Facebook obriga drag queens a adotarem seu nome civil

Com a desculpa de coibir bullying - e de olho nos lucros - a maior rede social do mundo pressiona as drags a abrirem mão de sua identidade. Elas já se organizam para revidar

por Marcio Caparica

Quando o Google Plus começou, um dos motivos de chacota contra a nova rede social do Google era sua regra que forçava os novos usuários a usarem seu nome real – perfis com nomes de marcas ou nomes artísticos estavam proibidos. Depois de algum tempo, o Google cedeu. Mas a lição que esses ocorridos poderia ensinar aos cabeças das redes sociais aparentemente não foi absorvida por Mark Zuckerberg. Nas últimas semanas o Facebook começou a caçar perfis de drag queens, bloqueando o acesso das donas a seus perfis até que elas trocassem o nome para aquele que consta em seu RG.

O LADO BI conversou com três drag queens que passaram por isso recentemente, e agora estão sendo forçadas a utilizar seu nome de registro para continuar se relacionando com seus fãs e divulgar seu trabalho: Rita Von Hunty, Amanda Sparks e Penelopy Jean. A história é similar para as três. “Foi horrível”, lembra Rita. “Fui ameaçada de perder minha conta e fiquei bloqueada. Meu perfil como Rita voltou a funcionar 3 dias mais tarde, depois do envio de meu RG.” Penelopy Jean, quando foi bloqueada, ainda tentou usar uma versão de seu nome de drag: “De um dia para o outro fui tentar acessar minha conta  e recebi o aviso que ela estava bloqueada porque eu não estaria usando meu nome verdadeiro. Mudei um pouco o nome, para Nelly Jean, e consegui ficar mais alguns dias. Depois foi bloqueada de novo, e dessa vez pediram que eu mandasse meu RG escaneado. Em todos esses bloqueios não existia sequer uma chance de resposta ou contato direto com o Facebook, a única saída realmente foi mandar o RG.” Amanda Sparks conta a mesma história: “O Facebook travou minha conta, dizendo que eu estava usando um nome falso. Como eu estava com medo de perder meu perfil, no primeiro aviso já mudei meu nome para o de registro.”

As três estão utilizando seus perfis de drag com seu nome “de menino” – seu nome de drag aparece como pseudônimo, entre parênteses. Elas também mantêm a conta “pessoal” separada que já tinham antes, com o mesmo nome, sem o pseudônimo. Não vamos divulgar nesse post o nome de registro delas, primeiro para não validar essa ação do Facebook, e segundo porque elas temem mais problemas nas redes sociais. “O Facebook só permite que cada pessoa tenha um perfil”, explica Amanda Sparks, “então eu tenho medo de alguém denunciar e perder uma das duas contas.”

Mas qual seria o grande drama de se passar a utilizar o nome de registro? Vários, para começar com os de ordem prática. “Quando conheço alguém para quem não quero revelar meu trabalho drag, não posso pedir pra me adicionar com meu nome de registro, porque o primeiro dos perfis que aparece na pesquisa é o meu perfil de drag, por ter mais amigos”, reclama Penelopy. “Meu perfil pessoal social (desmontado) começou a receber centenas de pedidos de amizade de gente que não conheço, mas que segue meu trabalho no perfil de drag.” Isso também cansa a beleza de Amanda Sparks: “É um saco, agora ninguém consegue me achar como Amanda. Encontram minha página, mas ela não tem o mesmo alcance do perfil.”

Amanda Sparks

Amanda Sparks

Penelopy Jean

Penelopy Jean

Rita Von Hunty

Rita Von Hunty

O regulamento que estabelece que os usuários do Facebook devem se identificar com seu “nome real” já existe há algum tempo, mas apenas começou a ser aplicado sistematicamente contra drag queens recentemente. O site afirma que a intenção é impedir que pessoas mal-intencionadas se escondam atrás de nomes falsos para realizar bullying contra outros usuários. As drags têm outra opinião: “O Facebook quer empurrar todo mundo para páginas por questão de lucro mesmo.” O Facebook oferece as páginas para marcas como alternativa para personalidades que querem utilizar a rede social sob algum nome fantasia, mas seu alcance não é o mesmo dentro do feed, e suas capacidades, bem mais reduzidas. “Seu alcance num perfil pessoal é de 70% dos amigos, e como página é de apenas 13%, a não ser que você pague para promover seus posts”, explica Rita Von Hunty. “Páginas também não convidam pra eventos”, continua Penelopy, apontando um dos maiores prejuízos para as drags, que vivem de promover as festas de que participam. “Páginas não permitem o contato direto com as pessoas, nem chats, etc.”, completa Amanda.

Não são apenas as drags brasileiras que estão sofrendo com essa nova caça às drags feita pelo Facebook (“É a Santa Inquisição das Montadas, a Idade Média sem make!”, brinca Rita). Drag queens internacionais de renome também estão tendo seus perfis bloqueados, como Heklina, fundadora da festa Trannyshack, de San Francisco, e Sharon Needles, vencedora da quarta temporada do reality show RuPaul’s Drag Race:

Caro Facebook, como você se atreve a apagar minha página pessoal por utilizar meu nome artístico, Sharon Needles… Aquela página era minha única maneira de acessar minha fan page, com mais de 100 mil seguidores, um elo vital para minha carreira e conexão com meus fãs… Você apagou minha página sem aviso, e se recusou a responder às duas reclamações que eu preenchi, que incluíam fotos da minha identidade e cartões de crédito… Eu vivo confortavelmente com meu nome e identidade de nascença, mas muitos dos meus amigos e fãs não pensam assim! As mídias sociais se tornaram uma maneira de viver, e você, como uma empresa, violou seus clientes… Vergonha! Como diz minha amiga Jezebel D’Opulence: ‘meu nome de nascença reflete um estranho, uma vítima’… Por favor, queridos fãs, contactem o Facebook e exijam uma mudança… Eu não preciso do Facebook, mas eu gosto dele… mas não tanto assim

A questão da identidade também é parte essencial do problema com essa nova medida do Facebook. “Amanda Sparks não é apenas um nome artístico, é meu alter ego”, frisa Amanda. Heklina concorda: “Eu tenho esse nome há 20 anos. Eu passo na rua e as pessoas dizem ‘Oi, Heklina’. As pessoas me conhecem pelo meu nome de drag”, ela declarou ao blog TechCrunch. “É como se nós estivéssemos na década de 1950, quando as drag queens se apresentavam na boate e depois tinham que correr para vestir roupas de menino, para não serem agredidas”. A obrigatoriedade de se usar o nome de registro pode se tornar até perigosa para homens e mulheres transgênero, que podem ter sua identidade negada pelo site, serem forçados a utilizarem o nome do gênero com que nasceram, e assim tornarem-se alvo de agressões.

É impossível mexer com drag queens e escapar ileso, no entanto. A drag queen Sister Roma havia organizado um protesto na frente do QG do Facebook em Menlo Park, Califórnia, para hoje, dia 16, terça-feira. Como? Com um evento no Facebook, claro. Ontem, porém, o ato foi suspenso, depois que Sister Roma anunciou que a diretoria do Facebook concordou em se reunir com representantes das drag queens para discutir a questão – provavelmente para evitar que vídeos de queens montadas e fabulosas fazendo piquete em seus portões viralizem em sua própria rede social. Enquanto as coisas não se resolvem, uma petição circula no site Change.org pedindo que artistas possam usar seu nome artístico dentro do site. Amanda Sparks torce para que a movimentação das sisters norte-americanas dê certo: “se isso mudar por lá, certamente vai mudar para nós aqui também”. Mudando ou não, Rita afirma que vai continuar resistindo: “Sou uma força de resistência. Quero mostrar às outras drags que mesmo perdendo nossos nomes, podemos fazer arte. Não importa o que estiver no perfil, nossos fãs vão continuar nos chamando por nossos nomes artísticos.”

Confira o Lado Bi das Drag Queens.

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5 comentários

thom

Seguindo essa lógica, muitos atores e atrizes não poderiam ter perfil com seus nomes artísticos, visto que seus nomes verdadeiros são diferentes.

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