10 coisas que soropositivos querem que os soronegativos saibam

10 coisas que soropositivos querem que os soronegativos saibam

Vida dos portadores do HIV está longe de ser circo de horrores. E a responsabilidade por sua saúde continua sendo sua, e só sua

por Marcio Caparica

Traduzido do post para o blog Queerty

Não foi novidade nenhuma para as pessoas que vivem com HIV quando Donald Sterling difamou Magic Johnson chamando-o de promíscuo e indigno. Eles já ouviram isso tudo ao longo dos anos. Muitas ideias errôneas ainda persistem hoje, mesmo (ou especialmente) entre os gays. As atitudes dos homossexuais podem ser perniciosas, estigmatizadoras e até mesmo contraditórias.

Vamos dar uma chance para os gays soropositivos corrigirem essa situação, e fazer uma lista de dez coisas que eles gostariam que o resto dos gays soubessem, tendo por base uma pesquisa do escritor Mark S. King. Essa lista pode não representar os pontos de vista de todos os homens soropositivos, mas com certeza refletem grande parte de suas frustrações mais comuns.

  1. Nem todos os soropositivos são viciados em drogas e loucos por barebacking. Faz parte da natureza humana tentar jogar a culpa nas ações de quem se tornou infectado. Se nós os enxergarmos como extremistas, o resto de nós se sente mais seguro em nossas próprias escolhas. Acontece que a verdade é que a maioria das novas infecções acontece dentro das “relações primárias”, como um amante ou namorado, e em geral porque um dos parceiros não sabia que estava infectado e acabou transmitindo HIV para o parceiro. Essa é a razão por que se frisa tanto que deve-se fazer o teste de HIV frequentemente. Novas infecções costumam não ser o resultado de uma noite ensandecida numa orgia regada a padê ou uma visita bêbada à sauna. Claro que pode acontecer assim, mas isso não quer dizer que o sexo “convencional” seja mais seguro. Fofinho ou abusado, qualquer tipo de sexo é o mesmo para o vírus do HIV.
  2. Viver com HIV não é um show de horror de remédios tóxicos. Sim, o HIV em geral requer remédios e visitas ao médico. Com tantas opções de tratamentos contra o HIV, os efeitos colaterais foram reduzidos drasticamente, e os que estão sendo pesquisados no momento vão reduzi-los ainda mais. Os caras soropositivos não passam as manhãs aos prantos enquanto se enchem de pílulas no café da manhã.
  3. Estar infectado com HIV não transforma alguém num mentiroso. Uma das ideias mais erradas e infelizes sobre os soropositivos é que eles mentem na cara dura sobre seus status para conseguirem ir pra cama com alguém, ou pior, que estão numa cruzada para transmitir a infecção para outros. Dá pra gente baixar essa bola sobre transmissões intencionais, por favor? A verdade é que os soropositivos têm dificuldades em revelar seu status exatamente por causa do estigma gerado por rumores sensacionalistas como esse. É injusto culpar todos os soropositivos pelo comportamento temerário de alguns poucos.
  4. “Limpo e sem drogas, busco igual” é mesmo tão cretino e improdutivo quanto soa. Se você está usando essa frase para filtrar os parceiros sexuais em potencial, você não está se fazendo nenhum favor, pelo contrário. Nós todos já sabemos que soropositivos com carga viral indetectável não estão infectando seus parceiros, então rejeitar as pessoas por causa de seu status só causa discriminação, sem nenhum efeito prático. Além disso, rotular alguém como podre ou imprestável é uma merda, e quem já foi tratado dessa forma sabe como isso pode ser degradante. “Busco igual” também faz com que você tenha uma sensação de segurança falsa, pois, como sugere um estudo britânico, o risco de se fazer sexo sem proteção com alguém que pensa erradamente que é soronegativa é maior que o risco de fazer a mesma coisa com uma pessoa soropositiva com carga viral indetectável. Isso acontece porque a atividade viral numa pessoa recém-infectada pode ser muito alta, e a pessoa pode nem saber do que está acontecendo. Claro que, de uma maneira ou de outra, você tem que saber com quem está se envolvendo. Então contenha qualquer manobra mais arriscada até que você conheça seu parceiro o suficiente para estar seguro de que ele é soronegativo (que tal fazerem o teste juntos?) ou tenha certeza de que ele está tomando seus remédios e tem a carga viral indetectável. Se você sente a necessidade de perguntar o status de seu parceiro logo de cara, encontre uma maneira respeitosa de fazê-lo (“Até agora meus exames de HIV deram negativo, e os seus?”). Perguntar se ele está “limpo” ou “sem doenças” só faz você parecer um escroto, principalmente porque você nunca pode estar certo de quais DSTs você pode ter se você tem vida sexual ativa.
  5. Nossos comportamentos de risco são responsabilidade nossa e de ninguém mais. Depois de décadas de pesquisas científicas focadas no tratamento das pessoas com HIV, novas opções estão disponíveis agora para os soronegativos com vida sexual ativa, como a profilaxia pré-exposição (PrEP). Esse avanço coloca os soronegativos no controle de seus próprios riscos de infecção. Sim, há quem se preocupe com os níveis tóxicos de se tomar Truvada, o remédio usado na PrEP, mas novos estudos sugerem que isso pode ser um exagero. Independentemente de novas drogas, o preservativo continua sendo uma ferramenta poderosa e eficiente para evitar a transmissão – e podem cortar o mimimi sobre “ter que usar camisinha”. Sua própria saúde está em suas mãos, e as escolhas que você faz refletem a importância que você dá a ela – e isso não tem nada a ver com o status do seu parceiro, conhecido ou não. Jogar a culpa sobre os outros nunca ajudou ninguém, e nós todos dispomos das mesmas armas, admitamos isso ou não.
  6. Soropositivos não são promíscuos – nem têm uma vida sexual de merda – nem vida sexual nula. Todas essas presunções costumam ser falsas, se você tomar por medida a vida sexual do homem gay típico. Todos nós temos nossas fases. Às vezes a gente está fazendo o maior sucesso, às vezes estamos numa fase de vacas magras, às vezes a gente está transando um monte e é uma bosta. E assim como todos nós, os soropositivos estão incluídos nessa equação e estão trepando um monte e gozando pra caralho quando conseguem se dar bem. Avaliar outras pessoas pela quantidade de sexo que eles estão fazendo é uma conversa mofada que ressoa àqueles argumentos antiquados contra todos os gays. Já deu. Isso não passa de uma maneira de tentar se distanciar dos soropositivos ao apontá-los como diferente dos outros de alguma forma. Eles não são. Alguns são pudicos, alguns são biscates. Afinal de contas, uma transa é o suficiente para transmitir. E, no mais, “biscate” não é apenas qualquer pessoa que trepa mais que você?
  7. Não é da sua conta como eles pegaram HIV e quem passou para eles. Os detalhes da infecção de outra pessoa não é o seu melodrama ou história moral particular, mesmo que você pergunte com a melhor das intenções. Se um soropositivo quiser compartilhar essa história com você, ele vai contá-la quando tiver vontade. Ele já deve ter lidado com isso tudo há algum tempo, e de qualquer maneira, não deve ser nada muito emocionante. Muito provavelmente ele transou e pegou HIV. Os detalhes não são da sua conta.
  8. Se você precisa de alguém que lhe eduque sobre HIV, vá procurar um especialista. Adquirir o vírus do HIV não vem com aulas de epidemiologia e transmissão de HIV de brinde. Nem todo portador do HIV é um expert no assunto ou um especialista sobre sua prevenção – ou mesmo um ativista da causa. Eles só calham de viver com o vírus. E se um soropositivo for colocado na posição de ter que educar alguém sobre os fatos mais básicos da prevenção do HIV, não se surpreenda se forem eles que ficam com preguiça de fazer sexo. Nada acaba com o clima que uma palestra sobre prevenção. E a maior parte dos soropositivos não estão a fim de ter que convencer ninguém a ir para a cama com eles. É bem provável que eles tenham outros caras mais bem informados – e mais tesudos – na agenda do celular.
  9. Os soropositivos não vão desaparecer tão cedo. As pesquisas mais recentes sugerem que os portadores do HIV hoje em dia nos Estados Unidos têm a mesma expectativa de vida que qualquer outra pessoa. Algumas pesquisas indicam que essa expectativa seja até um pouco maior que a média, já que os portadores do HIV fazem visitas mais frequentes aos médicos, o que faz com que eles identifiquem e lidem com problemas de saúde mais cedo. Eles também tendem a evitar drogas e álcool, se alimentam melhor e fazem atividade física regularmente, as chaves para a saúde e vida longa. Os soropositivos sabem disso, e estão vivendo com alegria, gratidão e com vista para o futuro. Não há razão alguma para que eles se contentem com pouco. Infecções continuam acontecendo e os tratamentos continuam melhorando; a população de soropositivos saudáveis só tende a aumentar. É melhor tentar compreendê-los e respeitá-los que se agarrar a temores e preconceitos antiquados.
  10. Descobertas ainda maiores estão por vir. Há várias pesquisas em andamento que vão continuar a alterar a situação e tornar a vida mais fácil e menos arriscada tanto para soropositivos como para soronegativos. Microbicidas retais (lubrificantes e enemas que eliminam o vírus do HIV ao entrarem em contato com ele) estão sendo testados. Outras medicações que podem ser usadas como PrEP estão sendo desenvolvidas, incluindo injeções que podem oferecer proteção contra o HIV por meses, ao invés do regime de tomar um comprimido por dia. Os preservativos estão sendo redesenhados para aumentarem a sensibilidade ainda mais. Não vai demorar muito, mesmo os riscos mais baixos de infecção poderão ser evitados por quem fizer uso das novas tecnologias. Os tratamentos para os portadores do HIV se tornarão ainda menos tóxicos e ainda mais eficazes. Todo esse progresso não é importante apenas para conter os níveis de transmissão de HIV. Também pode ser a maneira de derrubar a muralha viral que vem dividindo nossa comunidade já há várias décadas.

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11 comentários

Antonio

Considero essencial a gente tratar todo mundo com decência e não estigmatizar as pessoas por conta das doenças e condições físicas que elas possam ter. Mas uma coisa muito diferente é se expor a doenças voluntariamente baseado em informações erradas.
Esse estudo PARTNER não foi posto a prova por outros institutos nem endossado por nenhuma entidade de saúde governamental. Inclusive em dois programas de vocês os entrevistados (um soropositivo e uma médica do Emílio Ribas) foram enfáticos sobre o quanto o volume de pesquisas médicas na área não significa qualidade. Muita coisa se dizia e se diz ainda hoje sobre HIV e Aids que acabam se provando falsas. Vamos dar tempo ao tempo, e não vamos incentivar que o ativismo e os valores de cidadania saiam atropelando a saúde pública e o avanço científico. Se fosse assim o Oswaldo Cruz ia ter cedido ao direito de escolha das pessoas e o Brasil ia estar afundado na varíola.

Uma coisa é a vacina contra HPV, que foi desenvolvida durante anos, testada e comprovada antes de poder ser implementada. A própria vacina da gripe ainda está em desenvolvimento. Essa profilaxia pré-exposição é uma idéia que ainda está em testes. Acho importante fazer essas ressalvas levando em conta que vocês são comunicadores, mesmo que muitas vezes só traduzam os textos. Tem muita gente jovem que lê vocês.

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edesiosouzadeoliveira

Estava lendo esse artigo, e fiquei pensando numa experiencia ha poucos tempo, um soropositivo, assintomatico, me disse que era soropositivo, mas insistiu em ter um relacionamento sem preservativo, afirmando que sua carga viral estava indetectavel e por isso não me transmitiria o virus, não aceitei, porque independente de ele estar indetectavel, pode ocorrer a transmissão do virus, não aceitei e fui escorraçado por tal pessoa, detalhe eu disse que não tinha nada ver ele sendo positivo e eu negativo, mas que era so se prevenir, ele não aceitou, e hoje eu sei que ele so transa sem camisinhas, e olhe que o cara troca de parceiro como troca de roupas, não estou nivelando a atitude dele, so não entendi porque essa atitude dele em não respeitar a minha!!!

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Marcio Caparica

A atitude dele realmente foi errada. Você deve respeitar seus próprios limites. Fez bem em insistir em usar o preservativo, e em não ceder. A sua própria paz de espírito antes de tudo!

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Rafael

Lindo texto!
Tenho 23 anos e moro em sp. Estava um dia numa roda de amigos, todos gays. Surgiu esse assunto no meio, uma pergunta para ser mais exato:

Você namoraria com um soropositivo?

Todos foram enfáticos em dizer um sonoro NÃO. O que me surpreendeu porque sejamos bem sincero. Tirando os gays que são: Homofóbicos, machistas, racistas, transfóbicos, alienados e por ai vai… se eu começar a descartar conhecer alguém por ela ter HIV vai ficar mais difícil do que já é.

Recentemente o canal 4 no Reino Unido fez um programa de Educação Sexual com jovens ( Muito bom, recomento assistir, esta no youtube “channel 4 sexual education”) Eles não dão enfase ao HIV e sim a doenças que eu NUNCA tinha ouvido falar que já contamina 10% da população lá. Não esta na hora do misticismo sobre o HIV cair por terra?

Grande abraço ao Lado Bi, ótimos textos e assuntos!
Sou Fã de vocês!!! 🙂

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Francisco

Na matéria vocês falam só da Profilaxia PRÉ-exposição. Essa profilaxia é a camisinha que impede a exposição ao virus. É importante falar sobre a Prófilaxia PÓS-exposição, que é o tratamento que pode ser iniciado de 2h a 72h, depois da exposição ao vírus, este sim é o tratamento através do coquetel que se administrado e tomado corretamente pode impedir o contagio mesmo havendo exposição ao hiv.

http://www3.crt.saude.sp.gov.br/profilaxia/hotsite/

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Jotta Araujo

Ouvi em um dos programas, provavelmente foi o do Soropositivos (recente até)…onde foi defendido que o modo de vida de um soropositivo não é uma utopia como tanto se diz (foi dado exemplo tbm de como o governo brasileiro é um pseudo-modelo de tratamento às complicações de se portar o HIV), agora neste post o mundo para o portador é lindo e “indolor”.Já que são repórteres (mesmo que as suas opiniões são a máxima-verdade-absoluta), e as vezes chama sua audiência de estúpida e que não sabe ler/interpretar, qual lado realmente defendem?

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Marcio Caparica

Oi Jotta. A gente não tem pretensão de simplificar a vida entre “lindo e indolor” e “lixo”. Quem busca esse tipo de simplificação vai passar a vida tentando “pegar no pulo” as outras pessoas que tentam distribuir informação por aí, como nós. A vida de um soropositivo não é um mar de rosas: ainda existe muito preconceito, muita ideia errada, muito julgamento injusto que se faz sobre quem é soropositivo (como nossos convidados no programa sobre Soropositivos mesmo disseram). No entanto, essa não é mais uma doença que impeça alguém de ter uma vida plena, que se relacione com outras pessoas, transe como qualquer um, e faça planos para o futuro – como os mesmos convidados disseram no mesmo programa. Esse post mesmo aponta que há muito sofrimento decorrente das ideias erradas que as pessoas cultivam sobre os soropositivos. A doença, tratamento e prevenção do HIV não são mais o que destrói as vidas de seus portadores. A atitude das pessoas com elas é a grande dificuldade. Não há o que defender, há apenas o que se observar.

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James Cimino

Jota, é importante para tudo que você vá ler e interpretar na sua vida que a existência de uma verdade não implica na inexistência de outra. 🙂

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Jotta Araujo

em nenhum momento falei se existe uma verdade melhor ou pior que outra(até pq não sou portador e não conheço alguém que seja portador, não de forma tão aberta, então não tenho respaldo nenhum para opinar sobre), questionei qual a defesa que utilizam, em um programa massacram a falsa ilusão criada/difundida que a vida de um portador no Brasil é um mar de rosas…agora utilizam de um texto (sei que não é opinião de vcs) que dizem que, devido mudanças de hábitos,por exemplo, um portador pode ter um vida tão saudável quanto, ou até melhor do ser humano medíocre…ou seja…é um mar de rosas? Bom, não é para criar polêmica, desafiá-los, questionar sua veia jornalística, se vota num partido ou em outro, só um desabafo/uma idéia.

PS.: Mentalmente, li a resposta do Márcio imaginando a voz dele . Infelizmente, James, sua voz parece com a de um amigo meu, ou seja, o efeito não foi o mesmo.

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