os ajudava a voltar para o ringue. Houve repetidas quase-vitórias, em que Cassandro saía debaixo do brutamontes quando a contagem chegava a… dois e três quartos. A plateia se erguia, aos berros.

Finalmente, Cassandro pulou de cima da corda mais alta e acertou uma voadora no peito de Magno. Os dois se chocaram contra a lona com um estrondo. Cassandro se reergueu primeiro, correu até as cordas, jogou-se contra a do meio com força de costas e voltou com as pernas estendidas, cegamente acertando Magno, que havia acabado de se levantar, com uma chave de pernas conhecida como casadora. O conjunto seguinte de manobras aconteceu num borrão retorcido que fez com que Magno caísse de costas, com as pernas torcidas dolorosamente num paquetito – pacotinho – retidas por uma das pernas de Cassandro, enquanto esse jogava todo seu peso sobre o peito de Magno. Magno se debateu, jogando Cassandro para um lado e para outro como um boneco nas mandíbulas de um cachorro, mas Cassandro se segurou. Um, dois, três – e ele venceu a luta.

Pesos choveram sobre o palco, um gesto antigo de apreço dos fãs. Cassandro absorveu tudo, ofegante, molhado de suor, sorridente, com os olhos brilhantes. Ele havia perdido um de seus cílios postiços. Alguém lhe passou um microfone. “ÉSTA es lucha libre”, declarou. Seu olhar recaiu sobre a pilha de lixo que havia restado da extrema: arame farpado, madeira, tubos de lâmpada, vidro estilhaçado. “No pinches mamadas” – “Nada de boquetes aqui”, traduzido ao pé da letra. “Nenhum truque barato”.

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Cassandro em El Paso, Texas, sua cidade natal, onde ainda mora. Do outro lado do rio fica Juárez, onde foi aprendiz de <em>lucha libre</em> aos quinze anos.

Cassandro em El Paso, Texas, sua cidade natal, onde ainda mora. Do outro lado do rio fica Juárez, onde foi aprendiz de lucha libre aos quinze anos.

A ascensão de Cassandro como um jovem luchador foi rápida. Ele se mudou para a Cidade do México e passou a fazer parte de uma das maiores trupes. Mas ele agia com mais autoconfiança do que possuía realmente. Em 1991, pouco antes de seu vigésimo primeiro aniversário, ele marcou uma luta com Hijo del Santo, o luchador mais popular do México. Era completamente inconcebível que Cassandro pudesse vencer. Hijo del Santo era um campeão peso-pesado mundial, e a máscara prateada que ele usava havia pertencido a seu pai. Muitos torcedores estavam furiosos. “As pessoas me xingavam de viadinho, dizendo, ‘Como você se atreve a lutar pelo título de campeão com Hijo del Santo?’. Estavam todos contra mim, com exceção do empresário daquela luta. A pressão foi demais.” Uma semana antes do embate, Cassandro cortou os pulsos com uma navalha. Pimpinella Escarlata encontrou-o num banheiro e salvou sua vida. Cassandro exibiu para mim as cicatrizes em seus pulsos. Ele manteve a luta agendada contra Hijo del Santo. Ele perdeu, mas não se desgraçou, o que era importante, e continou a lutar no alto escalão. Em 1992, ele venceu o título mundial dos pesos-leves – o primeiro exótico a vencer um título mundial.

Ele manteve sua autoconfiança em alta, e a si mesmo alheio, com grandes quantidades de drogas e álcool: tequila, cocaína, maconha. O mundo da lucha libre é sedutor para policiais poderosos – federales – e seus primos do submundo, que garantiam um fornecimento ilimitado de mercadorias ilegais. Para Cassandro, essa festa durou mais de uma década: “Tomar drogas me ajudava a me tornar alguém. Eu acreditava em mim mesmo. Eu era famoso, estava ganhando dinheiro. Eu me sentia a Mulher-Maravilha.” No meio disso tudo, em 1997, sua mãe morreu. “Eu ainda estava louco quando minha mãe faleceu”, conta. “Ela foi quem mais me apoiou. Ela me amava tanto. Eu fiz sua maquiagem no necrotério. Eu estava chapado enquanto a maquiava. Foi terrível. O pior é que eu ia acabar morto ou na prisão se ela não tivesse morrido. Sinto muita culpa e vergonha por causa disso.”

Ele ainda precisou de muitos outros anos para chegar no fundo do poço. Sua carreira sofreu muito por causa de seus vícios; ele pouco lutava. Quase no final, ele estava morando no quintal de um amigo. A data em que ele passou a ser sóbrio – 4 de junho de 2003 – está tatuada em suas costas. Ele encontrou forças numa mistura eclética de honestidade absoluta, sua própria espécie de misticismo católico, e, especialmente, práticas espirituais maias e indígenas, que lhe foram apresentadas por seus ancestrais nahuatl. “Eles dizem que a religião é para aqueles que têm medo de ir para o Inferno”, me contou Armendáriz. “Mas a espiritualidade é para aqueles que já o atravessaram. Esse é meu caso.” Ele assinou contrato com um novo empresário, e passou a lutar com uma atitude nova. “Você sabe contra quem eu luto no ringue? Cassandro. O cara que precisa ser famoso. Seu ego não é seu amigo. É o Saúl contra o Cassandro lá em cima. Eu tive que me tornar humilde.”

Ao contrário da maioria dos esportes, a luta livre profissional não se preocupa com estatísticas. Ninguém parece ter um registro de vitórias e derrotas. Na lucha libre, as lutas realmente importantes, os confrontos que  definem a carreira de alguém, sequer são disputas pelo campeonato mundial. O que importa são disputas Máscara versus Máscara, ou Cabelo versus Cabelo, ou Cabelo versus Máscara. Luchadores apostam suas máscaras ou seu cabelo no resultado de uma luta. A máscara é a aposta mais séria. Quando um lutador é derrotado e desmascarado, seu rosto é visto pelo público pela primeira vez. Seu nome e seu local de nascimento são publicados nos jornais. Sua máscara, que simbolizava sua honra, é aposentada e nunca mais pode ser utilizada.

O derrotado numa disputa de cabelo é humilhado e tem a cabeça raspada em público, mas sobrevive para lutar novamente. Cabelo cresce de volta. Cassandro, que tem um cabelo resplandescente – no momento, é louro escuro e escovado num penteado que ele chama de seu “visual Farrah Fawcett” (“Eu parei nos anos 70”) – já lutou e venceu muitas disputas Cabelo versus Cabelo, assim como algumas Cabelo versus Máscara. Ele também perdeu algumas disputas de cabelo,  incluindo uma para Hijo del Santo na Los Angeles Sports Arena, em 2007. Os vídeos de seus cortes de cabelo em público são dolorosos de assistir. Cassandro chora desconsoladamente e, com seu cabelo raspado, parece se transformar num garoto pequeno e infeliz. Claro que desmascarar Hijo del Santo jamais aconteceria. E o cachê por perder essa luta – vinte e cinco mil dólares – foi um consolo.

No passado um vilão, Cassandro se tornou respeitável. Ele dá palestras sobre diversidade na embaixada dos EUA na Cidade do México e na Universidade Autônoma Nacional. Lucha libre parece ter tomado a imaginação de muitos europeus. Cassandro dá aulas na Inglaterra e na França. Pussy Riot já declarou que a lucha libre foi a inspiração para as máscaras que seus membros vestem em sua batalha cultural. Em 2009, Cassandro e Hijo del Santo lutaram por duas noites consecutivas no Louvre. Cassandro venceu o título de campião mundial dos pesos-médios que carrega até hoje em uma disputa em Londres, em 2011. Ele já foi convidado do programa BBC Breakfast. Sua única reclamação sobre os britânicos é que eles insistem em chamá-lo de travesti. Ele é uma drag queen.

Mesmo Hijo del Santo, um dos mais conservadores homens mexicanos, acertou isso em seu solene programa de entrevistas, “Experiencias”. Quando recebeu Cassandro, em 2011, ele o elogiou não apenas como luchador mas também como um gay pioneiro. Ele ouviu com atenção às histórias de discriminação e superação de Cassandro. Hijo del Santo é uma figura extremamente estranha. Ele é um sujeito grande. Em seu programa, ele veste um terno rígido e antiquado, e, claro, sua máscara. É uma máscara primitiva, comparada com as confeccionadas nos dias de hoje, com buracos que dão aos olhos uma aparência perturbadora, e uma abertura para a boca que faz com que os lábios pareçam inchados e torna a boca desconcertantemente reta e larga. Mas a máscara jamais poderia ser modernizada sem abalar as fundações da iconografia mexicana – assim como a imagem da Virgem de Guadalupe. (Um exemplo do poder da máscara prateada. Em 1984, El Santo, o pai do superastro, após aposentar-se da luta livre, retirou sua máscara, muito brevemente, em rede nacional. Era a primeira vez que seu rosto era visto em público desde 1942. Uma semana mais tarde, ele morreu de um ataque cardíaco. A máscara retornou a seu rosto para seu funeral e enterro.) A parte mais esquisita da entrevista no “Experiencias” aconteceu quando Hijo del Santo levou telespectadores a seu “santuário” – um armário circular de vidro envolto em fumaça. Ele retirou uma pequena caixa de vidro de uma prateleira. Seu conteúdo: o cabelo de Cassandro. Era a cabellera que ele tirou de Cassandro em 2007. Hijo del Santo a guardava entre seus maiores tesouros, dentre eles mais de 50 máscaras que ele arrancou de outros luchadores, pondo fim a suas carreiras.

A sombra da World Wrestling Entertainment, a companhia de sucesso estrondoso que domina o mercado norte-americano e transmite seus eventos para todo o globo, recai sobre a lucha libre nos mais variados graus. A WWE é onde está o dinheiro de verdade, e poucos artistas da lucha libre conseguem fazer a transição para seus holofotes gelados. Ofensas contra os mexicanos são muitas vezes parte do acordo quando eles chegam lá – luchadores já tiveram que entrar no ringue dirigindo cortadores de grama – e as tramas da WWE são famosas por serem convolutas e rigidamente planejadas. Elas são, inclusive, escritas por roteiristas profissionais. Disputas elaboradas são o cerne da narrativa – há até a Disputa do Ano, que recebe um prêmio oficial – e a ênfase  nas entrevistas cheias de perdigotos, ameaças e gritos, parece humilhante para os devotos da lucha libre. “A WWE oferece vinte minutos de falatório, e então dois minutos no ringue”, despreza Cassandro. Ainda assim, ele fica feliz quando seus protégés migram para o norte e entram na folha de pagamento da WWE.

Ele já participou de lutas por todas as partes dos Estados Unidos. O problema com os lutadores gringos, ele diz, é que muitos deles nunca aprenderam a segurar o oponente. “Numa luta pay-per-view em Charlotte, eu fiz um topetón” – um mergulho para fora do ringue – “em cima de um cara do Círculo de Honra, e ele não sabia o que fazer. Eu passei reto por seus braços, e quando eu acertei o chão eu quebrei minha perna. Fraturei minha tíbia esquerda.” Isso aconteceu em 2010. Cassandro ficou de molho por meses. “Mas agora eu sei por que essa fratura aconteceu comigo. Foi para que meu pai pudesse finalmente cuidar de mim. E ele cuidou. Ele me trouxe uma vasilha grande de pollo que ele mesmo preparou. Eu nem sabia que ele sabia preparar isso.”

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Dentro da casa de Cassandro: ele é dono de muitas fantasias de lucha feitas sob medida, todas brilhantes e coloridas.

Dentro da casa de Cassandro: ele é dono de muitas fantasias de lucha feitas sob medida, todas brilhantes e coloridas.

A casa de Cassandro tem vista para a Cerca. Se você jogar uma pedra por cima do arame farpado todo, ela cai dentro do Rio Grande. Uma SUV da Patrulha de Fronteira estaciona na esquina. O bairro, poucos quilômetros a leste do centro de El Paso, é modesto, com pouca sombra e muitos terrenos ainda por construir. A casa de Armendáriz é pequena, bege, de teto chato. Ele mora sozinho. Dentro dela, tudo é arrumado, calmo, envolto em penumbra, quase como um ashram. Mas abra um armário na sala de massagens (Armendáriz é, em suas horas vagas, um terapeuta massagista diplomado) e de repente você está de volta ao mundo de cores berrantes de Cassandro. O armário está lotado de fantasias de lucha feitas sob encomenda, todas reluzentes e decoradas.

Eu o fiz revirar seus cestos plásticos cheios de lembranças em busca de indícios da carreira de Baby Sharon.

Baby Sharon morreu em 2008. “Nós o enterramos em Juárez”, lembra Armendáriz. “Nós ligamos para seus parentes em Guadalajara, mas sua filha sequer contou para a família que ele havia morrido. Eles tinham vergonha dele. Baby Sharon saiu do armário nos anos 1970. Era muito difícil naquela época. Ele era um cabrón durão. Todos os exóticos tinham que passsar por ele no início de carreira. Ele também era muito bom na máquina de costura. Quando ele morreu, eles o vestiram num terno vermelho. Não, não, não, não. Estava feio. Nós compramos para ele um terno risca-de-giz e uma gravata, o retiramos do caixão, e trocamos suas roupas. Eu estava sóbrio fazia apenas quatro anos. Foi a primeira vez que eu perdi uma pessoa amada enquanto sóbrio. Eu tinha certeza que ficaria arrasado. Mas não. Eu era muito apegado a ele. Ele me chamava de ‘mi hija’.”

Armendáriz encontrou uma fotografia sua sentado no chão, do lado de fora do ringue, com a cara assustada, seu rosto e seu peito cobertos de sangue. “Baby Sharon me fez isso”, ele disse. “Ele me bateu com uma garrafa.”

Seu amado mentor bateu em você com uma garrafa?

Armendáriz deu de ombros. “Era uma honra lutar contra ele.”

Eu já havia percebido que eu estava do lado errado da polêmica da lucha extrema. Cassandro não a desprezava de verdade. Ele mesmo participara de uma luta extrema dois anos antes. “Eu nunca fico com medo do ringue”, ele confidenciou. “Mas naquele dia eu tive medo. Muñeco Infernal espalhou um saco de tachinhas sobre o ringue, e então me jogou de cara na lona. Eu não tinha problemas com as lâmpadas, com o arame farpado, com a escada, com a tampa de lata de lixo, mas as tachinhas me perturbaram. Eu fiquei com tachinhas espetadas por todo o corpo. Eles também atearam fogo no meu cabelo.” Ele suspira. “Mas foi tanta adrenalina. Eu talvez repita a dose.”

Ao ver minha cabeça desabar sobre o caderno, sem acreditar, ele continuou, “Eu não vou me amargurar pensando que essas outras coisas – a WWE, lucha extrema – são ruins e vão matar nossa amada lucha libre. Eu não gosto de pensar assim, só isso.”

A lucha libre sempre foi, na verdade, cheia de artimanhas e armas improvisadas. Eu antes imaginava que a disputa de cabelo em 2007 em que Cassandro perdeu para Hijo del Santo fosse um evento sério, até mesmo sombrio. Mais tarde descobri que ele havia começado com doze lutadores dentro de uma gaiola de aço – Hijo del Santo enfrentando uma multidão numa gaiola de aço! – e só teve fim quando se arrancou o cabelo de Cassandro.

Mas mesmo a tolerância de Cassandro aos ataques à tradição tem limites. “Eu costumava ser muito mais rígido”, ele admitiu. “Antigamente você tinha que chegar na arena bem vestido, com uma mala bonita. Hoje em dia, os luchadores aparecem na arena de shorts e chinelo. Noite passada, em Kalaka, eu vi um cara carregando seu material em uma sacola de supermercado.”

Há vários tipos de sofrimento – estético, emocional, moral, físico. Cassandro, como os lutadores em geral, sofre para ganhar dinheiro, publicamente, fisicamente. As pessoas pagam para assistir – para conferir o que ele e outros podem infligir e suportar. Ele parece chorar depois de cada confronto – a máscara do super-herói invencível não lhe serve, nem, hoje em dia, os confortos da embriaguez. Ele se permite sentir, tanto os bons sentimentos como os muito, muito maus. Ele parece ter uma atração intensa pela dor física. Em julho, ele participará de uma Dança do Sol no estilo Lakota-Sioux. “Nós passamos quatro dias sem comida nem água”, relata. “Dançando no sol com sacerdotes Lakota. Tendas de suor. Nós depositamos quatrocentas e quatro orações na Árvore da Vida, e daí nós a derrubamos com nossas próprias mãos. É super-intenso, especialmente ficar sem água. É como se fosse o funeral de um de seus pais. O Pai Sol.” Armendáriz estava se preparando – encontros semanais com seu grupo de danza, preparando suas orações – para a Dança do Sol, e dizia estar ansioso pela cerimônia.

Vasculhando outro cesto, ele encontrou uma pequena sacola plástica cheia de cabelo – uma cabellera  que ele ganhara em Monterrey. Esse não é um lugar dos mais respeitosos para guardá-la, comentou. E então encontrou a fotografia de Baby Sharon que estava procurando. Nela aparece um cara grandalhão, com traços fortes, cabelo platinado chegando nos ombros, sobrancelhas escuras e pesadas, barba por fazer, e braços peludos saindo de uma camisola de renda. Baby Sharon segura um buquê de flores como se fosse um bebê. Ele parece embalar o ramalhete.

Armendáriz estudou a fotografia. “Ele foi um viciado em cocaína até o fim”, recordou. “Ele morreu num quartinho em Juárez, com uma mão na frente e outra atrás. Ele foi um professor amado, um costureiro talentoso. Ele ganhou muito dinheiro com a luta livre, mas desperdiçou tudo. É muito triste, a vida de um exótico. Nós todos acabamos sozinhos.” Ele deixou a foto de Baby Sharon de lado. “Nós avançamos muito. Mas agora eu sei que todos os meus problemas, todos os meus vícios, vêm da minha orientação sexual. Daquela rejeição toda. Por que você acha que eu estou sozinho?”

Eu não o considero solitário. Ele é uma pessoa querida por todos. Ele não teve relacionamentos?

“Eu passei doze anos com um amante hétero, casado”, admitiu. “Dos dezoito aos trinta anos. Me fez muito mal.  Havia cinco, dez, quinze minutos de paraíso na cama. De resto, ele me maltratava. Ele era um luchador. Nós dois fomos para a Cidade do México. Mas apenas a minha carreira avançava, cada vez mais. Ele ficou com sua esposa, em Juárez.”

Ele me deu um olhar de lado. “No palco, eu sinto todo o amor”, pondera. “Lá eu sou o campeão mundial, Cassandro.”

Ele guarda os suvenires. “Minha vida é um livro aberto”, explica. “Eu não tenho o que esconder. Eu tento ser bom para comigo mesmo, e me amar. Eu tomo longos banhos de banheira, com lavanda e sais Epsom, velas, minha música de meditação. Eu sei que sou abençoado.”

Nós passamos para a cozinha, onde Armendáriz preparou café.

“Os homossexuais ainda sofrem um estigma grande”, lamentou. “Pensam que nós somos prostitutos, viciados em drogas, aliciadores etc. Mas nós não somos todos iguais. Alguns de nós são vistos agora como modelos positivos. Héteros já vieram me dizer que agora aceitam melhor os gays por minha causa.”

Quando seus dias de lutador chegarem ao fim, ele sonha, ele deve se tornar pai. Ele ama crianças, e sente que elas o compreendem.

O pai de Armendáriz, Sabas Galindo, passou pela casa, trazendo um pacote de enchilladas. Ele casou-se novamente e mora por perto. Ele é aposentado – robusto, de rosto vermelho, voz suave, olhos molhados. Comemos juntos. Depois conversei com ele na sala de estar enquanto Armendáriz trabalhava num laptop. Sim, ele tem muito orgulho de Saúl: a primeira vez que ele venceu uma luta por um título, suas viagens para o Japão e para a Europa. Não, ele não era um fã de lucha libre. Beisebol, sim, e boxe. Sim, ele e Saúl ficaram muito tempo sem se falar. Galindo enrubesceu. “Era difícil para mim ver que ele era gay”, ele disse. “Machismo – você sabe. Era por isso que a gente não conversava. Mas agora eu o aceito, graças a Deus. E nós conversamos o tempo todo.”

Galindo cresceu em Juárez, mas agora só vai para lá em casos de emergência. É perigoso demais. Seus cinco filhos moram deste lado da fronteira. Pela janela, nós podíamos ver Juárez. Galindo tinha que ir embora. Ele e seu filho se abraçaram.

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Os exóticos mais populares insistiam em dizer que tudo nã passava de encenação - na vida real, eles eram héteros. Baby Sharon, o amado mentor de Cassandro, foi um dos primeiros a dizer que era realmente gay.

Os exóticos mais populares insistiam em dizer que tudo nã passava de encenação – na vida real, eles eram héteros. Baby Sharon, o amado mentor de Cassandro, foi um dos primeiros a dizer que era realmente gay.

Veja como a fronteira se tornou perigosa. Em 2010, houve mais de três mil assassinatos em Juárez. Em El Paso houve cinco. Os líderes de El Paso gostam de descrevê-la como a cidade mais segura dos Estados Unidos. Acredita-se que centenas de milhares de habitantes de Juárez – numa população de 1,5 milhão – fugiram da cidade por causa da violência. Muitos deles, principalmente membros das classses média e alta, se estabeleceram em El Paso.

Armendáriz, por meio de seus contatos na Embaixada dos EUA e entre os empresários da luta livre, ajuda lutadores mexicanos a conseguirem vistos para os Estados Unidos. Até o momento ele já auxiliou mais de cem luchadores. Eu calhei de atravessar a fronteira com um deles, um rudo chamado Akantus, numa tarde de primavera. Nós vínhamos de Juárez. Ele disse que os guardas de fronteira às vezes pedem para ele provar que era um lutador, já que ele tem essa profissão especificada em seu visto, então ele sempre leva sua máscara consigo. Em outra ocasião, no mesmo posto de fronteira, um guarda de fronteira me questionou, cheio de suspeitas, sobre o que eu tinha ido fazer no México. Quando eu lhe contei que estava fazendo uma reportagem sobre lucha libre, ele me disse para citar um luchador. Eu mencionei Cassandro. Ele riu. Por que ele? Minha vontade era perguntar, Por que não ele? Mas criar caso não seria prudente. Ele detinha muito poder sobre mim naquele momento.

Em Juárez, eu me peguei estudando pôsteres antigos pregados nas paredes internas da Arena Kalaka. Cassandro, eu podia ver, já havia enfrentado ali todo tipo de personagem. Eu já conhecia até alguns dos nomes, entre eles Super Crazy (“Essa foi minha terceira defesa do título. Eu venci. Ele mora a maior parte do tempo no Japão. Ele é desagradável”) e L.A. Park (“Ele arrancou três dos meus dentes da frente. Eu fiquei tão puto, que eu destruí a cara dele sob a máscara”). A fotografia de Cassandro se destacava das dos outros luchadores. Nove figuras mascaradas enfurecidas, cada um com a aparência mais ensandecida e raivosa que a anterior – com ombros e braços ainda maiores que o último – e daí o pequeno Cassandro, jogando a cabeça para trás, sorrindo como Judy Garland. Seus dentes, todos postiços, reluzem com um brilho artificial. Ao que parece, a Arena Kalaka não chama muitos exóticos, ou, pelo menos, não muitos que sorriem.

Eu perguntei para Alejandra Carreón, uma fã dedicada da Arena Kalaka, que admitiu gostar mais dos rudos, o que os vilões tem de interessante. Ela é uma engenheira de sistemas digitais de 28 anos, que ainda mora com os pais. Ela disse que vinha para Kalaka todo domingo sem falta, geralmente acompanhada de seu irmão mais novo. Os rudos de que ela mais gosta são engraçados, ela apontou, e gritam com a plateia. Ela adora berrar, mas só tem coragem de fazer isso quando seu irmão está junto. Cassandro é um caso especial, ela explicou. “As pessoas o respeitam muito. Eu nunca ouvi ninguém gritar com ele.” O que ela queria dizer era xingar. Ela gosta das máscaras e não tem o menor interesse em saber qual é a aparência de seus rudos favoritos sem a máscara. Ela não gosta de lucha extrema – ela tem a impressão que as pessoas estão se machucando de verdade. No lado de dentro de seus pulsos, eu reparei, Carreón tatuou, em inglês, as palavras “Angels” e “Heroes”. O que ela mais gosta em Kalaka, confidenciou, é como ela se sentia “entrando numa cidade pequena dentro dessa cidade tão grande”.

Eu entendo o que ela dizia sobre a impressão de cidade pequena. Há uma cantina funcionando atrás da abertura em uma parede suja, através da qual duas jovens vendem bebidas e batatinhas. Os vendedores chamam sua especialidade de preparada. É um pacote de Tostitos que eles abrem de comprido com um corte, e recheiam com abacate, cebolas, tomate , queijo, e uma porção generosa de molho agridoce. Eles espetam uma colher de plástico por cima.

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Numa tarde resplandecente no meio do deserto, Cassandro conduzia uma sessão de treino no quintal da mãe de Magno, em El Paso, a poucos quarteirões da fronteira. Havia sete luchadores cujas idades variavam dos quase vinte aos mais de quarenta anos, todos vestindo moletons. Entre os alunos estavam outros profissionais, como Akantus e Magno. O ringue é simples e elevado: uma estrutura de metal, com um piso feito de  tábuas cobertas com duas polegadas de espuma e uma lona cinza quase se desfazendo. Cassandro, vestindo um casaco branco com a gola puxada para cima, começou a aula com cambalhotas, com todos os alunos em círculo, virando duas cambalhotas para frente. Depois de repetir isso algumas vezes, eles passaram a dar cambalhotas para trás, ainda em círculo. Cassandro era claramente menor que todos seus alunos com a exceção de um, e suas cambalhotas eram mais fluídas e velozes. O ritmo acelerou conforme Cassandro adicionava um salto em parafuso entre cambalhotas, e depois tornou as cambalhotas mais velozes e difíceis: esquerda, direita, esquerda, direita – deixe as duas versões idênticas.

O primeiro exercício em dupla exigia que um lutador batesse contra as cordas e voltasse saltando com as pernas esticadas, enquanto o parceiro passava por baixo das pernas de quem pulava. Esse salto estava além das capacidades de um adolescente mais pesado. Cassandro e Magno voavam alto, precisos, tranquilos. Cassandro somou um encontrão à sequência. As pessoas começaram a ofegar. Agora todos saíram do ringue para dar espaço para as duplas de lutadores. Os encontrões faziam a estrutura tremer e causavam estrondos ritmados que ecoavam pelos quintais do barrio. Cassandro então saltou da corda do meio com um giro alto, e Magno o  segurou sem dificuldade. Todos fizeram o melhor possível para imitá-lo. Mais importante que a qualidade do salto e do giro era a maneira como o outro segurava. Percebia-se agora uma dúzia de maneiras óbvias de se machucar com qualquer escorregão ou distração – pescoços feridos, ombros rompidos, tornozelos torcidos, joelhos esmagados, traseiros ralados. Akantus caiu errado, torceu o tornozelo, e rolou para fora do ringue, caindo no chão. Ele já era. A concentração dos seis homens restantes permaneceu intacta. Havia grunhidos e respirações pesadas. Todos, com exceção de Cassandro, pareciam cansados demais para falar. Ele flanava pelas manobras, mergulhar e segurar, planchas e encontrões, com calma e expressão atenta, dando exemplo com sua postura, e vez ou outra latindo um conselho.

Finalmente ele fez um intervalo. Enquanto os outros tentavam recuperar o fôlego, ele demonstrava uma série de manobras de finalização – empurrões e gravatas cuja intenção é finalizar a luta. Ele demonstrava gentilmente movimentos em câmera-lenta que, realizadas com maior velocidade e força, deixaria o oponente indefeso. Ele aumentou a intensidade das manobras gradualmente para explicitar a lógica de cada uma. Agora o sol já se punha, e uma brisa gelada começava a soprar. Num último exercício, Cassandro dobrou cada aluno num paquetito virado para cima – a chave de perna estranhamente simples que ele havia utilizado para derrotar Magno em Kalaka. A pressão na parte inferior das pernas dos alvos do paquetito parecia ser forte. Cada luchador gritava de dor, enquanto os outros riam, e Cassandro tentava demonstrar exatamente como se construía a posição. Quando o último aluno gritou alto demais, Cassandro usou um tom de voz grave e rosnou, “Cállate, cabrón”, e fingiu colocar seu pé livre sobre a boca do aluno. Esse era o próximo nível da lucha libre – a comédia inserida na técnica. Depois de uma pausa, Cassandro deixou o aluno sair do paquetito.

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Cassandro se prepara para um espetáculo de Lucha VaVoom. Ele é um exótico, um luchador que luta vestido de mulher. Os exóticos existem desde os anos 1940, oferecendo um contraste delicioso aos brutamontes hipermasculinos que enfrentam no ringue.

Cassandro se prepara para um espetáculo de Lucha VaVoom. Ele é um exótico, um luchador que luta vestido de mulher. Os exóticos existem desde os anos 1940, oferecendo um contraste delicioso aos brutamontes hipermasculinos que enfrentam no ringue.

O camarim em Los Angeles estava se enchendo de lutadores. Cassandro abraçava cada um. “Eu adoro abraçar”, explicava. El Bombero, El Jimador, Niebla Roja, dois anões mal-encarados (“los minis”), um juiz grisalho chamado Platanito. As roupas civis eram deixadas de lado. Pescoços, ombros e panturrilhas musculosas recebiam massagens com loções. Os lutadores se apertavam em collants, shorts e fantasias coloridas. A parte mais desconcertante foi o vestir das máscaras. O jovem e simpático Sergio da Cidade do México desapareceu num instante dentro de Niebla Roja (“Névoa Vermelha”), o predador sem olhos.

Niebla Roja acabara de retornar do Japão. Lucha libre faz muito sucesso no Japão. Cassandro já fez vários tours por lá. “Eles batem forte”, relembra Niebla Roja, tocando cuidadosamente seus bíceps enormes. “Eles têm cotovelos pesados. Mas eles fornecem moças massagistas sempre que você quiser.” Tirou a máscara enquanto tentava se decidir qual dentre três versões vestiria essa noite. Ele participaria da luta principal da noite, contra Cassandro. Os dois estavam dividindo o mesmo quarto de hotel, ironicamente, no bairro de Little Tokyo no centro de Los Angeles.

Eu observei enquanto eles inspecionavam o ringue juntos durante a tarde. “Pequeno demais”, reclamou Sergio. “E os assentos são esquisitos.”

Armendáriz concordou. Mas essa não seria uma lucha libre normal, com os assentos próximos ao redor. Esse ringue ficava sobre um palco, no antigo teatro Mayan. Era um lugar grande, com mil e quatrocentos lugares, e as duas noites do espetáculo já estavam esgotadas. O espetáculo chamava-se Lucha VaVoom. Ele contava com danças burlescas e bandas de rock entre as lutas. O público seria, em grande parte, os hipsters de Los Angeles – não era um público que entendia do assunto. Niebla Roja nunca havia participado do VaVoom antes. Cassandro já partipara várias vezes. Ele havia inclusive participado da turnê europeia do espetáculo, e havia se tornado na prática o produtor, assim como o astro, de sua atração principal. Foi ele quem recrutou Niebla Roja.

O ringue tinha outros problemas. Armendáriz se lançou contra a corda de cima. Sergio segurou-se com as mãos conforme pisava ao longo das cordas. “É macia demais”, comentou Armendáriz.

“OK”, respondeu um mecânico que trabalhava debaixo do piso elevado do ringue.

“Gostou das minhas botas de bichinha?”, perguntou Armendáriz. Ele estava vestindo botas pretas de salto alto, jeans apertados, cinto de falsos brilhantes, e uma camisa apertada com uma estampa de borrões laranjas e botões prateados, abertos para deixar à mostra um crucifixo de prata contra o peito bronzeado exposto. Seu equilíbrio sobre a corda é impressionante.

Rudos naquele canto, técnicos aqui”, ele apontou para Sérgio, que concordou. “Meu Deus, olha só para esse pilar no canto.”

Uma inspeção sob o ringue revelou uma solda partida num cabo-chave – “O tensor”, falou Armendáriz.

Naquela noite, no camarim do porão, conforme se aproximava a hora do espetáculo, Cassandro recomendava que cada lutador testasse as cordas assim que entrasse no ringue, e que não confiassem no pilar do canto suspeito.

O camarim se tornava frenético. Os artistas – oponentes – ensaiavam suas lutas. “Daí eu subo, você me acerta aqui, bam, bam, plancha, golpe, giro.” As equipes reproduziam com mímica longas sequências nos aposentos apertados. A manobra crítica, claramente, era apanhar o outro. “Daí eu pulo” – salta para fora do ringue – “e você está lá embaixo” (para aparar minha queda) “e nós partimos para a plateia. Certo?”

“Certo.”

Era uma coreografia pré-batalha. O tema principal era a segurança. As pessoas comentavam sobre as “manobras finais”, mas a vitória parecia ter muito menos importância, na lista de preocupações, que uma boa performance e não se ferir. Eu perguntei para Niebla Roja quem seria o vencedor de sua luta contra Cassandro. Ele deu de ombros. “O Cassandro provavelmente sabe”, ele disse. “Eu só vou lutar.” Ele estava vestindo joelheiras pesadas, enrolando os tornozelos com ataduras, calçando botas altas de um vermelho vivo. Um fotógrafo colocou a cabeça para dentro do camarim, e Niebla Roja rapidamente agarrou uma de suas máscaras e a vestiu. As pessoas não sabem quem é Niebla Roja. Em sua página no Facebook há uma foto dele sem fantasia, segurando sua filha, mas seu rosto está totalmente escondido pela aba do chapéu.

Cassandro ainda está com bobs no cabelo. Ele tem consigo uma mala de rodinhas, grande demais para ser bagagem de mão, da qual ele tira bruscamente garrafas e potes e sprays. Base, pó, blush, perfume. Laquê, analgésicos, pomadas, joelheiras (dois tipos – joelheiras de vôlei por cima, joelheiras quiropráticas com laterais de metal por baixo). Meia-calça. Terço. Lápis de olho, glitter, cílios postiços, gloss. Perfumes Versace Crystal Noir, Dolce & Gabbana Light Blue, L’Oréal True Match. Ele escova, pinta, espalha, e faz bicos no espelho enquanto responde uma enxurrada de perguntas dos outros artistas. Não, a luchadora do Brooklyn não pode usar cílios postiços por baixo da máscara – eles não caberiam. Sim, mesmo as partidas de revezamento têm que ser velozes. Quem está do lado de fora, pedindo para tirar uma foto com ele? Boy George! Sim. Cassandro saiu correndo.

Eu observei enquanto um dos minis se acomodava em cima de uma poltrona de veludo vermelho. Ele tinha se enfiado num macacão de guerreiro preto e vermelho. Estava silencioso, sereno, nada jovem. Parecia surpreendentemente confortável.

Muitos dos personagens da noite existem apenas dentro da Lucha VaVoom. El Bombero, por exemplo, me contou que costumava atuar como Manik, pelo menos quando lutava como “máscara de aluguel” para a Total Nonstop Action – uma companhia de lutas que transmite suas lutas semanalmente na Spike TV. No México, ele lutava com T.J. Perkins – um personagem gringo. Ele era pálido, de cabelos negros, com um físico lindo, possivelmente conseguido com anabolizantes. El Bombero, com sua máscara de bombeiro e sua sunga vermelha apertada, parecia um coadjuvante do Village People. Ele parecia extremamente tenso, pulando na ponta dos pés e simulando golpes de boxe num canto do camarim. Outro personagem criado para a ocasião era El Jimador – um dos patrocinadores da noite era a tequila El Jimador.

Cassandro rodou por alguns milhares de fotos em seu celular até encontrar um raio-x de seu joelho. Eu contei sete pinos – pareciam pequenos parafusos – atravessando a junta em diferentes ângulos. O joelho precisa de mais cirurgias urgentemente, ele admite. Ele apenas tem que encontrar tempo para realizá-la – e, consequentemente, como pagar por ela. Ele lambuzou o joelho com oléo morno “feito por luchadores, com canela”. Ele faz isso antes de cada luta, e depois aplica um analgésico. E seus dois pares de joelheiras.

Uma voz se ergueu raivosa atrás de mim. El Bombero estava discutindo com o mini vestido de preto sentado em cima da poltrona de veludo. “É só responder sim ou não”, ele latiu. “Você está ou não está olhando para o meu pau?”

O mini, empoleirado com os olhos na altura da parte do corpo em questão, não respondia. Ele não parecia se impressionar com a indignação do jovem lutador.

Alguém trouxe para Cassandro uma garrafa gigante de El Jimador. Comemorações ruidosas preencheram o camarim. Cassandro anunciou severamente que não se serviria tequila alguma até depois do espetáculo. Depois ele cedeu. Uma dose cada um. Ele serviu a rodada. A maioria dos dez ou quinze luchadores no recinto aceitou um copo. Um contra-regra chamou os lutadores da primeira luta. Eles se dirigiram para o andar de cima. Cassandro e Niebla Roja estavam bebendo Red Bulls. Niebla Roja começou a fazer flexões de braço rapidamente, às dúzias. Outros estavam pulando corda, esticando tiras de borracha. Cassandro rugiu, “Cadê a porra dos meus comprimidos? Eu preciso dos meus bagulhos! Eu não acredito que eu esqueci eles no hotel!” Ele se referia à niacina, uma vitamina. Ele costuma tomar duas. Ele resolveu aplicar uma injeção de vitamina B12 em seu joelho.

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A preparação para um confronto de lucha libre pode parecer uma coreografia pré-batalha. A maior preocupação é com a segurança. As pessoas comentam as "manobras de finalização", mas no topo da lista de preocupações a vitória perde espaço para se fazer uma boa performance e não se machucar.

A preparação para um confronto de lucha libre pode parecer uma coreografia pré-batalha. A maior preocupação é com a segurança. As pessoas comentam as “manobras de finalização”, mas no topo da lista de preocupações a vitória perde espaço para se fazer uma boa performance e não se machucar.

“Repete comigo”, bradava o locutor, “eu, seu nome -”

A plateia, já alcoolizada, obedecia.

“Não acredito, caralho…”

“NÃO ACREDITO, CARALHO…”

“No que estou prestes a ver.”

Havia, na verdade, vários locutores. Um era um astro de novela da Argentina. Ele falava espanhol, em frases cheias de consoantes, imitando um locutor dos velhos tempos. Havia também um painel de comediantes locais, amontoando-se uns aos outros com piadas. Um deles, na vida real, faz a voz de Bob Esponja.

“Vamos começar com um pouco de… violência”, anunciou um dos comediantes. Os outros, animados, rosnaram em seus drinques.

A primeira luta teve início.

Eu pergunto para uma mulher na plateia por que ela está lá. “Isso está na minha lista de coisas para fazer em LA já faz algum tempo”, diz ela. Seu nome é Dhyandra. Ela trabalha como curadora assistente no museu de arte da região. “É o tipo de coisa que as pessoas comentam.” Ela tem 27 anos e não faz ideia do que vem pela frente. “Eu estou aqui para ter, tipo assim, uma noite brega.”

Dois jovens engenheiros, Brooks e Margarita, fizeram coro ao lance da lista de coisas a se fazer em LA. “Eu acho que vou dar risada”, apostou Margarita. Brooks tinha acabado de comprar uma máscara de lucha libre azul-brilhante no hall. Ele pretende vesti-la no Halloween.

Várias pessoas da plateia estavam vestindo máscaras. Eu vi dois caras com jeito de universitários em fantasias completas de lucha, com capas. O coeficiente de decadência aqui provavelmente é um nível ou dois mais alto que em cidades como Seattle ou Portland, onde dizem que a lucha libre também é popular.

As primeiras lutas serviram para aquecer a plateia. Um personagem chamado Dirty Sanchez arremessou o conteúdo de suas fraldas para fora do ringue, o que causou um breve estampido na arquibancada. Os minis eram desavergonhadamente hilários, desfilando, correndo, fazendo que seus oponentes, bem maiores que eles, tropeçassem. O personagem que mais me interessou foi Platanito, o juiz. Ele fez um belo trabalho sendo diabólico. Ele parecia impor ordem, mantendo os rudos na linha, mas então, num momento crítico, ele falhava e revelava sua fraqueza, sua desonestidade. Um técnico foi pisoteado por um time de três lutadores, infringindo as regras, e de repente Platanito entrou na farra, incapaz de resistir à diversão. Os juízes de lucha libre têm papéis complexos, apenas semigerenciais. Eles se parecem muito com o governo mexicano, só que mais engraçados. Mas era difícil perceber quantos que assistiam ao espetáculo no Mayan estavam cientes da piada.

Quando El Jimador venceu um embate, um locutor disse secamente, “Vamos ouvir uma mensagem de nosso patrocinador.”

Cassandro primeiro surgiu num telão, subindo as escadas do porão como se estivesse numa procissão. Ele vestia uma jaqueta de toureiro branca arrastando um tecido brocado imenso, que se esticava por ao menos seis degraus atrás dele, cobrindo um maiô feminino verde-oliva com um decote que quase alcançava seu umbigo. Em seus pés, botas brancas com grandes borboletas de cristal bordadas nas laterais. Os alto-falantes tocavam “No Te Metas con Mi Cucu” (“Não mexa com minha bunda”), de Dinamita, um hit de cumbia colombiano, enquanto ele atravessava o teatro dançando até chegar no ringue. Niebla Roja estava lá esperando por ele, mas Cassandro, depois de tirar seu manto, ainda gastou um tempo demonstrando alguns passinhos dos Menudos na frente do palco, levando à loucura a plateia que já estava fora de si. Seu cucu, graças ao corte despudorado de sua fantasia e o rebolado veloz de seus quadris, conseguiu ondas de aplauso por si só.

Na realidade esta era uma luta de revezamento, mas seus parceiros, talvez de propósito, mal conseguiam competir com as manobras  e contramanobras deslumbrantes, velozes e arriscadíssimas de Cassandro e Niebla Roja. A única coisa de que me lembro sobre o parceiro de Niebla Roja, um peso-pesado pelancudo que lutava sob o epíteto de Dr. Maldad Pepieux, foi que Cassandro o carregou sobre os ombros por um tempo, 125 quilos ou mais, apenas para exibir sua força. Platanito em certo ponto perdeu controle da luta, que desmoronou para fora do ringue, em seguida para fora do palco, e então para o fundo da plateia, seguida pelos holofotes. Os espectadores saíam correndo e Niebla Roja e Dr. Maldad judiavam do pobre parceiro de Cassandro. Mas e aonde estará Cassandro? Os holofotes de repente o localizaram, no alto de uma sacada, equilibrando-se sobre a balustrada. Ele pretendia chegar embaixo balançando num cabo para resgatar seu aliado? Não, ele pretendia pular lá de cima. E ele pulou. Uma queda de aproximadamente cinco metros. Cassandro se jogou sobre a batalha numa pose de Super-Homem em pleno voo, e, de onde eu estava, desapareceu.

A meu lado, um careca com uma long-neck na mão começou a gritar “Esse cara é MALUCO! Já passaram mais de sessenta segundos, ele errou! Em costuma ressurgir logo depois, mas ele está no chão! Ele errou!”

No camarim da LuchaVaVoom: Cassandro acabou fraturando uma costela depois de um salto perigoso. "Eu senti que tinha que fazer algo especial, senão decepcionaria a plateia", admitiu.

No camarim da LuchaVaVoom: Cassandro acabou fraturando uma costela depois de um salto perigoso. “Eu senti que tinha que fazer algo especial, senão decepcionaria a plateia”, admitiu.

O careca estava certo sobre uma coisa. Cassandro havia errado. Ou melhor, a equipe de segurança, cuja função é ajudar a segurar suas quedas disfarçadamente, havia feito besteira. Um deles deixou a cabeça em seu caminho, e Cassandro fraturou uma costela. Mas essa havia sido um salto tão ridiculamente perigoso que ele não podia esperar escapar ileso dele. Mais tarde ele admitiu isso para mim. “Eu senti que precisava fazer algo especial, senão eu decepcionaria o público”, confessou. “Aquele pilar no canto era tão ruim, eu não era capaz de fazer meus saltos de costume do alto da corda de cima. Nenhuma das manobras impressionantes.” E eu pensando que ele e Niebla Roja tinham feito alguns saltos espetaculares.

Depois de um tempo Cassandro se levantou, com as mãos sobre as costelas, e mancou até o palco, incentivado pelo público. Ele e Niebla Roja subiram no ringue e voltaram ao trabalho, de alguma forma apresentando uma versão absolutamente convincente de um final veloz e furioso de lucha libre. O time de Cassandro venceu, o que levou o público à loucura.

De volta ao camarim, a festa estava animada. Cassandro a ignorou. Ele sentou-se em seu canto, com a respiração rasa, chorando sem parar, limpando sua maquiagem, dolorosamente retirando seu maiô. Não, ele não queria que chamassem uma ambulância, nem queria gelo. Ele estava fazendo as malas. “Amanhã de novo, Cassandro?”

Cassandro concordou, distraída e dolorosamente.

Quem sabe, sem pular da sacada.

Além disso, ele queria levar Sergio às compras antes do espetáculo do dia seguinte. Há um bairro que vende roupas persas em LA, com opções fantásticas de tecidos brilhantes e elásticos, alguns perfeitos para fantasias de lucha. E há outro bairro inteirinho de perfumes, com preços mais baixos que os de qualquer lugar no México ou em El Paso.

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