Sexo bareback no pornô é uma apologia ao risco?

Sexo bareback no pornô é uma apologia ao risco?

Último produtor de pornôs gays cede: fará filme com casal transando sem camisinha e reacende discussão

por Marcio Caparica

Ano passado, o produtor de filmes pornôs gays Michael Lucas declarou em uma entrevista que jamais produziria um filme com cena de bareback. “Se eu produzisse filmes com cena de transa sem camisinha, ficaria milionário”, ironizou. Pois esse que talvez era o último a resistir a essa demanda cedeu. Semana passada, a Lucas Entertainment divulgou uma cena com o título “Estreia de sexo bareback com os astros exclusivos Seth Treston e Billy Santoro”. Os dois (na foto) são um casal na vida real. Esta será apenas a primeira em uma série de performances sem camisinha.

No fim do mês passado, a indústria pornô em Los Angeles foi paralizada depois que uma atriz anunciou estar infectada com o virus HIV. Pouco depois, um de seus parceiros, ator de filmes pornôs gays, anunciou também ter contraído a doença. Pânico. A indústria da pornografia hétero nunca se prestou a metodicamente colocar camisinha em seus atores, algo que no entanto era padrão entre os filmes gays. Até que começou a se fetichizar as transas sem proteção.

O próprio release sobre esse novo filme já investe nisso: “a compreensão física e o bem-estar sexual que vem de estar com um parceiro da vida real transparece nesta cena”, descreve. “Seus beijos apaixonados, socadas profundas, e conforto ao compartilhar porra não deixam dúvidas de que há uma conexão intensa entre Seth e Billy.”

Eu preciso de ajuda para destrinchar essa questão toda.

  • Usar um casal “de verdade” não resolve o problema, já que eles continuam sendo atores pornôs, e portanto não são sexualmente monogâmicos. Duvido que será a última performance deles sem camisinha. Então tentar usar um casal de namorados para suavizar a situação é conversa para boi dormir.
  • Por outro lado, eles são adultos e sabem o que estão fazendo e os riscos que correm.
  • Se anos de filme pornô realmente ensinasse a juventude punheteira que tem que usar camisinha sempre, a transmissão de HIV teria parado faz tempo.
  • Mas ver trepadas sem preservativo pode também transmitir a mensagem de que isso é algo sem consequências, banal e, como vende o release, mais gostoso, um sinal de conexão verdadeira.
  • Tentar pintar na pornografia uma realidade em que todo mundo transa com camisinha é exibir um mundo tão falso quanto o em que seu encanador é sarado e vem realizar o serviço sem cueca e de pau duro.
  • Pode ser que exatamente a sensação de estar vendo algo “que não deveria estar acontecendo” é o que dá mais tesão em quem assiste a uma cena bareback: o que é proibido é mais gostoso.
  • E se não houvesse uma demanda por esse tipo de cena, ela não seria feita.
  • Usar camisinha para o resto da vida não é um prognóstico empolgante.
  • Uma das vantagens de se ter um relacionamento longo é poder confiar em alguém o suficiente para transar sem proteção.
  • As pessoas traem e mentem.
  • Pegar HIV é ruim e deve ser evitado a todo custo.
  • Mas ter HIV não significa o fim da vida, da capacidade de amar e ter tesão.

Héteros nunca levaram a sério os riscos da Aids – a preocupação (quando existe) é por engravidar, e costuma-se jogar essa responsabilidade no lombo da mulher. Há muita gente por aí que já perdeu a mãe para o HIV porque o pai pulou a cerca sem ter a consideração de encapar o pau pela esposa. Os gays levavam o risco a sério, mas cada vez mais parece que o raciocínio é de que não há problema em se tomar AZT todo dia pelo resto da vida.

Existe o argumento de que não há o que se fazer porque sexo sem camisinha é mais gostoso mesmo e pronto. Eu concordo mais com a hipótese de que na verdade não há diferença na sensação – se houvesse um amortecimento tão grande assim, na hora que uma camisinha estourasse quem está metendo perceberia imediatamente, o que estamos cansados de saber que não ocorre. Mas muito do prazer está no cérebro, então quem se convence de que trepar sem capa é melhor vai achar que é melhor para sempre. Mesmo tendo que encarar o pânico de abrir o resultado do exame de sorologia repetidas vezes.

Quando um casal (ou trio, ou equipe) vai em frente e fode sem camisinha, está ciente do que está fazendo? Está pesando os prós e os contras, os riscos e as vantagens do ato e tomando a decisão que acha mais certa? Tratar o uso de preservativo como uma questão de tudo ou nada é como insistir para que os jovens só façam sexo depois do casamento: um extremismo que só causa mais desinformação?

Como eu já disse no Lado Bi da Pornografia, eu acho todo esse lance de bareback um erro. E pessoalmente não tenho a intenção de parar de usar preservativo jamais. Mas posso ser um dinossauro precoce com um comportamento que simplesmente não faz mais sentido para as novas gerações. O que vocês acham? Comentários, por favor.

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9 comentários

Leonardo Machado

Ola, boa tarde sou homossexual e sei o q e o medo de correr risco de pegar AIDS,vejo muitos amigos de amigos q estão contraindo a doença,acho q isso não e normal,e tem q deixar de ser doença de homossexual,sempre me cuidei e faço meu exame de doenças sexualmente transmitíveis uma vez ao ano,homossexualismo tinha q pegar a modinha do corretamente correto e se proteger,se cuidar,se amar em primeiro lugar,sou contra SEXO BAREBACK , e acho q o costume de se preservar e usar camisinha tem q virar um hábito normal.

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Roberto Brancante

Ola,um grande ator pornô Jeff Palmer,iniciou sua carreira fazendo filmes heteros,em seguida filmes gays,todos bareback.
Tem até um filme,onde ele atua,que no total de trepadas no pêlo,somam 20,5 delas c/negão.
Um pra tesão ver esse cara dando pros negão e c/DP.
Outros 2 atores q eu fiquei abismado,de tanto levar vara de negão no pêlo,é o Lil Papi e o Jake Knight.Os cara só fazem no pêlo,e com negão.
Aí vc me diz?Dá ou n dá tesão,de ver uma cena dessas?N significa q na oportunidade q eu tiver de trepar c/negao,q eu vá fazer no pêlo,isso se o suposto negão,for adepto.
Eu axo q vai da cultura da pessoa insanidade.
Pq enquanto essa falta de responsabilidade n afetar visivelmente a saude,esses suicidas em potencial,continuarão convencendo seus parceiros,à trepar no pêlo,q até entao n eram adeptos a

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Luís Alberto

Eu discordo que as cenas de sexo bareback são uma apologia ao risco. Um filme pornô, assim como um filme qualquer, deve ser encarado como uma obra de ficção, e não algo a ser seguido de exemplo. Contanto que as produtoras sejam mais rigorosas em relação aos testes e os atores levem uma vida sexual segura dentro e fora dos estúdios, não vejo problema nenhum nesse tipo de cena. Inclusive sou a favor delas por serem capazes de representarem todo tipo de fantazia perigosa com todo o cuidado que se pode ter em uma grande produção.

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Gustavo Souza

Eu penso como o Márcio. Não pretendo abolir a camisinha nem tão cedo. Afinal, não a vejo como um empecilho. Tenho 35 anos e tive a minha primeira relação sexual nos anos 90, com 16. Desde a primeira até a última nunca fiz sem camisinha, o que gera uma certa consternação quando comento com pessoas mais próximas. Mesmo numa relação estável e fazendo os exames, ainda não me sinto tranquilo para fazer sexo sem camisinha, pelo simples fato de que não acredito em monogamia e, como está no texto do Márcio, as pessoas mentem. Isso é fato. Tive a sorte de conviver muito de perto com dois caras soropositivos que contraíram o vírus com seus respectivos namorados, em uma suposta relação monogâmica. Digo “sorte” porque a convivência com eles (eu tinha 25 anos na época) me alertou para fato de que a suspensão da camisinha deve ser pensada com muita cautela. No meu caso, optei por não suspendê-la, seja em qualquer tipo de relação, de um namoro a um fucky buddy. É claro que tudo isso, como vocês podem notar, é unicamente um ponto de vista pessoal. Meu apenas. Não quero com isso dizer o que é certo e o que é errado, não cabe a mim. Afinal, cada um faz o que bem entende do seu corpo.

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Paulo Nascimento

Marcio, na boa cara, todos temos o direito de nos perdermos do jeito que quisermos – inventar o meu próprio pecado e morrer do meu próprio veneno, sim? – e não do jeito que nos é imposto. Todos, você, eu, todos temos (e precisamos!) de algum campo de nossas vidas que funcione na desordem, não com leis, regulamento e julgamento. E nada mais legítimo do que o sexo ser eleito para este campo. Sob os aspectos morais e éticos, isso diz respeito aos envolvidos na transa. E a mais ninguém.

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Marcio Caparica

Paulo, sou a favor das pessoas fazerem uso do próprio como quiserem, desde que realmente façam uma decisão nesse sentido. No entanto, sinto que muita gente se “deixa levar” pelo momento e quando vê já está num comportamento de risco. Se um parceiro olhar para o outro e perguntar com todas as letras se quer trepar com camisinha, e com todas as letras os dois disserem que não, daí eles estão assumindo a responsabilidade por quaisquer consequências possam vir dessa transa. O que eu gostaria que acontecesse é que as pessoas não se expusessem ao HIV sem consciência do que estão fazendo. Já ouvi muita história de gente que trepa sem preservativo porque estava gostosinho e não queria parar, “quando viu já foi” (mentira pra si mesmo) e depois fica semanas remoendo o que fez.

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Paulo Nascimento

Puxa, que gentil. Fiquei feliz com o retorno.
Bom, esse papo de quem “se deixou levar” pelo momento pra mim não cola. Querer se alienar também é uma opção (que aliás, todos nós, em alguns momentos da vida, recorremos a ela; e o marcado bem sabe disso). Talvez o desafio seja compreender essa opção sem moralismos. Os filmes pornôs difundem outros tantos “modos de trepar” – alguns resgatados em seu texto, inclusive – que não ganham aderência em nossas vidas. Estamos falando de adultos? Então vamos começar a assumir um pouco mais nossas opções de vida. Talvez uma começo franco fosse assumir de uma vez por todas que sexo sem camisinha é, sim, melhor.
Vou dar margens para trocadilhos infames e dizer que o buraco é mais embaixo. O Datena, embora repugnante, não pode ser acusado de fazer “apologia” da violência – embora esteja, inegavelmente, surfando na onda.
Grande abraço!

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diego pinto

Eu tenho uma dúvida: as produtoras de porno tem o hábito de realizarem exames periódicos nos atores? Caso realizem, não vejo problemas nessa prática. especialmente se junto com os exames houver uma conscientização quanto a importância do uso de camisinha fora do estúdio.
Quanto ao impacto de quem vê o porno, acho que o público é bem grandinho pra entender que sexo sem camisinha é mais prazeroso mas só vale a pena se houver parceiro fixo e se os dois fizerem o teste.

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Marcio Caparica

Diego, as produtoras de filmes pornô têm sim o hábito de testar seus atores. Mas a gente sabe que leva mais ou menos três meses do momento de infecção para que o teste aponte um resultado positivo. Essa janela pode fazer com que as pessoas transmitam o HIV sem saber que estão transmitindo. Que é mais ou menos o que aconteceu agora.

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