Se for pra sair do armário, saia por completo

Se for pra sair do armário, saia por completo

Dia 11 de outubro é o dia de sair do armário. Mas, igual a todas as atitudes que merecem data, se declarar gay é algo pra ser feito todo dia

por Marcio Caparica

Lá no hemisfério norte, onde mais gente resolve se engajar em causas e onde já aprenderam que fazer campanha pra cima funciona mais que tentar deprimir ou atemorizar as pessoas, vieram com a ideia do “National Coming Out Day”, ou Dia Nacional de Sair do Armário. Um dos grupos que está organizando essa campanha é o HSSE, Heterossexuals for Same Sex Equality (olha que ideia bacana, HTs). E, para promover  sua proposta, eles gravaram um vídeo chamado “Closets Are For Clothes” (“Armário serve é pra roupa”, em tradução livre), em que HTs de vários tipos e tamanhos fazem um strip cheio de alegria e jogam suas roupinhas no armário.

Ao final do vídeo o fundador da HSSE lembra que a ideia é que as pessoas saiam do armário, desde que, claro, não corram algum risco por fazê-lo. Eu adiciono outra nota: se vai sair, saia de vez.

Porque ainda tem muita, muita gente que conta para as pessoas mais íntimas, mas daí acham que já está bom e deixam por isso mesmo. São aqueles que se relacionam “com uma pessoa”, ou mesmo invertem o sexo d@ namorad@ ao comentar sobre o que fizeram no fim de semana. Que preferem acreditar que ninguém em seu trabalho já sacou qual é a del@.

É uma vida dupla que pode ter muitas camadas. O cara pode ser um descamisado na The Week, mas incapaz de cumprimentar o namorado com um selinho na rua. Conversa com as amigas bis no celular, mas segura o vocabulário porque está no escritório, e na hora de se despedir responde o “beijo” da amyga com “outro”. Tem foto sem camisa no perfil do Facebook, coloca que está em relacionamento sério, mas não exibe o nome do escolhido. Está morrendo de tesão, mal pode esperar chegar no 25o. andar com o boy que está levando pra casa, mas não beija dentro do elevador porque o porteiro pode estar olhando pela câmera.

(O maior sinal do armário residual, acho eu, são os inúmeros torsos decapitados no Grindr. Porque vai que as pessoas sabem que eu gosto de putaria igual aos outros gays, né?)

Sair do armário de vez é algo libertador mesmo. Que delícia não ter mais que fazer lista de quem sabe e quem não sabe! Poder andar de mão dada com o namorado no shopping, dar um selinho sempre que quiser, beijar os amigos gays na bochecha. Pegar aquele livro da Taschen na livraria e não ficar com medo se alguém te ver folheando as gravuras do Tom of Finland.

“Ai, mas tem gente que não gosta de ver dois homens de mão dada na rua.” Problema de quem não gosta. Sim, lampadadas acontecem, mas em 95% das ocasiões as pessoas não estão nem aí, e, se estão incomodados, se retiram. Com um pouco de bom-senso – não costuma ser sábio agarrar seu mino na saída do estádio em dia de jogo – você pode demonstrar seu afeto por quem quiser, dar bandeira, e nada acontece.

“Isso é uma questão íntima minha, ninguém tem que saber.” Hmmmm, não. Íntimo é dizer se você é ativo ou passivo, que partes você depila ou não, a sua tara por banheirão. Que tipo de relacionamento você tem (ou busca ter) é algo público. Assim como um hétero que não considera íntimo dizer que gosta de mulher. Não deixem reduzir sua afetividade ao que você faz na cama.

Nenhum gay deveria se furtar de fazer coisas que casais héteros fazem. Andar de mão dada. Dar beijo na escada rolante. Encostar a cabeça no ombro do outro no cinema. Mandar flores. Vir correndo e pular em cima no aeroporto depois de um mês longe.

Sair do armário estoura uma vez, mas depois se torna um ato constante, um hábito saudável para toda a vida. E natural: não tanto chegar no trabalho novo já gritando que é viado, mas se despedir de todo mundo correndo porque o namorado chegou pra te levar pro cinema no fim do expediente.

Pra quem tem medo: você não é tão importante assim. Ninguém é. As pessoas têm mais com o que se preocupar. O efeito zoológico acaba. E você também não tem que ficar dando satisfação.

No fim das contas, a melhor resposta para quem xinga “viado!” é sempre “sou mesmo, e daí?”.

p.s.: Essa semana, graças à Cynara Menezes e seu (ótimo) blog Socialista Morena, eu consegui ler o texto de Daniel Queiroz Galvão “Ao invés de se assumir, declare-se!”. Que apresenta a questão semântica:

Assumir é um verbo transitivo direto que está associado a um fardo, dor, crime e responsabilidade excessiva, é compreender que a Palavra exerce conotação de algo não bom, anômalo. […] O que é bom se DECLARA. As pessoas DECLARAM seus afetos, satisfação musical, poesias, amores e paixões. Não é correto consigo mesmo dizer “eu me assumo” para tratar de minha boa sentimentalidade, de meu sentimento mais belo. É um tipo de negação de si mesmo na palavra, negação do prazer. Minha afetividade, se decidir, eu a DECLARO!

Algo que faz todo sentido. Então resolvi não usar mais “se assumir” para sair do armário. Alguém por favor fala para mudarem o título em português de Queer As Folk para Os Declarados, por favor.

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6 comentários

Marcos

Gostei do texto porque ressalta o ato do que as palavras.
Não entendo a razão de um gay se assumir (reunir a família para contar).

Acho que deveria praticar ao invés de sair contando.

Local de trabalho é de trabalho, apesar de na prática encontrarmos 1% de profissionais que exercitam isso.

Os HT’s não saem do armário, por que teria eu de fazê-lo???

E orientação sexual é algo sim particular e não público.

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Marcio Caparica

HTs não saem do armário porque não precisam. Há uma suposição social de que se é HT. Orientação sexual só é considerado algo particular quando ela é homossexual: nenhum hétero esconde que tem namorada, deixa de andar de mãos dadas porque podem bater nele, ou finge que mora junto com a parceira mas que dormem em quartos separados – não se não for maluco ou problemático. Mesmo no trabalho, héteros vão para festas/jantares de trabalho com a namorada sem constrangimento algum. Isso não acontece com gays, que têm que muitas vezes enfrentar a possibilidade do constrangimento, real ou imaginária. Portanto, não pode-se colocar a heterossexualidade no mesmo patamar que a homossexualidade quando o assunto é armário – ser hétero é muito mais simples.

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Matheus

Nesse caso chega a ser melhor ficar no armário, pelo menos vc não fala para ninguém, ficar lembrando quem pode ou não pode saber de um assunto é estressante.

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Marcio Santos Lemes

verdade. kkkkkk ninguém presta atenção mesmo vivo falando errado.

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