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Deus, obrigado por me fazer viado

Jornalista americano Cyd Zeigler aproveita o dia de Ação de Graças para lembrar das maravilhas de ser gay

por Marcio Caparica

Querido Deus,

Eu não sei por que ou como você me fez gay. Eu sei que muita gente sente que já era gay assim que pulou pra fora do útero, mas eu não tenho essa sensação. Eu não acho que meus pais fizeram qualquer coisa que me deixou gay. Eu também não acho que eu escolhi ser gay. Não faz diferença para mim: se eu tivesse que escolher, eu escolheria ser gay.

Seja como for que você fez isso, ou seja qual for a razão, obrigado. Ser gay foi a melhor coisa que já aconteceu comigo. Apesar de não definir tudo a meu respeito, é a parte de mim que eu me pego celebrando cada vez mais, a parte de mim da qual eu tenho mais, por que não dizer, orgulho. É o aspecto distinto do meu ser que mais contribui para que eu seja o homem mais sortudo do planeta.

Se eu não fosse gay, eu não estaria com o melhor parceiro do mundo. Dan consegue ser tantas coisas que preenchem minha vida das maneiras mais intensas. Ele é doce, generoso e divertido. Em cada festa, em cada evento que eu compareço, ao fim da noite eu tenho certeza de uma coisa: eu sempre estou indo embora com o cara mais gostoso do lugar. E toda noite eu deito na cama a seu lado, com um gato aconchegado entre nós e outro deitado entre minhas pernas.

Ser gay me tornou mais capaz de construir uma relação amorosa e duradoura. Anos atrás meu avô me disse que minha relação nunca seria tão profunda quanto seu casamento com minha avó porque dois homens não conseguem se amar do jeito que um casal hétero consegue. Hoje, dez anos mais tarde, eu acho que suas considerações estão invertidas. Há um nível especial de honestidade e altruísmo entre nós que eu acho difícil que exista na maior parte de relacionamentos heterossexuais. O que nós somos capazes de compartilhar sobre nosso passado, nosso presente e nosso futuro, em particular quando o assunto é sexo, nos torna mais íntimos do que eu jamais pensei ser possível. E sim, com todo o respeito à minha ex-namorada, os boquetes são muito melhores.

Cyd Zeigler

Cyd Zeigler é co-fundador do site OutSports.com

Eu também sou uma pessoa muito melhor porque eu sou gay. Tendo crescido numa cidade rural, os viadinhos eram aqueles manés da cidade ao lado. A gente só chegava perto deles uma vez por ano, quando o time de basquete da nossa escola fazia uma visita à escola deles para uma partida. Eu sempre ficava na arquibancada torcendo, e massacrava os garotos daquela cidade. A gente jogava para cima deles todo tipo de xingamento e estereótipo grosseiro que você possa imaginar. Imagine ser um garoto de 15 anos HT, jogando basquete e tendo que ouvir aquele monte de merda que eu berrava para eles. Cara, eu era muito cuzão.

Mas conforme eu fui aceitando minha sexualidade, meu coração se abriu de maneiras que não eram possíveis quando eu era “hétero”. Eu não entendia – nem era capaz de entender – como é ser parte de uma minoria. Eu nunca vou ter plena noção do que é crescer sendo negro, oriental, mulher, transgênero ou parte de algum outro grupo oprimido. Ser gay abriu em mim o espaço para ouvir e ter empatia com os “outros”, de uma maneira de que eu não seria capaz se eu não tivesse passado pelo conflito de sair do armário e aceitar o que me faz “diferente”.

Por causa disso, hoje eu vivo acompanhado das pessoas mais coloridas do mundo. Alguns dos seus crentes enxergam em Chelsea e West Hollywood a Sodoma e a Gomorra dos dias contemporâneos. OK, elas podem até ser. Mas elas também são um altar em sua homenagem, uma celebração das maravilhas da vida que você mesmo nos concedeu. Se Amanda Lepore e Billy Francesca não são anjos enviados do paraíso, aqui para nos ensinar a viver plenamente, então simplesmente os anjos não existem.

Ser gay também me trouxe um rumo. Quando eu estava crescendo, a igreja me ensinou que nossa função na vida era fazer que o mundo se tornasse um lugar melhor. Expandir mentalidades e tornar a vida mais segura para crianças LGBT que estão só agora se entendendo por gente tornou-se uma grande parte da minha vida. Seja vestindo meus tênis #BeTrue da Nike com as cores do arco-íris, seja tendo reuniões com atletas profissionais, todos os dias eu tento ser capaz de fazer alguém parar para refletir.

Por fim, a vida gay é divertida pra caralho. Ao acordar de manhã eu quase nunca sei o que me espera durante o dia ou durante a noite. Uma pelada de manhã com alguns dos caras mais gatinhos, bacanas, e divertidos do mundo; um “café da manhã” atrasado regado a champanhe no começo da tarde; uma festa para arrecadar fundos, com uma drag queen de apresentadora, pela noite; encerrando com festa que na madrugada se torna uma cena do filme Calígula. Dá pra ser melhor que isso?

Então, obrigado meu Deus por ter me feito gay. Minha orientação sexual tornou minha vida mais plena, mais jubilosa, e mais completa. Eu sei que esse não é um presente que você concede a muita gente, e eu me sinto abençoado e grato por ser um dos poucos afortunados. Quando eu lhe fizer uma visitinha depois que eu morrer, eu tenho certeza que você vai concordar que eu aproveitei ao máximo essa dádiva que você me deu.

Traduzido do post de Cyd Zeigler com permissão do autor

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5 comentários

Edmar

Bom, eu me aceito por ser gay mas não acho que um relacionamento gay é mais abençoado que um hetero. A dificuldade de se ter um relacionamento sério é maior e a promiscuídade entre os gays é maior. Pronto falei. E o orgulho atrapalha tudo isso.

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Marcio Caparica

A promiscuidade entre gays não é maior que a entre héteros. Só calha que no caso de casais héteros, as mulheres tomam na cabeça porque são obrigadas a serem menos promíscuas. Mas os homens héteros não perdem uma oportunidade de “passar o rodo”, e são educados desde cedo para fazerem exatamente isso.

E orgulho nunca atrapalha. Orgulho faz as pessoas felizes.

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Pedro

Se tirarmos a parte do preconceito, ou se não dermos importância a ele, eu concordo plenamente: Ser gay é tudo isso que foi dito, e muito mais…

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Flávio

A parte que mais gostei foi a que ele assume que se pudesse escolher, escolheria ser gay. Comigo também sempre foi assim. Sempre me senti desconfortável com a afirmação de muitos gays de que se pudessem escolher, não escolheriam ser gays por causa do sofrimento. Ainda que eu entenda boa parte das pessoas que diga isso, acho que essa é uma afirmação muito mais retórica que verdadeira, dita por outra boa parte que repete isso sem nem pensar muito direito. É mais um argumento que, para mim, só serve para dar satisfação aos preconceituosos que pensam: “ah, se ele não escolheu, então tudo bem.” E seu eu tivesse escolhido? Não dá pra separar, se eu não fosse gay, não seria eu.

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