Eu não sei o que Bryan Singer, o diretor de ‘X-Men’, fez, e tampouco você sabe

Eu não sei o que Bryan Singer, o diretor de ‘X-Men’, fez, e tampouco você sabe

Artigo do site "The Wrap" diz que julgá-lo culpado pelo suposto caso de abuso sexual sem provas é idiota, narcisista e profundamente injusto

por James Cimino

Como é feriado, alguns de vocês não devem ter visto que Bryan Singer, diretor dos dois primeiros filmes da trilogia “X-Men”, que agora vai lançar “X-Men: Dias de um Futuro Esquecido”, está sendo acusado de ter abusado sexualmente de um jovem chamado Michael Egan no ano 2000. Na época, Egan tinha 15 anos.

Segundo Egan, ele e outros menores eram tratados como “pedaços de carne” em festas regradas a bebidas e sexo, e que o diretor nunca estava sozinho. Na época, o jovem chegou a processar dois homens que o molestaram. Jeff Herman, advogado de Egan, não soube informar porque os ex-advogados de seus clientes não citaram no processo o nome de Bryan Synger. Singer teria dito, segundo o site “TMZ”, que na época em que Egan alega terem ocorrido os abusos ele estava filmando o primeiro filme da trilogia de “X-Men”, no Canadá.

O fato é que, até agora, não há qualquer prova de que o diretor tenha praticado qualquer um dos atos. Pode ser que daqui a alguns meses prove-se o contrário, mas, até o momento, não há prova nenhuma nem de que o garoto tenha sido violentado nem de que o diretor tenha participado das tais orgias.

Eu tendo a imaginar o seguinte cenário. O rapaz processa dois homens por abuso sexual por volta do ano 2000, mas não cita o diretor de “X-Men” no caso. Por quê? Nem o advogado sabe responder.

Agora, em 2014, quando o cara está para lançar o filme que promete ser um dos maiores sucessos do ano, aparece essa bomba, exatamente em um momento em que há uma disputa pelos direitos de produção da série entre a Marvel e a Fox.  Adicione à receita uma pitada de homofobia. Explico: Bryan Singer é abertamente homossexual. Quem seria a vítima perfeita para uma acusação de pedofilia?

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Michael Egan e seu advogado durante entrevista coletiva sobre o caso do suposto abuso sexual praticado pelo diretor de “X-Men”

Ok, todo mundo já ouviu falar de festas de diretores de TV aqui no Brasil em que há farta distribuição de drogas, bebidas e papeis em novelas em troca de favores sexuais. Em Hollywood não seria diferente, certo? O caso é que todos os relatos que já ouvi sobre essas festas, tanto lá quanto aqui, não incluem abusos sexuais. Porque crime dá muito trabalho e porque há outras formas de convencimento mais eficazes. O que há, segundo esses boatos que já ouvi, é um acordo tácito subentendido pelos aspirantes a ator e atriz. Você não é obrigado a transar com um diretor, caso não queira, mas você sabe que se você transar sua carreira pode decolar, assim como você sabe que, se você não transar, sua carreira pode estar sepultada para sempre.

Eu acho que o que pode ter acontecido é de esse rapaz ter aceitado transar com Singer em troca de um papel. O rapaz é mais um dos inúmeros americanos do interior que vêm para Hollywood em busca de um sonho e só encontra decepção. Como ele nunca conseguiu o tal papel (ele diz em depoimento que Singer dizia que podia colocá-lo em um de seus filmes), agora está tentando faturar um punhado de dólares às custas da desgraça do diretor, que por ser homossexual está muito mais vulnerável à especulação, especialmente em uma sociedade que não raramente associa homossexualidade com pedofilia.

Estou certo? NÃO. ISSO TUDO QUE EU ESCREVI NOS ÚLTIMOS TRÊS PARÁGRAFOS É PURA ESPECULAÇÃO. Não sabemos se o jovem está mentindo. Não sabemos de Bryan Singer está dizendo a verdade. Não tenho qualquer prova de que essas festa de que eu já ouvi falar existem. Mas com certeza muitos de nós já julgou e condenou esse diretor pedófilo e degenerado ou, ainda, julgou e condenou esse aspirantezinho a ator que “deve ter procurado” esse tipo de agressão, certo?

O artigo abaixo, publicado no site “The Wrap” e escrito pelo jornalista Tim Molloy, que acompanhou o caso em que Michael Jackson fora acusado do mesmo crime, mostra como em tempos de redes sociais temos que controlar nossas opiniões quando o que está em jogo é a reputação de uma pessoa.

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Eu estou indo ver “X-Men: Dias de um Futuro Esquecido” e vou me divertir muito. E não vou pensar por um segundo sequer sobre as acusações de estupro a menores de idade a seu diretor, Bryan Singer. Tampouco vou assistir com cuidado para ver se sua câmera fica deslizando sobre corpos dos homens jovens.

Também pretendo ver o próximo filme de Woody Allen. Eu não ficar procurando se nele há alguma cena estranha envolvendo crianças. Desculpem, mas não sou egocêntrico o suficiente para pensar que eu posso olhar para um caso de duas décadas de idade procurando por subtexto pedófilo em cada linha de diálogo.

Devemos separar a arte das pessoas a partir de suas ações, certo? Mas eu não estou fazendo iss. Estou fazendo uma coisa mais simples: “As pessoas são inocentes até que se provem culpadas.”

Eu não quero participar do irracional e instintiva assassinato de reputações de pessoas que eu não conheço. Nem mesmo de uma maneira pequena, como recusar-me a ver filmes que veria em outras circunstâncias.

Eu não sei se Singer ou Allen são culpados. E aqui está uma coisa importante para se lembrar, na próxima vez que você tuitar ou monólogo em uma festa ou boicotar um filme: VOCÊ NÃO SABE.

Além do fato de haver número muito pequeno de pessoas em posição de saber o que houve, é idiota, narcisista e profundamente injusto pensar que você sabe o que realmente aconteceu em ambos os casos. Você não estava lá. Eu não estava lá. Nós sempre vamos supor e nunca saber. É por isso que temos um sistema legal. Não é perfeito, mas é o melhor que temos. Júris tomam decisões mais inteligentes do que multidões.

O acusador no caso Singer levou seu caso à corte civil, dizendo ter havido falhas no sistema penal que o impediram de buscar a Justiça naquela época. É uma coisa boa que ele tenha a opção de buscar a Justiça, de um jeito ou de outro. Se Singer é culpado, eu espero que ele sofra por isso.

Mas a verdade não saiu ainda. Devemos respeitar a acusação como uma acusação séria, mas não tratá-la com a certeza de um fato.

Bryan Singer dirige Ian McKellen em cena de "X-Men"

Bryan Singer dirige Ian McKellen em cena de “X-Men”

Essa é a base de todo o nosso sistema jurídico.

Eu cobri o caso Michael Jackson durante meses, observando no tribunal os testemunhos todos os dias. Eu ganhei o direito de expressar uma opinião sobre se Michael Jackson molestou crianças. Assim fizeram os jurados, as pessoas que compareceram por curiosidade e as pessoas que acompanharam de perto o caso na imprensa.

Mas não sabemos com cem por cento de certeza o que aconteceu.

Eu não sei se a culpa é do ritmo frenético das notícias na TV a cabo, da gratificação instantânea que pedem as mídias sociais ou um excesso de verdades absolutas, mas muitos de nós tornaram-se demasiadamente rápidos em julgar. Não me refiro a julgar as pessoas com excessiva severidade. Quero dizer, julgar as pessoas em tudo, positiva ou negativamente, quando não temos ideia do que estamos falando.

Tome a lista infame de Lindsay Lohan. Publicou-se na revista “In Touch” há pouco tempo que os nomes que essa lista contém são dos homens com quem Lohan teve relações sexuais. Há algum outro fato que apoie essa história? Não, é só uma fofoca picante.

A publicação da lista foi vergonhosa. Mas a “In Touch” tentou minimizar o tom chamando os homens “conquistas”, como se os editores fossem amiguinhas de Lohan aplaudindo-a em um brunch. Eles não são. Eles são apenas picaretas tentando levar pessoas estúpidas para comprar uma revista trashy .

Em entrevista quinta-feira, Lohan se recusou a dizer o que a lista era. Mas disse que a escreveu como parte de seus 12 passos no tratamento dos Alcoólicos Anônimos. A lista era parte do passo 5, que envolve admitir os erros do passado.

Assim, o quadro muda: Agora ela não é uma puta bêbada se gabando por roubar mulheres e namoradas de outros homens. De repente, ela é um ser humano, tratando de uma doença cruel, tentando melhorar a si mesma. E alguém em um centro de tratamento onde ela procurou ajuda encontrou algo que ela escreveu e vendeu para uma revista, para que você possa rir .

Eu não estou dizendo que não podemos fazer julgamentos morais, uma vez que estamos em uma posição real para ter alguma ideia do que uma pessoa realmente fez. Mas presumir fatos para justificar nossos próprios preconceitos é repugnante.

Vou me sentir mal por ver “Dias de um Futuro Esquecido” se em algum lugar momento Singer for considerado culpado em um tribunal graças a uma preponderância de provas. E, claro, eu vou me sentir mal se ele algum dia admitir que era culpado o tempo todo. Lamentarei por ter contribuído, mesmo que de maneira ínfima, para o seu sucesso.

Mas até que esse dia chegue eu não vou puni-lo e todos os envolvidos em seus filmes. E tampouco vou me punir por ignorá-los.

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13 comentários

Carol

Independente do diretor ser culpado ou não: estupro também ocorre mediante coação e ameaça, não precisa haver agressão fisica. Segundo: muitos adolescentes são levados para festinhas para serem servidos como parte do cardápio, de forma consensual ou não, e isso se chama exploração sexual infantil. Terceiro: o estupro geralmente ocorre dentro de uma relação de poder, onde a vítima é subjugada pelo agressor, seja pelo uso de força, ameaças ou de sua influência na vida da vítima, criando até uma relação de dependência por parte da vítima que acredita que essa relação é culpa sua ou aceitável pois é imposta por uma pessoa de sua confiança. Quarto: pagar ou fazer favores em troca de sexo com menores de idade é crime.

Espero mesmo que esse caso seja falso, pois em caso falso não há vitimas e é triste imaginar um adolescente de quinze anos se prostituindo seja pelo o que for ou participando de festas onde está exposto a uma série de abusos.

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James Cimino

A tal “vítima” foi processada nesta semana por dar golpes financeiros. Foi acusado por cinco ou seis vítimas, que investiam dinheiro em negócios inexistes que ele oferecia.

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Carolina

Bem desnecessário esse texto, bem desnecessário mesmo. Me fez pensar se o Lado Bi não postou outro falando algo tipo ”NÃO CULPEM WOOD ALLEN TADINHO”
decepcionante hein, lado bi

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James Cimino

Desnecessário por quê? Você estava nas festas de Bryan Singer? Você teve acesso à intimidade de Woody Allen? Não, né? Não se esqueça de que a mulher que foi linchada nesta semana foi vítima exatamente deste tipo de “clamor por Justiça”. Bem menos, Carolina, bem menos.

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Axiel

Muito bom esse texto…Me fez refletir verdadeiramente o que se passa na cabeça de algumas pessoas hipócritas que julgam os outros sem ter a mínima noção da proporção que seu comentário besta pode tomar, sem saber o que estão falando, enquanto também outras pessoas lê-em aquilo e acabam julgando da mesma forma. Enquanto tantas pessoas fizeram grande esforço para tornar a internet acessível a todos, cestas pessoas fazem todo esse esforço se tornar supérfluo. É uma pena…

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Washington

Triste que isso aconteça. Essa história tá mal contada. Meu único problema com Bryan Singer é ele ter estragado a série X Men. Ele mesmo já admitiu que não é fã de quadrinhos.

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Washington

Agora, devemos pensar e refletir um pouco. Será que vale a pena homens homossexuais e bissexuais se alinharem às feministas? Há uma indústria do estupro propagada por feministas radicais que, segundo elas, basta a denúncia para jogar qualquer homem acusado de estupro na cadeia. Apenas uma inversão do ônus da prova segundo a “lógica” feminista. Recentemente, o britânico Mohammed Asif livrou-se da cadeia graças a uma câmera em que uma mulher oferecida ia acusá-lo de estupro. O igualmente britânico Nigel Evans, político homossexual assumido, foi acusado de estuprar dois homens sem provas. Ficou preso e teve que pagar multa. Quantos homofóbicos poderão usar isso para perseguir homoafetivos? Veja o caso do Julian Assange; não é estupro, mas perseguição política. Esse radicalismo feminista (do qual muitos homens homossexuais absorvem para parecer “moderninhos”) é incoerente. Ele não discute a injustiça social. Perguntemos como é a realidade do pobre, do negro e do gay que são constantemente acusados de crimes que não cometeram? Isso não é apenas quanto ao estupro, mas muitas falsas acusações de roubo, furto, assassinato, etc. Veja o caso do Amarildo.

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Carol

Quando se fala de cultura de estupro não se diz que a pessoa deva ser presa sem investigação, sem provas do crime. Quando falamos sobre cultura de estupro falamos muito mais sobre o estigma que recai sobre a vitima. Sobre a culpa que é colocada na vitima. Ao denunciar um estupro a vítima é sempre desacraditada com facilidade, mas o agressor não. Ao agressor é sempre dado o benefício da dúvida, principalmente se ele for rico, ou branco, ou “bom cidadão”, ou pai de família ou hetero. Porque sim, a mesma cultura de estupro defende que negros estupram, homossexuais estupram, mas não o homem branco heterossexual. Mas mesmo nos casos em que o agressor não corresponde a esse perfil, ainda há a culpa e o estigma jogados sobre a vítima. Porque afinal a vítima sempre quer destruir algo do agressor: reputação, emprego, família. …A cultura de estupro fala sobre tudo isso, mas veja, o ponto central é a vítima. Como a vítima de estuprp é tratada e silenciada. Já tem muita gente falando sobre injustiça social. O movimento negro problematiza os estereótipos jogados sobre os homens negros. O movimento LGBTT problematiza os estereótipos jogados em cima da comunidade. Então, qual o grande problema de um movimento, no caso o feminista, promover discussão sobre os estereótipos e julgamentos lançados sobre vítimas de estupro? Como vítima, como parte da estatística de que 1 em 4 mulheres já sofreu estupro, eu digo: a cultura de estupro é real. Sem ela meu agressor não estaria livre. Porque ele recebeu o benefício da dúvida, apenas por ser um homem bom que não precisaria disso e eu uma mocinha birrenta que queria estragar a vida dele. Eu fui silenciada por essa cultura por não ter marcas de agressão, por nao ser a vitima perfeita. A cultura de estupro só é uma arma contra a própria vítima e ela não é uma invenção feminista. Os homofóbicos que acusam gays de pedofilos fazem isso por serem, advinha? HOMOFÓBICOS e sei também que há pessoas maravilhosas lutando contra isso em vez de perder tempo tentando deslegitimar uma discussão tão importante quanto a cultura de estupro.

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Diogo

Meu caro autor, não se puna, mesmo que encontrem provas para acusar o diretor. Você só irá colaborar se consumir (algo como filmes, textos, etc. dele) mesmo depois que provarem que ele de fato “abusou” do menino. Ele é como a Lindsay, humano e nada mais. Errar está incluso no pacote de ser humano e é um fardo que um dia após o outro poderá ser corrigido com os acertos que são dificilmente conquistados.

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Daniela Oliveira

Tenho dó do Bryan, esse cara com certeza quer dinheiro e atenção. Tem até um documentário sendo feito sobre o caso. Espero que isso não prejudique a carreira dele, ele é um excelente diretor.

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Caio

Também achei esta história bem suspeita. O que o garoto de 15 anos estava fazendo lá na festinha? Se é que a tal festinha aconteceu. Como tudo se deu até o que o possível abuso aconteceu? Até que se prove o contrário, permaneço neutro no caso e sim, vou assistir o filme quando estrear nos cinemas.

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James Cimino

Sem falar que ele diz que foi estuprado durante dois anos seguidos. Indo e voltando da tal casa. What?

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Diogo

Pois é. rs Podemos chamar agora de “Estupro Voluntário”? rs

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