A disputa pelo domínio .gay coloca em xeque a comunidade LGBT

A disputa pelo domínio .gay coloca em xeque a comunidade LGBT

A criação de novos domínios de internet levanta a questão: quem representa a comunidade LGBT? A resposta vale muito, muito dinheiro

por Marcio Caparica

Quando estávamos planejando esse blog, procuramos no Registro.br (site responsável por administrar os domínios “.br”) o endereço www.ladobi.com.br. Para nossa frustração, ele já havia sido comprado por uma blogueira de moda que não postava nada havia mais de um ano e confessava, num de seus últimos posts, que estava desanimada com seu site porque havia brigado com o namorado. Por sorte, o domínio gringo ladobi.com estava ainda (por milagre) disponível. Não fosse uma controvérsia sobre o que significa uma “comunidade LGBT” e que se estende até hoje, talvez nós pudéssemos na época ter tentado comprar um endereço www.ladobi.gay ou www.ladobi.lgbt. Mas parece que isso não será possível tão cedo.

A internet está prestes a ganhar zilhões e zilhões de novos tipos de domínio, chamados de Top Level Domains ou TLDs. Afinal de contas, o limite sobre o que pode vir depois do último ponto de uma URL é artificial. Até há pouco tempo havia por volta de 280 terminações existentes: os clássicos e quase sinônimos de website (.com, .net, .edu, .gov), e tantos outros específicos para países, como o nosso .br, .fr, .it etc. Adições a esse seleto grupo de letrinhas vinham sendo feitas paulatinamente: .info, .museum, .biz foram colocados à disposição dos internautas nos últimos anos, assim como o polêmico .xxx, que a princípio serviria para sites pornográficos. Aqui no Brasil, sob a terminação .br, há alguns anos já estão disponíveis bem mais terminações, como .nom.br, .art.br, .agr.br, .vlog.br, .etc.br…

(Num primeiro momento, seria de se pensar que essa expansão seria muito comemorada por todos, principalmente empresas, mas isso não é bem verdade. Para muitas marcas, mais TLDs são sinônimo apenas de mais gastos: companhias como a Disney, por exemplo, se viram obrigadas a comprar e manter endereços como www.disney.xxx para evitar que algum espertinho use essa URL para publicar pornografia com as princesas.)

Quem controla as porteiras dos TLDs é a Internet Corporation for Assigned Names and Numbers (ICANN). Em 2012 a ICANN decidiu que não havia mais por que limitar as terminações a essas míseras quase 300 combinações: se houver demanda, por que não liberar a oferta? E assim criou-se um processo em que qualquer um com uma ideia para um TLD na cabeça e dinheiro no bolso poderia entrar numa concorrência por suas letrinhas (O pedido para se ter um TLD custa 185 mil dólares). Ao vencedor, o direito de revender e administrar os endereços de websites que se interessassem por sua sigla. E é assim que em breve devem começar a surgir endereços como www.euquero.pizza, www.cachorro.pet, www.visite.rio, www.novela.globo etc. Empresas mundialmente conhecidas já entraram com seus pedidos por domínios .apple, .chevy, .bmw. E é claro que, sendo a internet a internet, .sex e .porn estão sendo disputados.

Como a ICANN entende melhor que ninguém o poder da uma URL, em seu processo existe uma ressalva para TLDs que representam comunidades, chamada Community Priority Evaluation (Avaliação Prioritária de Comunidades). Significa que comunidades recebem prioridade sobre os termos usados para se referir a elas, mesmo que existam outras entidades disputando o domínio. O exemplo clássico é .cherokee, que teoricamente seria dado preferencialmente aos representantes da tribo Cherokee, e não aos fabricantes de carros Cherokee ou de roupas Cherokee. Acontece que comunidades – e quem as lidera – não é algo fácil de se definir. Pode-se levantar objeções aos pedidos de uma entidade sobre um TLD – para se ter uma ideia, nem .catholic passou incólume pelo processo.

O domínio .gay é um dos mais controversos. Existem três companhias privadas disputando essa terminação, além de uma entidade que quer passar para a frente da fila por representar a comunidade gay, criada especificamente com esse propósito, a dotGay LCC. A dotGay exibe em seu website o apoio de inúmeras associações LGBT de todo o mundo, inclusive o Grupo Gay da Bahia e a Escola Jovem LGBT, aqui do Brasil. A organização promete redistribuir 67% dos lucros advindos da venda de domínios .gay para organizações LGBT sem fins lucrativos. A intenção deles é clara: criar nos domínios .gay um território na web em que se respeite a diversidade sexual, impedindo que algum espírito de porco saia publicando barbaridades num endereço cura.gay ou temqueapanhar.gay.

Os outros concorrentes, obviamente, não querem nem saber disso. Em sua opinião, .gay é um produto para ser comercializado assim como .toys e .vodka, e tentativas de ceder esse domínio para um grupo que se presume capaz de julgar o mérito de um website não passa de censura. Andrew Merriam, Coordenador de Desenvolvimento de Negócios da empresa Top Level Design (uma das interessadas no domínio .gay) deu a seguinte declaração:

Basicamente, nós não achamos que alguém deva ser obrigado a se autenticar sua identidade de gênero ou identidade sexual, ou marcar uma caixinha ou seja o que for, para adquirir um produto. Porque um domínio não passa de um produto. Assim como qualquer outro produto, você não deveria ser forçado a autenticar ou verificar qualquer coisa de sua identidade como ser humano para ser capaz de adquiri-lo. Não parece certo, e vai causar restrições – o ‘.gay’ [da dotGay LCC] vai acabar sendo usado principalmente por pessoas que têm os meios e o interesse em lidar com essas organizações. Ou seja, homens gays ocidentais, de classe alta, brancos, vindos de centros urbanos.

O grande nó da questão vem do fato que, obviamente, por mais que alguns reclamem da máfia gayzista e outras bobagens, os gays não têm uma entidade unificada que os represente, muito menos um líder. A dotGay pode ter montes de apoios, mas não vai ser difícil encontrar gente claramente LGBT que não se sinta representada por nenhuma delas – basta lembrar de Daniela Andrade, no Lado Bi da Política, apontando que é uma trans heterossexual, e portanto não quer ser representada por qualquer coisa que se defina apenas “gay”. É nessa dificuldade em se delimitar a comunidade LGBT – quem faz parte dela sabe que faz, mas é difícil definir regras claras que identifique todos seus membros – que as empresas com fins lucrativos apostam para conseguir pegar esse TLD para si.

O domínio .lgbt, surpreendentemente, está em vias de se tornar um vale-tudo comercial. A empresa Afilias, já responsável por .info, .mobi, administradora dos domínios da Índia e da Mongólia, e prestes a jogar no mercado as terminações .red, .blue, .pink e .kim, foi quem primeiro entrou com o processo para se tornar dona de .lgbt . Apesar de uma contestação da International Lesbian, Gay, Bisexual, Trans, and Intersex Association (ILGA), em março o responsável por tomar essas decisões dentro da ICANN decidiu por dar seguimento no pedido da Afilias. Nas orientações para que se defina uma comunidade publicadas pelas ICANN em setembro, propõe-se que recebam prioridade como “comunidade” grupos representados por organizações com “definições claras de quem são seus membros: taxas, requerimentos de conhecimento e/ou afiliação, privilégios ou benefícios concedidos aos membros, certificações alinhadas com os objetivos da comunidade, etc.”. Ser LGBT não supõe nada disso… e assim .lgbt será para qualquer um. A ICANN chega até a propor que .gay conviva com .lgbt, o primeiro sendo o marcador da comunidade e o segundo sendo de uso amplo e comercial.

O resultado, é claro, será que .lgbt será utilizado por zilhões de sites, e .gay vai permanecer quase anônimo, guardado na caixinha. Isso se a dotGay conseguir o que quer, claro. Eu, particularmente, gostaria que tanto .lgbt como .gay houvessem sido reservados para organizações que as preservassem de usos inadequados (e daí entraríamos na definição do que é “inadequado” – pornografia pode? – mas isso seria assunto para outro post). Com .lgbt prestes a abrir as pernas, .gay vai ter que ser muito ágil em seu processo de seleção para conseguir competir; como dono de um site, eu posso afirmar que entre esperar um mês para .gay e cinco minutos por um .lgbt, eu compraria .lgbt, por mais cheio de princípios que eu seja. A decisão sobre quem será o dono de .gay deve sair em breve.

Em tempo, nós conseguimos registrar ladobi.com.br.

 

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4 comentários

Amadeu Amaral

Muito bom! Eu estava procurando justo isso na net quando cheguei até seu site hehe
Já vou salvar nos favoritos
Abraços

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Eduardo

Bem que o Nic.br poderia criar essa e outras categorias. O registro está ficando “apertado”… cada vez mais difícil encontrar um domínio decente disponível e na maioria das vezes são registrados unicamente para revenda com preços exorbitantes.

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Pedro

Mas também existe o sufixo brasileiro .gls.slg.br para sites GLS e Sites Legalmente Gays

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Diego Canabarro

Olá, Márcio. Trabalho na assessoria do CGI.br e gostaria de te parabenizar pelo texto. Alguns Conselheiros do CGI leram teu texto e falaram muito bem dele. Em minha capacidade pessoal, posso te dizer que tocaste nos pontos precisos da questão. Não sei se chegaste a ver, mas há alguns dias saiu uma resposta da ICANN a respeito da proteção comunitária ao .GAY.

https://www.icann.org/sites/default/files/tlds/gay/gay-cpe-1-1713-23699-en.pdf

Infelizmente, a dotGAY LLC não conseguiu alcançar a pontuação necessária para alcançar a prioridade no processo porque não conseguiu comprovar o nexo entre o nome .GAY e a comunidade LGBTQ (mais ampla) respectiva e por faltar apoio ao pedido substancial (na contagem feita pelos responsáveis pela avaliação do pedido).

Essa decisão foi divulgada no dia 09/10/2014 (pouquinho antes da reunião da ICANN em Los Angeles, entre 12 e 16 de outubro). Durante a ICANN, os protestos contra a decisão foram veementes e há mecanismos de revisão da decisão que poderão ser usados pela dotGAY LLC. Se a decisão for definitiva, a dotGAY passa a pelear com as outras empresas envolvidas no leilão.

Continuaremos monitorando a questão por aqui. Seria bom se vocês pudessem, também, se engajar nessas questões de governança da Internet nos fóruns específicos sobre o assunto. Há, inclusive, fellowships da ICANN que poderiam ser pedidas por vocês para que vocês participassem diretamente das reuniões para entender melhor e participar diretamente dos processos multissetoriais da ICANN.

Se precisarem de ajuda, deixem-nos saber.

Abraços
Diego

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