Por que gays dos EUA e Europa perguntam seu status de HIV?

Por que gays dos EUA e Europa perguntam seu status de HIV?

Enquanto no Brasil gays ignoram tema, americanos e europeus querem saber "até onde podem ir" no sexo

por James Cimino

“Você é soropositivo?”

“Tem certeza que você quer falar disso agora?”

“Sim, a gente vai transar e acho que este é o melhor momento.”

Tive esse diálogo dia desses com uma pessoa que obviamente não revelarei a identidade. Mas essa pessoa é brasileira. E cito aqui sua nacionalidade porque, durante minha recente ida a Nova York neste ano, me chamou a atenção a forma como nós gays brasileiros tratamos o assunto Aids/HIV. Praticamente todos os caras com quem transei/conversei por lá ou perguntavam ou declaravam seus status de HIV nos encontros ou nos seus perfis em apps como Scruff, Growlr e Hornet.

Em uma das vezes, perguntei para o cara o que mudaria se eu tivesse respondido que era soropositivo. “Nada. Só quero saber até onde posso ir contigo. O tesão que sinto por você continua o mesmo.”

Ele então me perguntou por que eu estava tão surpreso com a abordagem. Respondi que aqui no Brasil os gays raramente tratavam desse assunto, embora cada vez mais aumente o número de pessoas que acham que, devido à existência do coquetel de remédios antirretrovirais, a camisinha entrou em desuso.

Também falei que achava que aqui os gays tinham medo de falar isso e serem estigmatizados por outros gays, porque as bichas daqui adoravam fazer fofoca e desmoralizar seus pares, pois aqui, em geral, a autoconfiança das pessoas era construída em cima da desgraça de outras. O americano ficou espantado e falou: “Eu nunca ouvi gays fazendo fofoca sobre isso por aqui porque todo mundo sabe que hoje é ele e que amanhã pode ser você.”

Este é o lado positivo de uma história que também já havia presenciado na Europa. Muitas pessoas lá também declaram seu status de HIV e têm a mesma visão do americano aí de cima. Querem saber para saber onde estão pisando e não terem surpresas desagradáveis.

Mas o objetivo por trás desse questionamento é, afinal, transar sem camisinha e sem culpa. E embora eu encoraje o uso de camisinha, sei que é uma utopia imaginar um mundo em que todas as pessoas estarão transando apenas com preservativo. É o correto, mas nem sempre é o corrente.

E neste grupo de pessoas que querem transar sem camisinha, estão aqueles que são soropositivos e que, ao se depararem com outros soropositivos autodeclarados, querem abolir o preservativo no sexo. Este é outro erro brutal, já que é amplamente divulgado pela comunidade médica que um soropositivo deve evitar a recontaminação, pois o vírus que seu parceiro tem pode ser resistente à medicação que você toma e vice-versa.

Apesar de achar hipócrita a forma como nós gays brasileiros conduzimos esse assunto, acho que ela tem um ponto positivo: já que ninguém fala, o número de pessoas que se cuida e exige camisinha na hora do sexo é maior. Ao mesmo tempo, as estatísticas comprovam que cada vez mais jovens brasileiros estão se infectando com HIV por não praticarem o sexo seguro.

Também acho vergonhosa e nojenta a forma como gays estigmatizam outros gays por serem portadores do HIV. Então, se você está saindo com alguém e essa pessoa teve a decência de compartilhar essa intimidade contigo, é bem provável que ela goste de você o suficiente para se importar com seu bem estar. Quem sabe, inclusive, ela possa vir a ser o amor que você tanto procura, pois há muitos casais sorodiscordantes por aí, entre gays e heteros inclusive.

Então tenha a mesma consideração que ela teve contigo e não saia por aí fazendo fofoca, porque você já deve ter transado com vários soropositivos por aí sem fazer a menor ideia e, como me disse o americano, amanhã pode ser você.

Também não se esqueça de que se você transou com alguém sem camisinha e contraiu o HIV, a “culpa” não é dele. A “culpa” é sua. Você sabia da existência do HIV e dos riscos do sexo sem proteção. Você é o único responsável pelo seu corpo e pelo seu bem estar. Talvez o cara não contou por medo da maledicência e não necessariamente porque ele queria deliberadamente te contaminar. É sempre bom lembrar que a gente não é o centro do mundo.

E você, soropositivo, tenha uma coisa em mente: se você está interessado em ter uma relação duradora com alguém, conte o quanto antes. Quanto mais demorar, mais risco de vocês dois se entregarem ao desejo e esqueceram a razão. E se o cara te rejeitar, melhor ainda. Pelo menos você sabe que ele não te ama de verdade.

Acredite, tem muita gente por aí que te enxerga além da casca.

Esse post serve para mostrar que ainda há muitos armários a serem violados no mundo. Abaixo, em inglês, um vídeo da ativista Ash Beckham sobre os armários da vida e como sair deles.

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24 comentários

lucas

É típico da nossa cultura ignorar um problema como se isso fosse fazê-lo desaparecer. Não sabemos ouvir, dialogar, compreender. Por isso, ninguém pergunta, ninguém comenta sobre isso, exceto quando alguém contrai a doença e vira objeto de curiosidade alheia. Mesmo sabendo que vou usar camisinha, costumo perguntar se a pessoa sabe o seu status. Mas algumas pessoas se ofendem com essa pergunta e acham que ou vc é HIV+ ou quer transar sem camisinha. Triste isso

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Rick

Acho que um pergunta interessante seria:
– “Bom, tenho um parceiro fixo. Mas fixo mesmo, vamos fazer um ano junto, e temos sim vontade de fazer sexo sem camisinha. Um pouco depois de começar o namoro fizemos o teste de HIV, Hepat. B e Sifílis, todos negativos. Sendo assim, é possível fazer sexo sem camisinha? Seria interessante explorar as possibilidades na resposta e não simplesmente florear um não” 🙂

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Clube do carimbo: 30 fatos sobre HIV/Aids que não foram ao ar

[…] É bom ressaltar, no entanto, que nos EUA, Canadá e Europa quase que como um todo, é comum que as …. Em muitos casos é porque elas querem saber se podem transar sem preservativo, mas em geral é porque a lei obriga que se faça essa revelação antes do sexo para que a pessoa não seja responsabilizada juridicamente por ter transmitido o HIV. Em alguns Estados americanos, no entanto, a pessoa pode ser responsabilizada mesmo sem ter transmitido o vírus, pela tentativa mesmo, caso não informe seu status sorológico. […]

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Felipe

Sou HIV positivo e conto na maioria das vezes, mesmo nas transas casuais. Só uma vez tive rejeição por isso, mas também te a ver com o perfil de pessoas que eu me relaciono, completamente esclarecidas e maduras (mesmo quando são novinhos). Nos poucos casos que eu não contei antes, me apavoro de ver como TODOS SEMPRE TENTAM iniciar a penetração sem camisinha. Tanto ativos como passivos sempre querem adiar o momento de colocar a camisinha, querendo um “só a cabecinha” pra dar uma brincada antes da penetração “real”, mas que todos sabemos como termina. É um saco ter que bancar o chato bem na hora, então prefiro mil vezes contar antes do sexo. Fica bem mais divertido, inclusive, sem ter que parar e ficar quase batendo na pessoa pra convencer o infeliz de que preservativo é necessário.

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Bruno Mattos

Melhor comentário de todos em todos os posts sobre HIV. Sou HIV-, ainda (e a frase do americano hoje é ele amanhã pode ser eu é muitooo feliz pq desconheço uma pessoa ht, gay ou bi que NUNCA tenha feito sexo ou “brincadeiras” sem preservativo) e compartilho do mesmo sentimento. Só não me apavoro com as pessoas, muita gente, de todas as idades, classes sociais e níveis de escolaridade diferente que tão nem aí prá camisinha, o que me apavora é a hipocrisia das pessoas. Quer fazer beleza, saiba os riscos, tenha as informações e não se torture por isso. Faça exame sempre (com teste rápido é tão acessível e mesmo os laboratoriais tão cada dia mais fáceis de resultados rápidos e mais precisos), trate-se se for o caso e PRINCIPALMENTE não saia por aí “posando de santa” e xoxando aquela pessoa com quem você DELIBERADAMENTE fez sexo sem preservativo.

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André Kummer

Vocês são ótimos, James e Marcio. Sempre bom passar por esse site e ouvir a rádio uol. Informação com qualidade, bom senso e ousadia. Grande abraço.

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Henrique

James, o texto é muito relevante ao mostrar a diferença de atitude em relação ao HIV em comunidades gays mais bem informadas que a nossa. A naturalidade deles chega a ser desconcertante.
Mas acho que há três afirmações equivocadas, sem embasamento. Primeiro, generalizar que perguntar significa querer transar sem camisinha. Até porque é bem falho isso de contar com uma resposta de um desconhecido. Dois negativos podem transar sem camisinha, mas ter certeza do status sorológico não é tão simples, e muita gente é esclarecida o suficiente para não se fiar em uma resposta de um desconhecido que sabe-se lá se já se expôs desde o último exame.
Segundo, que o sexo sem camisinha entre positivos é um erro brutal. A reinfecção é uma questão, você está certo, mas você não levou em consideração os avanços da ciência no assunto. A reinfecção não vai ocorrer entre dois positivos com carga viral indetectável. Ou a chance é mínima, um nível de segurança muito maior do que o do encontro casual entre supostamente negativos.
Terceiro, quando você afirmou que aqui a proteção é maior, nesse nosso mundinho de negação e silêncio que é a comunidade gay no Brasil, onde as pessoas evitam o assunto e preferem fingir que não é com elas. A proteção é a parte racional do sexo, e se não conseguimos ser racionais o suficiente para encarar o assunto de frente, não é difícil deixarmos o tesão se sobrepor à racionalidade.
Parabéns, e um abraço.

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André

Que texto maravilhoso e real. Falar de HIV hoje chega a ser chocante no mundo jovem, falo isso pq sou jovem. Se vc vai ficar com um cara e pergunta se ele tem HIV ele te olha torto, afinal eles sempre dizem que não tem, e começam a disconfiar que vc tem. Queria muito que as pessoas percebessem que o HIV realmente existe, falo isso porque trabalho em um laboratório e faço os exames de HIV, dentre os 50 pacientes que analiso por dia é triste vc vê que 35-45 deles tem a soropositividade. No Brasil falta muito mais que politicas públicas, o tema precisa sim ser tratado com clareza pois professores estão despreparados, médicos estão despreparados, pais estão despreparados a sociedade em sí vê o fato e tampão o sol com a peneira. isso é Brasil!

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Alessandro

Perguntam mesmo?? Moro na Europa ha um bom tempo e é incrivel como aqui usar camisinha é sinônimo de doença para eles. Ou seja, se vc usa vc é doente.

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Expelindo HIV

Como tudo na vida, há vantagens e desvantagens. Sou soropositivo há 3 anos e sinto muita dificuldade em contar pra os meus parceiros. Quando a coisa está mais enrolada, há mais intimidade, dá aquela sensação de que seria melhor compartilhar a sorologia. Eu já contei pra 3 caras que tive rolo (até porque depois que descobri o HIV me bloqueei pra relacionamento e fiquei mais desconfiado de todos): 2 dos quais me rejeitaram com naturalidade, apenas afastaram a possibilidade de termos algo mais e o outro disse que não teria problema com isso porque usaríamos camisinha.
Bem, no Brasil a sorologia para HIV é de foro íntimo. Você só conta para quem quiser. Nos EUA, por exemplo, vou citar a Flórida. Se você tiver HIV é considerado um transmissor em potencial, portanto há lei que obriga a contar, senão é crime. Na Europa deve ter um pouco disso e talvez por ser uma sociedade com uma educação secular que já aprendeu a lidar com mais epidemias do que o povo brasileiro.
Realmente, você “contar de cara” é meio perigoso. Há um medo de exposição ou você só quer uma trepada e não tem necessidade de você abrir algum “trauma” (sim, ainda que superado) da sua vida.
Portanto, acho que no Brasil temos lei de apoio e combate ao preconceito muito mais que nos EUA, por exemplo.
E para terminar, cada um sabe a responsabilidade e tem que assume os riscos que correm!

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eduardo

Eu moro na florida usa há 10 anos e aqui eles perguntam na cara dura quando vc pede pra usar camisinha ai vem a pergunta ou ele mesmo fala sou hiv positivo. Porque gente já é uma doença controlada tenho amigos q tem mais de 20 anos, claro q devemos prevenir mas qual o problema de falar a verdade??????

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Alexandre

Eu moro na Europa e já estive algumas vezes nos EUA, não é todo mundo que abre o jogo ou fala abertamente sobre o HIV, mesmo aqui ainda existe muita estigma ou medo de transar com um soropositivo, percebo entre os mais jovens um distanciamento do que foi a epidemia de HIV/aids e até o sentimento de que só acontece com o outro, outra coisa que notei é a contaminação deliberada, tem pessoas que querem se contaminar de propósito, ainda noto mais resistência ao uso da camisinha entre homens acima dos 45 do que entre os jovens que se comportam mais sem se importarem com o uso ou não do preservativo.

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Alessandro

Concordo, e acho que no Brasil as pessoas estão mais preocupadas com o HIV. Aqui usar camisinha é sinonimo de que você está doente. Lamentável.

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Marco

Os gays no Brasil criaram um estigma tão forte quanto ao HIV que seus portadores viram párias entre aqueles que eram seus amigos, pior, viram piada. E sempre tem aquela mentalidade de que a vida da pessoa acabou e ela não tem direito à vida sexual. Pior de tudo é que as pessoas depositam no soropositivo toda a responsabilidade da contaminação. Acho que a pior mania do brasileiro além da fofoca é a mania de não se responsabilizar pelos seus próprios atos.

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Emerson da Cunha

O texto é bem interessante: não sabia dessa prática nos EUA ou Europa. Isso mostra um profundo amadurecimento, sensibilidade e praticidade sobre HIV/AIDS, coisa que no Brasil fica em torno de fofocas e disse-me-disse.
Mas discordo em dois pontos no texto. Um é esse: “Apesar de achar hipócrita a forma como nós gays brasileiros conduzimos esse assunto, acho que ela tem um ponto positivo: já que ninguém fala, o número de pessoas que se cuida e exige camisinha na hora do sexo é maior.” Não acho que isso faça com que as pessoas busquem se “proteger” mais por isso. Acho importante isso de perguntar porque o sujeito tem a liberdade de fazer ou não sexo sem camisinha – e não “ter que fazer sexo com camisinha”, como uma obrigação, porque não se é sincero com o parceiro. Isso é uma grande conquista. Sempre acho que falar é o ideal. O que resulta daí é liberdade em como levar sua vida sexual, seus prazeres, e sua intimidade.
Outro ponto é que você fala, no texto, de culpa. Que a “culpa” é de quem contraiu o vírus e não de quem ela o contraiu, no caso de não terem sido sinceros. Ora, insistir nesse discurso de culpa é desnecessário, a meu ver. A religião já nos culpa pela HIV/AIDS, os núcleos familiares, os pares gays; não precisamos insistir. Quem tem AIDS/HIV não precisa ter culpa nenhuma; é uma doença associada às práticas sexuais (independente se faço sexo sem camisinha ou com camisinha, com um parceiro fixo ou muitos, isso varia muito entre os soropositivos ou entre quem descobre o ser) e insistir nessa culpa é também se culpar pelas práticas sexuais, o que as religiões e o moralismo o fazem muito bem. É preciso encarar a AIDS como uma doença como outra qualquer, que precisa de cuidados, e que não é mais hoje em dia mortal como nos anos 1980. Exigir do governo e dos médicos uma atitude pragmática e profissional (e não moralista) e tratar do assunto da maneira como se deve. Nesse sentido, eu sugiro ler o esclarecedor texto da Susan Sontag, A AIDS e suas Metáforas.
Obrigado! 😉

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James Cimino

Oi Emerson, obrigado pelo seu comentário. Mas sobre a palavra culpa, veja que eu a usei entre aspas porque tenho a mesma opinião que a sua sobre a palavra. Por que eu a usei então? Porque é a palavra que as pessoas envolvidas em uma situação dessa usariam para definir a responsabilidade pelo ato. Discutiremos mais sobre isso no programa desta semana, que entra no ar na quinta-feira, na Rádio UOL. Não perca. 🙂

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Victor

sou soropositivo, e realmente conforme você relatou ocorre no Brasil, digo por experiencia própria, sem contar com os inúmeros pé na bunda que levamos quando vamos ficar com alguém e revelamos nossa sorologia.

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Matheus

Achei muito legal o texto e a forma como foi abordado o assunto.

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