Por que Aids não é doença de gay e por que camisinha não é mais a única proteção

A recomendação da OMS para que homens que transam com homens tomem Truvada causou revolta entre gays e satisfação entre conservadores; ambos se equivocam

por Marcio Caparica

A recomendação da Organização Mundial da Saúde para que todos os homens que fazem sexo com outros homens (HSH) começassem a fazer a Profilaxia Pré-exposição (PrEP) está causando barulho. Conservadores moralistas estão levantando a recomendação como um troféu, afinal, agora eles podem finalmente sair por aí dizendo que Aids é doença de gays que “fomentam um comportamento hedonista”. Já os gays entraram na defensiva, considerando que a recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS) discrimina homossexuais e ajuda a proliferar a ideia acima. Por que não recomendar esse tratamento a todos os seres humanos praticam sexo sem proteção (ou seja, a imensa maioria da população)? Por que dar munição para estigmatizarem ainda mais os homossexuais? Na verdade, a recomendação da OMS não se restringe apenas aos HSH. Ela também se estende a populações carcerárias, aos profissionais do sexo e às populações da África subsaariana, independente de orientação sexual. Quer se informar além de títulos de impacto? Aqui está o documento completo da OMS.

Por que dizer que Aids é doença de gay é burrice?

Qualquer um que queira usar a OMS para legitimar suas próprias opiniões sobre a suposta depravação dos gays está realizando um exercício falho de lógica. Houve quem exibisse com satisfação mal dissimulada a estatística de que “em Bangcoc, na Tailândia, por exemplo, a Aids afeta 5,7% dos homens que mantêm relações sexuais com outros homens, ante 1% da população geral.”

Mas como muitos “colunistas” têm grande dificuldade para escrever, devemos considerar que matemática e estatística não é bem seu forte. Vamos fazer as contas? Bangcoc, segundo o senso de 2010, tem 8.280.925 habitantes. A informação dada no artigo afirma que 5,7% dos homens que mantêm relações sexuais com outros homens têm Aids. Considerando-se a estimativa (das mais altas) de que 10% de uma população seria gay (há pesquisas que estimam números menores) e levando-se em conta que metade dessa população é de homens, vamos fazer a conta aproximada: (8.280.925/2) * 0.1 (10% de população gay) * 0.057 (5,7% dessa população tem HIV) = 23.601 (vamos arredondar para cima). O complemento da informação: “ante 1% da população geral”, o que vamos presumir que sejam os que não são gays. Na ponta do lápis, 8.280.925 * 0.9 (90% da população) * 0.01 = 74.528 (vamos arredondar para baixo). Em números absolutos, temos em Bangcoc 23,6 mil gays com Aids e 74,5 mil pessoas não-gays com Aids: 3,15 vezes mais. Além de serem em menor número, os gays estão recebendo cuidados e orientação para não se infectarem com HIV. Enquanto isso, héteros arrogantes, que acham que o HIV faz acepção de pessoas de acordo com sua orientação sexual, continuam fazendo sexo sem proteção.

A Aids não se concentra entre os gays porque algo intrínseco ao comportamento gay faz o vírus gostar mais do nosso corpinho saboroso. Essa concentração ocorre porque essa é uma doença sexualmente transmissível; homens que fazem sexo com homens acabam passando o vírus para, dãr!, homens. A maioria dessa população com esse comportamento se diz gay. Além disso, há maior propensão de contágio entre homens que fazem sexo com outros homens devido ao fato de que a mucosa do ânus ser mais absorvente e, portanto, mais suscetível à infecção.

(A razão para se usar “homens que fazem sexo com homens”, ou HSH, e não o termo “homossexuais masculinos” é que, culturalmente, há homens que transam com homens mas não se consideram homossexuais. Não apenas os lamentáveis g0ys, mas também, só para dar um exemplo, gente como o ídolo Ronaldo Fenômeno, que mesmo depois de ter sido pego com dois travestis continua se considerando e se afirmando heterossexual, como todo o direito, aliás. Quem tem esse tipo de comportamento ignoraria qualquer recomendação dirigida a homossexuais, mas talvez pare para ouvir quando a recomendação é dada para HSH.)

As vias de comunicação sexual entre gays e héteros são poucas: os héteros que gostam de traçar um homem/travesti/trans eventual e bissexuais. Não é de se espantar que a doença permaneça concentrada nessa população na maior parte do mundo (não é o que acontece na África subsaariana, por exemplo, em que 52% das pessoas vivendo com HIV são mulheres). Se o HIV fosse transmitido por piolhos, infectaria criancinhas, mães e professoras, e pouparia a imensa maioria dos calvos. Isso não faria dos carecas imunes ao vírus.

A maior prevalência proporcional entre gays não é necessariamente decorrência do “comportamento hedonista fomentado entre os homossexuais”. Comportamento hedonista, multiplicidade de parceiros, sexo anal e ignorância do próprio status sorológico não são exclusividade de HSH. Quem pode prever que comportamento os vetores da doença podem seguir daqui pra frente? O machismo inerente a tantas sociedades pode fazer a doença se alastrar entre heterossexuais. Lembre-se, já há 74,5 mil deles já infectados, só em Bangcoc, e que provavelmente desconhecem sua sorologia. Afinal, segundo sua visão binária e pedestre das relações humanas, ele não pega Aids por não ser gay.

(E vale lembrar que gays assumidos não são o público de prostitutas travestis, grupo em que atualmente há alta incidência de HIV. Quem paga pelas travestis são os héteros que curtem uma mulher com um pau, e depois voltam lampeiros para suas vidas oficiais, em que fazem sexo bareback com a esposa, com a secretária, com a amante, com prostitutas cis…)

Por que os gays não deveriam estar tão paranoicos?

Confessamos, nós também entramos na defensiva quando o debate sobre PrEP começou a tomar vulto. “Por que só gays? Por que não toda a população?”. Escrevemos um post tendo por base a informação que tínhamos e criamos uma considerável controvérsia. Na época estávamos preocupados com os efeitos colaterais da medicação com base no que sabíamos dos atuais antirretrovirais (que causam lipodistrofia, diarreias, enjoos etc.) ou que o uso irresponsável do Truvada, medicação mais popular usada como PrEP, originasse gerações de vírus resistentes à medicação. Como a gente leva esse assunto a sério, fomos então nos informar, nos educamos, e produzimos o Lado Bi nº 63 – Truvada, em que especialistas do assunto esclarecem as dúvidas mais comuns e dão orientações sobre como usar e como não usar.

Ao recomendar a PrEP para HSH, a OMS não está sendo preconceituosa, ela está sendo prática. Quando não se dispõe de recursos infinitos para se realizar a PrEP em toda a população mundial, o jeito é focar onde a epidemia está concentrada (não se dispõe nem de recursos físicos, nem capacidade de mudar os hábitos sexuais da imensa população heteronormativa. Depois de 30 anos os héteros continuam resistindo ao uso do preservativo muitíssimo mais que a população gay. Fazê-los tomar comprimidos diariamente seria uma proeza).

Haverá pessoas que usarão essa recomendação para justificar seus preconceitos? Claro que vai! Gente ignorante não precisa de razão, precisa de pretexto. Isso é motivo, portanto, para que a recomendação não seja feita? Claro que não. A despeito de ferir a sensibilidade de alguns, a preocupação maior da OMS continua sendo saúde mundial, e deve tomar medidas concretas para conter novas infecções. Pode ser levemente inconveniente, mas é uma maneira de se lidar com a questão, já que toda a população mundial vem deixando de usar preservativo, não apenas os gays. E essa recomendação tem como objetivo ser uma alternativa às pessoas que, por inúmeros motivos, não usam preservativo.

Vale lembrar também que a PrEP não significa apenas tomar os remédios diariamente. Esse é um programa que inclui exames trimestrais de sangue, orientação de profissionais de saúde e conscientização constante sobre DSTs. Ou seja, o soronegativo que decidir embarcar nessa empreitada vai ter uma vida semelhante à do soropositivo que toma medicação. Quem tem essa disposição está sendo responsável em tempo integral, não apenas quando vem chegando a hora da transa. Os profissionais que aplicam a PrEP vão continuar orientando para que se use o preservativo.  E os resultados dos programas-teste feitos até o momento indicam que até quem não praticava o sexo seguro antes começa a praticá-lo depois que passa a fazer PrEP.

Outra coisa, essa é uma recomendação, não uma ordem. Cada um faz o que quiser. Se você sempre usa camisinha e acha besteira tomar remédio todo santo dia, não está obrigado a tomar. Por favor, continue sempre assim! E se algum acidente acontecer, corra para o posto de saúde para tomar o coquetel antirretroviral nas próximas horas, a chamada PEP. Cada um se protege contra o HIV da maneira que considera melhor. O importante é que estejam cientes da epidemia e tomem precauções contra ela.

Façamos barulho pela razão certa

Tratar o comportamento sexual de gays como algo “de esquerda” ou sob a proteção do “politicamente correto” é uma besteira sem tamanho. Promiscuidade, hedonismo, prazer no sexo, tudo isso existe entre gays e héteros, de direita ou de esquerda, progressistas ou conservadores. OK, talvez os conservadores não curtam muito essa parte do prazer no sexo, mas isso é por opção própria. Também falar que a polêmica no início da epidemia sobre o fato da Aids ser sexualmente transmissível ser decorrência de progressistas “politicamente corretos” é um erro, já que o movimento pelo “politicamente correto” só teve início em 1991 – e demorou mais alguns anos para realmente se tornar um fenômeno cultural capaz de incomodar colunistas. Gays não queriam acreditar que esse era um mal sexualmente transmissível porque não queriam abrir mão da liberdade sexual que haviam conquistado nas décadas anteriores – assim como os héteros, até hoje.

E é essa liberdade sexual que está prestes a ser recuperada, com novos comportamentos responsáveis como fazer PrEP. É uma mudança de paradigma para todos que, como eu, tiveram martelados em suas cabeças desde criança de que sexo seguro é sinônimo de sexo com camisinha. Vamos agora nos acostumar com a ideia de que sexo seguro inclui também fazer sexo com quem toma remédios de PrEP e com quem, também com os remédios, conseguiu tornar sua carga viral indetectável. Se você quiser somar todas essas camadas de proteção, excelente. Mas não vamos estigmatizar a putaria de gays ou héteros. Tomando as devidas precauções, gays podem passar a ter as mesmas preocupações com as doenças sexualmente transmissíveis que incomodam a humanidade desde sempre (estima-se que 20% dos gays na cidade de São Paulo tenham sífilis, mais um motivo para usar preservativo!). Vamos estigmatizar quem faz sexo com ignorância. E vamos nos divertir. Comportamento hedonista é uma delícia.

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6 comentários

Renan

Parabéns pelo texto. Sou um curioso e estudo um pouco dentro da área da sexualidade e HIV e poucos deram tantas informações embasadas e sem tanto orgulho ferido ou mais e mais preconceitos. Parabéns pelo blog! A partir de hoje seguirei acompanhando o seu trabalho.

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Klesius

No entanto, Sr. Jean Wyllys acha que o avião derrubado na Ucrânia foi obra de homofóbicos que não querem a cura da aids. Pra ele, Aids é coisa de gay.

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Luiz

Muito bom texto. Mas ainda tenho minhas ressalvas de como essa recomendação pode ser parte do “pânico sexual” gerado nos primeiros anos de descoberta do HIV.

PS: O único deslize foi fala “dois travestis” ao invés de “duas” no meio do texto.

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Allan Johan

Não é simples assim, o PReP tem taxa de trasmissibilidade não segura e depende do uso correto. Ainda, se quem toma PreP não tivesse mais níveis ou picos de carga viral, ninguém mais adoecia…

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James Cimino

Então, PrEP é pra quem não é soropositivo, logo, é impossível de se ter picos de carga viral sendo soronegativo. E tudo depende do uso correto.

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