Pode apostar: homofóbicos são gays enrustidos

Pode apostar: homofóbicos são gays enrustidos

Quem se preocupa demais com a vida sexual alheia quer esconder algo na própria. É o que mostra a ciência, a imprensa, e o humor

por Marcio Caparica

Ano passado várias revistas noticiaram o resultado de pesquisas feitas nos EUA e na Inglaterra que ligavam a homofobia à homossexualidade reprimida. Como reportou a revista Época:

Em todos os experimentos, jovens que cresceram em um ambiente familiar de repressão apresentaram grandes divergências entre o que declararam ser sua orientação sexual e o que foi observado pelos cientistas nos testes de atração sexual enrustida. Além disso, os indivíduos que se declararam heterossexuais, mas não demonstraram isso implicitamente, eram mais propensos a reagir com hostilidade a outros gays.

Segundo os cientistas, os homofóbicos são geralmente pessoas que estão em guerra com elas mesmas e acabam externando esses conflitos. Para os pesquisadores, os homossexuais que vivem em casas controladoras sentem medo de perder o amor e a aprovação dos pais caso admitam atração pelo mesmo sexo, por isso negam ou reprimem a si mesmos este desejo. Ou seja, de acordo com a pesquisa, a homofobia e a agressividade podem ser reação de quem se identifica com o grupo, mas não aceita o fato.

Outros estudos anteriores já haviam apontado para esse mesmo resultado usando armas diferentes. Usando aparelhos que mediam o fluxo sanguíneo e a circunferência do pênis, os pesquisadores mediram os níveis de excitação de homens que se declaravam heterossexuais ao ver cenas de sexo heterossexual, gay e lésbico. Aqueles que haviam sido avaliados como mais homofóbicos em entrevistas prévias demonstraram níveis maiores de excitação ao assistir cenas de sexo gay – e também negaram isso com mais frequência.

Nos Estados Unidos, onde há uma imprensa mais feroz, disposta a tudo por uma manchete que venda o jornal do dia, os jornalistas já desmascararam vários casos de figuras que agiam ativamente em causas anti-gay mas por baixo do pano tinham relações com pessoas do mesmo sexo. Apenas os três casos mais famosos:

  • O pastor Ted Haggard, casado, pai de cinco filhos, comandava a igreja New Life no Colorado. Bradava aos quatro ventos que a homossexualidade era pecado e que não se devia levar vida dupla. Fez campanha para mudar as leis do estado do Colorado, para que o casamento fosse definido como algo apenas entre um homem e uma mulher. Até que em 2006 o massagista e garoto de programa Mike Jones veio a público com a informação de que Haggard era seu cliente fazia três anos. E que inclusive já tinha comprado crystal meth para ele. Depois do escândalo, o pastor teve que abandonar sua igreja, seu prestígio, e se tornou vendedor de seguros. Ele ainda tenta recuperar a fé de suas ovelhinhas.
  •  George Reekers era psicólogo e ministro batista. Liderava uma organização que promovia a cura gay, a qual dizia ser possível. Fazia campanha contra adoção de crianças por pais homossexuais. Em maio de 2010, foi passar duas semaninhas de férias na Europa e levou a tiracolo um garotão que ele convocou no site Rentboys.com. Pego com a mão na massa ao ser fotografado no hotel com o garoto de programa, ele tentou justificar dizendo que o havia contratado para que ele “carregasse sua bagagem”. Não colou. O rapaz admitiu fazer massagens eróticas em Reekers, e a expressão “lift your luggage” (“erguer a bagagem”, em inglês) se tornou gíria jocosa para fazer sexo com outro homem.
  • O senador Larry Craig passou onze anos lutando pelos valores familiares e combatendo causas gays em Washington, D.C. Até que, em 2007, foi pego por um policial tentando fazer banheirão num aeroporto. Ele admitiu a culpa no processo policial que se seguiu, o qual foi divulgado pelo jornal Roll Call. Como sempre acontece nesses casos, depois que o primeiro incidente veio à tona, três outros homens declararam terem se envolvido com o senador no passado. Sua carreira política acabou ali.

Fosse a imprensa brasileira mais valente e menos preocupada com os sentimentos feridos de personagens e do público, certamente casos semelhantes viriam à tona ligados a nossos políticos e religiosos. O dia feliz em que nossos homofóbicos de carteirinha são pegos com a boca na botija ainda não chegou, mas a gente sempre pode torcer. E até lá, dar umas risadas com o pessoal da Porta dos Fundos, que também parece concordar comigo.

Confira nossa entrevista com João Vicente de Castro, da Porta dos Fundos, no Lado Bi do Humor.

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