O cinema precisa melhorar seus personagens LGBT

O cinema precisa melhorar seus personagens LGBT

Testes primários de construção de personagem demonstram que o cinema não se esforça para construir bons papéis LGBT

por Marcio Caparica

ATENÇÃO: Esse artigo contém spoilers sobre os filmes!

Você conhece o Teste de Bechdel? Ele foi criado com base em uma tirinha da cartunista Allison Bechdel para sua série Dykes To Watch Out For (“Fique de Olho nas Sapatas”, em tradução livre). É uma maneira de avaliar como os filmes tratam as mulheres, e faz três perguntas muito simples:

  1. O filme tem duas ou mais mulheres que têm nome?
  2. Essas duas mulheres conversam entre si?
  3. O assunto da conversa é algo que não seja homem?

Simples, certo? Na vida isso acontece o tempo todo. Mas no cinema, principalmente no cinema comercial de Hollywood, isso é bem raro. Apenas 56% dos filmes catalogados no site bechdeltest.com conseguem passar nos três níveis do teste – e esses são filmes que o próprio público do site se dispõe a catalogar; eu imagino que a realidade deve ser bem pior. Sucessos como A Rede Social, Avatar, Harry Potter e as Relíquias da Morte, a trilogia Star Wars, a trilogia Senhor dos Anéis, nenhum consegue fazer algo tão básico como colocar duas mulheres para conversar entre si.

Esses são critérios rasteiros de representação feminina – há quem argumente, com razão, de que a essa altura do campeonato não deveria se comemorar quando duas mulheres têm uma conversa que não seja sobre homem. Mas é exatamente por ser algo tão básico que ainda surpreende que os estúdios não consigam construir mulheres que sejam mais que uma fachada. E também não é um teste perfeito; Gravidade, que possui um dos personagens femininos mais bem desenvolvidos e fortes dos últimos tempos, não passaria porque simplesmente não há outra mulher na trama – o único outro personagem da história é o de George Clooney.

E quando o assunto são homossexuais no cinema?

Ano passado Tyler Coates propôs uma versão LGBT do Teste de Bechdel. Ele propunha que se exigisse apenas três coisas básicas dos filmes com personagens LGBT:

  1. O filme tem que ter dois personagens LGBT que interagem entre si.
  2. A função dos personagens não é dar conselhos assanhados para @ protagonista.
  3. Os personagens não estão mortos ao final do filme.

Como hoje é o dia em que serão anunciados os candidatos ao Oscar, vamos rever os candidatos a Melhor Filme dos últimos anos. 2013, nada, 2012, também não. Cisne Negro, de 2011, tem uma cena lésbica, que pode ser considerada delírio da protagonista. 2010 não tem personagens gays nessa categoria também, e 2009? Lá está Milk. Tudo bem que o protagonista morre, mas há outros personagens homossexuais na trama que sobrevivem. E não servem apenas para dar palpites amorosos.

Mesmo os filmes mais gay-friendly dos anos anteriores a esses têm dificuldades para passar nesse teste. Brokeback Mountain mata um dos dois protagonistas; em As Horas, as mães lésbicas ficam vivas, mas o gay se mata; Pequena Miss Sunshine não coloca o personagem gay para conversar com outro.

(O cinema brasileiro também não está melhor; para cada maravilha como Tatuagem há pelo menos um Crô, O Filme para achatar a personalidade dos homossexuais, como discutimos no Lado Bi do Cinema.)

Um dos favoritos para o Oscar desse ano, Dallas Buyers Club (que vai chegar aqui no Brasil com o título Clube de Compras Dallas, e só em 21 de fevereiro), tragicamente também falha no teste. Apesar dos louros que Jared Leto vem recebendo por sua personagem trans Rayon, ela não chega viva ao final.

A notícia boa é que, segundo o site Vocativ, 17 das 50 maiores bilheterias de 2013 passaram no teste de Bechdel. Ou seja, o público está começando a recompensar personagens femininas minimamente bem construídas. E quando isso acontecerá com os filmes LGBT? Será que é muito pedir para chegar vivo ao final da história, falando mais que amenidades?

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7 comentários

Musical sobre lésbica masculina é o grande vencedor do Tony Awards - Lado Bi

[…] Alison Bechdel é uma quadrinista que ganhou fama nos EUA pelas tirinhas independentes “Dykes To Watch Out For” (“Caminhoneiras, preste atenção”, em tradução livre) e o teste para avaliar se um filme trata mulheres como seres minimamente humanos, o Teste Bechdel (o filme deve ter pelo menos duas personagens femininas com nome, elas devem conversar entre si, e o assunto deve ser algo que não seja homem. É impressionante como poucos filmes ganham nota boa nesse teste). […]

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Paula

Faltou o filme Minhas Mães e Meu Pai. Esse filem fala sobre a família e pelo menos não teve morte.

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Roberto SP

Metendo minha colherzinha.

Primeiro dizer que ADOREI o programa sobre cinema, achei muito bom e senti tesão (no bom sentido) pela equipe. kk

Sobre a matéria, assim como o amigo acima, também acho o tal teste meio furado. Parece ter sido feito refletindo uma época mais antiga (ver Celluloid Closet) onde só se falava no gay-lébica de uma forma o mais encoberta possível e sempre com o pior enfoque.

Daí a sucessão de personagens ou estilo Crô, – as sissies – apenas para fazer graça e reforçar o preconcebido ridículo dos LGBTs para as plateias héteros, ou então mostrar o quanto os gays eram esquisitos e perturbados – daí quase sempre a morte prematura e trágica como único destino.

Desde os anos 90 +- a coisa mudou bem. Ainda que – naturalmente em pequeno número – os filmes com trama principal com temas e personagens gays não (totalmente) estereotipados tem sido feito em boa quantidade.

Então pelo critério o excelente Milk não seria aprovado porque o personagem (como na vida real) morre no fim? Acho nada a ver.

Filmes predominantemente LGBT serão sempre minoria. Mas personagens LGBT farão cada vez mais parte deles com a visibilidade e aceitação cada vez maior da sociedade. E os filmes LGBT propriamente dito estão cada vez melhores.

Não sei se já fizeram, mas que tal matérias sobre literatura LGBT?

Abraço!

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Gustavo Souza

Da safra recente, pegando um brasileiro e um estrangeiro, Tatuagem e Álbum de Família, respectivamente, passariam no teste. Mas, como já foi dito, ele não pode ser tomado como definitivo. Me ocorreu agora a personagem lésbica, tia de Hermila, em “O céu de Suely”. O modo como ela aparece na trama é digna de nota, porque a sua orientação sexual não é vista como um problema. Acho linda a cena em que fala pra sobrinha que vai dar um biquini de presente para Georgina (amiga de Hermila, por quem ela tem uma queda), para vê-la se bronzeando. Tudo isso tratado com muita naturalidade, como deve ser. Mesmo ela sendo a única personagem LGBT, a representação do homossexual construída pelo filme é bem interessante. Enfim, puxando da memória, é possível lembrar de um filme que aqui e ali passam neste teste, mas também outros que não passariam e que mesmo assim têm o seu valor no modo como abordam a homossexualidade.

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diego pinto

Como cinema é o meu tema predileto, não posso deixar de dar a minha opinião.
Achei bem interessante o teste original e pensando bem são poucos os filmes que passam. Mas como foi bem colocado na matéria isto não significa necessariamente misoginia e sim uma falha no roteiro.
A versão LGBT do teste eu já acho bem mais furada.
A primeira questão é sobre a quantidade de personagens gay na trama. Pois bem, eu penso que se a temática principal do filme não for LGBT não é demérito nenhum se só houver um personagem gay(especialmente se ele for bem trabalhado).
A segunda questão é quanto à qualidade dos diálogos. Esta questão eu acho relevante. E a grande maioria dos filmes que eu assisto passaria. Se você se limitar a assistir o que o “cinema pipoca” brasileiro é provável que se frustre com este quesito. Quem acompanha o que é lançado lá fora ou mesmo aqui, mas sem tanta projeção, tem muito pouco para reclamar. Não gosto de falar de um filme sem assisti-lo antes mas estou inclinado a pensar que o problema de filmes como “Crô, O Filme” vai além da incapacidade de retratar bem homossexuais. O problema é o que acontece quando se coloca em primeiro lugar atrair o maior número de pessoas pra sala de cinema e em segundo lugar fazer um filme. Acredito que, se fosse outra temática com a mesma equipe, o filme seria igualmente medíocre.
A terceira questão é sobre a morte. Este não é necessariamente uma coisa ruim. A maioria dos filmes que assisti não tem morte mas quando acontece deve-se analisar caso a caso se a morte faz sentido na trama. Geralmente são filmes que tratam da violência homofobica, do suicídio por não aceitação ou HIV. As vezes os gays morrem simplesmente porque é conveniente que o personagem morra (o caso de Brokeback Mountain). Sem falar que não daria pra contar a história do Cazuza ou do Milk sem morte. Ouvi em um podcast o questionamento se a morte de gays no cinema não seria uma morte simbólica dos gays para agradar aos heteros. Tendo em vista que muitas vezes esses filmes são feitos por diretores gays tendo como publico alvo outros gays, e levando em conta os pontos que abordei, penso que não seja este o caso.

PS.:Pelo meu comentário pode não parecer, mas sou muito fã do trabalho da equipe do site (se não fosse simplesmente ignoraria o post).
PS².: Uma dica para o desenvolvedor do site: o campo de comentário esta muito pequeno. É desconfortável escrever nele. Tive que escrever este comentário no Word e colar lá.

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Marcio Caparica

Oi Diego! Acho suas observações superpertinentes! Quanto à morte, sim, elas provavelmente são relevantes à trama na maior parte dos casos. Mas daí vale a pena se pensar: por que não se contam mais histórias em que a morte do homossexual é o desfecho dramático necessário ou provável daquela história? Não devem faltar ideias de tramas envolvendo gays em que eles poderiam sobreviver (me ocorre agora o “E sua mãe também”). Talvez haja já uma certa discriminação ao se pensar que as únicas histórias com gays que são dignas de serem contadas são aquelas que envolvem violência homofóbica, suicídio por não-aceitação ou HIV.
p.s.: também pode não parecer, mas achei EXCELENTE seu comentário, valeu!
p.p.s.: Vou ajustar o tamanho do formulário também, obrigado por dar esse toque.

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diego pinto

“Talvez haja já uma certa discriminação ao se pensar que as únicas histórias com gays que são dignas de serem contadas são aquelas que envolvem violência homofóbica, suicídio por não-aceitação ou HIV.”
Eu vejo isto mais como falta de ambição do diretor de olhar para a temática gay por ângulos diferentes do que uma questão de preconceito. É até esperado que o personagem sofra. Talvez para mostrar as consequências da descriminação. Mas como eu disse, a maioria dos filmes que assisti fogem deste padrão.E particularmente prefiro os filmes que não colocam tabu no tema. Estes contribuem mais para comunidade gay mostrando que gays não são nenhum bicho de sete cabeças.
E novamente, parabéns pelo site.

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