Antes uma drag queen que uma princesa da Disney

Antes uma drag queen que uma princesa da Disney

Na hora de incentivar modelos que suas filhas devem seguir, será que as drag queens não são modelos melhores que as princesas?

por Marcio Caparica

Não que vá surpreender ninguém que me conhece pessoalmente, mas eu amo os desenhos da Disney. Os da minha infância, antes da computação gráfica tomar conta das animações, os clássicos a partir de A Pequena Sereia até Mulan. Sei cantar todas as músicas, já mandei cantadas para garotos usando o vídeo de “Kiss The Girl” (não funcionou – se tivesse funcionado, capaz de eu já estar casado). Mas todo esse meu amor não me impede de ver que as princesas estão longe de ser um modelo bacana para as crianças.

Eu quero ter filhos. Muitos gays querem ter filhos. Muitas amigas minhas têm filhos e adoram gays. Elas me contam os casos sobre a filharada, a gente discute como vai ser meu futuro, e todas contam do fascínio que as meninas têm pelas Princesas da Disney.  Como elas vivem brincando de princesa e escolhem uma para “serem” (nada demais aí – eu era o ChangeGriffon #significa). E daí fica aquela questão, se num mundo em que se tenta educar as garotas para serem independentes e poderosas, deixar que elas mergulhem suas cabeças e corações num chá de delicadeza e passividade é algo bom. Quem quer continuar esperando um príncipe encantado?

(Muita gente!, grita a plateia. Sim, eu sei, eu sei.)

Enfim, como além de ser fã de desenho da Disney também sou fã de RuPaul’s Drag Race, achei genial um post escrito por uma mãe inspirado pelo fato de que suas filhas de cinco anos não conseguiam diferenciar entre princesas da Disney e drag queens. Faz sentido: são todas megamontadas, ambas almejam um modelo superlativo de feminilidade, e é só dar um pretexto que tanto as princesas como as drags saem cantando. Com a diferença de que as drags lutam diariamente pelo que querem, enquanto as princesas ficam aguardando que tudo se resolva com um beijo. Então aí vai a tradução para quem quiser ler.

Eu já resolvi: se eu tiver filhas, elas podem até cantar as músicas de A Pequena Sereia, mas a boneca delas vai ter a cara da Jinkx Monsoon.

Sharon Needles

Sharon Needles

No momento em que eu descobri que estava esperando gêmeas, eu decidi que não colocaria duas idiotas no mundo. Eu ensinaria a elas que autoexpressão é sempre mais importante que ser boazinha, e alertaria que ficar esperando por alguém que faça seus sonhos se tornarem realidade não só é inútil como também é uma estupidez sem tamanho.

Então imagina como fiquei horrorizada quando minhas filhotas se encantaram com as princesas Disney. E é algo que vai além de apenas assistir os filmes e comprar os produtos: minhas meninas vêm interpretando essas personagens sem parar pelos últimos 3 anos. Elas mal sabem contar até 5, mas acenam, sorriem e fingem susto sem pestanejar. Os nomes normais das cores deram lugar ao nome da princesa com a marca correspondente: “Bela” para amarelo, “Tiana” para verde, “Cinderela” para azul, “Bela Adormecida” para rosa etc. A feminista dentro de mim chorava – até que, escutando o falatório de princesa de sempre, uma delas disse:

“Minha princesa preferida é a Ariel, a sua é a Cinderela, e a princesa preferida da mamãe é a Sharon Needles.”

Naquele exato momento uma porta se abriu. Veja bem, Sharon Needles não é apenas uma princesa, mas uma rainha, uma drag queen, e uma drag queen forte, criativa, inovadora e maldosamente brilhante. Num instante eu percebi que havia uma outra direção para encaminhar essa mania de princesas, já que minhas filhas não conseguiam distinguir entre uma princesa da Disney e uma drag queen.

E realmente os paralelos entre as duas figuras são impressionantes. Ambas usam fantasias grandiosas e interpretam canções-tema. Um penteado gigante é um pré-requisito para todas. Tanto uma como a outra costumam fazer seu debut numa festa. E, queira ou não, à meia-noite nenhuma delas consegue evitar uma transformação.

Foi inevitável que meu peito se enchesse de orgulho ao pensar nas possibilidades, principalmente porque eu abomino as princesas da Disney. Apesar da quantidade de dinheiro que eu jogo fora em sua franquia, eu acho que a psicologia por trás da tiara é uma sátira dos valores que eu jurei transmitir às minhas filhas. Por outro lado, enfiar as bolas para dentro da cavidade pélvica pode não transformar alguém numa mulher de verdade, mas não impede que você seja um modelo melhor que uma princesa da Disney.

Princesa Tiana

Princesa Tiana

Vamos começar com a discriminação gritante que existe entre as princesas. Apesar de a maior parte delas ainda ser de garotas louras e de olhos azuis, a Disney fez algumas tentativas meia-boca de incluir outras culturas. Lá estão Mulan, Jasmine e Pocahontas quebrando o teto de vidro ariano, mas dificilmente você vai encontrá-las na primeira fila. Levou só 86 anos para a Disney abolir a segregação racial e convidar Tiana, a princesa negra, para o baile. Agora, discriminação na comunidade drag? Eu tenho certeza que a única exigência que fazem é grudar o pinto entre as pernas com duct-tape; tirando isso, vale tudo.

Segundo, já parou para pensar de onde que as princesas tiram seus vestidos fabulosos e aquelas coroas brilhantes? Das 11 princesas da Disney que participam da franquia atualmente, apenas uma já trabalhou na vida. (Parece que Tiana nasceu com uma desvantagem socioeconômica tão grande que ela teve que ralar em dois empregos para sequer considerar realizar seus sonhos de virar princesa. E depois de tanto trabalho, ela ainda não conseguiu alcançar seu objetivo até conseguir dar uma chave de perna num príncipe que usasse seu dinheiro para realizar seus sonhos.) As drag queens, por outro lado, trabalham duro. Basicamente, uma drag não está ralando os enchimentos da bunda no palco, ela não ganha dinheiro. Ninguém paga para ver um homem se vestir com lantejoulas e ficar sentado no meio da pista.

Finalmente, no mundo das drags, o senso de humor é tão fundamental quanto saber colocar enchimento e afiar o pajubá. Você não vai encontrar uma drag que ganhe dinheiro sem fazer seu público rir. O riso nos ajuda a persistir; nos sustenta durante cada batalha. Eu não consigo pensar em nenhuma princesa  que seja capaz de rir de toda aquela tragédia ridícula que acontece com ela. Se você perdeu os pais e foi jogada num porão cheio de ratos, você deveria ser mais sarcástica que um cruzamento de Arrested Development com Curb Your Enthusiasm. No entanto, as princesas sempre acordam cantarolando felizes da vida – um sinal claro de desajuste, na minha opinião. Melhor a madrasta conferir se não há uma pilha de explosivos escondida no porão.

No fim das contas, eu respeito as drags. Elas são artistas. Elas são capazes de imaginar algo e se transformar nisso – sem a ajuda de mágica, aliás. Elas assumem riscos. Elas são punk. Mas as princesas da Disney? Elas são franquias criadas por homens para vender um monte de lixo para nossas filhas. Elas são a perpetuação do estereótipo da mulher frágil e burra que espera obedientemente que um homem venha e a faça ter valor. Entre as duas, eu vou promover sempre um homem com uma peruca gigante cantando “I’m Every Woman”.

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3 comentários

Elementum-X

Prezado Marcio Caparica

Há algum tempo atrás cheguei aqui neste texto, e fiquei surpreso com o conteúdo, infelizmente foi uma surpresa negativa
Eu explico caro Marcio, infelizmente é um texto preconceituoso, não o seu texto, mas o da mãe que de feminista beira a feminazi .
Vamos lá: não conhecemos a realidade como as princesas Disneys são apresentadas por lá, mas com certeza no molde americano deve ser tudo superlativo e exagerado ( marketing ) . Mas elas tem o seu valor, muitas são bobas, tapadas até, mas são frutos de sua época e seus valores ( muitos destes infelizmente tolos e preconceituosos ).
Mas julgá-las de tal maneira e não ver o valor delas foi exatamente o que esta mãe fez. “ Eu ABOMINO as princesas da Disney “ sim ela é incapaz de ver valor em uma princesa, mas suas filhas conseguem ver o valor de uma Drag Queen, quem é preconceituoso agora. ?
“ Vamos começar com a discriminação gritante” concordo isso é verdade mesmo, infelizmente o padrão preconceito ainda é forte na Disney.
“ algumas tentativas meia-boca de incluir outras culturas. Lá estão Mulan, Jasmine e Pocahontas quebrando o teto de vidro ariano, mas dificilmente você vai encontrá-las na primeira fila “
Do que ela está falando caro Marcio, quem não conhece Mulan, ? quem não conhece Pocahontas ?, quem não conhece Jasmine. ? se for talvez na primeira fila do parque temático ( Ao qual nunca fui ) talvez ela até tenha razão, mas no mundo todo ( digite princesas Disney no Google em qualquer língua ) elas estão lá na primeira fila. Todos os artistas e ilustradores que redesenham princesas nunca se esquecem das mesmas. Não é Mulan um símbolo para as feministas por ter ser sacrificado pelo seu Pai indo servir o exercito ? Não foi Pocahontas que desafiou todo um costume para defender o que ela acreditava ? é Jasmine, que só conheceu Aladin por que queria sair para ver o mundo è saiu mesmo. Como estas historias podem ser “ tentativas meia-boca” .
“Segundo, já parou para pensar de onde que as princesas tiram seus vestidos fabulosos e aquelas coroas brilhantes? Das 11 princesas da Disney que participam da franquia atualmente, apenas uma já trabalhou na vida…. “ nesse ponto não sei dizer o que é franquia nos Estados Unidos e o que são as 11 princesas, mas se não me engano BELA, não era princesa antes e sim filha de camponês, a vida de Pocahontas não era cheia de luxos, Cinderela era escrava domestica, A branca de neve era arrumadeira, já que sabia limpar uma casa como ninguém e a ultima vivia praticamente em cárcere privado.
“….Tianna …. até conseguir dar uma chave de perna num príncipe que usasse seu dinheiro pra realizar seus sonhos “) em primeiro lugar não foi o dito príncipe que meteu ela na confusão ???? em segundo todas agora são princesas, não seria natural terem vestidos fabulosos e em terceiro pergunte a qualquer drag se ele não gostaria de ter uma vida de princesa ?
“Basicamente, uma drag não está ralando os enchimentos da bunda no palco, ela não ganha dinheiro. Ninguém paga para ver um homem se vestir com lantejoulas e ficar sentado no meio da pista.” Como assim ??? quem vai ver uma Drag, está pagando para ver o Show de uma Drag, sabe que é uma e paga para ver uma.
“ No entanto, as princesas sempre acordam cantarolando felizes da vida – um sinal claro de desajuste, na minha opinião” Ok, imaginar que essa premissa de desenho animado deveria ser totalmente focada na realidade e de uma banalidade sem par, é como dizer que se todos os meninos assistirem Superman, ou Batman, eles vão acreditar que podem sair por ai voando ou pulando de prédios.
“Mas as princesas da Disney? Elas são franquias criadas por homens….. ( então nunca em nenhum momento do dia que foram todas criadas até a gora não trabalhou nenhuma mulher nessa criação ??? o correto não seria dizer machistas ?? )……… para vender um monte de lixo (Apesar da quantidade de dinheiro que eu jogo fora em sua franquia ) …… para nossas filhas. Elas são a perpetuação do estereótipo da mulher frágil e burra que espera obedientemente que um homem venha e a faça ter valor. Entre as duas, eu vou promover sempre um homem com uma peruca gigante. Ou seja para ela as próprias não tem valor por serem princesas Disney e a autora e incapaz de ver as próprias, ao contrario de suas filhas que são capazes de ver muito mais ou como uma Drag pode ser uma princesa.
Ps: foi isso o que quis dizer com feminazi, já que a autora e incapaz de aceitar as princesas ( ela diz estereótipo ) e não a variedade de personalidades e historias delas .
Um Abraço e Felicidades.

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